A AVE INSATISFEITA

Era um final de tarde no ensolarado verão do Rio de Janeiro. Na varanda do apartamento fiz uma pausa para apreciar meu período preferido do dia. Eu mirava a lagoa que se estende à frente e pensava que, como uma mágica, ela sempre me oferecia uma paisagem nova.

Quantas tardes passadas na varanda e nunca vi a mesma lagoa. Ela traz um cenário diferente a cada vez, como uma bela mulher que se arruma com originalidade, usa variações de maquiagem, altera os cabelos e está sempre surpreendendo. Lagoa é mesmo feminina, na gramática e no comportamento.

A influência do mar faz a lagoa obedecer a dinâmica das marés. Ora a vejo enchendo e suas águas ondulam num sentido, formando um desenho na turbulência da superfície. Um desenho não, uma pintura! É o mar chegando, trazendo água nova e limpa e enriquecendo a vida submersa que ali palpita.

Em outra hora do dia, o sentido se inverte e ela volta a esvaziar. Uma nova obra de arte revela que a maré voltou a agir e agora o mar resgata suas águas. É como se a lagoa fizesse uma profunda inspiração, uma pausa, e depois uma longa expiração. Ela não tem pulmões, mas respira. Está viva!

Em meio a esses pensamentos uma cena inusitada me chamou a atenção. Um pedaço de madeira em forma de triângulo deslocava-se seguindo o movimento das águas. Em seu vértice estava pousada uma ave branca, com o bico apontando para o sentido do movimento. Acho que era uma garça. Fixei o olhar para acompanhar aquele acontecimento.

Logo se percebia que a ave não pegara uma carona, como as que pousam em um barco. Não era uma simples passageira. Postou-se altaneira, de pé, na proa, bico empinado como a indicar o rumo da embarcação. Estava ali para comandar a navegação.

Observei sua condução serena, sem hesitar, rumo certo em direção a um incerto atracadouro. Posso apostar que desfrutava da aventura, para ela tão extraordinária. As outras aves, pousadas em árvores e nos arames de uma cerca que ali existe, apenas observavam, resignadas com seus limites.

Aquela garça parecia não querer apenas o que era instintivo e natural para as aves de sua espécie. Sabia voar, sabia pousar, mas não estava satisfeita: queria navegar!

A avis rara me fez pensar na eterna insatisfação humana. Quanto devemos aos homens que quiseram navegar, voar, encurtar distâncias, resolver problemas, ampliar nossos limites. Claro que sem criatividade e engenhosidade nada teria sido alcançado, mas é provável que a insatisfação tenha precedido boa parte do desenvolvimento humano. Há uma frase do brilhante inventor Thomas Edison, a este respeito:

A insatisfação é a principal motivadora do progresso.

Penso que sim. Existe a insatisfação positiva, que nos move, nos desacomoda, nos faz querer ir além. Não me refiro só ao progresso e invenções, mas acho que mesmo a nível pessoal, este tipo de insatisfação pode nos levar a querer alcançar o que ainda não alcançamos, sermos o que ainda não somos, chegar aonde ainda não chegamos. Precisamos dela para evoluir, por mais que já tenhamos realizado. Ela não nos deixa deitar eternamente em berço esplêndido.

É como uma mola que nos impulsiona!

Interessante que esta insatisfação não se opõe à nossa felicidade, pelo contrário, contribui para ela. Se assim for, mesmo contra o senso comum, é possível estarmos insatisfeitos e felizes.

Mas Thomas Edison não nos falou que existem também as insatisfações improdutivas, inúteis e até corrosivas. Elas estão por aí apenas para amargar a nossa vida. São aquelas que não tem a companhia do desejo de agir. Ao invés de energia, trazem paralisia. Não desacomodam, só incomodam.

Percebo a existência delas em mim e em muitas pessoas. Por observação, arrisco dizer que são tão comuns e contagiantes quanto vírus e que teimam em habitar o nosso pensar e o nosso sentir.

Por exemplo, ficamos insatisfeitos com coisas que estão totalmente fora do nosso alcance. Tenho um amigo que reclama da barba crescer todos os dias e das unhas crescerem todas as semanas. Conheço aqueles que manifestam insatisfação com o fato de ficarem velhos, como se a outra alternativa fosse melhor que envelhecer… Uma pessoa, em conversa recente, queixava-se do fato de existirem várias religiões. Lamentava também que o mundo esteja organizado em países. Se estivermos atentos vamos perceber a grande frequência deste tipo de insatisfação, que tantas vezes protagoniza conversas e desabafos.

Há ainda outras insatisfações que, mesmo estando ao nosso alcance, não podemos resolver por falta de meios ou capacidades. Acho que uma das mais comuns é quando nos dedicamos a tentar mudar outra pessoa para remover nela aquilo que nos deixa insatisfeitos. Reclamar do outro e querer que ele mude pode ser algo que nos faça má companhia pela vida afora. Esquecemos que não é possível mudar ninguém, exceto a nós mesmos. Persistimos no esforço inútil e isso só faz aumentar a tal insatisfação.

É como uma mola que nos comprime!

Como seria bom termos a consciência de que este tipo de insatisfação não vai nos mover, nem nos permitir alcançar sonhos, ou seja, não nos levará a nada, além de reclamação e praguejo. Só então, tendo esta consciência, poderíamos tentar descobrir em nós mesmos as insatisfações que deveríamos abandonar.

É curioso que nossas insatisfações se misturam e povoam indiscriminadamente o nosso interior. Ficamos confusos e tratamos tudo como uma coisa só, como fez Thomas Edison.

Ah, se pudéssemos discernir umas insatisfações das outras.

Bendita insatisfação, maldita insatisfação.

Acabo de colocar o ponto final na linha de cima e me vem à lembrança uma famosa oração de São Francisco de Assis, que não resisto em reproduzir:

Senhor,

Dai-me forças para mudar o que pode ser mudado

Resignação para aceitar o que não pode ser mudado

E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.

 

Antonio Carlos Sarmento

PS: Queridos leitores, completamos hoje a marca de 200 crônicas publicadas. Agradeço demais todo o apoio e incentivo que recebo de vocês a cada publicação. Sem vocês não teria sido possível. Muitíssimo obrigado e desejo uma feliz e abençoada Páscoa!!!

12 comentários em “A AVE INSATISFEITA”

  1. Feliz pascoa amigo. Que a santissima trindade esteja presente eternamente na sua vida e da sua família.

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  2. Oi Cau,
    Muito bom estar sempre atento à essa diferença entre onde vale à pena colocar nossa energia e aceitar o inexorável!
    Desejo uma Páscoa abençoada! Jesus Cristo VIVE!!!!
    Beijos e até breve!

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  3. António, um bom tema para comenorar as 200 crónicas!
    Realmente todos temos as nossas insatisfações, mas creio que muitos de nós, com o avançar do tempo e da idade também vamos tendo o bom senso de perceber como lidar com elas, que importância lhes dar ou simplesmente optar por as ignorar.
    No fundo, chegamos a um ponto em que as “pontuamos” de 0 a 10 e depois agimos em consonância com essa ordenação. De certa forma começa a ser um processo natural de selecção do que é ou não realmente importante para o nosso bem estar, evolução, etc. Assunto longo, com muitas nuances e caminhos.
    Entretanto…gostei muito da simbólica viagem da garça!

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  4. Feliz Páscoa meu amigo Antônio Carlos, para você e toda família. Abracos

    Antonio de Azevedo

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  5. Dulce,
    Apreciei bastante seu comentário e me levou a outras reflexões.
    De fato, é tema vasto e profundo, talvez íntimo da nosso felicidade e alegria de viver.
    Obrigado por suas palavras. Penso que você é uma leitora que conhece as 200 crónicas, ou bem perto disso.
    Quanto à viagem da garça, eu já esperava que gostasse, pois você faz muitos posts com esse olhar de observação à natureza, como o recente dos dois pombinhos.
    Agradeço por me acompanhar e sempre comentar!
    Uma ótima semana!

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  6. Caríssimo amigo Antonio,
    Agradeço seus votos e desejo ao amigo, Lielza e toda a sua querida família, uma semana abençoada e alegre com a lembrança da ressurreição de Cristo!
    Grande abraço, meu coooooordenador!

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  7. Querido amigo Antônio Carlos,

    suas crônicas maravilhosas como sempre.

    O relato da garça percorrendo a lagoa no triangulo como se fosse uma barca conduzindo alguém apreciando a natureza. Que paisagem linda!

    Somos eternos insatisfeitos em busca da satisfação.

    O gênio e o santo citados por você estão certos e são inspiração para nós.

    Uma excelente semana e grande abraço.

    parabéns pela crônica 200!

    Vem muito mais.

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  8. Querido Amigo Sarmento, muito bom dia. Há uma Conferência proferida em Buenos Aires, em 29 de novembro de 1949, pelo Humanista Argentino Carlos Bernardo González Pecotche que, logo em seu segundo parágrafo nos diz; “Os seres não se encontram no mundo porque sim. Há algo especial que os aproxima, que os vincula. Nem todos conhecem o porquê desses acercamentos, nem desses encontros; daí que a maioria, ao não dar valor a tais fatos, siga, depois de ter se aproximado, em direções opostas, para não voltar a encontra-se”. Anseio, antes, a cada semana, e agora, a cada mês, por suas crônicas, em razão desse “algo especial” ao qual se refere o Mestre González Pecotche; uma intensa alegria me invade ao ler suas crônicas e nelas encontrar, sempre, palavras que movem o meu dia-a-dia, como por exemplo: pensar e consciência. Tenho me dedicado nos últimos 18 anos a ser mais consciente, isso requer um grande esforço, pois é preciso ter mais atenção, mas atenção a quê? É necessário que eu “pense” mas, pensar em quê? Essas são interrogantes que como você traz em seu texto, “Aquela garça parecia não querer apenas o que era instintivo e natural para as aves de sua espécie. Sabia voar, sabia pousar, mas não estava satisfeita: queria navegar!

    A avis rara me fez pensar na eterna insatisfação humana”.

    Eu acrescentaria perguntando: O que tem feito o humano para ser um eterno satisfeito? Aprender a ser feliz, tendo mais atenção a tudo o que ocorre à sua volta e em seu interno, começando por conhecer a si mesmo, as suas virtudes e, também, as suas deficiências, será que temos limitações em nosso viver? Penso que não, somos todos como a sua avis rara, dotados de insuspeitos atributos que, a nossa ignorância nos impede de ter acesso.

    Não precisamos e, sobretudo, não devemos viver como aquelas outras aves.

    Caro Amigo, desculpe-me pela demora em enviar-lhe essas poucas linhas mas, o Amigo sabe que, “algo nos aproxima e nos vincula”, e dou muito valor a este fato.

    Recomendações à Sônia, à Tatiana, ao Jean, ao Guilherme e demais familiares.

    Hasta siempre.

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  9. Meu querido amigo JH,
    Seu comentário é uma pérola!
    Assim vale a pena escrever, pois não fica sendo um ato solitário e unilateral, mas uma deliciosa e rica interação com pessoas admiráveis como você.
    A gente aprende quando escreve e, neste caso, aprende mais ainda quando lê o retorno daquilo que foi escrito. É colocar uma isca para pegar sardinha e colher um belo badejo!!!
    Adorei a frase do Pecotche. Este algo que os vincula descobrimos há muitos anos, só não sabíamos que podia ser formulado com tanta clareza e sensibilidade como fez o Mestre.
    Obrigado, meu amigo JH, por me proporcionar o prazer de ler coisas enriquecedoras. É preciso aprender enquanto estivermos vivos, ou talvez seja preciso aprender para estarmos de fato vivos.
    Lembranças à Sueli, Júnior, Luizinho e a belezinha da Catarina!
    Fiquem todos com Deus!

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