NA PONTA DA LÍNGUA

Desde que comecei a escrever, minha atenção à língua portuguesa cresceu muito. Passei a reparar em mais detalhes no uso do português escrito, tanto no Brasil como em Portugal, e a encontrar muita beleza.

Ao ler um texto, além do conteúdo, comecei de modo natural a focar também no estilo, no emprego das palavras, na pontuação e em outros aspectos da gramática. Quanta riqueza na nossa língua!

Mas também a linguagem falada passou a me interessar mais. Tornei-me mais atento às conversas de rua, às expressões informais, aos estrangeirismos e até aos vícios de linguagem.

Interessante como a língua é um ser vivo, mutante. As ruas, a literatura e a cultura em geral dão dinâmica ao idioma: criam novas palavras e expressões, tornam outras arcaicas e o transformam constantemente.

Como meu prazer é contar casos, vamos a histórias linguísticas.

Há pouco tempo, durante minha caminhada diária, passei por dois rapazes que conversavam à distância enquanto varriam junto ao meio-fio, um em cada lado da rua e, portanto, distantes uns 5 ou 6 metros. Claro, o tom de voz tinha que ser alto e assim, mesmo de passagem, pude acompanhar parte do diálogo:

— Ele está bem. Só está com problema no colégio. Aquele negócio de bule — disse o primeiro.

— Negócio de quê? — gritou o outro.

— Bule!!!

— Bule?

— É. Ficam mexendo com ele, implicando com o menino. Isso é bule!

Segui pelo caminho imaginando onde aquele primeiro rapaz teria ouvido a expressão inglesa “bullying”, que recentemente tornou-se popular em nosso meio. Nada contra os estrangeirismos, mas lembrei-me do verbo bulir, de pouco uso hoje em dia, mas que possui o mesmo sentido e quase a mesma pronúncia. É capaz de acabar ressuscitado. Só resta aguardar, pois esta incorporação à linguagem culta é, e deve ser sempre, um processo lento.

Em outra ocasião, hospedado num hotel de beira de praia, eu conversava descontraidamente com a simpática atendente do café da manhã. Em determinado momento, falando sobre a vida e o futuro, ela revirou os olhos e disse:

— Meu sonho é ter um oliscópio!

Eu entendi a pronúncia, ouvi bem a palavra, mas não sabia o que era… Pensei em microscópio, telescópio, estetoscópio, periscópio, mas achei que seria muito estranho ela sonhar com um destes equipamentos.

Não havia como continuar a conversa sem perguntar:

— Você sonha com o quê?

— Quero ter um oliscópio.

Por ignorância, permaneci mudo.

Ela notando a minha perplexidade, olhou para o céu e apontou um helicóptero.

— Um daqueles ali. Oliscópio!

Eu achei o sonho grande demais, mas a palavra me agradou e muito. Por mim mudaria o complicado nome do aparelho: se não oliscópio, pelo menos heliscópio — muito mais sonoro e adequado para a linguagem falada…

Voltei a me deparar com este encontro das consoantes “p” e “t” numa palavra, em uma corrida de carro de aplicativo. Eu voltava para casa depois de um almoço comemorativo e conversava com o alegre e comunicativo motorista. Comentei que havia acabado de passar uma longa temporada em Portugal visitando minha filha. Vamos ao diálogo:

— E por que o senhor voltou, Seu Antonio? Lá deve ser muito melhor.

Uma vantagem do carro de aplicativo é que o motorista sabe o nosso nome e vice-versa. Respondi:

— A minha vida é toda aqui. Sempre morei no Brasil. Mas aos poucos irei me adaptando e no futuro pode ser que acabe ficando mais tempo por lá.

— Que isso, Seu Antonio? Vai logo. O senhor adapita.

Fez uma pausa e diante do meu silêncio, enfatizou:

— Adapita, seu Antonio! Eu se fosse o senhor ia logo. Ficar esperando o quê? Com coisa boa a gente adapita rápido!

Depois deste episódio, sempre que me deparo com algo inevitável, repito para mim mesmo: adapita, seu Antonio, adapita!

Talvez daqui a algum tempo eu possa dizer em bom português: não há motivo para bulir, eu apenas não me adapito a andar de oliscópio!

Concluo com o episódio de abastecimento do meu carro em um posto de gasolina perto de casa. Os frentistas ali usam um crachá com o nome bem legível:

— Bom dia. Pode completar o tanque, Baltazar — solicitei.

— Ok. Completation, né?

Achei que eu havia entendido errado, mas confirmei.

Enquanto ocorria o abastecimento ele veio até a porta do carro e ofereceu:

— Calibration, doutor?

— Não precisa, obrigado…

Ele ficou por ali até que ouviu o ruído de desarme da bomba e foi retirar a mangueira e fechar o tanque. Logo voltou com a máquina do cartão em mãos:

— Maquination?

— Sim.

— Creditation ou debitation?

Não tive saída:

— Creditation! — optei.

Baltazar passou o cartão, imprimiu o canhoto e me entregou.

Liguei o carro e ao sair não resisti:

— Tchau, Baltazation!

Ele retribuiu com um sorriso ao estilo George Clonney e fez um breve aceno.

Agora só abasteço lá: frentista multilíngue é outra coisa…

Antonio Carlos Sarmento

21 comentários em “NA PONTA DA LÍNGUA”

  1. Bom dia meu querido amigo Antônio Carlos e feliz Páscoa para todos vocês aí em Portugal! A nossa língua portuguesa/brasileira é muito difícil e complicada! Mas infelizmente o nosso povo, ou não tem condições ou realmente não quer estudá-la! Uma pena! Um grande abraço e fiquem com Deus.

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  2. Caro Amigo, Muito bom dia, Que espetáculo!!! Muito agradecido por esse belo presente, neste magnífico domingo. Recomendações à Sônia, à Tatiana, ao Gui, ao Jean e demais familiares.

    Livre de vírus. http://www.avast.com .

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  3. Bom dia meu amigo! Lingua nova e dinâmica , mas sou um pouco implicante com o bom conhecimento da nossa lingua formal. Devemos ter a liberdade da dinâmica da modernização da lingua mas devemos conhecer razoavelmente nosso idioma. Leitura nos ajuda muito, por isso nao perco o hábito de ler suas crônicas. Bem mas o que te desejo mesmo, no dia de hoje é uma Feliz Páscoa!
    “Ele não está aqui! Ressuscitou, como tinha dito que aconteceria. Venham, vejam onde seu corpo estava.”
    ‭‭Mateus‬ ‭28:6‬ ‭

    Feliz Páscoa a voce e sua família!

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    1. Amigo Luigi,
      Agradeço e retribuo, embora tardiamente, seus votos de Páscoa.
      Realmente a leitura é algo essencial no desenvolvimento e aperfeiçoamento da nossa linguagem, seja escrita ou falada.
      É mais uma das maravilhas que a leitura proporciona.
      Mais uma vez, obrigado por comentar e acompanhar tão de perto meus modestos escritos.
      Um grande abraço e uma ótima semana!

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  4. A nossa língua português é rica, mas nossa educação é pobre.
    Nosso país não tem o nível de educação sequer regular.
    Os professores não sabem falar!!! O que esperar dos alunos!
    Como querer que o povo saiba falar?

    Por outro lado, aqui na Barra por exemplo, é tudo americanizado e cada vez mais desprigiamos nossa língua.
    Tem o lado também de uma nova criação linguística entre os mais novos, poderia citar diversos…enfim…

    Assim penso, realmente existem erros incríveis de português, basta olhar as redações do ENEM.
    Cultura fraca é isso!

    A crônica, mais uma vez ótima!
    Quantos ” Cacaus” são capazes de saber escrever dessa forma?
    Raridade.

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    1. Amigo Chico,
      Normalmente respondo os comentários às segundas, mas por motivo de viagem, segue com um pouco de atraso.
      Melhorar a educação formal em nosso país é uma necessidade reconhecida por todos, mas parece que pouco evoluímos neste aspecto ao longo dos anos. Temo até que esteja havendo um retrocesso, se comparado ao nosso período de bancos escolares.
      Mas é melhor termos esperança em dias melhores no futuro.
      Beijos e uma ótima semana!

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  5. Adorei!!! Morri de rir do frentista. Me fez lembrar uma brincadeira quando criança , em que brincávamos de falar inglês em que ocorria o seguinte diálogo, dito bem rápido:
    O ó que somtem?e o outro respondia: O ótemsomde ú! E caíamos na risada com nosso inglês!
    Feliz Páscoa para todos vocês!!!

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  6. Boa tarde de Páscoa, Sarmento para toda família! Eu também aprecio muito o vernáculo e o seu uso. Dia desses, para dar uma completation na sua crônica, estava em um coletivo voltando do centro da cidade. Duas senhoras conversavam também sobre os filhos. Conversa vai, conversa vem uma delas achou que havia se enganado ao pronunciar “problema”. A segunda, tentando explicar o vernáculo diz: “amiga, pobrema é o que a gente tem em casa e pobema é o que as criança faz na escola”. Ô idioma difícil esse!! SRN

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  7. Divertida crônica! Gostei!!!
    A nossa língua portuguesa é muito rica mesmo, o que falta é aprendizado, estudo e interesse por grande parte da população. O povo precisa ler!
    Abraços e boa semana.

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    1. Caro amigo Newton,
      Que bom ter se divertido!
      De fato, o povo precisa ler, mas é algo complexo, a ser alcançado num trabalho que pode levar gerações para frutificar. Por aqui acho que este trabalho mal começou… Mas vamos em frente, acreditando no futuro!
      Grande abraço, meu amigo!

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  8. Kkkk…muito engraçadas como cada um recebe e distorce as expressões idiomáticas e apesar disso a comunicação acontece…
    A gente se “adapita”, né mesmo?
    Bjos irmão!!!

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  9. Cacau,
    Eu também sempre fui entusiasmada pelo estudo da língua portuguesa. Sinto prazer em entender o significado oculto em suas normas que não devem ser decoradas, mas compreendidas e aplicadas.
    Não exijo os rigores da língua culta; ao contrário, aprecio a simplicidade na comunicação.
    Mas entendo que o idioma deva ser respeitado.
    Vejo, com tristeza, os acomodados e os desinteressados ignorando a riqueza da linguagem.
    Eu diria que ” não precisamos estudar mais, precisamos estudar sempre”- prof Jerry Tononi.
    Grande abraço!

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    1. Querida prima Gena,
      Noto que você possui um texto aprimorado e rico, fruto do seu entusiasmo pelo estudo da nossa língua e provavelmente muita leitura.
      Só existe este caminho para valorizar e respeitar o idioma.
      Mas infelizmente fica a sensação de que estamos cada vez mais nos afastando disso e, talvez, empobrecendo a nossa linguagem falada e escrita.
      Beijos e grato por comentar.
      Desejo uma excelente semana!

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