A CARTA

Escrevo esta carta para ninguém.

Claro, ninguém hoje acharia sentido em receber ou escrever uma carta pessoal, endereçada a quem se gosta e com quem se quer fazer contato, dar e receber notícias. Isso agora é coisa antiga, superada por formas muito mais avançadas, rápidas e práticas de escrever.

Eu usufruo plenamente das novas tecnologias e aprecio muito, mas confesso que sinto certa nostalgia ao lembrar da sensação de abrir a caixa do correio e encontrar ali um envelope de uma carta pessoal, em meu nome. Era um prazer: primeiro identificar quem era o remetente, o que podia aumentar consideravelmente o prazer caso fosse aquela namorada que morava distante — nada existe que aumente tanto o amor quanto uma namorada que more distante… Ou aquele amigo querido que há muito encontrava-se afastado. Às vezes eu até demorava a abrir o envelope só para prolongar a boa sensação. Depois sentava confortavelmente, apalpando o envelope com carinho e abrindo-o lentamente para não deixar passar rápido aquele momento especial de expectativa e curiosidade. Normalmente duas ou três páginas de pura intimidade.

A caixa de correio era um lugar meio mágico, já que vez por outra podia conter essas coisas boas. Aquele objeto dos Correios poderia trazer revelações, demonstrações de carinho e reafirmação de afetos e emoções. Hoje, bem diferente, só se encontra ali contas a pagar, boletos, propagandas e cartas comerciais, ou seja, praticamente tudo do interesse de quem envia e não de quem recebe…

Com a carta pessoal era diferente: o interesse de quem escrevia era fazer contato, reduzir saudades, estar um pouco mais próximo do outro por quem tinha amizade ou amor.

Ah, as cartas de amor… Já não se ama como antes, pois a ausência das cartas deixou uma lacuna no romantismo. Aqueles momentos de enlevo ao ler e reler uma carta de amor, deixar-se levar pelas palavras, interpretar ou inventar sentidos ao que foi escrito, é algo insubstituível.

Basta ler um romance de uns 30 anos para trás e muito provavelmente as cartas de amor estarão lá, protagonizando passagens e influindo nas atitudes e decisões dos enamorados. Praticamente não existia romance sem cartas. Agora são cartões, que desmentem o aumentativo, pois longe de serem grandes cartas são apenas pequenas mensagens, sendo algumas, pasmem, pré-impressas… Se eu recebesse um destes acho que o amor estaria aniquilado.

Chego a pensar que perdemos uma forma de convivência. Sim, pois os mais jovens podem até não acreditar, mas as cartas pessoais eram escritas à mão. Juro! Isso trazia de certa forma uma proximidade com quem escreveu, pois ali estava não o corpo ou a voz, mas a letra, algo tão pessoal e inconfundível quanto a própria pessoa. Ler uma dessas cartas era sentir-se perto, mesmo estando longe.

Porém o fato é que a carta morreu. E a caixa de correio está moribunda, superada pela praticidade, eficácia e custo dos meios virtuais. Mas o que temo mesmo é que venha a perecer a letra manuscrita. O caminhar da história parece indicar que cada vez se usa menos lápis e caneta e mais e mais os teclados — é o que faço neste exato momento. O caderno de caligrafia está a caminho do museu, seu destino inexorável.

Vivemos num mundo onde tudo é perecível. Atribui-se ao grande jornalista Nelson Rodrigues a ideia de que “nada é tão velho quanto o jornal de ontem”. Talvez a carta também tenha envelhecido muito rápido ou morrido de repente, sem sequer uma nota de falecimento. A ela, que foi veículo de tantos sentimentos, dedicamos o pior deles: o esquecimento…

Vivemos num mundo onde tudo é descartável. Um texto escrito ou recebido da pessoa amada, em letra manuscrita, declarando seus sentimentos, é apenas uma carta. Mas esta jamais se descarta!

Antonio Carlos Sarmento

 

23 comentários em “A CARTA”

  1. Querido Sarmento, sinto falta dos cartões postais e dos cartões de Natal. Confesso que eu não os enviava, mas a geração de minha mãe, achava que não era “de bom tom” não enviar cartões de natal com algo escrito… A MÃO! Tenho uma prima idosa que no final do ano descobre quem está vivo, pq recebeu cartão daquela pessoa. Senão ela decreta a morte do infeliz dizendo:” Fulano morreu. Não enviou cartão de natal esse ano… E o pior é que é “batata”. Bem, bom domingo, fiquem com Deus voce e sua familia e que Ele nos abençoe.

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  2. Querido amigo Antonio Carlos:

    Talvez, o desaparecimento das nostálgicas cartas do nosso cotidiano seja uma das raízes da privatização dos Correios, que chegará em muito boa hora.

    Sds. do amigo,

    Carlos Vieira Reis

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  3. Uma ode às cartas manuscritas! Muito bom!
    É preciso deixar vivo o poder da correspondência manuscrita, entre amigos, namorados ou mesmo quando recordamos a História do Brasil.
    Que bom se todos conhecessem a carta que D. Pedro II enviou, do exílio, aos brasileiros. Uma verdadeira e preciosa declaração de amor, numa linda caligrafia!
    Estimulemos, neste tempo digital, algum modo de fazer com que aqueles que amamos, conheçam nossa caligrafia. Ela desvenda nosso coração…

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    1. Helena,
      Adorei seu rico comentário.
      Vou procurar a carta de D. Pedro II para conhecer.
      Pena que não tive a sua inspiração para dizer que a caligrafia desvenda o nosso coração: maravilhoso!
      Muito obrigado!
      Abraços saudosos a você a ao Nelson!

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  4. Concordo totalmente!
    Realmente o amor já não é como antigamente, quando se fazia transportar em cartas em que o tacto, o cheiro e as palavras entravam nos nossos sentidos e aí se instalavam por muito tempo…
    …tal como a carta ficava guardada no recanto de numa gaveta. Talvez para sempre…ou não.

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  5. Prezado Amigo, Muito boa tarde, Acabei de ler sua crônica, mais uma peça de valor inestimável, haja vista a quantidade de recordações que trouxe . . . O parágrafo final é sublime: “*Vivemos num mundo onde tudo é descartável. Um texto escrito ou recebido da pessoa amada, em letra manuscrita, declarando seus sentimentos, é apenas uma carta. Mas esta jamais se descarta”!* *Recomendações à Sônia e demais familiares . . .*

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  6. Adoro cartas! Uma pena que isso tenha se perdido. Uma coisa que gosto de fazer (e receber) é ao menos uma cartinha (escrita à mão) para entregar com algum presente que eu vá dar. Para mim, essas cartinhas significam mais que o presente em si

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    1. Tati,
      Realmente as cartas se perderam no tempo.
      As cartinhas, sem dúvida, se manuscritas têm o seu valor. Tanto que sempre as abrimos antes do presente: este acaba e a cartinha está lá, a nos trazer bons sentimentos e recordações.
      Muito obrigado pelo comentário!
      Abraços

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  7. Que ótimas recordações esse texto nos trouxe, querido cronista!
    Sempre gostei muito de enviar e de receber cartas – me sentia como se estivesse dando um grande abraço ou um beijo carinhoso na pessoa.
    Hoje a comunicação é mais fria, menos detalhista e com poucas marcas do autor. Quando se escrevia uma carta, até o tempo dedicado, o capricho na apresentação e a escolha cuidadosa das palavras já demonstravam calor.
    Noto isso em suas crônicas : um estilo afetuoso de escrever, um “quê ” de nostalgia de momentos que nos faz bem recordar.
    Grande abraço!

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    1. Querida Prima,
      Sei do seu apreço pelas cartas. Inclusive, você certa vez comentou sobre uma carta de papai, que guardou com carinho em sua lembrança.
      Infelizmente o tempo das cartas não volta mais…
      Muito obrigado pelo seu comentário, minha prima. Fico feliz em receber suas observações, sempre muito próprias.
      Beijos!

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