ALTA VELOCIDADE

Devia ser mais ou menos umas 4 horas da manhã. Para fazer um teste de freios num trem recém chegado da fábrica tinha que ser de madrugada, quando a linha estava livre e com as condições necessárias.

Éramos um grupo de técnicos e engenheiros encarregados do teste. Para simular as situações adversas, a cada corrida do trem reduzíamos progressivamente a capacidade de frenagem, isolando parte dos freios.

Isto era feito através de uma alavanca acionada manualmente no exterior de cada vagão, junto às rodas. Portanto, uma pessoa descia da composição, realizava a operação e o trem partia para mais uma medição: esta pessoa ficava na linha e os demais a bordo, cada qual realizando suas tarefas e anotando a leitura dos inúmeros instrumentos.

De início foi tudo bem. A cada corrida, mais freios eram isolados e o trem, naturalmente, demorava mais a parar. As medições iam sendo efetuadas, mas obviamente, na hora não havia como interpretar os resultados.

Na fase final dos testes, estávamos a bordo preparando mais uma corrida, provavelmente a última, quando o trem começou a deslocar-se lentamente, sem que tivéssemos dado a ordem para partir. Olhamos uns para os outros sem compreender bem o que estava acontecendo. Corremos para a cabine de comando e o piloto nos olhou perplexo:

— O trem está andando sozinho! — exclamou, assustado.

Por alguma falha no nosso controle todos os freios haviam sido isolados!

Infelizmente, o trecho em que estávamos apresentava uma inclinação, levando o trem a partir por inércia: muito peso e pouco atrito.

Pensamos incialmente em pular do trem tal como nos filmes de cowboy, mas a altura entre o piso e o chão não era, digamos assim, convidativa. O trecho ficava numa pequena encosta que deixava o chão plano uns três ou quatro metros abaixo dos nossos pés.

Havia apenas uma breve oportunidade de deixar o trem, já que à medida que a velocidade aumentava, o risco crescia muito. A decisão tinha que ser rápida. Mesmo sem poder prever o desfecho da corrida desgovernada, optamos por permanecer a bordo e aguardar os acontecimentos. Fomos todos para o final da composição de modo a atenuar as consequências para nós em caso de uma colisão.

Em pouquíssimo tempo o trem começou a ganhar mais velocidade. A rampa em que estávamos acentuou-se, agravando a situação. Mais veloz que o trem foi o crescimento do temor de um acidente gravíssimo, com a perda de nossas vidas.

No auge de nosso desespero, após uns dois minutos, notamos que o trem começou a perder velocidade, incialmente de modo sutil, mas depois de modo bem nítido. Descobrimos então que estávamos num vale: uma descida, um pequeno trecho plano e depois uma subida. Passamos a torcer para que a inércia agora funcionasse a nosso favor e que antes de atingir o ápice da subida, o trem parasse e fizesse novo movimento em sentido contrário, tal qual um pêndulo. Se assim fosse, após algumas oscilações, iria então parar sem maiores consequências.

Foi o que ocorreu. Ficamos ali naquele vai e vem, tal qual uma barca viking de um parque de diversões. Para nós, um parque de apreensões…

O trem acabou parando, sem que houvesse nenhum dano às nossas vidas e ao próprio equipamento. Um quase acidente devido a uma falha banal, como é em quase todo acidente.

Lembrar desta experiência me fez pensar que em algum momento dos últimos 30 ou 40 anos, nas vizinhanças da passagem do século, a nossa vida parece também ter ficado sem os freios e entrado em uma aceleração progressiva e descontrolada.

Não sei se foi a internet, algum outro desenvolvimento tecnológico ou uma conjugação de vários fatores, mas o fato é que a vida entrou em modo acelerado e aparentemente o nosso trem, sem freios, está descendo uma rampa cada vez mais inclinada. E a tendência não é animadora, pois as inovações tecnológicas parecem colaborar para que esta inclinação aumente cada vez mais. A ânsia por mais velocidade aparenta ser interminável…

Também não tenho a menor ideia de onde foi parar o tempo que ganhamos com as novas tecnologias. Só sei que este ganho de tempo não serviu para que tenhamos uma vida calma, tranquila, no ritmo certo.

E a vida no modo acelerado cobra um preço que não é barato. Consome avidamente o nosso tempo, o que temos de mais valioso. O passar do tempo se transforma no voar do tempo!

Acabamos vivendo de tal modo que ficamos com a sensação de que o tempo, que na realidade transcorre sempre regularmente, está passando rápido demais. Onde foram parar as manhãs calmas, as tardes longas e as noites repousantes?

Fica para mim a certeza de que vida muito acelerada é vida pouco desfrutada.

Sim, nossos sentidos não conseguem sequer captar aquilo que passa disparado. É como comer muito rápido: a gente deglute, mas não degusta. E comer sem saborear compromete o prazer da refeição, o desfrutar do momento. Assim é também na vida: viver acelerado se aproxima mais de apenas existir do que propriamente de viver.

Acredito, contrariando o senso comum, que o tempo não passa de forma contínua. Pelo contrário, a contagem reinicia a cada segundo, é sempre um novo tempo, o que nos permite optar por mudanças que possam fazê-lo passar em ritmo diferente, menos premente, mais conveniente.

Faz lembrar os versos de Lenine na música Paciência:

Enquanto a vida acelera

e pede pressa

eu me recuso, faço hora

vou na valsa…

a vida é tão rara

Enfim, somos donos do tempo. Nada continua, tudo recomeça!

Chega uma hora em que descobrimos que é necessário ter tempo: para descansar, para ficar a sós, para falar com Deus, para apreciar as artes, para pensar sobre a vida e para conviver de verdade com quem amamos. Tempo de qualidade para si e para os outros.

Aí sim, ultrapassamos o simples existir e vamos ao encontro do verdadeiro viver.

E talvez um dia possamos dizer como Clarice Lispector:

Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito.

 

Antonio Carlos Sarmento

26 comentários em “ALTA VELOCIDADE”

  1. Bela reflexão Sarmento! Nesse tempo de pandemia somado ao fato que alem de forçados a diminuir o ritmo, decidi ir pisando no freio da vida, ou pelo menos achando que estava, tenho lamentavelmente, sentido , que meu trem continua andando rápido demais. Isso tem me incomodado, até entristecido. Talvez seja a tal “crise dos 40” que em mim só chegou aos 66. To procurando o freio de mão do meu trem pra ver se pelo menos, diminuo a velocidade pensando, inutilmente, que podemos esticar o inexorável. Bom domingo e que Deus te abençoe e a tua família.

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    1. Caro amigo Luigi,
      Desejo sinceramente que encontre o freio de mão.
      O primeiro passo, talvez o mais difícil, está dado: é tomar consciência e isso você já fez.
      Uma ótima semana por aí, meu amigo e mais uma vez agradeço seus constantes comentários.
      Fique com Deus!

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  2. É, temos que conhecer melhor quem controla o tempo neste imenso parque de apreensões que é a vida.
    Parabéns por mais esta inspiração e um bom domingo.

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    1. Querido Primo,
      Tenho buscado desacelerar após os 60 anos. Nos últimos anos tenho tido algum sucesso, mas a vigilância precisa ser constante pois tudo nos conduz à aceleração.
      Grato pelo comentário!
      Grande abraço e ótima semana.

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  3. Caro Antonio Carlos:

    Entendo que o tempo é o senhor da razão. Cada momento de nossas vidas tiramos bons e maus aprendizados, mas, sempre, se torna uma grande experiência.

    Sds.

    Carlos Vieira Reis

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    1. Perfeito!! Essa pandemia, no entanto, nos obrigou a desacelerar! Os que estão de home office aceleraram mais , mas , os idosos aposentados como eu , desaceleramos. Fomos obrigados pelas circunstâncias. Sinto falta de acelerar um pouco. Beijão!

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      1. Amiga Lucia,
        Muito interessante sua observação quanto ao home office. Os que estão mais próximos e passando por esta experiência me relataram exatamente isso: acelerou mais!!!! Eu esperava o contrário e estou surpreso…
        Obrigado por seu comentário, minha amiga querida!
        Beijos e uma ótima semana.

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  4. Querido amigo.
    Hoje você com essa bela crônica nos deixou reflexivos de como estamos vivendo e convivendo com a evolução da tecnologia.
    Tudo parece que ficou mais prático e fácil mas com menos vivência e principalmente convivência.
    Você escreveu muito bem quando disse que a vida ficou muito acelerada e pouco desfrutada. A tecnologia não nos deu maior tranquilidade. Pode até ter dado mais segurança mas paz de jeito nenhum ela trouxe.
    Bela reflexão e muito atual.
    Sobre a frase de efeito fico com a barca dos Vikings no parque de diversões…. Muito boa.
    Estou ansioso para ler os comentários do Dr Carelli.
    Abrs amigo e muita saudade. Bjs em todos os portugueses…

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    1. Amigo querido Nei,
      Talvez você não acredite, mas quando me veio a metáfora da barca viking pensei: O Nei vai gostar desta!
      Admiro você por acompanhar tão bem a tecnologia, mas o preço é a aceleração da vida. Talvez agora, na nova fase da sua vida, a desaceleração venha para vocês.
      Muito obrigado por seus comentários, amigo.
      Fique com Deus, grande abraço e mande um beijo pra Jaciara! Os portugueses mandam beijos saudosos.
      PS: Dr. Carelli não se pronunciou. Não sei se é bom ou ruim…

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  5. Querido primo,
    Plagiando Cecília Meireles, ontem nós éramos pequeninos, ontem nós éramos crianças. Parece que foi ontem, mas ja passou quase uma vida!
    Que Deus nos dê sabedoria para viver e desfrutar do dia a dia de uma forma tal que, a qualquer tempo, possamos olhar para trás e dizer ( ou melhor, cantar) : velhos tempos, belos dias !
    Você tem se superado. Parabéns!!
    Já recebeu seu primeiro prêmio: a admiraçao de seus ( fiéis ) leitores. Seus textos são esperados por todos
    e integram uma parte agradável do domingo.
    Muitas palmas!!

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    1. Querida Prima Gena,
      Sua referência à Cecília Meireles é preciosa. Peçamos a Deus esta sabedoria de saber viver no ritmo certo.
      O prêmio ao qual você se referiu é o principal para mim. Muito obrigado!
      Beijos minha prima e desejo uma ótima semana!

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  6. Querido primo
    O tempo voa, assim como voam nossas oportunidades de ver a beleza da vida e das pessoa…a pandemia me trouxe a reflexão para desacelerar e buscar a simplicidade. Parabéns pela crônica!!! Bjs

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  7. Grande meu Amigo, Muito bom dia, Excelente mensagem . . . De fato, ter tempo para pensar é o caminho de tudo, a meu ver . . . Por não darmos valor ao tempo, quantas coisas fazemos ou deixamos de fazer . . . Tempo para pensar, sobre a vida que vivemos e a que queremos viver . . . Tempo para pensarmos no nosso passado, no nosso presente e no nosso futuro, de moda que possamos fazer uma união de tempos, poucos se importam com isso . . . Recomendações à Sônia e a toda a família . . . Já parabenizei a Tatiana, pelo dia de hoje . . .

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    1. Querido amigo JH,
      Você sempre consegue tempo para comentar as crônicas, para sorte deste cronista.
      A Tatiana me falou da sua mensagem: você é imbatível!!!
      Muito obrigado, meu amigo!
      Grande abraço e ótima semana.

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  8. Ser feliz dá trabalho e exige coragem. Nem todos querem pagar o preço.
    Novamente: adoro conhecer suas histórias! 🙂

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  9. A pandemia está representando na minha vida um freio de mão mais puxado. Na realidade o trem perde velocidade quando nos aposentamos e então temos tempo para saber quem realmente somos porque ficamos mais sozinhas conosco mesmas. Se seremos mais felizes ou não vai depender desse contato íntimo com nossas almas!

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  10. Cau
    Dentre tantas palavras preciosas destaco “conviver de verdade com quem amamos”.
    Com viver é viver com… alguém!!!
    Muito pertinente destacar a importância de se ter um tempo autêntico, inteiro e verdadeiro para amar e se sentir amado!!
    PARABÉNS!! Eu te AMO!!!

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