CLAREZA

Nem saberia dizer quando passou a sentir aquela dificuldade. Mas, há muito tempo, Vitor se considerava incapaz de compreender as mulheres. A começar pela sua mãe, que muitas vezes, se irritava com coisas banais. O simples fato dele, quando criança, não querer comer algum legume despertava nela um ataque de raiva, que começava no almoço e se estendia até à noite. Outras vezes, quando ele esperava uma reação forte, ela era delicada e minimizava o acontecido. Numa ocasião, chegando do colégio com duas notas vermelhas no boletim, aguardava uma possível surra, mas ela foi calma e compreensiva, chegando a cogitar da ajuda de um professor particular. Já naquela época ele murmurava:

– Não consigo entender as mulheres!

E assim foi durante a sua juventude. Os namoros iam bem no período inicial, mas com o tempo e a intimidade, elas acabavam terminando tudo. Sempre elas. E por razões que escapavam à sua lógica. Já estava ficando desanimado. Devia ter algum problema, uma limitação, não era possível. Definitivamente não conseguia entender as mulheres!

Um dia conheceu Clara. Passou por ela pela primeira vez no pátio da Faculdade e os olhares se cruzaram. Morena, cabelos longos, olhos brilhantes. Seu tipo. O leve sorriso dela foi o suficiente para animá-lo. No dia seguinte viu-a na fila da cantina e entrou atrás, mesmo sem querer comprar nada.

– Você é nova aqui na Faculdade?- disse ele, numa abordagem sem nenhuma criatividade.

– Nada. Já estou no quarto período. E você? – respondeu ela descontraidamente.

Essa simples perguntinha foi a senha para entusiasmar Vitor.

– Quarto período também!

Engataram numa conversa que se estendeu durante o lanche e no final marcaram novo encontro para o dia seguinte. Daí para frente começou o namoro.

Clara era diferente. Entendiam-se às mil maravilhas. Ela estava sempre rindo: parecia que uma mão invisível lhe fazia cócegas o tempo todo. Combinava tudo com a maior facilidade, sempre animada e conciliadora. Um sonho!  A preocupação e desânimo de Vitor, legado dos namoros anteriores, foram se dissipando. O riso e a ternura dela eram como um sabonete cheiroso, removendo aos poucos a desilusão acumulada em seu coração. Encontrou nela a clareza que precisava!

Terminada a Faculdade, ambos conseguiram logo um emprego e marcaram o casamento. Vitor muito feliz, já nem se lembrava daquela dificuldade do passado. Entendia a Clara. A vida de casados parecia uma perfeita continuidade do namoro. Tudo em harmonia. E assim foi por cinco felizes anos.

Mais ou menos nesta época, Vitor começou a notar mudanças sutis. Percebeu gradativamente que Clara já não irradiava a mesma alegria. A mão invisível que lhe fazia cócegas, agora parecia dar-lhe beliscões. O humor dela decaía a cada mês. Percebeu lentamente que já não a fazia tão feliz e que, ele mesmo, vinha numa decrescente felicidade. Nenhuma briga, nem mesmo um leve desentendimento, mas aquele dia lindo e ensolarado ia ficando nublado e escurecendo aos poucos. Continuavam combinando em tudo, mas a conciliação parecia ocorrer mais por desinteresse, do que pela vontade de agradar o outro.

Num final de sexta-feira surgiu o clima para a conversa. Era preciso tratar do assunto antes que as nuvens se transformassem em trovoadas e tempestades. Com muita maturidade e equilíbrio, concluíram na conversa que o amor entre eles vinha esfriando, recíproca e naturalmente. Porque nenhum acontecimento podia ser identificado como causa. Ninguém tinha culpa. Assim como o amor surgiu e cresceu sem explicação, minguou sem razão ou lógica. Enfim, era como uma doença sem cura: nada poderia ser feito para reparar a situação.

Veio então a separação. E transcorreu numa harmonia inacreditável.

– Fica com esse móvel que você adora. – insistia ele.

– Mas foi você quem comprou. Não é justo. – ela retrucava.

– Não vamos usar o critério de quem comprou, mas de quem vai ficar mais feliz. O móvel é seu, por favor.

– Então todos os livros ficam pra você.

Assim foi com tudo.

Deixaram o apartamento, Clara voltou a morar com os pais e Vitor, desacostumado da antiga casa, preferiu morar sozinho. Ela até o ajudou a arrumar o apartamentinho alugado.

Tudo equacionado restava apenas formalizar o divórcio, talvez a etapa mais dura da separação. Os dois não tinham dúvidas de que era irreversível, mas evitavam o assunto e um aguardava a iniciativa do outro.

Vida que segue. Passavam os meses. Casualmente, encontravam-se no shopping que ambos frequentavam, ele em busca de um restaurante e ela sempre à procura de um sapato novo. Numa dessas vezes até chegaram a tomar um café juntos. O esfriamento era nítido, mas havia uma amizade, remanescente dos bons momentos vividos. Porém, o assunto do divórcio não surgia.

Uns dias depois daquele café, estava Vitor almoçando num restaurante do mesmo shopping, quando notou, numa mesa próxima, uma presença feminina que chamou a sua atenção. Morena, cabelos longos, olhos brilhantes. Seu tipo. Tipo Clara. Partiu para a abordagem óbvia, como era o seu estilo: sorriu discretamente para ela e levantou levemente a taça de vinho, num brinde à distância. Ela retribuiu. Pediu licença e transferiu-se para a mesa dela. Conversaram animadamente.

Num dado momento ele foi ao banheiro. Ao voltar, viu Clara chegando com os pais e buscando uma mesa. Foi até eles e cumprimentou-os alegremente. Clara ficou contente com aquele encontro inesperado e convidou-o a sentar-se com eles.

– Muito obrigado, mas estou naquela mesa com uma amiga. – apontou.

Clara fuzilou a moça com um olhar de sniper. Rodou nos calcanhares e saiu abruptamente, sem sequer despedir-se, seguida pelos pais ainda surpresos.

Vitor engoliu seco.

Findo o almoço, chegou ao escritório e havia um recado, num papel lembrete amarelo, colado na sua mesa:

“O advogado da Clara ligou. Quer o telefone do seu advogado para tratar do divórcio litigioso.”

Vitor, mais amarelo que o papel, remurmurou: – Não consigo entender as mulheres!

Antonio Carlos Sarmento

15 comentários em “CLAREZA”

  1. Crenças negativas de infância rsrsrsrsrs, é verdade , caso não se desvencilhe desse vício emocional, nunca entenderá as incompreensíveis mulheres.
    Sem vício emocional fica difícil, com vícios , impossível !
    Está CLARA! digo claro !

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  2. Divertida estória que poderia ter um desfecho diferente se, os personagens enfrentassem, de imediato, seus primeiros contratempos . . .Amanhã é tarde, depois de amanhã, muito mais tarde, ainda . . .

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  3. Tentar compreender as mulheres é exercício pra varias vidas. Mas o gostoso é tentar, sempre. Afinal tambem sou recem casado ha 44 anos. Sempre tentando entende-la.., Abraços. Cronicas, leves, divertidas, gostosas de ler. Mais uma vez, parabéns.

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