SALVADOR

Era o ano de 1978. Pela primeira vez na vida eu fazia uma viagem internacional, enviado pela minha empresa para um trabalho de uns 40 dias na Europa. O prezado leitor pode ficar tranquilo, que não vou atormentá-lo contando sobre pontos turísticos da viagem, coisa que considero entediante. Vou me limitar a um breve acontecimento.

Quando saí do Brasil recebi as passagens, naquela época um verdadeiro documento. Era um bloquinho de várias folhas, impresso em papel especial e cheio de códigos e referências, a maioria dos quais ininteligíveis para um passageiro. Precisava ser guardado de modo tão cuidadoso quanto o passaporte, pois era a garantia do ir e vir.

Recebi também as diárias de viagem pagas pela companhia. Tudo em moeda estrangeira, em espécie, pois naquele tempo inexistia cartão de crédito internacional. Outra coisa para guardar com extremo zelo, pois era a garantia de sobrevivência. Quando recebi aquela bolada, decidi que não tentaria economizar para trazer uma parte de volta, coisa comum entre os colegas. Ora, se eram diárias destinadas ao meu sustento na viagem, que cumprissem a sua finalidade da melhor forma possível e tornassem minha estadia por lá agradável e completa.

Interessante que comentando sobre como eram essas coisas há uns 40 anos atrás, fico com a sensação de tratar-se de um passado remoto, algo quase incompreensível ou inadmissível hoje, lembranças que aparentam ser de séculos anteriores e não vividas por mim mesmo.

Composto o cenário, vamos ao acontecimento. Minha volta ao Brasil estava prevista para ocorrer a partir de Paris. Cheguei ao aeroporto ansioso e ao mesmo tempo entusiasmado com a perspectiva de volta para casa, já sentindo saudades de tudo e de todos.

Eu estava sozinho neste retorno e tentando sobreviver com meus parcos recursos da língua inglesa e quase nenhum da língua francesa. Cheguei muito cedo, mania que possuo até hoje e que é classificado pela minha família como uma espécie de síndrome de antecedência. Era tão cedo que o check-in do voo ainda não estava aberto.

Verifiquei então, quanto ainda tinha de dinheiro vivo e resolvi “queimar” aquele saldo e assim alcançar meu propósito, deixando para poupar em outras ocasiões. Resultado: fui às compras no aeroporto e despendi até o último centavo de que dispunha. Depois adviria um enorme arrependimento deste fato. A falta de experiência limita a sabedoria…

Ao final da farra das diárias voltei ao balcão da companhia aérea e o painel já indicava o número do meu voo. Entrei na fila sabendo que provavelmente seria um dos primeiros, pois faltavam ainda umas três horas para a partida. Quando chegou a minha vez ensaiei um sonoro “bonjour” e entreguei o calhamaço com as folhas que restavam.

A atendente, tal qual um escrivão examinando uma escritura de imóvel, folheou a papelada, digitou algumas coisas, fez um ar de estranheza e desapareceu por uma porta em direção à parte interna. Fiquei ali, já um pouco inseguro, mas sem imaginar o que viria a acontecer.

A moça voltou com a informação de que eu não estava na lista de passageiros!

Recusei-me a aceitar esta informação:

— Ce n’est pas possible, exclamei.

Argumentei que o bilhete documentava minha condição de passageiro do voo. Tinha até o número do meu assento, que eu mostrava insistentemente a ela. A moça estava intrigada, mas limitada pelas informações que dispunha. Voltou a digitar algumas coisas, fez cara de frustrada e novamente sumiu pela maldita porta. Eu agora já não estava inseguro, mas angustiado.

Passado algum tempo, que para mim pareceram horas, ela voltou com algumas folhas impressas em formulário contínuo (outra coisa da idade da pedra) e informou que aquela era a lista de passageiros e meu nome não constava. Ou seja, virou um duelo de documentos: meu bilhete versus a lista de passageiros.

Enquanto isso, a fila crescia atrás de mim. Àquela altura eu era odiado e já recebia olhares enviesados. Ninguém é mais impaciente que uma pessoa aguardando numa fila que para de andar.

A moça percebia a situação e tentava resolver o quanto antes, pois em aeroporto tudo tem hora certa e atrasos causam inúmeras repercussões. Pressionada pelas circunstâncias ela resolveu se livrar de mim. Encerrou meu atendimento dizendo que tinha que se basear na lista e que eu procurasse a agência que emitiu o bilhete em busca de saber o que ocorreu. Devolveu-me o bilhete, chamou o próximo da fila e ponto final.

Fiquei ali, logo ao lado do balcão, confuso, atarantado. Acho que foi uma das vezes na vida em que me senti mais sozinho. E a solidão no momento de desamparo é arrasadora!

Como não sabia o que fazer, fiquei sem fazer nada. Apenas ali permaneci, de pé, parado, catatônico, passivo e negativo, surdo e mudo, rígido como a coluna ao meu lado. Minha cabeça girava como a de um bêbado que não sabe onde está, o que fazer, aonde ir…

A pouca fluência em línguas me limitava, a perda da condição de passageiro me isolava e a absoluta falta de dinheiro me arrasava. Que estupidez ter gastado tudo que tinha.

Pensei em tentar de novo, agora na outra atendente já que havia duas filas. Esta péssima ideia foi a melhor que tive. Quem sabe aquela primeira moça se atrapalhou, cometeu um engano e teimou nele para não reconhecer um erro. Ou apenas antipatizou comigo e arranjou aquela lista de passageiros sabe-se lá como… Pensamentos inconsistentes, fruto do desespero.

Muito bem, mas é melhor um caminho ruim que nenhum, pensei. Dei a volta e entrei na outra fila, ansioso por não chegar a minha vez. Pelo menos assim, eu estava fazendo alguma coisa, tentando de alguma forma resolver uma situação que parecia insolúvel e com consequências que preferia nem imaginar.

Passado mais um tempo, quando já estava quase na minha vez de ser atendido, ouvi um vozerio na fila ao lado. Fiquei atento. Um senhor de uns 50 anos, calvo mas não calmo, esbravejava com a tal moça que havia me atendido. Falava um francês fluente e convincente e, diante da recusa do bilhete, bradava contra a companhia aérea e pedia a presença de um responsável. Foi um alvoroço para todos e uma esperança para mim.

A tal maldita porta abriu-se e fechou-se várias vezes, entrou e saiu gente e, para minha alegria, a confusão se instalou. Eu mantinha atenção máxima aos diálogos e naquilo que meu pobre francês conseguia decifrar. Até que, após muito tumulto, a moça veio com uma nova lista de passageiros e mostrou o nome do passageiro. Pediu desculpas, pois a anterior havia sido inexplicavelmente interrompida na letra “S”. O sujeito tinha o sobrenome de “Salvador”.

Dei um pulo, saí empurrando, mudei de fila, intrometi-me na conversa e proferi num francês sofrível “c’est la même chose”, enquanto brandia o bilhete. “Je suis Sarmento”, pronunciando como se houvesse um acento circunflexo no “o”.

E repetia desmedidamente: “Sarmentô, Sarmentô, Je suis Sarmentô”!!!!

Meu nome era o seguinte da lista, agora completa. Ela sorriu como a pedir desculpas e logo providenciou a ficha de embarque, pondo fim a minha profunda agonia. Saí de lá ainda com o batimento cardíaco acelerado como se tivesse subido correndo uma escada de uns 200 degraus.

Dali para frente segui os passos do meu benfeitor. Aquela careca virou um talismã! Quase lhe pedi umas moedas para comprar uma água, pois estava seco, consumido pelo fogo da aflição, mas fiquei com vergonha…

Aonde ele ia, eu acompanhava. Chegamos à sala de espera junto ao portão de embarque. Ele sentou e eu sentei. Claro, procurei um lugar próximo de onde pudesse acompanhar seus movimentos. A cada dois ou três minutos eu conferia a presença dele. Ficamos por ali, aguardando o embarque e fui me acalmando, certo de que agora tudo iria dar certo.

Passados uns 20 minutos e já se aproximando o momento da chamada para embarque, uma moça com uniforme da companhia aérea entrou no ambiente sustentando na altura do peito uma plaquinha com meu nome escrito e anunciando incessantemente:

– Monsieur Sarmentô, monsieur Sarmentô…

Nem pestanejei.

Me fiz de surdo-mudo. Sei lá que intenção havia em me localizar. Busquei o meu guru com os olhos em busca de orientação, mas ele estava distraído, lendo um livro. Interpretei sua atitude conforme me convinha: ele ignorou, também vou ignorar!

A infeliz ainda mencionou meu nome mais algumas vezes e na falta de resposta retirou-se frustrada, sem poder realizar o embuste por mim imaginado. Aliviei-me, mas não totalmente, pois ainda haveria a verificação final antes do ingresso no avião. O lenitivo mesmo só viria quando sentado no meu lugar, percebesse a decolagem da aeronave.

Quando chamaram para embarque, o ambiente ficou meio tumultuado pois todo passageiro de avião é ansioso. Felizmente, uma cabeça calva é mais fácil de identificar: consegui localizar meu protetor e entrei na fila bem próximo a ele.

Busquei meu lugar, mas sem perdê-lo de vista. Mais alguns minutos e decolamos, pondo fim definitivo ao martírio.

Até hoje fico imaginando o que a companhia queira comigo naquele chamado final. Preferi pensar que apenas queriam ter certeza de que estava tudo certo, que embarcaria normalmente e que o engano cometido não havia gerado maiores transtornos.

A viagem seguiu tranquila e algumas horas depois cheguei em casa. Agradeci muito à Deus. E pude contar à família que estive com o Salvador pessoalmente…

 

Antonio Carlos Sarmento

 

31 comentários em “SALVADOR”

  1. Hahahahahahaha… fiquei rindo sozinho aqui com o “je suis Sarmentô”.. “la meme chose”… perrengue em viagem me identifico! 😂. Excelente relato!

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  2. Sua crônica de hoje foi de: suspense, drama e também de comédia.
    Muito boa!
    Salve o Salvador que te salvou!
    Beijos
    * o restante do comentário deixo lá no Beija Flor.

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  3. Uma bela experiência fora de casa. Me parece que o ambiente em outros países é extremamente propício para armadilhas que no seu ambiente cotidiano você está imune, como se o universo conspirasse para te desafiar, te provar e até, desculpe a expressão, rir de você como se seu anjo protetor estivesse de brincadeira.
    Não existiu nem uma vez que viajei para o exterior e não voltei cheio de histórias folclóricas para engrandecer a experiência da viagem, como se a mente estivesse em um planeta com hábitos completamente distintos dos nossos.
    A única observação que faria seria sobre a careca do seu salvador, já que também sirvo de referência para muitas ocasiões …
    Abração primo e um ótimo domingo de ramos pra você e família.

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    1. Caro primo Rômulo,
      De fato estas experiências fazem parte das viagens. As armadilhas continuam por aí e nosso anjo protetor tem que trabalhar muito para nos livrar dos transtornos e obstáculos.
      Muito obrigado por comentar, Rômulo.
      Uma ótima semana para você e sua família!

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  4. Prezado Antonio Carlos:
    Imagino a intensidade da sua angustia diante do inusitado fato. Mas, ainda bem que tudo foi resolvido satisfatoriamente e você conseguiu, aos trancos e barrancos, partir de Paris.
    Sds. do amigo e assíduo leitor.
    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro amigo Carlos,
      Aprecio muito esta nossa oportunidade de interação semanal.
      Muito bom que você seja tão assíduo na leitura e no comentário das crônicas.
      Muito obrigado, meu amigo.
      Desejo uma ótima semana a você e sua família!

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  5. Que sufoco amigo. Costumo dizer que os dois lugares de maior stress são CTI e aeroporto…
    Imagino a sua angústia e ansiedade principalmente por tratar-se de vôo em outro país…
    Felizmente o careca te salvou… É por isso que sou ferrenho admirador desses seres carentes capilares.
    Achei sua crônica muito tensa para um fim de semana mas melhor do que a da semana passada quando teceu considerações comentários sobre a vida militar….
    Parabéns querido amigo… Abrs em todos.

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    1. Meu querido amigo Nei,
      Sempre me divirto muito com seus comentários. “Carentes capilares” foi demais! hahahaha
      Quanto aos meus comentários sobre a vida militar foram para enaltecer…
      Grande abraço, meu amigo e manda um beijo pra Jaciara!

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  6. Meu querido amigo Antônio Carlos na crônica de hoje imagino o seu susto na hora do embarque! E você era ainda um “garotinho” naquela época, mais ou menos uns 25 anos de idade. Comigo e a Reginia aconteceu bem parecido no aeroporto de Frankfurt, há uns 20 anos atrás, mas a nossa sorte que era no guichê da Varig! Então alguns falaram português! E eu gritava: “somos brasileiros e exigimos uma solução” graças ao Nosso Salvador, tudo foi resolvido! Mas confesso que ficamos meio em pânico! Abraços e bom final de semana.

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    1. Querido amigo Aylton,
      Grande coincidência. Como passou por um sufoco parecido deve ter compreendido bem o que passei.
      Muito obrigado por comentar, meu amigo!
      Uma ótima semana a você, Regínia e toda a família.

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  7. Sarmento, ja ri muito da crônica pois tenho varias das suas manias: se puder durmo um dia antes no aeroporto pra chegar “bem” cedo. Kkkk.
    Mas trabalhei na juventude, na Varig e fiquei pensando se, será que ela não te chamava pra embarcar na primeira classe como forma de se desculpar!!!!????? Ja vi acontecer isso! Kkkkk. Bom domingo, boa semana e que Deus nos abençoe e as nossas famílias.

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    1. Amigo Luigi,
      Já que tocou no assunto, confesso há uns 4 anos dormi no hotel do aeroporto para garantir um voo de retorno ao Brasil que era muito cedo… hahaha
      Quanto ao possível “up grade” é bem possível que você tenha razão. Mas o desespero me fez perder esta possibilidade.
      Uma ótima semana a você e sua família e mais uma vez muito obrigado por comentar. É sempre um prazer esta nossa oportunidade de contato!

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  8. Que cena, felizmente que tudo se resolveu.
    Não tenho duvida que terá ficado bem registada na sua memória e sentir!
    Tenho saudades desse bilhetinho de avião, com folhinhas, duplicado, triplicado…não acho piada nenhuma a bilhetes eletrónicos que dependem de um telemóvel.
    Apenas os compreendo, minimamente, por questões ambientais.

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    1. Dulce,
      Agora as coisas são mais práticas, mas talvez menos românticas…
      Até hoje, de vez em quando chego a imprimir comprovantes para ter as coisas “no papel”, como se assim fossem mais garantidas. Coisas da nossa geração, de quem viveu tantas e tão velozes mudanças tecnológicas.
      Muito grato por seu comentário e desejo uma ótima semana a você e sua família!

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      1. Compreendo, mas…não é uma adaptação fácil. Aliás…por vezes já não apetece adaptar a mais nada e apenas ficar no meu mundinho romântico e cheio de pequenas coisas que se tocam!🙃
        Desejo igualmente uma boa semana.

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  9. Caro cronista de sucesso,
    Todos temos boas histórias para contar de aeroportos. E os detalhes de seu passado remoto ficam singelos diante das filas homéricas de hoje e dos constantes cancelamentos que nos levam a ” divertidos” 40 a 50 min ao telefone, solicitando reembolso.
    Mas fiquei particularmente impactada na primeira frase da crônica:
    Era o ano de 1978. Eu também, pela primeira vez, fazia uma viagem acompanhada pela vida, para uma aventura de uns 42 anos.
    Fique tranquilo que não vou contar os detalhes.
    Era um projeto para ser tratado de modo muito cuidadoso, com extremo zelo, pois isso era a garantia de felicidade .
    Diferente de seu relato, eu nunca estava sozinha e ” queimava” alguns valores que hoje me rendem gratas recordações .
    Aonde ele ia, eu o acompanhava.
    Mas ele chegou na frente no portão de embarque.
    E ” o meu coração, embora finja fazer mil viagens, fica batendo, parado, naquela estação”.
    Beijo, meu primo.
    Ler as crônicas é um prazer; interagir com o cronista, um privilégio.

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    1. Querida prima,
      O privilégio é meu de interagir com você com tanta frequencia, graças à sua generosidade de ler e comentar as crônicas.
      Entendi a sua “viagem” despertada pela citação do ano de 1978. Fiz a mesma viagem dois anos depois e agora chegando aos 42 anos que você referiu. Sei de uma pessoa que, lá de cima, deve estar tomado de ternura e amor ao ler suas palavras!
      Beijos, minha prima querida e uma maravilhosa semana a você, suas amadas filhas e seus encantadores netinhos!

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  10. Que sufoco meu amigo!
    Ainda bem que o Salvador te salvou.
    Essa de torrar a grana toda foi demais, não guardou nem para uma garrafinha de água.
    Ficou o ensinamento e a experiência.
    Naquela época todo cuidado era pouco.
    Ótima e divertida crônica, como sempre.
    Abraços.

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    1. Guilhermina,
      Três leitores comentaram sobre esta hipótese, que até hoje eu não havia cogitado. Pode ser…
      Mas naquele momento eu só queria embarcar e voltar para casa.
      Obrigado por comentar.
      Uma ótima semana!
      Abraços!

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  11. Eu gostei em razão da desconhecida surpresa que surge como uma luz no escuro. Deus não despreza e nos mostra que devemos acreditar que Ele está presente em todos os lugares.
    Parabéns pela bela crônica meu irmão e amigo, Antônio Carlos.

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  12. Meu Pai do Céu! Que aflição!! E que alívio!!Hoje em dia daria um bom caso nas pequenas causas rsrsss… O nome do passageiro careca não poderia ser melhor.

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