OLHO POR OLHO

A inspiração para escrever às vezes reluta em chegar. Tenho a impressão de que ela é incontrolável e indisciplinada. Aparece quando quer e não aceita seguir regras.

Existem escritores que, para atraí-la, se fazem acompanhar de uma taça de vinho ou um copo de whisky, o que é recomendado por um famoso conselho: “escreva bêbado e revise sóbrio”. Comigo não funciona. Preciso da sobriedade e da lucidez para escrever.

Na realidade só sei o que não funciona e nem tenho ideia do que pode de fato fazer a inspiração chegar. Em muitas ocasiões, acabo perambulando atrás de um tema que faça sentido, um caso que seja interessante e principalmente, um texto com alguma originalidade.

Sei que é meio esquisito, porém muitas vezes começo pelo fim e aí venho andando de trás para frente, como um caranguejo, em busca de um início adequado. Quase como alguém que se vestisse começando pelos sapatos e depois, passo a passo escolhesse a meias, a calça, o cinto e, finalmente, a camisa. Acho que jamais teria como escrever uma novela, dessas de televisão que, segundo se diz, vai sendo escrita com o final em aberto, moldado pela vontade da audiência. Via de regra, eu não começo sem ter um final.

Quando estou na aridez de ideias recorro à uma fonte permanente e muito rica de inspiração: meu neto Guilherme, agora completando 1 ano e meio.

Como toda criança, ele adora brincar de esconder. Até pouco tempo, escolhia sempre o mesmo lugar, um cantinho entre o sofá e a varanda. Recentemente, descobriu algo sensacional e se esconde sem sair do lugar, apenas tapando os olhos com as duas mãos. É uma lógica clara e absoluta: se não está vendo ninguém, está escondido! Fica assim alguns segundos, até que abre ao mesmo tempo os braços e os olhos, explodindo num alegre sorriso por estar de volta. Repete um pouco isso, apenas umas vinte vezes…

Chego a pensar, e não vai aí nenhuma crítica, que nós adultos, em determinadas circunstâncias, fazemos isto pela vida a fora. É quando fechamos nossos olhos para não ver aquilo que sabemos que é real, mas que traz sofrimento e dor. Por uma questão de sobrevivência, certas vezes agimos como um avestruz, escondendo dos nossos próprios olhos certos problemas que são insolúveis. Não é o simples negacionismo, quando mentimos para nós mesmos sobre a realidade, por comodismo ou medo. Mas sim aquelas situações em que, por opção consciente, preferimos olhar e não ver. Tirar dos olhos para não sofrer. Ignorar para sobreviver.

Se isto for verdade, é possível que Guilherme esteja vivendo mais um treinamento que um divertimento.

Foi vendo-o brincar desta forma que aflorou à minha memória um episódio ocorrido há cerca de dez anos. Eu voltava do trabalho no centro da cidade do Rio de Janeiro e transitava pela famosa Avenida Brasil. Talvez tenha sido batizada assim por ser tão mal administrada… Quem é carioca sabe do perigo de circular nesta avenida, devido a assaltos e arrastões, mas este trajeto me permitia economizar uns preciosos 30 minutos na volta para casa. Isto após um cansativo dia de trabalho, tinha muito valor.

Minha rotina ao trafegar por ali era sempre a mesma: vidros fechados, ar condicionado gelando e música tocando alto, ou seja, uma espécie de boate ambulante.

Na noite em questão, cerca de umas sete horas, eu estava nas proximidades do acesso à Linha Amarela, ainda desanuviando a mente da enxurrada de problemas ocorridos no trabalho, quando o trânsito parou. Ficar imobilizado na Avenida Brasil, era como acender um luminoso com aquele símbolo da caveira com dois ossos cruzados embaixo.

Logo estiquei o pescoço para tentar entender o que havia acontecido à frente. Não consegui ver nada, além dos muitos carros parados. Imediatamente meus olhos foram para o retrovisor para prevenir o que pudesse vir por trás. Naquela hora eu queria ser um camaleão para poder olhar em duas direções ao mesmo tempo.

O trânsito permaneceu parado algum tempo. Lentidão eu estava acostumado, principalmente no trecho em que me encontrava, mas ficar totalmente imobilizado era coisa rara. E tensa. É a sensação desagradável de estar vulnerável e indefeso ao mesmo tempo, como um animal em uma mata cheia de armadilhas.

Nova olhada para a frente e percebi que, a uma certa distância, os carros voltavam a andar. Fiquei esperançoso, sabendo que em alguns momentos, a retomada do deslocamento iria chegar aonde eu estava.

De repente, ouvi umas batidas no vidro da janela da minha porta. Com o rabo do olho — se é que olho tem rabo — percebi que era uma moto parada na minha lateral. O rapaz da garupa havia me chamado simpaticamente, com aqueles gentis toques metálicos no vidro. Talvez para me oferecer uma cerveja gelada…

Não planejei nada do que passo a relatar. Foram atos espontâneos, meramente intuitivos, sem qualquer racionalidade ou planejamento. Nem sei se, numa repetição da situação, eu voltaria a agir da mesma forma. Importante também considerar que tudo transcorreu em uns dez segundos ou menos.

Com o coração disparado, ignorei o chamado. Permaneci olhando para a frente na expectativa de ver o movimento chegar e poder me deslocar. Uns 5 carros à frente, já era possível perceber a retomada do fluxo do trânsito. Avaliei que precisaria de mais alguns segundos. Eu tinha que ganhar este tempo, pois com o movimento, o assalto iminente não poderia ter continuidade.

Continuei olhando para a frente. Minhas mãos estavam no volante e meu dedo indicador esquerdo pousava sobre o controle de volume do som, que já estava alto, mas ainda aceitava elevação. Aumentei mais um pouco e balancei um pouco a cabeça no ritmo da música.

O sujeito bateu de novo, umas três pancadas mais fortes.

Ai meu Deus! Balancei mais a cabeça, como se estivesse totalmente envolvido pela música, que não me permitia ouvir as batidas no vidro. Fiquei ali, como o Guilherme, escondido, sem ver ninguém.

Com os olhos vidrados e a ansiedade brotando da garganta, percebi que a minha fila estava começando a se movimentar. Dei mais uma balançada ao som da música e iniciei o movimento, grudando no carro da frente, como se estivesse sendo rebocado. Entramos na correnteza.

Com alívio, vi a moto acelerar e infiltrar-se em meio as fileiras de carros, possivelmente em busca de oportunidades alhures. Minha estratégia, não planejada e de altíssimo risco, por mero acaso ou intervenção divina, tinha dado certo.

Segui viagem com o intestino dando nós e uma tremedeira que eu sentia mais nos lábios e nos olhos. Os mesmos olhos que, por olhar e não ver, me salvaram.

Neste caso, como às vezes na vida, nem sempre o pior cego é o que não quer ver!

Antonio Carlos Sarmento

26 comentários em “OLHO POR OLHO”

  1. Poxa meu irmão, momento tenso, como lamento…
    Muito boa metáfora, tapar os olhos pra não ver a realidade, como estratégia de sobrevivência.
    Gosto também daquela:
    “Em terra de cego quem tem um olho, como sofre”…..

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  2. Triste realidade a do nosso Rio. Bem, mas o certo é estar alerta, agradecer a Deus e… seguir viagem! Na Av. (malfadada Brasil)?e na vida. Bom domingo. Deus te abençoe e se cuide.

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    1. Amigo Luigi,
      O mais triste da realidade do Rio é que não há no horizonte uma esperança de melhorar.
      Só nos resta rezar por um verdadeiro “milagre”…
      Obrigado por comentar, meu fiel leitor!
      Deus abençoe você e sua família!
      Abraços

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  3. Meu caro amigo:

    Foram as mãos de Deus que o livraram do indesejável assalto. Já passei por experiência semelhante. Só que não tive a sua abençoada sorte. Me levaram o carro e quase tomei um tiro. Ainda bem que o Seguro cobriu o prejuízo material, porque, o psicológico, ainda não criaram um apólice de cobertura . . .

    Sds.

    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro amigo Carlos,
      Isso mesmo! Como ressarcir os prejuízos emocionais?
      As sensações são horríveis e perduram por muito tempo ou, em alguns casos, nunca mais nos deixam.
      Grande abraço meu caro amigo e muito obrigado pela leitura assídua e por sempre comentar!

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  4. É muito curioso como não nos planejamos para situações como essa, sabemos o que deveria ser “o certo” mas nossa mente e corpo age sem que tenhamos muito tempo pra pensar.

    Que bom que nada de ruim aconteceu.

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  5. Prezado Amigo, Muito bom dia, Sem dúvida, uma experiência que não desejamos a ninguém, viver . . . Mas o final da sua crônica, recordando a brincadeira do seu neto Guilherme, para mim está cheia de verdade, ou seja, necessitamos recordar, mais vezes, as crianças que fomos e como a vida pode ser diferente com essa atitude . . . Recomendações à Sonia.

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  6. Graças à DEUS PAI vc.ainda continua conosco,sempre estarei em oração para que o próprio JESUS CRISTO VOS CUIDE MUITO E VOS ABENÇOE,VOS PROTEJA E O CONSERVE COM MUITA SAÚDE,AMÉM!

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  7. Eitaaa!! Não sabia desse episódio! É uma lição que faz sentido e um milagre experimentado. Todos os seus anjos trabalharam fortemente esse dia. Amém!

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  8. São nessas ocasiões que nos sentimos extremamente vulneráveis é que damos conta do valor da vida.
    Sorte ou proteção divina?
    Parabéns e um abraço

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  9. Amigo, não sei se existe carioca que ainda não tenha vivido algum susto na famosa AV. BRASIL, e quem saiu ileso assim como você, tenha certeza foi a “PROVIDÊNCIA DIVINA”!!!

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  10. O Guilherme esconde os olhos, retira as mãos e sorri ,pelo que vê aí seu redor, que não foi o seu caso amigo. Com certeza! Abraço. Rodolpho

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