Aos 65 anos iniciei uma nova carreira. Não por minha iniciativa, mas passei a fazer algo que nunca havia feito, para o qual não tinha carta de recomendação, não possuía experiência, muito menos especialização. Mas não havia como recusar.
Subitamente, da noite para o dia, tornei-me avô.
Agora já tenho seis anos de convivência intensa com o Guilherme e, apesar de continuar sem especialização e construir um currículo possivelmente abaixo da crítica, já posso multiplicar minha incompetência e minha alegria, pois acabo de receber meu mais novo “funcionário”, Gabriel, recém-chegado ao mundo.
A carreira de avô é a primeira em minha vida em que não faço o que quero e isso me deixa extremamente feliz!
Numa tarde chuvosa, eu queria ver um filme na televisão, mas meu neto queria jogar bola e, claro, a televisão permaneceu desligada e a bola espatifou o vaso de estimação da avó dele. Que tarde gostosa passamos juntos.
Eu preferia ler um livro, enquanto ele queria jogar baralho. Depois de um número infindável de partidas, durante um tempo que seria suficiente para ler os três volumes de O Tempo e o Vento, termino derrotado vergonhosamente e satisfeito como se houvesse quebrado a banca em um cassino.
Preciso confessar: faço questão de perder quando jogo com ele, seja qual for o jogo. Critiquem-me. Será inútil. E mais, aceito trapaça e até acho graça. Os argumentos do Guilherme me convencem:
— Não valeu. Tem que jogar de novo. Esta carta estava em cima, mas devia estar no meio. Tira outra.
— Gol anulado. Eu estava distraído. Não vale!
Sei que os pais jogam para valer. Claro, têm outro propósito. Precisam ensinar a competir, aprender a ganhar e a perder. Eu prefiro alegrar, mesmo que seja uma falsa alegria. Deseduco talvez, mas numa proporção tão pequena que será fácil aos pais corrigirem. Não há disputa nem divergência, o território é outro.
Deixo aos pais o rigor, fico com a benevolência.
Aos 72 anos me dou este direito. Já não preciso provar nada a ninguém, pois minha busca não é mais por acertar, mas por compreender. Sim, é hora de abrandar, reduzir a carga, buscar alegria em tudo. Se o corpo já parece mais pesado, a mente precisa ser mais leve. Enfim, o tempo do envelhecer não é mais o da beleza, é o da leveza.
Claro que dou orientações ao Guilherme aqui e ali, mas não tento ensinar a ele o tempo todo. Sempre que possível prefiro oferecer apenas presença.
Curiosamente, é o Guilherme quem me ensina muito. Com 4 anos, em determinado momento, disse:
— Um dia, quando eu crescer, vou arranjar uma namorada, casar com ela e ter filhos. Então você vai ser bisavô.
Um toquinho de 4 anos dizer isto me impactou. O valor da família, a visão da vida que aquele pequenino vai adquirindo, não só por ensinamentos e conselhos, mas talvez até mais pela observação da convivência familiar, da maneira de ser de cada um, dos exemplos que gritam, daquilo que vê, percebe e sente. A presença também educa, talvez até mais do que possamos imaginar. O silêncio pode conter explicações profundas.
Conto mais uma passagem: o jogo de futebol preferido dele funciona assim: um fica na baliza e o outro vai chutando até conseguir marcar um gol e então trocam de posição. O campo de futebol é a sala e a baliza são duas cadeiras. Ele batizou esta modalidade com o curioso nome de “quem marca vai”. Na primeira vez que denominou o jogo desta forma, fiquei com a sensação de que a expressão tinha um sentido mais amplo. Dias depois, fui assistir a uma apresentação dele no colégio. Quando me viu, disse:
– Ah, então veio mesmo, não é?
Respondi:
— Sim, eu marquei com você. E quem marca vai!
Ele sorriu.
Concluo com uma história de avó que soube recentemente e que ficou na minha memória.
Estive com minha mulher em um contato profissional, ao fim do qual, por conta de uma empatia mútua com a pessoa que nos atendeu, acabou por desdobrar-se em uma conversa sobre família. Ela contou então o seguinte:
— Na minha infância, minha avó morava com a gente. Nossa casa tinha frente para uma rua e os fundos voltados para a rua de trás, onde ficava a escola em que estudei por muitos anos. Assim, eu ia sozinha para o colégio: saía pela porta da frente, seguia pela calçada, dobrava na rua ao lado sem atravessar, caminhava até a altura dos fundos da minha casa e ali, bem em frente ao portão da escola, atravessava a rua. Pois todos os dias, minha avó me levava até a porta e, enquanto eu rodava o quarteirão, ela atravessava a casa até a sala dos fundos. Ali abria a janela e acompanhava a neta atravessando a rua. Permanecia na janela até que eu passasse o portão do colégio. Já do lado de dentro, eu acenava para ela, que retribuía.
A esta altura já se percebia a emoção trazida por estas memórias de infância a uma mulher de cerca de 50 anos. Ela continuou:
— Na hora da saída, exatamente às 4 e meia da tarde, quando eu chegava no portão, olhava para a janela e lá estava ela acenando. Eu fazia o caminho de volta e, se eu tinha certeza de alguma coisa, era que ao chegar à porta da frente, ela lá estaria para me receber com um alegre sorriso.
A esta altura, ela e minha mulher já estavam às lágrimas. Que força tinha o legado de amor e presença deixado pela avó. Então, com uma frase, concluiu:
— Durante todos os anos, e foram muitos, em que estudei naquela escola, não houve um só dia em que isto não tenha acontecido.
Só pude dizer a ela:
— Se fosse um curso sobre a presença e importância dos avós, esta seria a aula magna!
Antonio Carlos Sarmento
Ser VOVÓ É A MAIOR FELICIDADE!
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Ah que linda, Antônio!
Emocionante, estou me preparando assim para essa fase, com respeito, leveza, compreensão e presença!
Obrigada pelo compartilhamento!
Um ótimo Domingo a nós!
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Grande meu Amigo Sarmento, muito boa tarde. Mais uma bela crônica. Hoje o meu destaque vai para a crônica completa, é muita emoção!!! Recomendação à Sônia, à Tatiana, ao Jean, ao Príncipe Guilherme, ao Gabriel e demais familiares.
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Eu tive dois avôs incríveis e maravilhosos que permeiam minha memória, cada um com suas singularidades únicas e maravilhosas. Sinto falta deles. Tinha 13 anos quando um se foi e 17 quando o outro se foi. Aprendi muito com os dois e sou grata pelo tempo que investiram para serem presenças na minha vida. Impossível imaginar minha infância sem a riqueza de suas presenças. bom domingo
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Que encanto de história, uma ternura!
E sobre o sermos avós, é isso tudo que o António exprimiu tão bem, como o sermos presença…ter disponibilidade… deixá-los ganhar às cartas…deixá-los meter golos, (mas eu também meto!)…etc, etc.
Tal como eu, o António fica agora com dois rapazes. Eles têm muuuuuuuuita energia, o que nem sempre é fácil. Quando o Gabriel tiver 2/3 anos perceberá o que quero dizer…
Muitos parabéns pela chegada do segundo neto e que tenha muita saúde para acompanhar o crescimente de ambos.
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Tem toda razão, meu amigo Luiz!!!
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Meu amigo JH,
Se te fez pensar na Catarina e na sua relação com ela, fico feliz!
Grande abraço, meu caro amigo.
Lembranças à Sueli, Luizinho, Júnior e uma beijoca pra Catarina!
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Lunna,
Sorte sua ter tido esta convivência. Meus avós foram mais distantes, moravam em outra cidade e nosso convívio era ocasional.
Felizmente, com meus netos estou tendo o privilégio de morar bem pertinho e conviver diariamente.
Muito obrigado por comentar!
Uma ótima semana!
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Dulce,
Mais um ponto em comum entre nós termos sido agraciados com dois netinhos.
Já sinto hoje que a energia às vezes chega a faltar com um, que dirá com dois…
Muito obrigado pelas palavras, Dulce!
Desejo uma ótima semana junto aos seus!
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Rossana,
Seu comentário é muito bem-vindo.
Descubro assim que sua mãe, além de leitora gentil, também repassa crônicas para familiares. Minha prima é um doce de pessoa!
Fico contente que o texto tenha despertado em você lembranças agradáveis e saudades do Adauto, de quem tenho ótimas lembranças.
Obrigado por comentar e desejo uma excelente semana!
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Ah! Que saudade do vovô Alberto! E da vovó Eny!
Penso muito, também, nos avós que não conheci: vovó Lourdes e vovô Attílio.
Eu li um livro esses dias, “O Arroz de Palma”, que citou uma frase interessante: “Família é prato difícil de preparar e que não se repete”. E é verdade. Não se repete. Nossos avós são nossa alegria, nossos amores, nosso aconchego e sabedoria. Quando eles se vão, vai junto um pedaço do nosso coração.
É verdade, também, que família se renova, mas ficam as lembranças daquele tempo tão lindo que passamos com nossos avós. Ainda trago em mim ensinamentos dados por eles.
Gostaria que meu filho tivesse passado mais tempo com o avô Adauto, que tinha muito amor pelos netos. E o engraçado é que vejo, muitas vezes, o meu pai quando olho para o meu filho, pois eles se parecem muito. Aí a saudade aperta pelo meu pai.
A vida é feita de saudade.
Inclusive, na próxima sexta, 30/01, é Dia da Saudade.
Que celebremos nossas saudades com muito amor e lembranças doces.
E choro também, porque faz parte!
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Adorei Cacau! Quanta sensibilidade e uma dose de humor; o que me traz várias lembranças dessa idade dos meus netos , hoje adolescentes.Beijo carinhoso pra você, Sônia e essa galerinha. 😘Enviado do meu iPhone
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Querida prima Myrian,
Que bom ter gostado. Apesar de mais nova você já está na minha frente em matéria de netos, né?
Muito feliz em receber seu comentário!
Beijos pra você, um abração pro Felipe e tudo de bom para toda a sua amada família!
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