ACÚMULO

Às vezes, do nada, afloram em minha memória histórias de meu pai que eu nem sabia que ainda estavam lá. Parece que certas lembranças remanescem no fundo da memória e as encontro de repente, sem procurar, sem saber como nem por quê. Esta semana, quando fazia minha caminhada diária, emergiu mais uma, que passo a contar.

Na garagem do prédio em que morávamos havia um espaço atrás do carro, uma espécie de recuo entre duas colunas, formando um nicho largo junto à parede do fundo. Meu pai mandou fechar com duas portas de madeira, colocou prateleiras internas e transformou o espaço no que, em Portugal, recebe o sugestivo nome de “quarto de arrumos”.

Aqui no Brasil, em desconsideração à língua pátria e cedendo ao processo de americanização, chamamos de box de garagem. Eu fico com a opção lusitana, muito mais expressiva e rica, mas isto é outro assunto que há de merecer uma crônica no futuro.

O fato é que meu pai, como muitos de nós dentre os quais me incluo, tinha dificuldade em jogar coisas fora e assim ia acumulando e atulhando armários e gavetas com objetos de utilidade duvidosa. Não era nada doentio, maníaco, mas algo feito com naturalidade, corriqueiro, sem traços de anormalidade. É aquele tipo de comportamento que se torna tão comum que acaba sendo considerado normal.

Parece que temos uma dificuldade de discernir o que é útil do que não precisamos. Vem logo aquela traiçoeira ideia de que um dia podemos precisar e, assim sendo, é melhor guardar até ter certeza. Ou seja, na dúvida, adiamos a decisão de doar ou jogar fora e ficamos com tudo ou quase tudo que temos. Portanto, acho que acumulação tem a ver com indecisão.

E assim vamos empanturrando armários e espaços domésticos com um sem fim de tralhas e bugigangas, esperando o dia que nunca chega, em que utilizaremos o que está guardado ou teremos a paciência para finalmente descartar o que não interessa.

Acabei de escrever este parágrafo e lembrei de um colega que mudou de empresa e estava apavorado por ter de arrumar todos os seus papéis e objetos pessoais. Uma secretária muito experiente ofereceu uma solução que ele adorou e adotou de imediato: colocar tudo em caixas sem olhar e, depois que estivesse no novo emprego, veria o conteúdo com calma. Assim fez. Dois anos depois houve a oportunidade de visitá-lo e ao entrar em sua sala fiquei surpreso: lá estavam as caixas da mudança, sem abrir…

Mas voltemos ao caso que mal comecei a contar. Muitas vezes meu pai descia para a garagem dizendo que ia procurar algo no “quartinho” e ali passava um bom tempo em busca de alguma coisa que quase nunca encontrava, até porque aquilo estava muito mais para desarrumo. Posso estar enganado, mas via de regra, acumulação não combina com organização. Não há nada tão difícil de arrumar quanto inutilidades.

No quarto de desarrumos de meu pai jaziam peças de automóveis quebradas, ferramentas velhas, caixas com conteúdo misterioso, brinquedos desprezados pelos filhos, baldes sem alça, latas de tinta usadas, além de uma infinidade de pedaços de madeira, mangueira, cadeira, frigideira, talhadeira, retroescavadeira e outras coisas sem eira nem beira…

Certo dia, a tampa do porta-malas estava aberta e ele fazia um transplante de bagulhos entre o automóvel e o quartinho, despejando ali mais algumas desnecessidades. Voltou-se então para dentro do cubículo por um longo tempo para acomodar os novos cacarecos e demorou-se muito nesta faina infrutífera.

Entrementes, um gato dos que habitavam a garagem, pulou dentro do porta-malas em busca de conforto e aconchego. Meu pai, ao terminar a frívola tarefa, já cansado e provavelmente com a cabeça tão desorganizada quanto o quartinho, sem perceber, bateu a tampa do porta-malas e foi almoçar.

O pobre felino, sem culpa, foi condenado ao cárcere. Em regime de solitária, sem pão nem água.

O final da história poderia ser trágico, mas foi apenas espantoso para meu pai. No dia seguinte, ali pelo meio da tarde, ele voltou à garagem. É provável que a esta altura o animal já tivesse esgotado todas as possibilidades de fuga e, desesperançado, mantinha-se silencioso e exausto.

Quando meu pai abriu o porta-malas ocorreu uma erupção vulcânica. Um chumaço de pelos arrepiados chispou os ares num voo errante, acelerado e desesperado. Aquele gato nunca mais foi visto. Deve ter pedido asilo em algum país do Oriente Médio, bem longe do carrasco que injustamente o fez cumprir uma pena tão rigorosa. Além disso, o pobre animal deve ter adquirido uma aversão à automóvel maior que o mais radical dos ecologistas.

Ao lembrar este caso, na distância do tempo, fico a pensar se a confusão física leva à confusão mental ou se é o contrário. Mas certamente estão correlacionadas. Nossa casa, nossa mesa, nosso carro, revelam um pouco da nossa mente.

Após o pulo do gato, para se recompor do susto, meu pai recolheu-se ao escritório e ali o encontrei para ouvir sua narração do episódio. Enquanto ele contava os detalhes da narrativa, meus olhos correram pela mesa e ali estava uma pequena placa com uma frase da sabedoria popular que ele jamais colocou em prática:

Arrume seu armário, sua cabeça vai melhorar!

 

Antonio Carlos Sarmento

30 comentários em “ACÚMULO”

  1. Prezado Antonio Carlos:
    Tenho bastante identidade com seu pai. Quando morava em Icaraí, tinha um espaço nos fundos das minhas vagas de garagem e o transformei em um gigantesco espaço, com a construção de um gigantesco armário, para guardar o “inservível”, como dizia, na época, minha esposa Leila.
    Mas, pior, foi na hora que resolvemos mudar para o Condomínio, onde moro. O que fazer com as “tralhas”. Problema resolvido, como se trata de uma casa, construí uma dependência externa, muito mais ampla que os antigos armários, somente para guardar “as mesmas tralhas e outras que foram surgindo”, agora aumentadas pelas sobras de materiais de construção e, até mesmo, peças dos meus carros antigos.
    Problema resolvido !!!
    Depois, meus netos e minha filha me chamam de “acumulador”, mas, que, por vezes, se socorrem das “tralhas” para encontrar algo ainda lhes seja útil.
    Um bom dia para você e parabéns pelo belo e inspirador artigo.
    Sds. do amigo e assíduo leitor,
    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro Carlos,
      Eu sabia que você acumulava preciosos carros antigos, mas desconhecia que também se dedicava a outros objetos… hahahaha
      Muito obrigado por compartilhar suas histórias, meu assíduo leitor e infalível comentarista.
      Abraços e uma ótima semana para você e sua querida família, que com certeza acumula afeto e boa convivência!

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  2. Meu amigo querido, sua crônica é o retrato fiel de nossas vidas. Estou passando de um apartamento de 4 quartos para um quarto e sala e, portanto preciso me desfazer de tudo até porque o novo apartamento veio mobiliado e aí vemos quantas coisas temos sem necessidade. Aparelhos que nunca foram usados, na caixa, ainda protegido com isopor; acredita que tinha 15 escovas de cabelo?!?!?! Estou na fase do desapego e ficando com a casa e a alma mais leve. Beijão e saudades.

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    1. Amiga Lucia,
      A crônica te pegou no momento certo, hein? A hora do desapego e de “aliviar a carga” em busca de uma vida mais simples e prática.
      Desejo que a mudança te traga boas MUDANÇAS.
      Felicidades na nova casa, minha amiga!
      Beijos

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  3. Kkkkkkk. Otima crônica. Mas quem de nós não é um pouco acumulador? Quanto ao gato me lembro de uma história, do grande João Gilberto que era chegado a um cigarrinho, hoje nem tão proibido, e que por perfeccionismo ensaiava horas a fio. Uma vez, trancou-se no banheiro (lugar de boa acustica, dizem os músicos) , e junto com o seu gato passou 8 horas ensaiando “samba de uma nota só “ e tomando leite e fumando do tal “cigarrinho”. Após as 8 horas, saiu do banheiro, e juram, que o gato correu e se jogou pela janela, suicidando-se!! “Si non é vero é ben trovato”, como dizem os italianos.
    Bom domingo e que Deus nos abençoe.

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    1. Amigo Luigi,
      A história do João Gilberto, que eu não conhecia, é fantástica! Afinal, um samba de uma nota só por 8 horas desespera qualquer um.
      Mas ele foi um artista espetacular e marcou para sempre a música brasileira e internacional – pena que o gato não viveu para ver… hahahaha
      Obrigado por comentar, meu amigo.
      Uma ótima semana e fiquem com Deus!

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  4. Prezado Amigo, Muito boa tarde, Independente dos fatos e/ou situações narradas, a mania de acumular “coisas” penso que seja universal, fruto, talvez, do egoísmo exacerbado que parece dominar os seres humanos, em geral . . . Recomendações à Sônia e demais familiares.

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    1. Caro amigo JH,
      Sem dúvida o componente egoísmo entra nesta situação. Me recordo do filme Dança com Lobos com Kevin Costner na década de 1990, onde ele convive com índios nômades. Numa passagem do filme, um índio diz a ele que a medida dos bens que possui é exatamente aquilo que consegue carregar nas costas. Hoje cada um de nós precisa de uma carreta lotada para caber tudo que acumulamos…
      Obrigado por seu comentário, meu caro amigo.
      Uma excelente semana e manda um beijo pra Catarina e toda a família!

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  5. Meu avô, um português a quem devo minha educação, a formação do meu caráter e os melhores exemplos de vida, tinha uma máxima que nunca esqueci: “quem guarda o que não presta, sempre tem o que é preciso”. Imagine essa frase com um sotaque português! Torna-se sábia e inesquecível. Passa de um vício, de uma tolice, a uma verdade inquestionável, a uma sabedoria profunda. Esse era o meu avô que, a essa altura, deve estar me orientando e sendo meu intercessor junto a Deus.

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  6. Meu jovem amigo e irmão em Cristo, Antônio Carlos.

    O relato dessa crônica mostra uma realidade presente em nossa sociedade.
    Parabéns!

    Um beijo fraterno no coração dessa linda família de notáveis.

    Oslúzio F. Fonseca

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    1. Meu querido amigo e irmão Oslúzio,
      Sei muito bem que você é um acumulador… de carinho e amor por sua família e seus amigos!!!!
      Muito obrigado por comentar.
      Desejo ao amigo e sua família uma semana de paz e harmonia!
      Abraços fraternos

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  7. Hahaha, como sempre ótima crônica!!!
    Venho de uma família paterna de cumuladores e, às vezes, pela aversão que tenho a tal prática, me vejo fazendo o inverso com um pouco de exagero!!!!
    Bjs, saudades de vocês!

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    1. Oi Kátia,
      Que alegria receber seu comentário. Mais ainda em perceber que se divertiu.
      Você, como a Sonia, são desacumuladoras, né? Ainda bem que vocês existem!!
      Beijos para você, Moisés e suas meninas.
      Muitas saudades…

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  8. Xi meu irmão….
    Segui no contra- exemplo pois sinto um prazer enorme em me desfazer das coisas que não uso e na renovação de energia que os descartes provocam.
    Além disso, abre espaço para o novo!!!
    Quartinho de arrumos, nem pensar…
    Bjkas

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    1. Minha irmã,
      De fato você você não herdou esta característica de nosso pai, sortuda!
      Não me lembro de ter visto nas casas em que você morou – centenas, né? hahaha – um quartinho de desarrumos…
      Beijos minha irmã e uma ótima semana com o Tom!

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  9. Muito boa crônica amigo. Você abordou uma realidade muito comum em todos nós, que varia conforme o espaço disponível.
    Bom também lembrar do seu Pai que, se não estou enganado, gostava muito do mar com seu horizonte distante, onde seus pensamentos navegavam sobre as ondas.

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    1. Amigo Rodolpho,
      Espero que receba esta mensagem para não acumularmos respostas aos seus comentários, como vinha ocorrendo.
      Você bem lembrou: meu pai era apaixonado pelo mar e acho que lá deixava os pensamentos inservíveis e recolhia outros, inspiradores.
      Grato por comentar, meu amigo.
      Uma ótima semana!

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  10. Essa herança de Papai corre intensamente nas minhas veias, e que Acúmulo!
    Ainda bem que tenho um marido que é básico, e sai descartando tudo de inútil que vê pela frente.
    E felizmente não temos nenhum “quarto de arrumos” para entulhar .

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    1. Minha irmã,
      Também corre corre em suas veias e com muito mais força, características maravilhosas de nossos pais.
      Essa aí o Paulo resolve, ou pelo menos atenua…
      Beijos minha irmã e uma semana de paz e felicidade.

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  11. Bom dia, também sofro deste mal como muitos terráqueos.
    E o quartinho eu apelidei de “tuia”, apócape carinhosa de entulhos, e gosto tanto que quando nada mais pode entrar, arranjo outro local para “tuiar” coisas…
    Acumular coisas inservíveis tem algo de deixar objetos que te tragam recordações de sua vida, como um museu pessoal.
    Não ficamos tão dependentes de memórias esparsas e caóticas pois temos ali algumas coisas físicas, reais.
    Tem um pouco também de proteção pessoal pois sabe que tudo pode ser descartado, incluindo você.
    É como pedir uma chance.
    Ahhh, como um leitor também já comentou e uso para me justificar aos meus acusadores, “Quem guarda tem” ditado popular que faço questão de deixar de herança junto com a tuia.
    Abraço e mais uma vez parabéns pela crônica.

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    1. Caro primo Rômulo,
      No seu caso acumular coisas proporcionou criatividade, chegando a criar um novo verbo e um substantivo na nossa língua.
      Eu por aqui vou “tuiando” também, embora sem tanto esmero.
      Grande abraço e uma ótima semana!

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  12. Eu sou o oposto: não guardo nada. E às vezes me pego tendo de comprar uma coisa que eu já tive, mas me desfiz. Meu pai, por outro lado, é dos que guardam. Lembro de uma vez em que mudamos de apartamento e encontramos nas coisas dele peças de carros que ele não tinha já havia décadas.

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  13. .me sinto apenas um pouco acumuladora. Tento me desfazer das coisas que não utilizo há algum tempo.
    Mais uma crônica para refletir 😘

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  14. Querido cronista,
    Ter um ” quarto da bagunça” parece uma tradição entre nosso povo.
    Mas penso que não precisamos de tanto espaço para nos precaver de uma necessidade imprevista.
    Prefiro dar um destino às coisas que não me servem no momento. Com certeza, vão ser proveitosas para alguém ou terão mais utilidade recicladas.
    Porém, apesar de meu estilo prático, meu coração é teimoso e faz de mim uma acumuladora: de doces recordações e de carinhosos amigos.
    Beijos

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    1. Querida prima Gena,
      Seu coração “teimoso” e amoroso só pode mesmo acumular coisas boas. Felizmente, como já escrevi em alguma crônica, o amor não ocupa espaço. Então, pode acumular à vontade, minha prima!
      Obrigado por comentar.
      Beijos!

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