ESPÍRITO ESPORTIVO

Há um ano, exatamente nesta época, fui ao Qatar assistir à partida final do Mundial de Clubes entre o Flamengo e Liverpool. Já tranquilizo o leitor que não vou falar de virtudes nem do Qatar e muito menos do Flamengo, abdicando desde logo do papel de guia turístico e também de torcedor. Prefiro ficar com outros aspectos e impressões da viagem.

Logo de início precisei reunir uma disposição incomum para decidir enfrentar 14 horas de um voo direto Rio de Janeiro – Doha, na classe econômica. E até hoje não sei como convenci meu cunhado a me acompanhar na viagem — ainda dizem as más línguas que cunhado não é parente… É sim!

Resolvi chegar bem cedo ao aeroporto para garantir um lugar no corredor do avião, pois era um voo fretado e lotado, sem pré-marcação de lugares, a serem distribuídos por ordem de chegada no balcão do check-in. Para mim, viajar tanto tempo sem a liberdade de levantar sempre que desejasse, seria um sacrifício ainda maior.

Aliás, na viagem de volta adiantei-me também na chegada ao aeroporto e consegui igualmente um lugar no corredor numa fileira de quatro assentos. Ao meu lado, um casal na faixa dos 70 anos de idade ocupava os dois desagradáveis lugares do meio. Ele estava inconsolável e a mulher tentava animá-lo. Não pude deixar de ouvir que era devido à preocupação dele precisar ir muitas vezes ao banheiro. Na realidade, eles haviam chegado ainda mais cedo que eu ao aeroporto e foram dos primeiros a ser atendidos, mas não perceberam que os lugares destinados pelo atendente eram tão ruins. Lamentável… Disse a ele que ficasse à vontade e eu levantaria tantas vezes quantas fosse necessário, sem nenhum problema. Ficou aliviado e desfez-se o clima desagradável. Passamos então a conversar e falamos de vários assuntos, menos, é claro, do jogo da véspera, pois só a vitória merece comentários. À derrota, o silêncio.

O mais longo dos voos de minha vida até transcorreu melhor do que o esperado: comi, bebi, fiz xixi, dormi, li, fiz xixi, comi, bebi, li, fingi que dormi, sofri, fingi que fiz xixi e, finalmente, venci! Claro que nos intervalos levantei, sentei, conversei, olhei, andei, alonguei e, mais que tudo, esperei… Ao final, a maravilhosa tecnologia nos levou e trouxe de volta de modo seguro e tranquilo àquela distante parte do mundo.

Seguindo a sugestão de amigos, escolhemos um hotel de uma rede americana por um simples motivo: lá havia um maravilhoso bar com cervejas e drinks, uma exceção, já que no Qatar os restaurantes e hotéis locais não servem bebidas alcoólicas.

Ainda havia um jogo a ser vencido antes da tão esperada final, mas o resultado foi o previsto e confirmou a partida decisiva tão aguardada. A maioria dos brasileiros dedicou grande parte do tempo livre a passear e conhecer alguns locais e atrações daquela cidade tão inusitada para quem vinha de outra parte do mundo.

Foi nesta onda que resolvi fazer um passeio de camelo. Ir ao deserto e passear de camelo foi uma ideia tão óbvia, que ocorreu a praticamente todos os brasileiros. Estava tão cheio quanto o estádio no dia da final. Ficamos esperando numa tenda de lona com tapetes no piso e tomando um enjoativo chá, muito doce e pouco quente.

Quando chegou a minha vez subi na sela, entre as corcovas do animal, que gentilmente ajoelha-se para receber a carga humana. De repente, vem um safanão por trás, pois o camelo levanta-se por etapas, iniciando pelas patas traseiras. Fiquei com a sensação de que iria dar um mergulho de cabeça na areia. Logo vem um novo golpe pela frente com o erguer das patas dianteiras e finalmente a posição se estabiliza. Acabou aí a emoção do passeio. Um sujeito pega então no cabresto e conduz a montaria, caminhando numa velocidade decepcionante e monótona, ingressando uns 5 passos na areia do deserto e logo retornando, formando um pequeno “u”, o que motiva a gente a querer vaiar o passeio.

Outra atração considerada imperdível pelos brasileiros era conhecer o metrô recém-inaugurado. Coisa de alta tecnologia, todo automático, sem nenhum operador humano a bordo. Fizemos algumas viagens sem maiores contratempos, até que, sem compreender muito bem a sinalização, ficamos aguardando o trem numa posição bem vazia da plataforma. Na realidade éramos só nós ali, enquanto no resto da plataforma, outros passageiros se aglomeravam. Era uma laranja madura na beira da estrada, bom demais para ser verdade.

Ao abrir a porta, entramos e demos de cara com um ambiente muito diferente: pessoas vestidas à moda árabe, sentadas em poltronas de veludo espaçosas e com braços, piso atapetado, lustres decorados e um luxo que ainda não havíamos visto. Não foi preciso muita perspicácia para perceber que estávamos no lugar errado. Rapidamente desembarcamos e mudamos de vagão. Depois descobrimos que aquele era o chamado “primeira classe”, que tinha um custo incomparavelmente maior. Isso eu nunca tinha visto em transporte público urbano, mas compreendemos ser algo compatível com a cultura local.

Deixo de contar em detalhes, por pura vergonha, a gafe que cometi logo no primeiro dia, ao usar o banheiro de um museu. Vou me limitar a dizer que estranhei muito, pois o espaço dispunha logo na entrada de torneiras uma ao lado da outra ao longo de uma canaleta para escoar a água. Estranhei, mas como o banheiro estava vazio, só me restou aliviar ali mesmo minha bexiga e higienizar em seguida abrindo uma das torneiras. Mais tarde descobri perplexo que como os cataris usam sandálias, aquele era o espaço destinado a lavar os pés. Corri o risco de ser deportado…

Porém, o turismo foi só uma forma de passar o tempo até chegar o dia tão aguardado da final. Com tudo muito bem organizado, logo chegamos ao estádio e encontramos nossas cadeiras. No lugar vazio ao meu lado chegou um rapaz, na faixa dos trinta anos de idade, vestindo a camisa do Liverpool. Olhou-me e viu a camisa do time adversário, mas sem nenhum constrangimento esboçou um leve sorriso e sentou tranquilamente ao meu lado esquerdo.

Desde o momento em que o Liverpool entrou em campo e durante os 45 minutos do primeiro tempo, o sujeito esgoelou-se sem parar. Seus gritos eram os mais altos que já ouvi, a ponto que passei a, disfarçadamente, tampar a orelha esquerda, para proteger meus tímpanos daquela potência sonora. Aquilo me incomodou, mas não havia como trocar de lugar no estádio lotado.

Veio o segundo tempo e a história se repetiu, permanecendo aquele berreiro ao meu lado até a prorrogação, quando finalmente conseguiram o gol da vitória. Aí o sujeito destrambelhou. Não sei como, mas seus gritos aumentaram ainda mais e sua comemoração prosseguiu até o final da partida, emendando com a entrega das medalhas.

Neste momento veio a surpresa: quando chamaram o Flamengo para a medalha de vice-campeão, ele bateu no meu ombro e estendeu a mão, me dando os parabéns pela bela partida de futebol que assistimos. Em seguida, bateu palmas efusivamente para a premiação do segundo colocado e sorria para mim repetidamente de modo gentil. Achei admirável. Precisei viver mais de 60 anos e ir até o outro lado do mundo para ver tamanho espírito esportivo e cavalheirismo.

O que deveria ser regra, na realidade, é a mais absoluta exceção. Voltei da viagem enriquecido por este episódio singelo e raro. A gentileza não respeita fronteiras.

Antonio Carlos Sarmento

17 comentários em “ESPÍRITO ESPORTIVO”

  1. Grande Meu Amigo, Muito bom dia, A gentileza não respeita fronteiras, essa deveria ser a regra para todos como o é para nós . . . o exemplo do rapaz no estádio e o seu exemplo na viagem de volta, são a prova inconteste dessa realidade . . . Parabéns, mais uma vez e sempre . . . Recomendações à Sônia e à Turma de além-mar . . .

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  2. Meu caro Antonio Carlos:
    Ser gentil com um rubro-negro e dar-lhe o troco daquilo que não recebe no Brasil. Aliás o Flamengo está se tornando um verdadeiro “cavalo paraguaio”.
    Ser rubro-negro já acho uma posição muito desconfortável, diante, por exemplo, da bela e refinada torcida tricolor.
    Mas, deu para perceber que a sua viagem foi enriquecedora, trazendo-lhe novos conhecimentos de uma civilização inteiramente oposta à nossa. Exemplo, a viagem de metrô, na qual você deve ter feito uma rápida comparação com os meios de transportes brasileiros, que não se deve nem chamar de semelhantes, devido à sua péssima qualidade.
    Abs.desse seu fiel leitor,
    Carlos Vieira Reis

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    1. Meu caro amigo Carlos,
      Mais uma vez agradeço seu comentário e fico contente de ter você como um fiel leitor.
      De fato é um grande contraste quando se trata de meios de transporte: o nosso Brasil ainda precisa evoluir muito!
      Espero que esteja recuperado do acidente e em boa saúde.
      Um afetuoso abraço!

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  3. Que experiência inesquecível pra você e seu cunhado parente, que estreitaram laços de companheirismo e amizade, estendendo a gentileza até pro torcedor inglês…a essência do ser humano é universal!!!
    Ótima crônica meu irmão,PARABÉNS!!!!

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  4. Amigo querido, quantas experiências se consegue ao viajar, principalmente para culturas tão diferentes da nossa!!! Excelente crônica como sempre!!!

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  5. Sarmento nao quero que fique com raiva de mim, mas pra um alvinegro dos antigos, a parte que mais me emocionou foi a do resultado do jogo… kkkkkk. Brincadeiras a parte, bom domingo e que Deus o preço e a sia familia!

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    1. Amigo Luigi,
      Imagine ficar com raiva de você… Para mim o futebol é sempre motivo de brincadeira e diversão, como no seu comentário.
      Obrigado pelo comentário e desejo uma semana maravilhosa a você e todos os seus!
      Grande abraço!

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