Foi na minha habitual caminhada ao cair da tarde que eu a vi. Ela estava em um terreno de esquina, ladeado pelo muro de uma casa e todo gramado. A área era pequena para uma nova construção, mas grande para ser apenas o jardim da casa ao lado. Parecia uma minipraça.
Era ali que estava aquela senhora. Magrinha, braços e pernas finos, de pouca estatura. Parecia uma minissenhora.
Em uma das mãos segurava um cão marrom, peludo e grande, mas aparentemente manso e dócil. Na outra, apoiava-se em uma muleta daquelas que ficam sob a axila, de alumínio e, como é comum, terminam numa ponteira de borracha. O terceiro pé para quem precisa de um apoio extra.
Olhei para ela e a sensação é de que deveria ter uma etiqueta afixada em local bem visível com a indicação: Frágil. E é assim que deveria ser tratada por todos, inclusive pelo seu companheiro canino. Este, aliás, me parecia mais conduzir que ser conduzido, dando função inversa à coleira que ostentava ao pescoço.
Acabei por pensar que a senhorinha tinha dois apoios, um vivo e outro inanimado, mas ambos úteis e necessários.
Segui meu caminho até o final da rua, sem entrar naquela esquina. Como sempre faço, dobrei à direita, contornei o quarteirão ingressando no caminho de volta e tomei a direção do mesmo local, já a procurando com os olhos. À distância enxergava a minipraça, mas não a minissenhora…
Prossegui curioso e ao contornar a esquina, para minha surpresa, vi a muleta jogada no chão. A aparência era de que havia caído e ali permanecia atravessada no terreno. Fiquei atônito!
Não gosto de parar durante a caminhada para não perder o ritmo, mas neste caso renunciei ao costume e permaneci no local, em busca de algum sinal do que poderia ter acontecido. Como explicar a muleta abandonada quando aquela senhora nitidamente precisava dela?
Uma enxurrada de hipóteses veio à minha mente.
A primeira foi que o cão, por algum motivo, tivesse disparado, esquecendo-se da outra ponta da coleira e arrastado a pobre senhora. Algo tão trágico quanto improvável. Limito-me a essa hipótese para não cansar meu leitor, mas muitas outras ideias, todas ruins, me ocorreram.
Diante da situação, depois de olhar demoradamente em volta e sem nenhum sinal que pudesse explicar o fato, só me restou dar continuidade à caminhada. Fui andando e refletindo sobre o acontecido. De alguma forma, aquela muleta solitária me pareceu um recado, uma provocação silenciosa.
Logo me ocorreu que a melhor versão para o ocorrido seria que aquela senhora, numa melhora súbita, houvesse retirado a própria etiqueta de frágil e, resoluta, prosseguisse sem precisar do apoio. Que maravilhosa teria sido a sensação de autonomia e liberdade. Poderia seguir apenas com o cachorro, livre daquele acessório até então necessário, mas frio e inconveniente.
Passei a pensar em minhas próprias muletas.
Sim, talvez muitos de nós as tenhamos, mesmo sem perceber ou ter consciência disso. Pode ser que, por medo de cair, acabemos precisando nos apoiar em coisas, pessoas e até em ideias, para que possamos ter mais firmeza e esperança no nosso caminhar pela vida. Buscamos nestas muletas emocionais uma sensação de segurança ou uma fuga para situações que temos dificuldades de enfrentar.
Também não nos damos conta de que este amparo útil tem efeitos colaterais. Pode, ao mesmo tempo, ser uma prisão e trazer consequências negativas para nossa vida, sem que percebamos.
Como é sempre mais fácil observar comportamentos nos outros do que em nós mesmos, me lembrei de um conhecido. Ao escrever esta frase, senti vontade de compartilhar com o leitor uma imagem que tenho gravado na mente, colhida no passado: Andamos pelo mundo como se estivéssemos em fila indiana com a nossa mochila às costas. Vemos a mochila dos que estão à nossa frente, mas não conseguimos enxergar a nossa própria…
Voltando à tal pessoa conhecida, observo que mantém há muitos anos um relacionamento conjugal difícil e infrutífero, mas do qual não consegue se livrar. Quando o faz é sempre por algum tempo e depois retorna com intensidade até o próximo desgaste, sustentando indefinidamente um círculo vicioso difícil de compreender sob um ponto de vista mais lógico e racional. Fiquei imaginando se não são um para o outro como muletas, das quais não conseguem se libertar. A necessidade de apoio mútuo os mantém em um relacionamento no qual talvez não percebam a sutil diferença entre união e prisão.
Procurei a minha própria mochila. Onde estariam as minhas muletas? Desejei descobri-las, tomar consciência delas, diferenciá-las das minhas verdadeiras necessidades de apoio e segurança.
Lembrei do dinheiro, da comida, da bebida, de alguns relacionamentos, das crenças e convicções que povoam a minha mente. Desejei ver tudo isto com mais clareza, ter um olhar mais crítico para minhas escolhas e comportamentos.
Fui seduzido pela ideia de que abandonar uma muleta e ter a coragem de seguir sem ela, pode trazer aquela incomparável sensação de autonomia e liberdade. E isto é algo muito perto da felicidade.
Claro, não é fácil libertar-se de uma muleta. Mas percebi que isto é necessário e que preciso ter cada vez mais a capacidade de andar apenas com meus dois pés. Este foi o melhor passo que dei na caminhada desta tarde.
A frágil senhora me fez entender que posso transformar a muleta em amuleto.
Antonio Carlos Sarmento
meu Deus!!! Estou curiosa até agora pra saber o que ocorreu com a senhorinha! Fiquei ansiosa esperando o fim do mistério na crônica. Hahahaha… mas adorei a reflexão
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Eu vejo a senhoria como o amuleto para o leitor (eu) reconhecer suas muletas. Faltando tempo para ler as suas sempre “ricas” crônicas.
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Meu querido Amigo Sarmento, muito bom dia. Tive oportunidade de ler, ontem, essa sua crônica, contudo, deixei para hojr, com a primeira tarefa, frente ao computador e, por uma razão muito simples: O incômodo que me causou, à primeira vista, a palavra “Amuleto”. Lendo, agora, a crônica me dei conta de que, por um momento, esqueci-me da sua verve literária, que admiro tanto. A palavra Amuleto, nada mais era que outra “tirada” dessa sua mente brilhante. O aspecto que me chamou à atenção, no texto, foi a sua recordação da fala de um amigo, quanto ao fato de, em geral, olharmos para a mochila do outro à nossa frente e, esquecermos que também carregamos uma mochila. Nessa “mochila” que todos carregamos, pode ter conteúdos de várias espécies, cabe a nós escolhermos quais conteúdos carregar, aqui me permito recordar o autor Carlos Bernardo González Pecotche que nos ensina que a verdadeira vida começa com o conhecimento de si mesmo. Caro Amigo, recomendações à Sônia, à Tatiana, ao pequeno Gabriel, ao príncipe Guilherme, ao amigo Jean e demais familiares.
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Também estou curioso até hoje. Realmente um mistério…
Obrigado por comentar!
PS: Se puder, inclua seu nome nos comentários para facilitar a resposta.
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Silvana,
Também estou em busca das minhas “muletas”…
Obrigado por comentar e pelas palavras gentis.
Uma ótima semana!
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Meu querido amigo Jorge Haroldo,
Você percebeu bem. Não foi para defender o amuleto, mas apenas para fazer o jogo com as palavras, já que de qualquer maneira um amuleto é melhor que a muleta…
Vamos em frente, voltando um pouco os olhos para a nossa mochila e deixando em paz a dos outros, certo?
Grande e afetuoso abraço meu querido amigo. Lembranças à Sueli, CATARINA, Júnior e Luizinho!
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Caminhar faz bem ao corpo, à alma e deixa-nos disponíveis a estar atentos ao que nos rodeia. A prova provada disso são algumas das crónicas do António, sendo esta um excelente exemplo.
Da observação resultou uma lúcida divagação sobre os “pesos” que carregamos e que podem ser travão ao nosso andamento, avanço e evolução. Algo que todos temos, disso não tenho dúvida.
Esta é mais uma excelente partilha, como sempre.
Entretanto, espero que na sua fragilidade a dita senhora se encontre bem.
Bom resto de semana!
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Dulce,
Também acho que todos precisamos de muletas para poder arrastar estes “pesos”, dos quais temos dificuldades em nos livrar.
Quanto à senhorinha, continuo passando no local e a muleta não está mais lá. Também desejo que esteja bem e nenhuma tragédia tenha ocorrido.
Dulce, obrigado por suas gentis palavras e por comentar.
Boa continuação de semana!
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Bom dia meu Amigo !
Caminhar é sempre um exercício de inspiração, saúde e reflexão, Parabéns pela excelente crônica.
Forte Abraço
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Meu amigo distante
Gostei da crônica!
Crônica que nos faz meditar.
Verdade que ainda não consegui identificar minhas muletas, entendendo que seriam necessárias para caminhar em minha vida. Será?
Confesso que gostei muito do caminhar em fila indiana : “ Andamos pelo mundo como se estivéssemos em fila indiana com a nossa mochila às costas. Vemos a mochila dos que estão à nossa frente, mas não conseguimos enxergar a nossa própria…”
Por outro lado, a minha mochila está bem cheia de recordações, de ensinamentos, de esperança, e de amor. E para minha alegria ainda tem espaço, meu amigo !!
Forte abraço
Rodolpho Britto
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Bom dia meu querido amigo Rodolpho!
Que a sua mochila possa estar sempre repleta destas coisas maravilhosas que referiu e sua vida seja um passear, sem peso nas costas.
Obrigado por seu comentário e tenha um ótimo domingo!
Abraços!
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