CONFIANÇA

Certa ocasião fiz uma viagem à região nordeste do Brasil com minha mulher e minha filha, na ocasião com uns 7 anos de idade. Numa manhã ensolarada chegamos à uma praia distante da cidade e, talvez por isto, estava bem vazia.

Era uma espécie de enseada em formato de semicírculo. Em ambas as extremidades nasciam outras praias adjacentes, como se o mar fosse uma colcha de bordas arredondadas. Para mim, o litoral assim recortado é mais aconchegante e agradável para o banho de mar que longas praias retas, parecendo sem fim.

Ficamos em uma barraca na areia praticamente sozinhos, desfrutando da tranquilidade, do bom tempo e das águas calmas e mornas, típicas da região. Por mim, eu estaria lá até hoje…

Após certo tempo, do qual não tenho a menor noção, pois a última coisa que faria naqueles momentos de deleite seria olhar para o relógio, veio em nossa direção um sujeito puxando um cavalo. Ao olhar tive dúvida sobre qual dos dois parecia mais cansado…

— Bom dia. Um passeio no cavalo para a menina, doutor?

Olhei para minha menina e os olhinhos dela brilharam.

— Como é o passeio? — indaguei.

— Ela monta e eu vou puxando o animal até ali, no final da praia e voltamos. Leva uns 30 minutos — disse ele, apontando com o queixo para a ponta mais ao leste da praia.

Olhei para minha mulher, que concordou com um breve balanço de cabeça e combinamos o passeio. Os três saíram e fomos dar um mergulho, sempre com o olhar atento à viagem da pequena caravana, que seguia lentamente, no passo do cansado líder.

Transcorridos uns 10 minutos, ao olhar mais uma vez para conferir por onde andavam, ficamos estarrecidos: o cavalo havia disparado com a pequena amazona e o sujeito, impotente, dava voltas no mesmo lugar, ora olhando para nós, ora para a direção do cavalo.

Saímos da água correndo ao encontro dele, que desorientado retornava para a nossa barraca. Enquanto isso, o cavalo ao chegar no final da praia, ao invés de retornar, dobrou para a praia seguinte e sumiu de nossas vistas.

Foram momentos de desespero.

Na falta de outra ideia decidi correr atrás daquele animal tresloucado e mal iniciei uma corrida desesperada pela areia, ele apontou novamente na praia com a minha filha ainda sobre os arreios, agarrada com as duas mãos na crina do animal.

Parei!

Com o coração mais disparado que o cavalo resolvi aguardar, pois ir correndo ao encontro dele poderia espantá-lo e agravar ainda mais a situação. Eu rezava para que minha pequena suportasse os solavancos da cavalgada até o final.

O cavalo vinha em nossa direção ainda em velocidade. Porém, eu temia que passasse direto e buscasse a outra extremidade da praia. Surpreendentemente, ele veio ao nosso encontro como se atraído pela nossa aflição e travou nas quatro patas ao chegar junto de nós!

A garotinha, heroicamente grudada à sela durante todo o episódio, percebendo o desfecho daquela agonia, atirou-se do cavalo em meus braços e desatou o choro até então contido.

Para mim foi a verdadeira volta do filho pródigo. Abracei-a aliviado e ficamos ali unidos, sentindo a batida do coração um do outro, na segurança da terra firme, ou melhor, da areia firme: ela desabafando sua angústia no pranto e eu me contendo para não fazer o mesmo.

Foi o final feliz de uma história infeliz.

Confiei num sujeito incapaz de realizar uma tarefa tão simples quanto puxar um cavalo manso pelo cabresto. Ou o cavalo não era manso e ele jamais poderia ter nos oferecido para um passeio com uma criança. Seja como for, aquele camarada não era digno de confiança.

A confiança é um sentimento interessante. Quando olhada pelo ângulo mais comum, da relação entre duas pessoas, surgem logo aquelas máximas de que a confiança é difícil de conquistar, mas muito fácil de perder ou que é como um cristal que, uma vez quebrado, jamais se refaz. Ou ainda que não existe maior distância entre duas pessoas que a desconfiança. Também se acredita que para confiar nos outros é necessário ter autoconfiança e não alta desconfiança.

Mas torna-se intrigante quando passamos a observar como funciona a confiança na nossa vida em sociedade. Basta pensar em quantas vezes confiamos em pessoas que sequer conhecemos.

Um exemplo simples é quando vamos a um restaurante e comemos o que nos é servido sem saber que pessoas estiveram envolvidas no preparo do prato. Talvez não pensemos nisso, mas confiamos que os ingredientes estavam frescos e todos os requisitos de higiene foram respeitados. Na realidade, não vimos e não sabemos, mas acreditamos, confiamos e comemos tranquilos, mesmo havendo o risco real de consumirmos um alimento deteriorado. Sabemos que isso às vezes ocorre e pode causar consequências maiores ou menores ao nosso bem-estar e até à nossa saúde. Eu, por exemplo, devido a experiências passadas, em restaurantes e festas passo longe de camarão e maionese — maionese de camarão então, nem pensar…

Assumimos risco também ao pegar um táxi, um carro de aplicativo ou um ônibus. Não sabemos o estado do veículo nem do motorista, exceto pela aparência de ambos — mas as aparências enganam. Ingressamos no veículo e nos entregamos ao dirigir de quem nunca vimos, mesmo sabendo dos elevados riscos e da gravidade dos acidentes de trânsito. E o que dizer no caso de navios e aviões…

Os exemplos são muito numerosos e não pretendo esgotá-los: entregamos o pneu do nosso carro ao borracheiro para um reparo, que se mal feito, pode resultar num acidente de consequências imprevisíveis. Um advogado pode nos levar à falência e um gerente de banco à um grande prejuízo. O que dizer então de um médico que venha a nos atender numa emergência de hospital: entregamos a ele nossa própria vida sem sequer saber seu nome, onde se formou…

Em suma, depositamos confiança em muitas pessoas, todos os dias, sem conhecê-las e quase sem saber nada sobre elas. E é inevitável, porque sem confiar nas pessoas a vida se torna impossível.

É certo que não há lugar para a ingenuidade na vida adulta, campo fértil onde prosperam os golpistas, talvez uma das mais antigas profissões do mundo e de presença marcante mesmo na nossa era digital. Mas ainda é preferível dar um crédito de confiança às pessoas dentro de certos critérios do que passar a vida desconfiando de tudo e de todos. Viver na desconfiança é renunciar à paz. E viver sem paz, vida não é…

Sem dúvida é preciso bom senso, equilíbrio e maturidade ao confiar em alguém que não conhecemos, mas temos que aceitar o risco. Viver é realmente muito perigoso — mal começa a vida e o perigo já está presente.

Diz um famoso escritor francês que a maior necessidade deste mundo é de confiança e amor. Fico pensando que o amor precisa da confiança, mas a recíproca não é verdadeira. Confiamos sem conhecer, quanto mais sem amar. Talvez haja quem viva sem amar, mas não sem confiar.

Enfim, não por nossos méritos ou esforços, mas pelas condições da vida em sociedade, estamos bem mais próximos de confiar uns nos outros do que de amar uns aos outros…

 

Antonio Carlos Sarmento

28 comentários em “CONFIANÇA”

  1. Uma crônica que nos deixa com o dever de casa para refletir e ter o melhor entendimento possivel das várias situações sobre confiança e a complexidade entre amar com confiança já que sem ela ………
    Excelente reflexão !!!
    Parabéns Cacau !!! Abraços
    Adilson Vieira

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    1. Caro Adilson,
      Com muito prazer recebo seu comentário da madrugada. Fico realmente feliz de saber que está apreciando as crônicas.
      E mais ainda que estejam provocando boas reflexões, até porque minha ideia é mesmo escrever “histórias leves e curtas para divertir e fazer pensar”.
      Muito obrigado, meu amigo!
      Abraços e uma ótima semana.

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  2. De onde vem tanta inspiração? Um poço de confiança inesgotável?
    Sim, a confiança que tanto necessitamos vem de nós mesmos e simplesmente a repassamos para outrem por critérios não muito bem definidos.
    Parabéns por mais esta pérola e um ótimo domingo.
    Abraços

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  3. Excelente reflexão irmão!!!
    A confiança é tão essencial como rara…
    Que bom, você é alguém que inspira confiança !!!seu abraço em Tatiana fez ela continuar montando e gostando de cavalo!!!
    Bons galopes!!!!

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  4. Antonio Carlos:
    Eu acrescento: confiança não se impõe, adquire-se.
    Sds. e parabéns pela excelência do artigo.
    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro amigo Carlos,
      Acho que confiança e respeito são, como você comentou, adquiridas em nossas atitudes e comportamentos.
      Grato pelo comentário, meu caro amigo e desejo uma semana calma e com muitas alegrias.
      Abraços!

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  5. Bom dia parceiro! Indo p/ missa e aproveitando o tempo p/ ler a ótima crônica, parabéns! Ótimo Domingo p/ vcs. Beijos em todos

    Enviado do meu iPhone

    >

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  6. Intrigante reflexão.
    Cada detalhe escrito, mostra diversas situações que passamos em nossas vidas e muitas vezes confiamos, arriscamos em diversos setores ou em um simples passeio ,sem pensar que grandes ou pequenas situações podem nos levar para um caminho inverso ao que pretendíamos.
    O amor é essencial, a confiança é traiçoeira em muitas situações.
    Confesso que li mais de uma vez, e que lerei mais outras.
    Recordei situações na minha vida.
    Amar e confiar , são distintos. Será? Acho que sim!
    Parabéns Cacau!

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    1. Querido Chico,
      Eu também li e reli várias vezes, escrevi e reescrevi, pois de fato a confiança merece muita reflexão nossa.
      Obrigado pelo comentário, meu querido irmão.
      Aproveite muito sua férias e desfrute da sua família amada!
      Beijos

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  7. Amigo irmão Cacau.
    Uma das suas melhores crônicas.
    É muito difícil destacar o que de melhor ela nos premia pois todos os seus comentários são perfeitos. Exalto a sua descrição do fato em si mas os comentários consequentes.
    Para não dizer que não escolhi um, fico com o o seu comentário da confiança e o amor.
    Vou parar por aqui mas quando estivermos juntos vamos dissecar essa crônica em detalhes.
    Ela não merece passar em branco. Foi excelente.
    Parabéns querido amigo.

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    1. Amigo Nei,
      Não vejo a hora de estarmos juntos novamente e, tomando um vinho, podermos levar estes altos papos.
      Fico muito feliz de você ter gostado tanto.
      Saiba que na revisão final, inverti a ordem do texto e coloquei primeiro a história e depois a reflexão. Decidi isto junto com a minha revisora (Tati): resolvemos terminar com a questão do amor e confiança, para ter um bom fecho da crônica. E você captou isso.
      Obrigado pelo comentário.
      Fiquem com Deus e tenham uma ótima semana!
      Manda um beijo pra Jaciara.

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  8. Prezado Amigo, Muito bom dia, Bastante interessante o parágrafo final da crônica de hoje: *Enfim, não por nossos méritos ou esforços, mas pelas condições da vida em sociedade, estamos bem mais próximos de confiar uns nos outros do que de amar uns aos outros… * Daí resulta uma bela reflexão. Por exemplo: O que é amar? Recomendações à Sônia e demais familiares.
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    1. Querido amigo JH,
      Realmente este aspecto pode proporcionar muitas reflexões, inclusive a que você propõe.
      Sua simples pergunta dá margem à muitas ponderações e hipóteses. E a gente cresce quando reflete mais profundamente sobre os temas que afetam a nossa vida.
      Grato por comentar, meu amigo.
      Uma ótima semana à você e toda a sua querida família!

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  9. O que gostei nessa crônica (como se exista alguma coisa em suas crônicas que eu não goste…) foi ela nos fazer lembrar de tantos fragmentos de nossa vida onde a confiança é dada sem nenhum pré requisito. E como muitas vezes, nossa ansiedade nos faz confiar, cegamente até, em quem nunca vimos na vida. Somos reféns de nossas emoções. Hoje, mais maduro, espero, coloco Deus entre eu e o recebedor de minha confiança. É bem melhor do que a desconfiança que realmente é um sentimento destruidor. Obrigado, bom domingo e que Deus te abençoe e proteja.

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    1. Caro amigo Luigi,
      Isso mesmo. Quantos episódios em nossas vidas merecem esta reflexão. Mas agora, com a sua maturidade e espiritualidade o nível de acertos deve estar altíssimo!!!
      Mais uma vez obrigado por sempre comentar.
      Um forte abraço e que você e sua família tenham uma semana abençoada!

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  10. Imagino o desespero de vocês!!! Quanto ao fato de confiarmos em quem não conhecemos nas mais diversas situações é melhor nem pensar , caso contrário não se vive. É confiar que tomamos as melhores decisões. Beijão!!!

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  11. Ei Cacau!!
    Quanto mais leio seus textos, mais conheço e admiro meu querido primo.
    E fico orgulhosa de termos a mesma raiz.
    Ótima a abordagem sobre confiança. Nunca aceitei o conselho ” confiar desconfiando”.
    Nessa crônica, você tira a poeira dos valores e põe em evidência princípios que nao têm época nem modismo.
    O dia a dia realmente nos obriga a confiar.
    Dai, lanço uma nova abordagem para reflexáo: confiar e corresponder – perceber a grande responsabilidade de ser uma pessoa confiável: não só nas grandes ocasiões , mas também nos pequenos detalhes.
    Um afetuoso abraço

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    1. Querida prima Gena,
      Seus comentários são sempre muito interessantes.
      O bom é que através das crônicas vamos nos mantendo em contato, o que para mim é fonte de alegria.
      Também sinto orgulho de termos raízes comuns. E muitas lembranças de nossa infância compartilhada e bem vivida.
      Um abraço carinhoso!

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