ADESTRAMENTO

Eu tenho implicância com a palavra adestramento. É uma das poucas que não me agradam na língua portuguesa. Para começo de conversa, acho a pronúncia complicada. Exige um certo malabarismo da língua contra o céu da boca. Um estrangeiro, por exemplo, está praticamente impedido de exercer o ofício de adestrador em países de língua portuguesa pela simples impossibilidade de pronunciar sua profissão. Eu mesmo, após uma ou duas taças de vinho, já faço a transição para adrestar ou coisa parecida. Ou seja, quando bebo evito usar este verbo. E quando não bebo também.

Depois, acho o significado de adestramento um tanto confuso. Embora os dicionários indiquem como sinônimo de educar, ensinar, instruir, formar ou treinar, eu acho que só deveria ser usado para animais. Isto porque, para mim e aí é muito pessoal, adestrar transmite uma sensação de algo um tanto limitado, destinado apenas a preparar para um comportamento específico. E isto é bem diferente de, por exemplo, educar ou formar, que tem um sentido muito mais amplo, este sim compatível com a grandeza da mente humana.

Certa vez, no trabalho recebi um colega com uma nova e revolucionária proposta de trabalho, segundo ele mesmo. Na ocasião, tínhamos muitos funcionários e para prepará-los era preciso muitas horas de aulas e exercícios práticos. O tal colega havia mergulhado detalhadamente nos programas de formação de pessoal e, de modo bem objetivo, retirou tudo que não fosse orientação específica sobre cada atividade. Assim, informações sobre o contexto do trabalho e sobre outros equipamentos que não seriam diretamente operados por aquele funcionário, foram eliminadas. Cada um, segundo a proposta dele, só iria conhecer aquilo que lhe cabia fazer, estritamente.

Era quase como no filme “Tempos Modernos” de Chaplin, onde o operário apertava o mesmo parafuso, na mesma peça, o dia inteiro, sem sequer ter noção do que estava sendo fabricado e muito menos da fábrica como um todo.

Contei a ele a famosa história de uma grande obra, com muitas frentes de trabalho, onde um viajante pergunta a três operários:

— O que você está fazendo?

— Assentando tijolos — respondeu o primeiro.

— Fazendo uma escada — afirmou o segundo.

— Construindo uma catedral — disse, finalmente, o terceiro.

O colega ficou me olhando, pensativo, mas inconformado. É sempre difícil rejeitar uma ideia quando seu autor está apaixonado por ela. Tive que encerrar a conversa e disse-lhe:

— Talvez aí esteja a diferença entre formação e adestramento. Não adianta limitar o tempo e limitar ainda mais a pessoa.

Aquela proposta foi para o arquivo e desconfio que seu autor nunca me perdoou. Talvez porque ele não tivesse passado por uma experiência que vivi muitos anos antes e que agora me volta à memória.

Fui acompanhar a visita de um amigo a um canil. Ele estava pesquisando um local para deixar seu cão durante um certo tempo, devido a uma viagem longa e queria que esta estadia fosse aproveitada para moldar certos hábitos do animal. Coisas simples como fazer as necessidades no lugar certo e latir menos.

O dono nos recebeu com um grande cachorro ao lado, preso pela coleira, ambos calmos e receptivos. Eu disse que o cachorro era grande, mas na verdade era enorme — corpulento, seu dorso chegava acima dos joelhos do adestrador e a cabeça era avantajada e amedrontadora. Meu amigo disse o que desejava e ele nos convidou até sua sala, na realidade um pequeno espaço com paredes de vidro em meio ao canil. O cachorro entrou também, tornando o espaço ainda menor.

O sujeito então sentou-se, nós também nos acomodamos e a seguir ele soltou a guia da coleira libertando o cachorro, enquanto repetia algumas vezes:

— Amigo, amigo, amigo…

O animal solto rodeou nossas cadeiras, roçou nossas pernas e ficou gemendo baixinho como quem pede carinho. Afagamos a cabeça dele e eu até já começava a simpatizar com aquele bezerro em formato canino.

Passamos então a ouvir a descrição sobre as maravilhas do método de adestramento utilizado ali. O dono foi citando casos e exemplos, apontando cães e transbordando conhecimentos e competências para convencer meu amigo, que a esta altura estava muito bem impressionado e achando que havia encontrado o que procurava.

Ao final, golpe de misericórdia, o iluminado resolveu fazer uma demonstração e chamou o cachorro pelo nome, apenas uma vez. O cordeirinho de imediato se aproximou e pousou suavemente a cabeça no colo daquele que pronunciou seu nome, atendendo docemente ao chamado.

O infeliz então, abaixou-se, segurou firmemente a coleira com a mão e disse uma palavra no ouvido do cão. Pronto! Parecia que as dez pragas do Egito invadiam a sala simultaneamente. O animal firmou os olhos em nós, ergueu-se nas patas traseiras, arreganhou os dentes e passou a urrar de modo ensurdecedor, ansiando pelo nosso pescoço. Espumava e latia ao mesmo tempo, debatendo-se contra aquela mão que prendia sua coleira. Seu ímpeto era voar na nossa direção para estraçalhar. Lembrei da tal metamorfose ambulante citada por Raul Seixas.

Meu coração disparou e passou a bater na garganta, coisa que até hoje nenhum médico conseguiu me explicar. Meu intestino contorcia-se a cada latido e a bexiga parecia prestes a perder o controle. Os olhos queriam saltar das órbitas e os dentes queriam entrar uns por dentro dos outros. A boca secou como se viesse de uma sede de anos e descobri que sem saliva não se pode falar. Fiquei paralisado e mudo. A sala pequena tremia, não sei se pelo cachorro, se pela minha própria tremedeira. Foram uns 30 segundos de absoluto pavor.

De repente, imaginando fechar com chave de ouro, o sujeito proferiu alguma coisa no ouvido da besta-fera e soltou a mão que o prendia na coleira. Ao constatar isso quase desisti de controlar o intestino e a bexiga.

O animal, como num passe de mágica, voltou à docilidade e veio lamber nossos pés com olhar suplicante e humilde. Fui me recuperando aos poucos, ainda desconfiado daquele comportamento falso, dissimulado, pérfido e caramboleiro.

Assim que a respiração voltou ao normal meu amigo levantou, ansioso como eu para deixar o lugar. Despedimo-nos apressadamente e com grande alívio deixamos o local. Já no carro, parcialmente refeitos, indaguei-o:

— O que achou? Vai deixar seu cachorro aí?

— Não. Definitivamente não.

Aguardei e, após uma pausa, ele complementou:

— Não é admissível violar a natureza de um ser vivo. É excesso de adestramento…

 

Antonio Carlos Sarmento

18 comentários em “ADESTRAMENTO”

  1. Meu Caro Amigo, Muito bom dia . . . Inicialmente, quero desejar-lhe um Feliz Dia dos Pais, em que pese eu entender que uma vez pai, pai para sempre, eternamente mesmo . . . Mais uma feliz abordagem, com um final fantástico: excessivo adestramento . . . Me desculpe, mas não é o adestramento que é excessivo, são os conceitos do homem, aliás, “tudo” em excesso é prejudicial; para saber a medida certa, eu entendo que se deva estar atento aos movimentos da natureza, aos movimentos de tudo que nos rodeia e, principalmente aos nossos movimentos internos e aqueles que exteriorizamos . . . Recomendações à Sônia e à família de além mar . . .

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    1. Caro amigo Jorge Haroldo,
      Retribuo desejando também que o amigo tenha comemorado o dia com seus filhos e, claro, com a Catarina!
      Acho que você tem razão: o excesso vem do homem e é sempre prejudicial.
      Obrigado por comentar e desejo uma excelente semana!
      Abraços.

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  2. Prezado Antonio Carlos:
    Inicialmente, bom dia e meus parabéns pelo “dia dos pais”.
    Realmente, a sua experiência com cães adestrados parece que não foi das melhores.
    Prefiro os meus 04 “cachorrinhos”, que não são adestrados, mas muito educados e civilizados. . .
    Parabéns pelo excelente artigo.
    Sds. do seu assíduo e matinal leitor,
    Carlos Vieira Reis

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    1. Meu caro, assíduo e matinal leitor e amigo Carlos,
      Melhor assim, como seus cachorrinhos: educados e não adestrados.
      Desejo que o amigo tenha passado um dia feliz junto à sua filha e seu neto.
      Uma ótima semana!
      Abraços.

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  3. Não adianta limitar o tempo e limitar ainda mais a pessoa. Essa foi a frase que mais me tocou nos seus comentários. Não gosto dessa palavra nem para os animais quanto mais nos humanos. O animal adestrado sempre exige uma recompensa ao final da tarefa cumprida. Nos humanos ela é totalmente comercializada. Parabéns pela crônica e também pelo Paizão que você é. Hoje pela manhã pedi desculpas aos meus filhos pois dos 365 dias do ano que são inteiramente dos filhos tiraram um dia para ser dia dos pais. Parabéns amigo.

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    1. Amigo Nei,
      Achei que iria discordar da crônica, pois nos meios militares se usa muito a palavra adestramento.
      Mas vejo que tem uma opinião mais próxima da minha.
      Parabéns pelos dois filhos e cinco netos! E no dia dos avós peça desculpas aos 5 por subtrair-lhes um dia por ano…
      Grande abraço e manda um beijo pra Jaciara!

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  4. Você tem é história, heim, Cacau! Hahahaha… que susto, gente! Ninguém merece torturar o outro só pra provar que seu método funciona.

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  5. Todo cuidado é pouco quando se trata de seres irracionais ,o que muitas vezes é confundido por alguns ….
    Adestramento só das más inclinações!!!Rsrsrs…
    Parabéns ao PAI com alma de MÃE, meu irmão querido Cacau!!!!

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    1. Minha irmã,
      Este episódio ocorreu na companhia do Luiz Eduardo. Quando ele leu lembrou do fato: sabia o nome do sujeito e até o nome do cachorro!
      Contou que alertou o adestrador sobre o risco de, um dia, o cachorro não obedecer e as consequências seriam trágicas. Não se pode confiar tanto em seres irracionais, como você mencionou.
      Beijos!

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  6. Só tenho um comentário: ri muito com a sua descrição de pavor e descobri que sua veia humorística é otima o que pra mim, é mais um grande talento seu. Boa semana e Deus o abençoe.

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  7. Querido amigo, parabéns pela forma de narrar!
    Ótima crônica, como sempre.
    Também não gosto dessa palavra, inclusive para os animais.
    Abraços e boa semana!

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  8. Ei Cacau!
    Realmente, palavra opressora essa ” adestrar “.
    Não é educar, não é formar…é subjugar.
    Bom mesmo é risca-la do dicionário e deixar apenas conquistar, ensinar, convencer. Valendo para pessoas e animais.
    Beijo, meu primo. Que coração precioso você tem !!

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    1. Oi minha prima Gena,
      Realmente adestrar soa mais no sentido de subjugar, coisa que não se faz com pessoas nem com animais.
      Mais uma vez agradeço seus preciosos comentários.
      Beijos prima e tenha uma ótima semana!

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