Caminhar continua sendo minha forma preferencial de obter ideias para escrever. Movimentar o corpo parece que faz mexer minha mente de um modo especial, provocando um aflorar de pensamentos e memórias que não sei se viriam de outra forma.
Lembro agora de ter lido certa vez que a criação literária surge como a súbita aparição de uma baleia no mar, que ergue-se do abismo, quase toca o céu e mergulha de volta às profundezas, deixando-nos apenas com a memória do instante. Parece que é assim mesmo. As ideias chegam de forma súbita e surpreendente. É preciso aproveitá-las logo, pois elas são fugazes e desaparecem na mesma velocidade com que surgiram.
Para capturá-las sem ter que parar de caminhar, uso o recurso de gravar mensagens de voz no celular para um destinatário especial: eu mesmo. Parece algo insano. Ainda mais se eu revelar ao leitor que em algumas ocasiões, ao final da mensagem, talvez por não saber direito como encerrar, uso a forma tradicional e termino com o envio de beijos para mim mesmo. Um narcisismo involuntário…
E foi caminhando em um domingo à tarde que três acontecimentos me pediram para serem reunidos. Vamos a eles, começando pelo mais recente:
Neste mesmo dia, na parte da manhã eu havia ido à missa e um fato inusitado ocorreu. O padre, antes da bênção final, fez um relato que deixou a todos em silêncio e de certa forma perplexos:
— Quero comunicar a vocês que esta semana terei uma conversa com o Bispo e vou colocar as cartas na mesa. Não tenho sido tratado de forma correta e não aceitarei mais isso. Já escrevi várias cartas a ele e sequer recebo resposta. Agora, o seminarista que me ajuda aqui na paróquia foi convidado pelo Bispo para outro trabalho e eu só fui comunicado depois do fato consumado, ou seja, fui o último a saber, quando deveria ser o primeiro. Não posso aceitar ser tratado sem dignidade. Digo a vocês, com toda sinceridade, que se as coisas não forem resolvidas me afastarei de todas as minhas atividades, aqui na paróquia e em tudo que faço. Quis avisá-los, pois pode ser que na semana próxima já não me encontrem nesta missa. Vai depender do Bispo, pois da minha parte as decisões já estão tomadas. É ponto de honra.
Deixamos a igreja em silêncio, impactados pelas palavras firmes e emocionadas daquele padre que há tanto tempo conduz a paróquia. Fiquei imaginando o peso de um sacerdote com mais de 50 anos de idade ter que se afastar das atividades que dão sentido à sua vida. É preciso que algo muito grande esteja em jogo, verdadeiramente uma questão de honra.
No domingo seguinte cheguei ansioso na igreja. Constatei com alegria que, na procissão de entrada lá estava ele, hígido, altivo, de cabeça erguida, honrado e feliz, talvez com o Bispo, certamente com ele mesmo.
Minha admiração por aquele padre cresceu.
Ergueu-se na hora certa, recusou-se a renunciar a seus princípios, seu caráter. Literalmente colocou as cartas na mesa, as tais cartas que escreveu e que não mereceram resposta. Imagino que tenha sido educado e respeitoso, mas firme e determinado, exigindo sua dignidade. Na rigidez da hierarquia da igreja católica não tenho dúvida que sua atitude foi um ato de coragem, revelador de seus valores humanos e convicções. Também fiquei feliz: Habemus sacerdotem!
Algumas semanas antes eu havia assistido a um filme da década de 1990 que ficou em minha memória. Dois militares, presos e sujeitos a severa condenação por homicídio, se recusam a seguir o conselho do advogado, que recomendava declararem um fato que até então não haviam revelado, por estarem sendo fiéis ao juramento prestado. Esta proposta abriria a chance de uma condenação de curta duração e em seis meses poderiam estar livres e de volta às suas casas.
Entretanto, recusaram. Preferiram respeitar o juramento feito quando assumiram suas funções. Para eles, quebrar a palavra dada sob juramento seria impensável. Talvez lembrassem de Sun Tzu, que dizia:
A honra de um homem está em cumprir sua palavra.
Aqueles dois decidiram não negociar em troca da honra. Mantiveram seus depoimentos sem alteração, do início ao fim e cumpriram tudo com que haviam se comprometido no juramento militar. Ao final, receberam a sentença e, por outros fatos surgidos, acabaram por ser inocentados da acusação de homicídio que pesava sobre ambos. Aí sim, foram para casa, íntegros, felizes e em paz consigo mesmos. O triunfo da honra.
Passados mais alguns dias, estive lendo sobre o período imediatamente anterior à segunda guerra mundial. Após a Alemanha já haver anexado a Áustria e pretender continuar avançando, foi celebrado o chamado Acordo de Munique, em que França, Itália e Reino Unido aceitaram que parte do território da Tchecoslováquia fosse reconhecido como pertencente à Alemanha. Imaginaram que assim iriam alcançar a paz na Europa.
No retorno do primeiro-ministro do Reino Unido, Churchill, que na ocasião era apenas membro do Parlamento, teria proclamado a famosa frase:
Entre a desonra e a guerra vocês escolheram a desonra; e ainda terão a guerra.
Um ano depois a guerra teve início.
Tenho a sensação de que o tema da honra anda meio ausente do nosso dia a dia e lembrar destas histórias me motivou a refletir sobre a importância deste valor maior.
É de impressionar. Para o padre, a honra acima de sua vocação religiosa. Para os dois militares, a honra acima da liberdade. Para Churchill, a honra de uma nação acima do risco da própria sobrevivência.
Fico pensando que todos nós em algum momento da vida nos deparamos com questões destas, momentos decisivos em que nossa dignidade entra em jogo. Lembro bem de uma destas ocorrências em minha vida profissional, que foi marcante e mudou o rumo da minha vida, mas deixo de contar ao leitor, pois já esgotei minha cota de narcisismo nesta crônica.
É inevitável que sejamos confrontados com situações nas quais entram em jogo nossos valores mais profundos, nossas crenças e princípios, nosso verdadeiro caráter, formado pelos ensinamentos de nossos pais e mestres através de exemplos e palavras.
Fraquejar na honra é abraçar a vergonha. E talvez passar o resto da vida amargando arrependimento e frustração. De certa forma, para quem tem uma formação moral sólida, é quase como morrer por dentro.
Peço desculpas ao leitor se eu tiver escolhido um tema talvez fora de moda, ausente das redes sociais e do nosso campo de observação diário. Porém, o fato é que, aqui e ali, todos nos defrontamos com estas questões.
Sim, pois a honra não está apenas nos grandes feitos, nestes momentos críticos que citei, mas também no silêncio de quem é fiel a uma amizade, na firmeza de quem cumpre uma promessa, na coragem de dizer a verdade quando seria mais fácil mentir, na intransigência em cumprir com a palavra dada.
Pode ser uma utopia, mas fico pensando em como seria bom se tudo isto voltasse à moda, se recebesse um pouco de luz, se tivesse palco, se fosse ensinado, valorizado e praticado mais amplamente nas casas, nas escolas, nas cidades, nos governos, nos países, no mundo…
Concluo com uma frase do escritor Olavo Bilac:
A honra é o ouro da alma: não se negocia, não se empresta, não se gasta.
Antonio Carlos Sarmento
Alberto de Souza Negrão, o Tema Honra sempre será atual, pois através do tempo decisões foram tomadas seguindo o ensinamento da Família ou de entidades históricas, Parabéns !
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Meu muito Querido Amigo Sarmento, muito bom dia. Não estou massageando o seu ego mas, para mim, você é espetacular, até onde eu o conheço e, sobretudo, nessas crônicas. Rendo-lhe minhas homenagens, destacando o derradeiro parágrafo: “Pode ser uma utopia, mas fico pensando em como seria bom se tudo isto voltasse à moda, se recebesse um pouco de luz, se tivesse palco, se fosse ensinado, valorizado e praticado mais amplamente nas casas, nas escolas, nas cidades, nos governos, nos países, no mundo…”. É isso, voltarmos às nossas raízes familiares, onde o cultivo de valores que nos formaram, lamentavelmente, foi esquecido, por tantos. Mais uma vez e, incansavelmente, agradecido por mais esta crônica. Recomendações à Sônia e demais familiares.
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Muito pertinente trazer à tona esse tema Cacau!
A honra é irmã da honestidade,prima do brio e melhor amiga do bom caráter!
Que não saiam de moda jamais…
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Querido amigo Jorge Haroldo,
Sem dúvida você exagera nos elogios, fruto do seu coração generoso. Agradeço seu comentário e fico feliz em saber que apreciou o tema.
Aqui de além mar envio um afetuoso abraço ao amigo e sua querida família!
Muito obrigado!
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Minha irmã,
Fico contente que tenha gostado do tema.
Muito obrigado por comentar!
Deixo um beijo carinhoso.
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Caro Negrão,
Fico contente em constatar que acompanha as crônicas e agradeço muito seu gentil comentário.
Receba o meu abraço e o desejo de uma ótima semana!
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Somos de uma geração para quem esse valor era e continua a ser importante. Oxalá no futuro as novas gerações consigam manter a honra como principio ético, mas dúvido, muito sinceramente. Numa sociedade de forte competição, tudo vale….
Mais uma vez uma excelente crónica que nos põe a reflectir.
Bom resto de semana, António.
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Dulce,
Penso que tudo depende da família e dos professores, que desde a infância precisam incutir valores verdadeiros e despertar virtudes nas crianças. De fato, muitos fatores hoje pesam contra este caminho, mas fica a esperança de que prevaleça o lado bom da natureza humana.
Muito obrigado por comentar e desejo um ótimo final de semana a você e sua família!
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Boa tarde meu querido e paciente amigo!
Desculpe estar comentando sua bela crônica, 15 dias depois de publicada, aliás nem sei se eu me desculparia.
Sua crônica é muito clara quando menciona que todos nós deveríamos ter PONTO DE HONRA, ou melhor, atitudes que refletem nossa personalidade e conceito de vida.
LAMENTÁVELMENTE as redes sociais determinam o que devemos fazer e como agir.
PARABÉNS PELO BELÍSSIMO TEXTO.
SAUDADES DO QUERIDO AMIGO
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Gostei muito desta crônica sobre um tema realmente pouco comentado nos dias atuais. Porque será? Será pela falta desta virtude nos governantes, políticos e líderes? Porque será?
Ah, vamos aguardar a ocorrência em sua vida profissional. Está anotado!
Forte abraço amigo!
Rodolpho Britto
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Meu querido amigo Luiz Carlos,
Mais uma vez agradeço sua generosidade de comentar e fico contente que tenha gostado da crônica. O tema está fora de moda, mas é de fato muito importante!
Saudades também, queridão!!!
Beijos em toda esta família maravilhosa!
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Querido amigo Rodolpho,
Desculpe a demora em responder, amigo.
Pouco se fala em honra, valor fundamental que deveria ser valorizado na família e na sociedade. Mas é o mundo em que vivemos…
Quanto à ocorrência em minha vida profissional, é papo para um chopp só nós dois.
Saudades do amigo e de nossos encontros.
Grande abraço!
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Você trouxe um tema relevante! Vivemos tempos difíceis, em que muitos sucumbem às ilusões e trocam a dignidade por vantagens imediatas. O valor da honra parece esquecido, e até irmãos se voltam uns contra os outros, dentro da própria família, por causa de bens materiais. No entanto, é pelas próprias escolhas e consciências que ocorre a verdadeira separação entre joio e trigo, somos nós mesmos os nossos juízes. Gratidão por compartilhar conosco o texto com os relatos que reforçam a temática. Um abençoado final de semana! 🙂🙏🏻✨✍🏻
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Muito bonita a atitude do sacerdote.🙂👏🏻👏🏻👏🏻
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Obrigado pelo relato, não creio que seja um tema do qual precise se desculpar por abordar, pelo contrário é um dos temas que precisamos refletir nos tempos atuais de nossa sociedade, cada vez mais nossas gerações tem dado menos valor as convicções e a honra pessoal que cada um escolhe fazer. Mais e mais vezes vemos as pessoas criticarem o individualismo, mas na primeira oportunidade fazem questão de podar e repreender quem simplesmente escolhe ser algo único.
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Will,
Obrigado por comentar. O pedido de desculpa é exatamente pelos fatos que você citou, que tornam o tema da honra “!fora de moda”. Infelizmente…
Abraços e até a próxima!
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