FOGO!

Escapei vivo de um incêndio há alguns anos. Para não fazer suspense, já contei o fim da história. Agora vamos a ela.

Eu estava num hotel em São Paulo, cumprindo mais uma das frequentes viagens a serviço que realizava naquela cidade. Era um hotel grande, prédio alto. Cheguei pelas dez da noite, após um longo dia de trabalho no Rio de Janeiro, desejando apenas uma boa noite de sono. Me destinaram um quarto no décimo segundo andar. Subi e antes das onze da noite já estava dormindo.

Próximo das cinco horas da manhã, acordei com sirenes tocando incessantemente, ferindo meus ouvidos. Alarmado, dei um pulo da cama e fui até a janela em busca de entender o que ocorria. Puxei a cortina de tecido grosso, deslizei a janela e coloquei a cabeça sonolenta para fora.

A cena era dramática.

A rua estava sendo interditada naquele momento em que chegavam uns 5 carros de bombeiros girando luzes e emitindo o ruído atordoante que me despertou. Sempre achei que a sirene era para liberar a passagem no trânsito, mas naquele dia percebi que permanecem ligadas mesmo no destino de modo a colocar em alerta possíveis envolvidos. Descobri que a sirene salva vidas, inclusive salvou a minha.

Demorei a entender que o incêndio era exatamente no prédio onde eu estava. Talvez tenha entendido, mas de início me recusei a acreditar. Fiquei ainda alguns segundos ali, perplexo, paralisado. Uma certa confusão causada pelo sono, pelo despertar súbito. A mente ainda embotada me deixava em dúvida se assistia a um filme ou se era tudo real.

Até que fui tomado por um senso de urgência e, em pânico, corri para a porta do quarto. Não cogitei pegar nenhuma das minhas coisas. Saí para o corredor do jeito que estava, com a roupa do corpo, quer dizer, de pijama. Felizmente eu não durmo nu…

Passei a ser um corredor no corredor do hotel. Descalço, pisando no tapete fofo, disparei em direção ao hall de entrada, notando uma camada de fumaça espalhada pelo teto. Acelerei ainda mais. Percebi umas duas ou três portas de quartos também se abrirem e os ocupantes aflitos entrarem no páreo.

Esbaforido, cheguei ao hall. Havia três elevadores. À esquerda, a porta da escada de emergência, por cujas frestas a fumaça exalava, desaconselhando que fosse aberta. Ao barulho das sirenes, que naquele momento serviam como um poderoso enervante, somava-se o ruído do estilhaçar de vidros que não sabíamos bem de onde vinha.

Encurralado e sem alternativas, pressionei os botões dos elevadores para cima e para baixo, obcecadamente. Era a única esperança. Para minha surpresa eles acenderam, respondendo ao comando.

Tenho a impressão de que sempre que se juntam mais de três pessoas, pelo menos uma é pessimista — a tese se confirmou e um sujeito atrás de mim, sentenciou:

— Já devem ter desligado. Não se usa elevador em incêndio.

Mal acabou de pronunciar a praga, o elevador do centro parou e abriu as portas. Não havia ninguém dentro. Abriram-se as portas do paraíso! Entramos com o coração aos sacolejos, achando bom demais para ser verdade e já apertando o botão do térreo umas 50 vezes.

O derrotista entrou junto e não conseguiu ficar calado:

— Dificilmente vai chegar no térreo. Vão desligar antes. E aí estamos mortos.

Se eu pudesse botava ele para fora.

O elevador fechou as portas e começou a descer como se nada houvesse de anormal. Nunca acompanhei com tanta ansiedade o passar dos andares. Quando cruzou o oitavo andar, sentimos o movimento de desaceleração. Foi o suficiente para mais uma blasfêmia do príncipe do azar:

— Não disse? Vai parar…

De fato, parou no sétimo andar e abriu as portas. A fumaça ali já estava bem aumentada e parte dela ingressou junto com quatro companheiros de infortúnio. Por incrível que possa parecer, o elevador fechou as portas normalmente, sem tomar conhecimento das circunstâncias e prosseguiu viagem.

Chegamos ao térreo com grande alívio e ali os bombeiros imobilizaram o equipamento — era a última viagem.

O lobby estava caótico. Mangueiras atravessavam o espaço em direção a cozinha, de onde havia um frenético entra e sai. No momento meu foco era deixar o prédio, sair da situação, sentir-me a salvo. E, de preferência ficar bem longe do profeta do apocalipse, que após as catastróficas previsões, ainda parecia incrédulo com o sucesso da nossa temerosa viagem.

Fui para a rua, respirar um pouco e tentar acalmar o espírito. Fiquei por ali algumas horas, aguardando que a situação fosse superada, sem saber se poderia voltar ao meu quarto, às minhas coisas.

Na realidade o que houve foi um acidente na enorme caldeira do hotel e, sei lá por que razão, o grande volume de fumaça quente ingressou no vão das escadas de incêndio. Com a alta pressão e temperatura, a fumaça penetrou pelas frestas das portas corta-fogo alcançando os corredores, além de estilhaçar os vidros das janelas devido ao choque térmico. Enfim, era mais fumaça que fogo, porém eu só soube disso horas mais tarde.

Já passava do meio-dia quando a situação foi completamente controlada e nos permitiram, em pequenos grupos, voltar aos quartos para recolher os pertences. Dali fomos transferidos para outros hotéis da mesma rede, encerrando o episódio com grandes prejuízos materiais, mas sem mortos ou feridos.

Ainda hoje me vem a sensação daqueles momentos na rua. Estar só, apenas com a roupa do corpo, despenteado e desesperado, sem banho, sem alimento, sem lenço, sem documento, sem saber se poderia recuperar minhas coisas e como seriam minhas próximas horas. Tinha como certo apenas a incerteza.

O episódio o tempo levou, mas o sentimento de desamparo experimentado ali na rua deixou uma marca indelével na minha alma.

E ele voltou à tona neste fim de fevereiro de 2022 com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Assistindo a guerra ao vivo, vi imagens da fuga dos civis para outros países, deixando tudo para trás e mergulhando na mais absoluta insegurança quanto ao futuro. As sensações que tive e tanto me marcaram no incêndio foram infinitamente menores que as dores experimentadas pelos refugiados de agora. O alívio por ter a vida salva não suprime nem atenua o sofrimento enorme causado pela perda dos vínculos e referências de toda uma vida. Derramei lágrimas.

Peço desculpas ao leitor. Em meus textos procuro mais a leveza e até um pouco de divertimento, mas nas atuais circunstâncias a emoção não me permite evitar o tema. A estupidez da guerra invade todos os espaços e sequestra a alegria.

Fico na profunda esperança de que prevaleça o lado bom do ser humano e logo se chegue ao fim do conflito. Termino lembrando a frase de Eleanor Roosevelt:

Ninguém ganhou a última guerra, nem ninguém ganhará a próxima.

Antonio Carlos Sarmento

18 comentários em “FOGO!

  1. Nunca pensei que na época em que vivemos veria uma invasão de um País estabelecido. Entre muitas coisas que acho estúpida do agir do ser humano, sem dúvida nenhuma a Guerra é uma delas. Que o sentimento experimentado por ti seja o único que teremos e que Deus em sua misericórdia infinita permita que logo acabe essa maluquice sem mais danos a tantas vidas.

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  2. Que bom o teu retorno! Espero ansioso o livro, e também espero que algum amigo do Brasil, em viagem para cá, possa me trazer um exemplar quando for lançado.
    Quanto a guerra, creio ja haver lhe dito que meu pai, italiano, viveu, menino, a II Grande Guerra. Portanto guerra era assunto cotidiano em nossa casa. Mas quando ele falava dos bombardeios a sua cidade eu dizia :”imagino…” ele dizia: “NÃO FILHO, VOCE NÃO CONSEGUE IMAGINAR…” e eu via o assombro que deve ser isso.
    Que Deus conforte o coração daqueles que lá estão e amoleça daqueles que podem acabar com essa atrocidade.
    Bom domingo e que Deus nos abençoe e proteja.

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    1. Caro amigo Luigi,
      Também me alegro com o seu retorno aos comentários, frequentador assíduo desde o início das publicações.
      Ainda não sei como, mas fique certo de que um exemplar do livro chegará em suas mãos.
      De fato é difícil imaginar os impactos de uma guerra, de uma cidade bombardeada. Só rezando pelas pessoas que estão passando por isso…
      Grande abraço e muito obrigado pela presença por aqui!
      Uma ótima e abençoada semana!

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  3. Ótimo texto. Eu também estou me sentindo assim com relação a esta estúpida guerra entre a Rússia e Ucrânia, muito mal, estou sentindo um vazio na vida. É muito triste!! Abraços.

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  4. Quantas histórias você já viveu. Acho incrível e adoro conhece-las. Acabo te conhecendo mais através delas.

    De fato muito triste tudo o que estamos vivendo, especialmente os ucranianos , e em seguida o povo russo, dominado por esse tirano. Oremos.

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  5. Uma nuvem de fumo… uma nuvem de terror….metaforicamente algo negro e difícil que surpreende vidas tranquilas. Felizmente que essa de fumo não teve consequências de maior. Já esta nuvem de terror…é um terror negro, louco, doloroso, inacreditável. O cúmulo do absurdo.
    Algo que, como muito bem escreveu “invade os espaços e sequestra a alegria”……a nós, que continuamos nas nossas casas e seguimos com a nossa vidinha. Mas, e os ucranianos? Como se sentirão?
    Desejo a melhor semana possível…

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    1. Dulce,
      Tanto seu post desta semana como o meu não puderam ignorar esta calamidade da guerra. Uma guerra vista ao vivo, nas nossas salas, dentro da nossa casa. É muito doloroso.
      Ficamos na expectativa de que tudo isso se resolva com humanidade, compaixão e bom senso, o quanto antes.
      Agradeço muito o seu comentário e desejo uma ótima semana!

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  6. Imagino o susto que você passou…

    O título da crônica, FOGO, na atual fase do planeta é no mínimo incômodo. Não tem como desligar do que está acontecendo na Ucrânia e não fazer uma ligação com a crônica. Acredito até que sua inspiração para a escrita tenha sido motivada pelo fato.
    O momento atual é tóxico para nossa mente e coração.
    Rezo para que Deus “abra as portas do elevador” e que a fumaça cesse imediatamente.
    No seu caso foi um acidente compreensível, sem maiores problemas, um susto! Que felizmente acabou bem… O inaceitável é sentir o cheiro da fumaça provocada pelo incêndio de um país em que pessoas de todas as idades, crianças são assassinadas pelo idealismo desumano de um ditador inescrupuloso.
    Inimaginável é a dor e o medo dessas pessoas e as sequelas inevitáveis que acontecerão no mundo todo.
    Rezemos para que se encontre a melhor saída, se ainda possível for.
    Que Deus tenha piedade de todos nós.

    Desculpe, pelo longo comentário, mas realmente estou muito assustado com toda essa desumanidade e sem saber onde isso irá parar.

    Mais uma vez, o homem mostrou que não aprendeu nada.

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    1. Chico,
      Seu comentário acabou classificado como spam e só agora pude localizar.
      Como você bem disse, que Deus “abra as portas do elevador”. A frase do Papa diz tudo: parem com este massacre!
      Bjs e muito obrigado por comentar!

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  7. Olá Antônio Carlos!
    Essa guerra é uma estupidez enorme e a situação de refugiado me deixa muito triste, pelo fato de ver o cidadão abandonado sua pátria e deixando tudo para trás. É horrível.
    Quanto a sua experiência no incêndio do hotel, felizmente terminou bem, pois posso imaginar o desespero das pessoas em um momento como esse.
    Bom retorno!
    Abraços.

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  8. Assitir a atrocidade da guerra em nossas casas e acompanhar por esses pequenos te lados acessíveis aos nossos dedos é doloroso demais. Muita aflição nos passa. Que Deus ampare a todos e ilumine as mentes que detém o poder de terminar o conflito. Como sempre seus textos são claros e agradáveis de ler mesmo que seja um relato de angústia. Faz parte da vida. Graças a Deus foi um desfecho de salvamento. Grande abraço querido amigo e teclado à vista!

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  9. Meu primo,
    O que você nos expôs foi a dor do outro doendo em você.
    Não esperamos leveza nem riso em torno desse tema- só nos inspira compaixão pelas vítimas . E isso tem que nos provocar uma atitude: não podemos abriga-las ou abraça-las, nem mesmo dirigir- lhes uma palavra de ânimo ou de consolo. Mas podemos orar por elas.
    Vejo, ainda, a necessidade de exercitar esse olhar de empatia ao nosso redor. Com certeza, faremos diferença em muitas vidas. E isso está ao nosso alcance.
    Beijo

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    1. Querida prima Gena,
      Sim, a nossa empatia com os que estão sofrendo tanto, faz muita diferença.
      E pensar que nenhuma razão justifica a guerra…
      Vamos continuar em oração pela paz no mundo.
      Beijos, minha prima e obrigado por comentar!

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