AO PESCOÇO

Li em algum lugar que o maior problema da mulher que joga futebol é suportar ver outras dez mulheres usando a mesma roupa que ela.

Se há algo em comum entre todas as mulheres e que as apavora, é chegar em um ambiente e ver seu vestido, vestido em outro corpo… É quase como se deparar com a amante do marido! Cresce um ódio visceral e eterno pela “outra”, que se for mais bonita, a faz sentir-se inferiorizada, ofuscada e se for mais feia, produz nela a sensação de que tem mau gosto para se vestir.

Ou seja, não tem saída: a coincidência no vestir é capaz de fazer uma mulher renunciar a qualquer evento social, por mais interessante ou importante que possa ser. Duas mulheres vestidas iguais não é uma coincidência, mas uma penitência!

Felizmente, nunca presenciei um fato destes, nem soube que tenha ocorrido com alguma mulher que eu conheça, mas acho provável que, ao se depararem com a situação, uma das duas ou ambas saiam voando para casa, rezando fervorosamente para que o mínimo de pessoas saiba do vexame. Chegando em casa, imagino que se dedicam freneticamente a rasgar a maldita roupa, picando-a em pedaços bem pequenos e depois, desabafo final, coroar o episódio com uma hora e meia de choro compulsivo.

A exceção para mim, leigo e ignorante de moda, é o vestido de noiva, pois estes me parecem todos iguais. E lindos. Já vou pedindo desculpas antecipadas às leitoras se cometo uma impropriedade com esta afirmação, mas é o olhar de um pobre homem desatento a detalhes, daqueles que não percebem quando sua própria mulher corta o cabelo. Sabiam que existe este tipo? Por incrível que pareça…

O fato é que, para os homens, esta preocupação das mulheres com a roupa é um tanto incompreensível.

Claro, os homens usam uniforme quase o tempo todo. Em eventos sociais então, nem se fala. É sempre aquele terno preto ou azul marinho, uma gravata qualquer e um sapato preto social. Todo mundo igualzinho! E feliz.

Houve um longo período em minha vida profissional em que usei terno para trabalhar. O calor do Rio de Janeiro faz com que muitos homens abominem este hábito, mas eu confesso que me acostumei e depois de algum tempo até preferia usar terno que roupa esporte. Principalmente nas muitas viagens curtas que tinha que fazer, o terno era muito prático, pois bastava variar a gravata e a camisa e estava sempre bem vestido, exatamente igual aos outros.

Ainda tinha certas vantagens. Impressionante a diferença que faz estar trajando um terno. Parece que o homem está fantasiado de “importante”. O tratamento melhora em quase todos os ambientes, seja em restaurantes, serviços públicos, empresas, etc…

Certa vez recebi em casa um extrato de algumas ações que havia adquirido há muito tempo e nem lembrava mais. Para saber alguns detalhes e tentar me livrar delas, dei uma escapulida do trabalho e fomos, eu e meu terno, ao banco onde estavam custodiadas. Ficava próximo do meu local de trabalho, mas nunca havia entrado lá.

Ao chegar parecia uma feira livre: gente por todo o lado, filas enormes para os caixas, um falatório sem fim. Havia três mesas de atendimento e, em cada uma delas, uma pessoa sendo atendida e algumas emboladas atrás aguardando a vez. Olhei para uma das mesas e, para minha completa surpresa, a gerente sorriu e sinalizou com a mão para que eu aguardasse um pouco. Estranhei e esperei.

Ela despachou rapidamente a pessoa que estava atendendo e me chamou, pedindo um momentinho para os que aguardavam. Quando percebeu que eu não tinha conta no banco e queria apenas uma informação, trocou o sorriso por um ar de desprezo e arrependimento e livrou-se de mim ainda mais rápido do que da pessoa que me antecedeu. Foi atraída e traída pela gravata…

Citar esta peça do vestuário me fez lembrar um encontro de trabalho ocorrido um tempo depois deste episódio. Um dos ossos do ofício para mim era ser obrigado a receber e conversar com algumas pessoas desagradáveis. Foi o caso da pessoa que tive que receber no escritório, numa tarde de segunda-feira. Já o conhecia de encontros anteriores e a antipatia era gratuita e mútua.

Qual não foi a minha surpresa quando a porta abriu e o sujeito adentrou minha sala tendo ao pescoço uma gravata exatamente igual à que eu estava usando. Foi um choque! Eu olhava para ele e só via a gravata.

Achei que era de propósito — pessoa insuportável! Depois pensei que seria impossível ele saber que gravata eu escolheria naquela manhã, em minha casa, diante do guarda-roupa.

Por força do trabalho demos continuidade e tratamos os assuntos, fingindo não percebermos aquela peça em volta do pescoço que nos tornava idênticos, quando na realidade era a única coisa que tínhamos em comum.

A gravata nele estava horrível! Como pude comprar aquilo?

Chegando em casa, não rasguei freneticamente o malfadado adorno nem cheguei a derramar lágrimas, mas joguei no lixo e, para garantir, nunca mais comprei nada na loja onde havia adquirido a desventurada peça.

A partir daquele dia, sempre que minha mulher quer um vestido novo para um evento eu compreendo perfeitamente e, num esforço hercúleo, vou com ela até o shopping para ajudar a escolher. E depois comprar uma gravata nova!

 

Antonio Carlos Sarmento

 

31 comentários em “AO PESCOÇO”

  1. Otima crônica, para variar… Meu pai, quando eu era adolescente, usava uma frase que eu repudiava: “O habito faz o monge”. Claro que ele me dizia isso porque eu, como todos os jovens, me vestia pra “causar espanto” , marcar posição. Mas realmente, o terno eu reconheço que nos distingue, mas eu chamava, e ainda chamo, de uniforme de paulista. Sinto-me elegante, mas enormemente desconfortável de terno. Quanto as mulheres, as mulheres… bem não tento entende-las. São muito complexas nos pensamentos, mas amo a minha ha 46 anos. (“O perigo está em contraria-las” tambem dizia meu saudoso pai… ) bom domingo, Deus abençoe voce e sua familia.

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    1. Amigo Luigi,
      Fico contente que a crônica tenha levado a recordar seu pai e seus ensinamentos. Muito bom.
      Agradeço ao amigo pelo comentário, quase sempre o primeiro!
      Desejo uma semana com muita saúde e recheada de alegrias.
      Forte abraço!

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  2. Não tenho nenhuma preocupação se alguém vai estar com a mesma roupa que eu (mesmo que seja “só” a gravata). Ouso ainda dizer que sinto saudade do tempo em que usava uniforme. É libertador não precisar perder nem um segundo pensando no que vestir.

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  3. Garotinho
    Nem me fale…. já passei por isso num casamento na Lagoa, festa linda e aquela sirigaita com vestido igual ao meu,e ainda por cima mais magra, aí foi demais, sensação horrível!!!
    A sorte é que pra ela o incômodo foi maior e se mandou,à partir daí foi possível curtir o evento com tranquilidade!! As mulheres vão me entender….haha!!!!

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  4. Ótima crônica.
    Usei por muitos anos terno para o trabalho concordo plenamente do conforto e da elegância, e além de tudo “ternos abrem portas”.
    Quanto a roupas iguais, concordo plenamente com as mulheres.
    Aconteceu comigo numa festa, um amigo meu estar com a mesma camisa que eu.
    Levei na brincadeira, disse- lhe assim que nos deparamos ” essas liquidações da Richard são f…!” e rimos. Mas saí da festa muito antes do previsto.

    Valeu Cacau!
    Mais um nota 10.
    Beijos

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    1. Chico,
      As aparências importam, mesmo que enganem… E o terno parece passar mesmo esta imagem de importância ou seriedade: grande engano!
      Quanto à sua camisa tem que certeza que era da Richard? Parece mais história da C&A… hahahaha
      Beijos

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  5. Engraçado eu fujo ao padrão, aconteceu comigo no Outeiro da Glória em um casamento, na fila de convidados para cumprimentar os noivos atrás de mim estava uma mulher exatamente vestida com o meu vestido, comprado como peça única. Achei muito engraçado. Até hoje não sei se ela foi pra casa ou para o final da fila. Bjs

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  6. Ótimo texto. Fez-me lembrar de uma única vez em que, num evento, havia uma conhecida com o vestido igual ao meu. Quando ela me viu, fez cara de espanto e raiva! Pediu, entre dentes, que eu não ficasse perto dela. Eu caí na risada (pelo fato e pelo ódio dela), era muita coincidência eu ter comprado um vestido caro no Rio e encontrá-lo em outro corpo num evento em Brasília. Não me senti mal, mas é verdade que nunca mais usei aquela peça.

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  7. Caro Antonio Carlos:

    Sobre o desagradável hábito de usar terno, sofri durante 45 anos de minha vida, usando-o. Mas, fiz uma promessa, depois que me aposentei: jamais usarei tal indumentária. Deixei de frequentar aqueles ambientes, onde o terno faz parte da “liturgia do cargo” e é exigido de quantos adentrem nos respectivos ambientes. Acho que deu para você entender sobre o que estou me referindo !!!

    Sds. parabéns pelo artigo.

    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro amigo Carlos,
      Me lembro de vê-lo sempre de terno, formal. Quando o vi num evento automobilístico, de roupa esporte e sendo chamado de Carlão, descobri um outro lado do amigo.
      Agora deve andar de bermudas e sandálias havaianas o dia todo… hahahaha
      Grande abraço!

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  8. Meu amigo pelo número de ocorrências vc vê que duas mulheres usando roupas iguais num mesmo local é mais comum do que se pensa. Aconteceu comigo num restaurante em Brasília ( felizmente eu havia chegado antes). E todos os olhares se voltaram para mim quando ela entrou. Como já estava sentada , não tive maiores problemas. Um caso famoso em Brasília foi na posse do Presidente Costa e Silva em que duas socialites estavam com vestidos “exclusivos” iguais. Um comprado numa butique com preços conhecidamente elevados e o da outra comprado fora de Brasília.Já voltou? Beijo grande.

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  9. Kkkkkkk… foi uma surpresa pra mim você não gostar de alguém gratuitamente. Mas entendo perfeitamente a implicância com a gravata. Hihihihi… adoro suas crônicas sempre bem humoradas.

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  10. Parabéns mais uma vez amigo.
    Assunto sempre atual principalmente para as mulheres…
    Não tive esse problema…
    Acho que desde que nasci só usei uniforme. Na escola e na vida militar todos tinham que ser todos trajados da mesma forma…
    Eu gostava disso. Minhas fardas eram cuidadosamente preparadas pela Jaciara e fazia pressão nos penduricalhos e balangandãs que usava… Bons tempos…
    Bom domingo querido amigo.

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    1. Amigo Nei,
      Peço licença para usar “penduricalhos e balangandãs” em uma crônica no futuro. Pode ser?
      Bom que para você a farda não foi um fardo. Pelo jeito até gostava.
      Uma ótima semana meu amigo querido!
      Volto hoje ao Brasil em busca da vacina, depois de 5 meses por aqui.
      Beijos!

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  11. Olá Antônio Carlos!
    Ótima crônica!
    Usei terno por mais de vinte anos e realmente faz a diferença em vários locais, ou seja, o tratamento é diferenciado.
    Esse negócio de roupa de mulher para qualquer evento é algo muito sério. Imagine após tanto trabalho para escolher/comprar uma roupa e depois ver alguém vestida igual a você. Meu Deus!!!
    Abraços.

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  12. Adoro o bom humor de suas crônicas. Nunca aconteceu comigo, mas penso que hoje,
    não faria muita diferença para mim.

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  13. Prezado Amigo, Muito boa noite, ” ver seu vestido, vestido em outro corpo. . .” e ” Foi atraída e traída pela gravata…” Você é um gênio!!! Recomendações à Sônia, à Tatiana, ao Jean e ao Gui.

    Livre de vírus. http://www.avast.com .

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    1. Caríssimo amigo JH,
      Seus comentários são impagáveis. Como já disse, fico só esperando para ver o que lhe chama a atenção.
      E às vezes até adivinho, como o “atraída e traída”.
      Grande abraço, meu querido amigo!

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  14. Nunca gostei de usar terno mas já comprei para ir a formaturas e logo o abandono. Ele fica até triste. Mulheres a mulheres, já aconteceu com uma das minhas filhas ão chegar a uma festa de 15 anos ela veio correndo pedir para que a levasse para casa pois tinha uma mulher com sua cópia de vestido. Eu fui pois do jeito que ela ficou… só ocorrendo.

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  15. Querido primo,
    Sempre soube que esse tema gera embaraços e risadas. Mas filosofia, só O Cronista Cacau consegue : ” Parece que o homem esta fardado de importante”. Essa frase dá muito o que falar – inspira uma crônica
    Já aconteceu comigo estar com o mesmo sapato de outra pessoa. Eu lhe disse que ela tinha muito bom gosto. Rimos juntas.
    Seus textos, leitura sempre bem- vinda.
    Beijo

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    1. Querida Gena,
      Aceito sua sugestão e vou pensar numa crônica sobre o vestir e seus reflexos…
      Sua história com os sapatos foi das mais leves: muitas mulheres, por aqui, pelo Facebook e pelo Whatsapp relataram histórias com vestidos mesmo, bem piores. hahahaha
      Beijos

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