NA TRILHA DA VACA

Fui com minha mulher fazer um passeio num parque nacional na fronteira de Portugal com a Espanha. Encontramos ali um lugar de natureza encantadora, cheia de rios e riozinhos, pássaros e passarinhos, árvores e matinhos.

Havia alguns sinais da intervenção humana, mas a quase totalidade ainda estava como na versão original. Sim, aquele cenário incopiável e insuperável.

Chegamos ao final da tarde para saborear o silêncio e o frescor da noite, já antecipando o fascínio dos passeios pelas trilhas no dia seguinte.

Acordei e a primeira coisa que fiz foi escancarar a janela para conferir o tempo. Céu azul, decorado com um sol que ainda alvorecia, mas já sinalizava que vinha para brilhar o dia todo.

Só isso já seria excelente, mas para melhorar ainda mais, bem em frente à nossa janela, uma bela árvore também acabara de acordar. Suas folhas, muito educadas, acenavam para mim alegremente, como a dar boas-vindas a quem a visitava e admirava. Era o efeito de uma brisa agradável que por ali soprava e fazia despertar a simpatia e a boa educação daquele ser vivo que me acolhia efusivamente.

Tive vontade de acenar de volta, mas depois dos 70 anos é preciso ter cuidado para seus gestos não serem interpretados como senilidade…

Ah, como seria bom se houvesse uma brisa sempre a soprar em nós humanos e nos fizesse alegres e bem-educados como aquelas folhinhas da árvore. Gosto da imagem de que às vezes uma chuva de vida cai em cima de nós, mas a gente abre um guarda-chuva. Talvez também a brisa da vida sopre sobre nós, mas não percebemos, ou pior, fechamos a janela.

Mas vamos ao caso insinuado pelo título da crônica, pois pode ser que meu caro leitor a esta altura já comece a ficar impaciente.

As trilhas do parque são sinalizadas por placas de madeira com informações sobre nível de dificuldade, extensão e destino. Escolhemos iniciar por uma de nível médio, que levava a um dos incontáveis lagos da região. Mergulhamos no caminho e iniciamos o nosso passeio pela natureza.

Após poucos metros percorridos, eu já percebia meus sentidos embaralhados. Conseguia ouvir o aveludado das folhas, tocar o aroma da vegetação, respirar o colorido da mata, saborear a brisa suave e enxergar nitidamente o ruído  crepitoso dos gravetos e folhas secas.

Esta desordem dos sentidos me possibilitava aproveitar em plenitude o espetáculo de beleza ali oferecido, sem hora marcada, sem cobrar ingresso, requerendo apenas alguma sensibilidade e desaceleração para apreciar a obra inimitável.

Seguimos neste encantamento pela trilha afora por quase uma hora.

Paramos em uma parte um pouco elevada e de lá avistamos algumas vacas, exatamente no rumo do nosso lago. Pude notar que uma delas estava deitada numa posição que impediria nosso prosseguimento. Parecia a dona da trilha.

Claro que minha mulher na mesma hora sugeriu retornarmos dali. Lembrei a ela que, na minha infância, meu pai tinha uma fazenda no interior do Rio de Janeiro. Pretensiosamente afirmei que não havia por que temer uma vaca, animal de grande porte, mas dócil e fácil de lidar.

Ressabiada, acabou por concordar em prosseguir, desde que o caubói fosse à frente, claro.

Ao chegar nas proximidades da reunião de ruminantes, percebi que todo o churrasco de domingo me observava, com olhos fixos e frios. Não percebi o menor sinal de receptividade, especialmente da moça chifruda que permanecia deitada no caminho e tinha um olhar que exalava insatisfação com a presença de dois intrometidos em seu habitat.

Não me dei por vencido. Lancei mão de um galho caído à margem do caminho e empunhei a vara ao estilo velho oeste, pretendendo dar umas cutucadas na picanha da indolente que nos atrapalhava a chegada ao almejado destino.

Fui me aproximando e a arrogante permanecia imóvel, enquanto seu olhar parecia ganhar ares de agressividade. Comecei a sentir um sutil receio, mas um justiceiro do pasto não pode se intimidar, muito menos deixar um duelo sem duelar.

Dei mais dois passos na direção da trilha e o animal começou a se levantar.

Por um segundo achei que eu teria sucesso, mas passou logo. O animal foi crescendo na minha frente e em pouco tempo o que eu enxergava já era um touro enfurecido que me fitava como se eu estivesse vestido de vermelho da cabeça aos pés.

O gigante então rumou na minha direção ostentando duas lanças afiadas na cabeça e um olhar de superioridade absoluta para a ridícula varinha que eu portava ameaçadoramente. Para completar, emitiu um som que até para um experiente boiadeiro de apartamento como eu, foi assustador.

Não vacilei.

Corajosamente mandei minha mulher voltar imediatamente e passei a recuar em marcha a ré, como um escudo de traseira para preservar o cônjuge, enquanto repetia sem cessar para o touro:

— Sai, vaca! Sai, vaca!

Cheguei a pensar em dizer “sua vaca”, mas ela poderia se ofender e as coisas ficariam piores…

A presidente do sindicato das leiteiras deu uns quatro passos na nossa direção e parou, graças a Deus. Pareceu estar satisfeita com o recuo e os claros sinais de abandono do nosso propósito de atravessarmos pelo meio da manada de quatro ou cinco cabeças.

Fomos nos afastando cada vez mais e retomando o caminho de volta.

Logo percebemos que a vaca tinha razão. Todo ser vivo precisa de um pedaço do mundo para si. Ela era territorialista como o cão, o galo, o leão e tantos outros animais. Se cedesse seu espaço docilmente, acabaria por ser expulsa para outro local, quando era ali que queria estar. Preferimos pensar que ela não foi agressiva, apenas mostrou sua força e impôs sua vontade de modo firme e definitivo.

Claro que por alguns instantes nos frustramos em não poder chegar ao tal lago. Mas seguimos naquela beleza de trilha, degustando cada trecho, largando por ali pequenezas, esvaziando preocupações e abandonando outras inutilidades que povoam a nossa mente. O banho de natureza é grandioso e nos renova.

Terminamos convencidos de que, como na vida, muitas vezes vale mais o caminho que o destino.

Foi a vaca mais convincente que já conheci…

 

Antonio Carlos Sarmento

2 comentários em “NA TRILHA DA VACA”

  1. Grande meu Amigo Sarmento, muito bom dia. Sinceramente, não sei por onde começar, na tentativa de destacar o que mais me chamou a atenção, nesta mensagem de bem viver, de hoje. Algo eu não posso deixar de enaltecer que é a sua sensibilidade cada vez mais aguçada alinhada à uma mente brilhante. Neste nosso convívio, nem tão íntimo mas muitíssimo próximo, nesses últimos 28 anos de puro afeto eu, por vezes, fico sem palavras . . . Enfim, PARABÉNS. Recomendações à Sônia, à aniversariante do dia, Tatiana, ao Jean, aos Príncipes Guilherme e Gabriel e demais familiares.

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  2. Olá! Boa tarde, Sr. Antônio Carlos

    Minha mãe avisou logo que tinha crônica nova!

    Adorei essa vaca! Kkkkkkk

    Duas coisas me chamaram a atenção no texto: a “desordem” dos sentidos (em favor da natureza) e o temperamento dessa vaca. Como o sr. falou, ela apenas estava defendendo a posição dela.

    Primeiro, que bom seria se tivéssemos essa “desordem” dos sentidos! Ouvir a natureza, apreciar tudo que é belo e criado por Deus. Infelizmente, não andamos com essa “desordem”. Os nossos sentidos estão voltados para o trânsito estressado, reuniões entediantes e preocupações do dia a dia.

    E segundo: acho que todos devíamos ser igual a essa vaca. Talvez eu imprima uma imagem de uma vaca e cole na mesa onde trabalho. Não me refiro ao que o sr e sua esposa passaram. Mas, pelo simples fato de defender posição, olhar com determinação e proteger o território.

    Falando assim parece fácil. Quando olhamos para a natureza, algumas coisas parecem fáceis. “Cante como os pássaros…seja leve como um beija-flor, seja forte como a onça…”

    Mas acho que vale ser igual a essa vaca. Para não virar “churrasco” hoje em dia, a leveza do beija-flor não serve…

    Vaca até que virou elogio agora…

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