A SURPRESA

Nilce teve apenas uma filha e quando a menina tinha dois anos, uma tragédia abateu-se sobre a família. O marido, vendedor de equipamentos agrícolas, viajava muito de carro visitando sítios e fazendas. Certo dia, vinha pela estrada quando uma pesada peça de ferro desprendeu-se do caminhão à sua frente e invadiu seu carro, exatamente na posição do motorista.

Com grande sofrimento, Nilce reuniu forças para contar à menina que o pai não voltaria mais para casa. Já naquela primeira noite trouxe a pequena Janine para dormir em sua cama, servindo uma de acalento para a outra.

A vida tornou-se muito mais difícil, claro. Nilce manteve-se no trabalho, mas os recursos escassearam e a batalha da vida acirrou-se muito nos primeiros anos. A lacuna deixada pelo marido era enorme e ela decidiu dedicar-se à filha e não admitia sequer pensar em um novo relacionamento.

Nilce e Janine acostumaram-se a dormir juntas e mantiveram o hábito, ficando aquele segundo quarto para as costuras da mãe e estudos da filha. Elas costumavam conversar na cama antes de dormir. Nilce contava o seu dia, falava do trabalho e de suas preocupações e Janine comentava sobre os estudos e namoricos. Assim levaram a vida durante longos anos, num companheirismo de mãe e filha raro e muito intenso.

Muitos anos depois, já no segundo ano da Faculdade de Administração, Janine então com 20 anos, conheceu Fabio, seu colega de turma. Logo se envolveram num romance apaixonado. O rapaz foi apresentado à Nilce, inicialmente durante uma conversa na cama e, logo depois, pessoalmente. Gostou dele e aceitou o namoro sem maiores preocupações. Afinal desejava o melhor para sua filha: casar, formar sua própria família, ter filhos e ser feliz.

A esta altura Nilce havia progredido no trabalho e ocupava, já há algum tempo, uma função de responsabilidade, o que elevou sua remuneração e proporcionou uma situação financeira mais confortável.

Dois anos depois, a formatura de Janine foi um dos dias mais felizes da vida de Nilce. À noite, na cama, conversavam:

— Nossa! Estou tão orgulhosa de você, minha filha. Sempre desejei te ver formada, em condições de ganhar a vida e progredir.

— Mãe, você devia estar orgulhosa de si mesma, por ter superado tantas dificuldades e me proporcionado uma vida tão completa. Estou muito feliz!

— Sua felicidade é também a minha!

— E eu ainda tenho uma novidade para te contar.

Nilce temeu:

— Hum… Novidade na hora de dormir…

— Mãe, o Fabio me pediu em casamento. — disse Janine, de chofre.

Nilce tremeu:

— E você?

Diante da pergunta inútil, Janine arrematou:

— Aceitei, claro!

— Ai meu Deus. É coisa demais para hoje. Não consigo nem assimilar direito. Vou dormir e amanhã continuamos nossa conversa.

Janine calou-se, mas estranhou a reação da mãe. Esperava mais alegria e até emoção. Foi como um gol decisivo sem comemoração.

Nilce deu boa noite e virou-se para o lado de fora da cama. Permaneceu acordada a noite toda. Era daquelas situações que até se espera, mas quando chega a hora causa um impacto não imaginado. A filha iria morar em outro bairro, com outra pessoa e ela ficaria relegada à solidão e ao abandono. Não compartilhariam mais a cama, nem a casa, nem o bairro…

No dia seguinte, conversaram durante o café da manhã, num clima ainda estranho para Janine:

— Filha, vocês pretendem casar quando?

— O Fábio vem aqui hoje à noite falar com você. Mas eu achei melhor que você já estivesse sabendo.

— Sim, mas o que estão programando?

— Vamos ver um apartamento para alugar e aí passamos a morar juntos, pois o Fábio já tem emprego em vista. Depois, com calma, e com mais recursos programamos o casamento de um modo bem organizado. Coisa de Administradores…

Sem alternativa, Nilce resolveu aquiescer. Ofereceu um sorriso à filha e mesmo sem conseguir demonstrar alegria, decidiu:

— Está bem, minha filha. Você já sabe o que faz, é adulta, formada, independente. Pode confirmar com o Fábio para hoje à noite.

À noite recebeu Fábio, que pediu sua permissão para o plano dos dois pombinhos.  Deu o seu sim, sem saber se estava aceitando sem consentir ou consentindo sem aceitar. Mas abraçou o casal e até abriu champagne para um brinde.

Tentava pensar que ainda iria demorar a acontecer o enlace, pois nem apartamento tinham e, no Rio de Janeiro, não se consegue um imóvel da noite para o dia. Aliás, a palavra “noite” lhe causava uma profunda angústia, só de pensar naquela cama vazia onde amargaria longas horas insones, sem a sua companhia de tantos anos.

Mas os acontecimentos se precipitaram. Em menos de um mês Fábio já estava trabalhando em uma boa empresa e passaram a procurar o imóvel para alugar. O sonho de Janine era sair da zona norte do Rio de Janeiro e morar na zona sul. Com o contracheque em mãos e o pai como fiador, Fábio teve sucesso e em mais 20 dias estavam com as chaves do apartamento em mãos.

Nilce pensava se o fato de nunca haver permitido que Fábio dormisse na casa dela tinha sido uma boa decisão ou se serviu para acelerar ainda mais a despedida da filha. Mas agora nada havia a fazer.

Logo convidaram Nilce para conhecer a nova morada, que ficava uns 40 minutos de distância de sua casa. Prédio novo, talvez uns 5 anos, tudo moderno, no bairro de Botafogo.

Na entrada, ainda na calçada, Nilce viu um cartaz de “aluga-se” numa janela. Naquele instante explodiu uma ideia em sua imaginação. Uma ideia não, uma verdadeira inspiração, pensou. Seus olhos brilharam, mas Fábio e Janine sequer perceberam.

O apartamento era pequeno, apenas um quarto, mas bem acolhedor, com uma planta bem distribuída e uma agradável varandinha. Nilce apreciou a escolha e até exagerou nos elogios.

Logo indagou:

— Os outros apartamentos aqui do prédio são iguais a este?

— Sim. São todos iguais. — respondeu Fábio.

Nilce se preparou e na saída do prédio, sentada no banco de trás do carro, virou-se e anotou apressada e discretamente o número do telefone informado no cartaz.

No dia seguinte, mal chegou ao trabalho, entrou em contato e marcou uma visita para o final da tarde. Era direto com o proprietário, o que lhe pareceu conveniente, pois tudo tenderia a ser mais simples e rápido. Faria uma bela surpresa ao casalzinho. Não iria falar nada, mas um dia bateria na porta deles e exclamaria:

— Oi vizinhos!!!

Eles iam adorar!

Assim, permaneceria junto à filha, não na mesma cama, nem no mesmo apartamento, mas no mesmo prédio. No táxi, a caminho da visita, ia pensando que todo mundo devia fazer assim: a família e seus filhos casados, todos no mesmo prédio. Coisa maravilhosa!

O proprietário já a aguardava na portaria. Nilce chegou animada, de ótimo humor e chegou a pensar em nem ver o apartamento, pois já conhecia. Mas achou que seria estranho, o proprietário ficaria sem entender.

Entrou e olhou tudo muito rapidamente. Chamou a sua atenção o capricho da decoração: o apartamento estava lindo, móveis modernos, tapetes elegantes, armários de primeira qualidade. Ficou impressionada, pois estava bem acima do padrão de imóveis para aluguel. Declarou que queria tratar dos detalhes do aluguel, que era proprietária de um imóvel na Tijuca e tinha todas as garantias.

Sentaram-se então em torno da mesa de jantar e enquanto o proprietário abria a pasta para buscar papéis, Nilce comentou:

— O senhor caprichou na decoração, hein?

— Sim. Comprei este apartamento para minha filha que casou há pouco tempo. Contratamos um arquiteto que fez um ótimo trabalho.

— E a sua filha não veio morar?

— Veio, sim. Mas ficou menos de um ano — ele ia falando e despejando papéis na mesa.

— Que pena. E eles se mudaram para onde?

— O casamento acabou. Minha filha voltou para casa e por isso estou alugando o apartamento. Esta é a lista dos documentos e as condições do aluguel.

Nilce pegou o papel sem olhar.

— Nossa! Mas acabou o casamento assim, tão rápido. Desculpe perguntar, mas o que houve?

— Culpa da minha mulher. Não saía daqui.

— Ah é? O senhor mora aqui no prédio?

— Deus me livre. Aí o casamento não teria durado nem três meses. Eu cansei de dizer a ela para manter certa distância do casal, que aguardasse ser convidada e procurasse não interferir em nada. Ninguém quer ter a sogra dentro de casa, se metendo em tudo. Nenhum rapaz suporta isso. O casal precisa de uma vida independente e autônoma.

— Hum…

— Mas ela é apegada demais à menina. Não é amor, é apego. Amor é liberdade, apego é prisão.

A frase tocou fundo em Nilce. Ele continuou:

— E agora ainda estou com um drama em casa, pois as duas não se entendem, brigam o tempo todo por causa da mágoa. Deixa para lá. Quando a senhora teria esta documentação pronta?

— Ahn?

— Os documentos? A senhora vai ficar com o apartamento?

— Eu vou ver a lista com cuidado e ligo para o senhor depois. Muito obrigada.

Levantou-se e foi embora. Saiu pensando que é muito fácil uma surpresa virar um susto.

Envergonhada, nunca contou isso para ninguém. Nem para seus vizinhos da Tijuca, onde morou até o fim de seus dias.

Antonio Carlos Sarmento

20 comentários em “A SURPRESA”

  1. Belíssima lição. Biblicamente falando, Cristo nos alertava para o apego como algo nocivo. Excelente domingo e que Deus te abençoe e a tia família.

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  2. Esse apego é comum e nada benéfico, ainda mais com a situação apresentada.
    Deus foi generoso e mostrou a tempo a realidade do que provavelmente aconteceria.
    Nice, me lembrou muito um caso parecido em um curso de noivos.
    A vida do casal é do casal.

    Muito bom Cacau!
    Parabéns
    Bjs

    Curtido por 1 pessoa

  3. Caro Antonio Carlos:

    Como estou me recuperando de um acidente, confesso-lhe que li a sua belíssima coluna, mas hoje, não farei nenhum comentário, devido às minhas limitações.

    Sds.

    Carlos Vieira Reis

    Curtido por 1 pessoa

    1. Caro amigo Carlos,
      Agradeço muito que mesmo em recuperação e ainda sob os efeitos do acidente tenha lido a crônica e enviado a mensagem.
      Desejo, de coração, uma pronta e total recuperação.
      Fique com Deus!
      Abraços

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  4. Olá, meu Amigo, Muito boa tarde, Maravilha! Quiçá algumas pessoas por aí, tenham a oportunidade de ler esta crônica e dela tirar algum proveito. Amor é liberdade, apego é prisão, simples assim . . . Recomendações à Sônia.

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  5. Quem casa quer casa, ditado popular muito apreciado e certíssimo.
    Interferências externas e principalmente de familiares não contribuem para o crescimento da nova família.
    Ainda mais quando de uma mãe solitária.
    Mas, olhando pelo problema da mãe que dedicou toda a vida a filha, há de se sentir penalizado com a situação.
    Prefiro neste caso, ser isento e não deixar um parecer ideológico.
    Ahhh, soube que apesar das doses diárias vitamina D e muito sol, foi pego de surpresa pelo Covid.
    Abraços em todos

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