O PRESENTE

Comecei a escrever com um tema em mente, mas diante do teclado a indisciplinada inspiração recusou-se a entregar-me até mesmo a primeira frase.

Fiquei naquele escreve e apaga e logo entendi que, com a proximidade do meu aniversário, a inspiração queria falar sobre isso. Já aprendi que é inútil tentar contrariá-la.

Escarafunchei a memória atrás de um aniversário marcante, uma comemoração que tenha sido especial, um presente inesquecível, algo realmente significativo. Procurei por datas redondas ou idades tradicionalmente mais importantes como 15 anos, 50 anos, mas parecia haver uma neblina embaçando minhas lembranças.

Ocorreu-me então que, na infância, cada ano é um espetáculo, com muita festa e emoção. Até há pais que, no início, comemoram uma vez por mês e não uma vez por ano. Aí chega a vida adulta e a efeméride só ocorre a cada dez anos. Mas, felizmente, na velhice repete-se o ocorrido na infância e cada ano é motivo de grande júbilo, com homenagens e celebrações. Sei que não é viável, mas eu queria que no meu último ano de vida, assim como foi no primeiro, também fossem comemorados os meses… O mesmo ritual na chegada e na partida.

Minha mente, misteriosa e descontrolada como a de todos nós, me trouxe agora a lembrança de um aniversário há muitos anos. Caiu numa quarta-feira e me lembro que tirei o dia de folga — aliás, deveria fazer parte da declaração universal dos direitos humanos que todos têm o direito de não trabalhar no dia do seu aniversário.

Naquele ano escolhi um presente especial: levar a mim mesmo para um passeio. Simples assim: ir sozinho desfrutar de momentos junto à natureza. Escolhi fazer uma trilha, das muitas que existem no Rio de Janeiro e subir a bela montanha da Pedra Bonita, vizinha de outra ainda maior, a Pedra da Gávea.

Era preciso ir de carro até um certo ponto e ali ingressar na trilha que leva ao topo. No percurso de carro nada a registrar, apenas o infernal trânsito nosso de cada dia. Mas logo nos primeiros metros da trilha, ao me sentir só, no silêncio encantador dos sons da natureza, em meio a árvores e pássaros, fui tomado por uma sensação diferente. Há quanto tempo eu não ficava absolutamente só. E comecei a experimentar um enorme prazer nesta solidão por opção.

Fui caminhando e pensando que o desejo de ficar só é quase sempre malvisto. Parece um desamor pelos outros, quando na verdade é um amor por si mesmo. Parece coisa de gente fraca, quando fraco é o que precisa o tempo todo dos outros. Parece prepotência quando é sinal de  independência. Enfim, parece solidão, quando é de fato comunhão.

Segui pelo caminho, que alternava trechos mais abertos, de espaços livres e outros mais fechados pela vegetação. Quase toda a trilha é inclinada, pois afinal trata-se de subir uma montanha, porém sem riscos de abismos ou perigos. Muito mais uma caminhada que uma escalada.

Pode parecer estranho, mas a Pedra Bonita assemelha-se a uma mulher careca com vestido de noiva. No topo é lisa, pedra pura, rocha aparente, no formato de uma cabeça chata. Abaixo desenrola-se um manto bordado, composto de árvores de diferentes tamanhos e cores, arranjados com arte pela mão divina. Na camada interior, muitas anáguas de vegetações menores, algumas mais cheias, outras rasteiras, todas igualmente belas, dando corpo à mata de núpcias. E para completar, os adornos dos pássaros e pequenos animais que, como joias, embelezam de modo inigualável o conjunto. E eu ali, o noivo, o único, que a tudo observava com deslumbramento e paixão.

Uma frase do José Saramago diz ser necessário andar muito para se alcançar o que está perto. E foi exatamente assim. Andei muito e no caminhar fui passeando pelo meu interior, recordando passagens, fazendo avaliações, reconhecendo graças, recapitulando alegrias e tristezas, formulando planos e tomando decisões para o futuro.

Segui determinado até o topo. Ali, no enorme platô de pedra, liso e limpo, apreciei a paisagem indescritível. Tal qual um piolho naquela imensa cabeça, cruzei toda a extensão, andei e corri, fui e voltei, senti as reentrâncias e saliências do relevo. Com a alegria e curiosidade de uma criança, explorei toda a pedra até que, para o ato final, sentei-me bem no centro e ali fiquei, com o céu na cabeça e rodeado pelo cenário mais perfeito que poderia desejar. Realmente uma pedra bonita!

Daí em diante passei a fazer uso mais constante daquele presente de aniversário, pois foi uma experiência que merecia ser repetida muitas vezes. Com o passar da vida, a gente vai deixando essas coisas para quando é possível, e não para quando é desejável. Basta querer e o possível logo se apresenta.

Talvez por isso eu me lembre com tanta força daquele aniversário. Não recordo se teve bolo, se cantamos parabéns e o que comemos. Mas me lembro que estive comigo. E que este presente, passou a ser um encontro marcado.

Há uma frase de Goethe sobre isto:

Entro em mim mesmo e aí encontro um mundo.

Este mundo é como um mergulho em águas escuras, onde não se enxerga, mas se sente. E como é sublime sentir a si mesmo!

Antonio Carlos Sarmento

41 comentários em “O PRESENTE”

  1. Mais do que uma crônica, foi uma declaração de amor a si mesmo e a Deus. Assim li e reli sua crônica de hoje. Antes de qualquer coisa, um felicíssimo aniversário e que Deus sempre te abençoe. Me lembrei de um livro que li ha anos chamado “Confesso que vivi” do grande poeta chileno Pablo Neruda. Se não o leu, sugiro que o faça. Hoje voce escreveu um poema em forma de crônica. Parabéns a nós tambem que temos a alegria de te-lo como nosso cronista particular.

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    1. Caro Luigi,
      Vou seguir sua sugestão e ler o Neruda que indicou.
      Agradeço suas gentis palavras e saiba que sempre aguardo com expectativa seus comentários. É muito bom escrever e de pois ter este retorno de leitores generosos como você.
      Um grande abraço Luigi e desejo uma ótima semana a você e sua família!

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  2. Caro amigo, tenho muito a agradecer por suas crônicas, visto que em todos os domingos vc me ajuda a matar saudades de nossa terra, dando um passeio pelo RJ, todos os domingos vc tem me ajudado a ter boas lembranças de todos os anos em que aí morei.
    Agradeço por poder todos os domingos dar um bom passeio.
    Forte abraço

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    1. Celso,
      Não sei onde mora atualmente, mas de fato o Rio de Janeiro tem encantos que ficam na memória e deixam saudades a quem aqui já viveu.
      Espero que, onde quer que esteja, possa também desfrutar das belezas do local.
      Fico contente de saber que as crônicas te ajudam a aliviar as saudades.
      Grande abraço!

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  3. Caro Amigo, Muito bom dia, Conhecer a si mesmo é o resultado dessa penetração em nosso mundo interno . . . Muitos de nós já conhece esse mundo interno, mesmo não fazendo trilha em direção à Pedra Bonita . . . A sua experiência, demonstrada em suas crônicas, revelam que você conhece seu mundo interno e, se me permite, sugiro-lhe que se mantenha, sempre, ligado a ele, eis que é a fonte onde você saciará sua sede pelo “viver” pleno, saudável e feliz . . . Muito agradecido, mais uma vez . . . Recomendações à Sônia e demais familiares.

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  4. Meu amigo e irmão, hoje li cedo a sua crônica e lhe agradeço muito por ter me ajudado a compreender um detalhe na vida do meu filho Rodrigo! Como você sabe eu separou-se da esposa há uns quatro anos atrás e só agora tomamos conhecimento da vida de casado que ele levava, em função da doença da ex-esposa que tem pelo menos três doenças mentais e não quer se tratar, e agora ele está casado novamente com uma pessoa maravilhosa e que lhe ajudou muito nesta ocasião. Maas vamos deixar de falar das coisas ruins e vamos ao que interessa. Bem, de uns dois anos para cá ele resolveu fazer trilhas, no início bem leves e agora mais pesadas, além de continuar pedalando muito (ele possui duas “bikes” ótimas para velocidades e tem dias que ele pedala 100 km e é muito comum isso). No ano passado ele foi oito vezes a Pedra da Gávea e a Pedra Bonita, lá no topo final, a ultimazinha pedra mais alta que tem lá, e ainda por cima manda fotos para a mãe, que fica sempre apavorada com os feitos dele e medo que aconteça alguma coisa com ele. E lendo a sua excelente crônica de hoje entendi por que ele hoje é uma pessoa feliz, graças ao Bom Deus! Chegou na nossa casa na época da separação muito gordo e tomando remédios para depressão! Hoje ele é um atleta, magro e feliz, que é o que nós pais queremos para os nossos filhos. Mas eu cometo o erro de criticá-lo nesta aventuras “malucas”! E lendo a sua crônica entendi o que é ficar “consigo mesmo”! Não vou falar mais nada para ele sobre estas escaladas! Como sempre você está sempre ajudando-me! Muito obrigado meu amigo/irmão! Não esquecerei o seu aniversário na próxima semana, dia 25! Caramba! Acho que escrevi uma pequena crônica, embora um pouco triste e chata! Um beijo na Soninha e um grande e afetuoso abraço e fiquem com Deus!

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    1. Meu querido amigo e irmão Aylton,
      Seu comentário me traz grande alegria. Jamais imaginei ao escrever que poderia ser bom para você e Regínia compreenderem melhor o Rodrigo e sua atual fase da vida.
      Seu comentário está longe de ser triste e chato. Pelo contrário é interessante e me senti gratificado por ter escrito o texto.
      Desfrutem da temporada aí em Campinas e tenham uma ótima semana.
      Envio daqui um grande abraço à você, Regínia e também à Rosana e Artur, além de um beijo carinhoso em sua neta!
      Fiquem com Deus!

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  5. Antonio Carlos,

    Você se deu um belo presente de aniversário, quando se encantou com a caminhada realizada até a Pedra Bonita.

    Que você possa desfrutar deste maravilhoso prazer, por tantos e muitos aniversários que ainda estão por vir, graças a Deus.

    Sds. deste seu assíduo leitor.

    Carlos Vieira Reis

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  6. Bom dia cunhado. Mais uma crônica maravilhosa. Realmente tirar o dia do aniversario pra curtir sua própria companhia é muito bom. Parabéns. Bjos

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  7. Querido amigo.
    Desculpas por não ter comentado sua última crônica…
    Nunca fui entusiasta de motos e minhas observações não seriam nada interessante. Podia até ser atropelado por uma ao longo escrita.
    Muito linda a filosófica crônica de hoje. Você como sempre nos enriquecendo com seus exemplos e experiências pessoais.
    Não guardo boas lembranças de meus presentes nos meus aniversários. Pela minha infância muito difícil e como adulto perambulando por vários estados os presentes foram escassos…
    Mas fica na minha lembrança o esmero que minha mãe preparava os enfeites da mesa do bolo… Eram às vezes meses de trabalho e curtição. Hoje em cinco minutos você resolve numa casa de festas…
    Parabéns amigo por mais essa bela crônica e você está cada vez melhor. Dia 24 está próximo e aí pessoalmente ouvirás de muitos, justas e sinceras palavras. Abrs.

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    1. Querido amigo Nei,
      Como sempre bem humorado e com observações interessantes.
      Sei um pouco de sua infância e das dificuldades que enfrentou, que felizmente resultaram numa vida plena e feliz, com uma maravilhosa família.
      Se me cumprimentar pelo aniversário no dia 24 será com certeza o primeiro a fazê-lo, pois ainda estaremos na véspera. hahahaha
      Obrigado pelas generosas palavras.
      Abraços e manda um beijo para a Jaciara!

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  8. Que poesia meu amigo. Não sou de fazer trilha mas gosto muito da minha companhia e, nesses tempos de pandemia, é uma benção! Beijão antecipado pelo aniversário e ligo no dia 25.

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  9. Escolher ficar só, não é realmente estar só. Escolher ficar só num dia de anos é estar num frente-a-frente connosco para tentar fazer um ponto da situação. De preferência sincero, eventualmente doloroso, mas importante, porque nesse dia tem sempre outra força e significado.
    E felizes os que podem escolher ficar sós! Há por aí tantos sós sem escolha, não é?
    Ter a natureza como palco desse encontro interior é quase perfeito. Daí também essa doce recordação que ficou no António e que certamente se consolidou em posteriores aniversários. Desejo que o dia de anos que se aproxima seja a gosto: com boa companhia interior…e bem acompanhado!
    Saúde!

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  10. Querido amigo, como sempre suas crônicas me levam a refletir sobre minha vida.
    As vezes precisamos ficar sozinhos para um mergulho no nosso interior e recuperar as forças físicas e espirituais.
    Obrigado pela poesia semanal.
    Um forte abraço.

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  11. É muito interessante a solidão, ela é prejudicial em grande parte, porém tem pessoas que se sentem bém e esse é meu caso também. Parece uma viagem para o interior e logo nos sentimos muito bem.

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  12. É a luta do monge tibetano que vive adormecido contra os desejos de gula dos nossos sentidos que tradicionalmente nos trouxeram até aqui e se bem estimulados, prologarão a aventura humana no universo.
    Mais uma opção, enfim, dentre outras que por vezes temos que experimentar para nos sentirmos mais humanos, elevados e próximos as nossas origens superiores.
    É uma das maiores expressões de nossa dualidade humana.
    Abraços primo e que continue a nos inspirar com pequenas crônicas a acordar para o universo que são as pequenas coisas do nosso cotidiano.

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  13. Meu querido Irmão, linda sua crônica.
    Também me presenteio com esses encontros marcados comigo mesma, mas vou de carro. Tenho esse prazer de pegar o volante e ir na minha direção desfrutando da minha companhia. Retorno feliz.

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  14. Querido Parceirinho!
    Como sempre,bela crônica aliás, falar e viver com a natureza só nos faz estar mais próximos de nós e de Deus.
    Gosto de trilhas e adoro corridas porém, sou um pouco diferente de você, NÃO GOSTO DE ESTAR SOZINHO, preciso estar sempre conversando e saboreando as palavras com alguém.
    Parabéns!!!!

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  15. Querido Cacau, excelente crônica.
    Os maiores presentes de aniversário estão no nosso sentimento interior.
    Por diversas vezes em aniversários fico imaginando a emoção do aniversariante, na hora do parabéns ou até mesmo o que pensou ao ao acordar, é sempre um momento reflexão , em lembranças do passado, em desejos do futuro, e do que representa aquele dia.
    Quando criança pensamos nos presentes é na festinha, mas após uma certa idade a emoção muda e a representatividade de um gesto, ou de um momento só seu, passa a ser diferente.
    O importante é agradecer por maus aquele ano e contemplar o belo, seja o que belo for.
    Geralmente a emoção aflora nesses mágicos momentos.
    Desde já um Feliz Aniversário!

    Bj
    Chico

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  16. Parabéns pela crônica, primo!!! Em alguns momentos, gosto muito de ficar sozinha para colocar a vida em ordem…mas a praia é meu local preferido para ficar em minha companhia….bjs

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  17. Ei meu primo!
    Quando li sua crônica, no domingo, pude imaginar perfeitamente o grande presente que deu a si mesmo. Também já tive momentos de profunda interação com a perfeita obra de Deus, o que inspira essa grande viagem interior, numa intensa comunhão com o Divino.
    No dia seguinte, cheguei em Pernambuco, para matar a saudade de Samuel. E aconteceu o oposto: ignorei meu interior, minhas vontades e reflexões e fiquei totalmente envolvida com quebra- cabeças, esconde -esconde e todo esse vocabulário dos cinco anos.
    E ouvi de João, de 3 anos, numa chamada de video a Vitoria:
    Quero vovó de volta!
    Dai, pensei: estar em nossa própria companhia ou saborear essa doce presença – momentos antagônicos, mas ambos ricos presentes que temos o privilégio de usufruir.
    Ja preparando um afetuoso abraço para amanhã.
    Beijo

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    1. Oi prima,
      Realmente não dá para pensar em ficar sozinha quando você tem a oportunidade da presença de João ou do Samuel.
      Mas tenho certeza de que valoriza seus momentos de introspecção, como por exemplo, em suas orações.
      Muito obrigado por comentar, minha prima.
      Beijos

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  18. Querido Amigo Antônio Carlos, adoramos saborear todos os domingos e, este em especial, foi muito inspirador pela belíssima idéia de adentrar a natureza para celebrar o dom da sua vida mergulhando no seu mais profundo interior onde se encontra o nosso querido Deus…que nos conduz e nos permite recordar maravilhas como esta lembrança inesquecível deste dia tão longe e tão presente…um verdadeiro presente de aniversário…com o nosso abraço bem apertado…Armando e Valéria

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    1. Queridos Armando e Valéria,
      Com muita alegria recebo os comentários de vocês.
      Fico contente que continuem acompanhando as crônicas aos domingos, mesmo em terras distantes.
      De fato, ficou uma lembrança inesquecível deste dia: a sensibilidade de vocês captou exatamente o meu sentimento.
      Um grande e saudoso abraço ao queridíssimo casal e toda a sua família!

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