A BRIGA

A briga física é sempre condenável. Mas algumas vezes, inevitável. Por isto é admitida até em lei, no caso de legítima defesa. Claro que, entre os adultos, chegar ao embate físico tem um peso grande e, quase sempre, fica como última opção. Mas entre crianças, principalmente meninos, tem outra dimensão: na minha experiência própria, quando garoto, era o nosso modo preferencial de resolução de conflitos. A briga funcionava quase como um jogo ou um esporte, onde a divergência era dirimida pela força física. Tanto que a gente trocava socos e pontapés de manhã e à tarde já estávamos juntos novamente em brincadeiras e conversas. Parece que enquanto a maturidade não chegava, os meninos iam se virando com os instintos e aceitando a lei do mais forte.

Na década de 1960 eu estudava num colégio só de meninos, como muitas escolas católicas da época. Disciplina rigorosa, tudo sempre muito limpo e organizado, cantava-se o hino nacional diante do hasteamento da bandeira todas as manhãs. E um Pai-Nosso era rezado respeitosamente de pé, na sala, antes do início das aulas do dia.

Havia lá dois meninos muito amigos, chamados Marco Antonio e Paulo. Tinham a mesma faixa de idade, requisito primordial para a amizade infantil. Ambos com 12 anos eram da mesma turma no colégio. Entretanto, o que mais os unia era o fato de viverem juntos uma situação adversa, elemento altamente agregador de pessoas em quaisquer circunstâncias. Sentavam-se lado a lado na sala e a adversidade os aproximou ainda mais.

Marcão tinha uma altura acima da média para a idade, o que induziu o apelido aumentativo. Pele branca e delicada, usava óculos e aparentava um tipo estudioso e compenetrado, avesso a estrepolias e ousadias. Paulo logo virou Turbina, já que menino sem apelido é mais raro que emprestar um livro e ter ele de volta. A alcunha veio de seu jeito inquieto e travesso. Não sabia andar, só correr. Até sua fala era corrida.

Para as esperadas indisciplinas da garotada, a arma do colégio eram os chamados inspetores, funcionários bem treinados que tudo acompanhavam com olhos atentos e severos, fiscalizando as brincadeiras, interferindo nas brigas da garotada e reprimindo as travessuras acima de certo limite.

Composto o cenário, vamos então à adversidade vivida por Marcão e Turbina. Por uma inexplicável implicância, um aluno mais velho, chamado Nicolau, das últimas turmas, começou a hostilizar os dois garotos. O sujeito tinha uns 17 anos, estava quase sempre sozinho, desenturmado, aparentando não ser muito aceito pelos colegas de turma. Era grande e obeso, parecendo um urso sem pelos. Na realidade, este era o apelido pelo qual o chamavam em segredo. Tinha os cabelos grandes, sempre despenteados e um ar furtivo de quem tem segredos e culpas. Pouco sorria e pouco falava.

A coisa começou devagar, com Nicolau distribuindo petelecos nas orelhas dos dois meninos quando estavam distraídos. Os piparotes nas orelhas ficavam naquela faixa indefinida entre a brincadeira e a agressão, mas pela força e frequência já incomodavam. As duas vítimas comentavam entre si e até chegaram a fazer um ranking no fim do dia:

— Hoje foram 5. E você?

— Cinco também. Mas na mesma orelha. Está até vermelha.

Logo os meninos passaram a ficar atentos e evitar a abordagem por trás. Quando conversando, encostavam numa parede ou pilastra, neutralizando o petelecador.

Mas a estratégia não foi boa, pois Nicolau, como num vídeo game, passou de fase. Agora vinha caminhando como se estivesse distraído e dava um encontrão de ombro, jogando longe ora Marcão, ora Turbina. Provavelmente, como estava em séries já avançadas, conhecia a equação científica de Einstein sobre a transformação de massa em energia. E massa nele não faltava.

Os encontrões eram realizados pelo Urso com certa malícia, de modo que, se presenciados por algum inspetor, aparentassem ser incidentais. Cada safanão sacudia até os miolos dos meninos: dois abalroamentos daqueles já deixavam o corpo todo doído.

A reação das vítimas, mais uma vez, foi no sentido de reduzir as oportunidades do acontecimento. Passaram a esquivar-se de Nicolau: quando percebiam sua aproximação, se deslocavam para perto de um inspetor ou disparavam pela escada de acesso às salas de aula, retornando antecipadamente do recreio.

A estratégia, longe de desanimar Nicolau, elevou sua gana pelos meninos. Passou de fase novamente, acentuando a escalada de truculências. Agora se escondia deles e surgia de trás de uma coluna ou na saída do banheiro ou ainda numa esquina do pátio, desferindo um potente cascudo na cabeça com a falange do dedo médio, coisa dolorida e estonteante, que via de regra deixava um galo como testemunha. Quando havia tempo e distância de inspetores, Nicolau adicionava ao prato principal alguns acompanhamentos, como um forte beliscão nas costas, um puxão de orelhas ou uma pisada no pé, adornados por uma risada sarcástica.

A cada dia ia ficando mais insuportável. Os dois conversavam sobre possíveis saídas daquela situação:

— Vamos relatar tudo ao inspetor. Ou à diretoria do colégio. — propôs o esguio e pacífico Marcão.

— Negativo. Ele iria continuar, sempre escondido. E também poderia nos pegar do lado de fora, no fim das aulas. — ponderou Turbina.

— Verdade. E ainda passaríamos por dedos-duros e covardes. Mas não podemos continuar assim. Já pensei em falar com meu pai.

— Nada disso. Vamos nós resolver as coisas, sem papai e mamãe. Eu só vejo um jeito…

— Fala. – pediu Marcão, temeroso do que iria ouvir.

— Vamos dar uma surra nele. — determinou Turbina, destemido.

— Enlouqueceu? O cara é muito grande. — retrucou Marcão.

— Exatamente. Grande e, portanto, lento. A gente bate e corre, bate e corre.

— Meio perigoso. Será que temos que apelar para isso?

— Ele não vai entender outra linguagem, Marcão. Se mostrarmos coragem de reagir, mesmo que saíamos no prejuízo, ele vai pensar duas vezes antes de continuar com isto. É a única solução.

Um forte cascudo de Nicolau na manhã do dia seguinte convenceu definitivamente Marcão da inevitabilidade do confronto. Passaram a organizar a luta, que teria lugar na calçada do colégio, pois no interior poderia resultar em punições. Não era possível planejar detalhes já que seria muito imprevisível, mas Turbina, mentor do embate, resumiu assim:

— Vou xingar ele. Quando vier me atingir, você vem por trás e dá-lhe um soco nas costas e se afasta. Ele vai virar pra você e aí quem bate sou eu. E vamos assim, sempre longe um do outro para dividir a atenção dele, que não vai conseguir nos pegar, pois somos muito mais rápidos.

 — Será que vai dar certo?

— Não temos alternativa. O máximo que vai acontecer é apanharmos, o que já vem acontecendo todos os dias. Mas teremos demonstrado coragem de enfrentar e reagir. E esse é o único jeito de parar o Urso.

Passaram a tarde tensos, sem capacidade de concentração nas aulas. Marcão suava nas mãos, nervoso só de pensar no momento em que teria que enfrentar Nicolau.

Ao sinal do fim das aulas, desceram e ficaram esperando-o passar, o que não demorou muito. Marcão apertou o passo e saiu na frente, enquanto Turbina seguia logo atrás do algoz. Passado o portão, Turbina gritou com todo fôlego:

— Nicolau, saco de bosta!

O grandão virou-se.

 — É você mesmo, leitoa grávida!

Quase instantaneamente formou-se uma roda dos alunos que saíam, armando o ringue para o combate. Nicolau partiu para cima de Turbina, que recuou agilmente. Marcão veio então por trás e afundou a mão fechada nas costas dele, com toda a força. Quando Nicolau virou, Marcão não resistiu e fugiu do script, lançando um soco na cara, que passou de raspão no nariz. O movimento foi realizado com tanto ímpeto que fez o corpo de Marcão girar e Nicolau o pegou por trás numa gravata com o braço direito, apertando-lhe o pescoço.

Turbina então atacou com um certeiro pontapé na coxa e recuou. Percebeu que Marcão ia ficando vermelho. Chutou novamente enquanto gritava “larga ele”. A cada investida de Turbina, Nicolau tentava inutilmente pegá-lo com o braço esquerdo, o que aliviava um pouco a pressão da gravata e oxigenava o refém.

Turbina percebeu que não poderia dar trégua ao Urso, pois se ele usasse os dois braços por algum tempo na gravata, estrangularia Marcão. Mas notou que não teria êxito só com chutes e tentar um soco seria muito perigoso, pois a garra do Urso o buscava avidamente. Não tinha muito tempo. Marcão estava naquela situação delicada, aprisionado pela chave impiedosa aplicada por Nicolau.

Cedeu então à primeira ideia que lhe veio à cabeça: tirou o cinto e, à distância, passou a dar chicotadas que estalavam nas costas do Urso. Este afrouxava a gravata, tentando pegar o cinto com a mão esquerda, o que reduzia ligeiramente a pressão no pescoço de Marcão. Mas o Urso logo voltava a intensificar a chave, garantindo um passarinho na mão ao invés de outro voando.

A garotada em volta gritava esfuziante a cada lambada, que chegava a marcar a camisa de Nicolau. Marcão, já sem os óculos, de olhos esbugalhados e rosto arroxeado, tentava com as duas mãos afrouxar o braço do seu carrasco e libertar-se, mas não tinha força para tal.

No desespero, Turbina cedeu a outra ideia sem pensar: virou o cinto e passou a bater com a fivela, agravando o efeito das chibatadas. A cada pancada com a fivela nas costas, o Urso reagia arqueando o corpo para frente e rangendo os dentes, expondo involuntariamente a dor causada por cada golpe.

Porém, ao invés de largar Marcão para fazer cessar os golpes, o Urso optou por descarregar sua raiva no pescoço de Marcão. Neste momento, a garotada percebendo a gravidade da situação, resolveu intervir. A turma do deixa-disso entrou em cena aos gritos de “parou, parou”, apaziguando os ânimos e encerrando a luta para alívio dos três combatentes.

Foi um para cada lado: Turbina com as calças caindo, mas incólume, Marcão tossindo e voltando aos poucos à respiração normal e Nicolau sentindo as costas arderem como um escravo castigado no pelourinho. O inventário dos danos era desfavorável ao Urso.

Daquele dia em diante os dois meninos foram deixados em paz por Nicolau, que sequer lhes dirigia o olhar. A recompensa da bravura foi o respeito.

Antonio Carlos Sarmento

20 comentários em “A BRIGA”

  1. Lembrei muito da minha infância no subúrbio e dos meus tempos de colégio.
    Vez por outra aparecia um desses ” ursos”, mas no final sempre acabavam mal.

    Tínhamos uma turma grande de amigos, havia muitos ” tapas” rsrs entre nós, mas valentão não tinha vez..
    Foi ótima sua crônica, não existe nada de ruim, que possa superar a união de amigos.

    Foi assim que vi essa crônica.
    Parabéns Cacau!

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  2. Todos, mais mirrados, como eu, eramos vitimas dos “Nicolaus” da vida. Li, sentindo a emoção da reação da dupla. Pela emoção que senti,,estou convencido que, com a idade vamos voltando a ser crianças de novo… kkkk
    Bom domingo e Deus nos abençoe e as nossas familias. Ha, obrigado pela crônica.

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    1. Luigi,
      Concordo contigo: como seria bom se com a idade voltássemos a ser crianças de novo…
      De fato nunca deveríamos deixar morrer a criança que temos no peito.
      Obrigado pelo comentário, meu caro!
      Boa semana e fique na paz de Deus.
      Abraços

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  3. Grande Meu Amigo, Muito bom dia, Quer saber? O ponto alto, desta crônica, para mim, foi o termo “petelecador”, vai ser criativo assim lá na . . . deixa pra lá . . . rsrsrsrsrsrs Recomendações à Sônia.

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  4. A covardia de um vai até onde começa a coragem do outro….
    Juntos somos sempre mais fortes!!!!
    Valeu a parceria no enfrentamento do petelecador!!!hahaha…
    Bjo meu irmão!

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  5. Bom dia.
    Hoje esse tipo de comportamento tem até nome e é até previsto em lei: bullying.
    A leitura da crônica, emocionante e prende muito a atenção do leitor .
    Para os da nossa faixa etária, chega até ser um resgate de memória.
    Eu mesmo já passei por situações semelhantes e após a briga, quando chegávamos em casa, ainda apanhavamos da nossa mãe, não importando o motivo.
    Uma tradição cultural da época.
    Mais uma vez parabéns pela crônica e também pela persistência que o está levando a produzir textos cada vez mais atrativos e bem articulados.

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    1. Rômulo,
      Bem lembrado: hoje seria bullying.
      De fato todos da nossa faixa etária passaram por isto.
      Grato por comentar e pela gentileza das palavras: pode ter certeza que me servem de estímulo para perseverar na escrita.
      Grande abraço!

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  6. Prezado Sarmento, me inscrevi no seu blog e passei acompanhar suas publicações com interesse, considerando um momento de reflexão e descontração, vide situações como a da sala de espera no consultório.

    Sim, em nosso tempo de garoto quando jogávamos futebol na rua, a maioria das vezes com meninos maiores, que colocavam os menores para serem os goleiros, e, claro, em muitas situações tinham aquelas brigas que tinham início com um empurrão e depois passavam para uma troca de socos e por fim aquele agarramento de pescoço.

    Também em festas de clubes tinham aquelas brigas de grupos que sempre aconteciam no final do Baile, na maioria das vezes apenas porque um dos meninos olhou para namorada de um outro, e, daí pronto, vamos te pegar lá fora no final do Baile.

    Mas, apesar dos empurrões e tapas durante o futebol, no dia seguinte estávamos por lá jogando novamente com os mesmos meninos e tudo se repetia. Outros momentos de outros tempos.

    Grande Abraço

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    1. Bernardo,
      Com alegria recebo o seu comentário. E fico contente de retomarmos o contato.
      Há poucos dias recebi, também com muito prazer, um comentário por e-mail do Quintanilha.
      Legal que as crônicas estejam servindo de motivo para voltarmos a nos falar e quem sabe, após a pandemia, nos encontrar.
      Um grande abraço e continue acompanhando.
      Saúde!

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