Certa vez, na empresa em que trabalhava, recebi a visita de uma gerente do banco no qual havíamos aberto uma conta recentemente. Era uma semana atribulada, como quase todas daquele tempo…
No dia da visita, porém, algumas coisas eram especialmente importantes e isto me trouxe a sensação de que o compromisso se tornara inconveniente e desnecessário. Em minha mente travava-se um embate entre atender uma mera visita de cortesia e a urgência de tomar providências relevantes. Entretanto, o encontro havia sido marcado e confirmado por mim há uma semana, ou seja, seria uma indelicadeza deixar de cumprir a agenda.
Exatamente no horário marcado chegou a Katia, uma descendente de japoneses, falante e simpática. Feitas as apresentações, conversamos sobre alguns aspectos da relação do banco com a empresa, enquanto minha agenda oculta exigia apressar o encerramento da visita.
Após uns vinte minutos, quando já estávamos chegando ao momento da despedida, houve uma surpresa: a nossa copeira abriu a porta e, com um sorriso, ofereceu um cafezinho.
Era tudo que eu não queria, era tudo que a Katia queria.
Diante da inevitabilidade, restou-me desfrutar do café e seguir controlando a ansiedade de ter um sem-número de coisas úteis a realizar e ter que perder tempo com algo, digamos, inútil.
Entretanto, a partir daí a Katia se despiu — calma, meu caro leitor — da veste de gerente de banco e passou a ser apenas uma agradável companhia para um café. Passamos a conversar mais descontraidamente e chegamos a comentar sobre alguns aspectos de nossa vida pessoal. Não me recordo exatamente por que, mas em algum momento contei a ela que meu pai estava com 94 anos, vivia bem e desfrutava de saúde.
Neste ponto a Katia passou a me fazer perguntas sobre a vida financeira dele e a me orientar sobre a sucessão patrimonial de meu pai. Fez isso de modo desinteressado, sem buscar mais um negócio para o seu banco, apenas afirmando que se fosse ela, faria exatamente o que me recomendava, pois economizaria muito tempo e recursos por ocasião do futuro inventário.
Devo dizer que o cafezinho demorou mais que a primeira parte de nosso encontro, pois fui pedindo detalhes e anotando informações. Ao final, agradecido pelas valiosas orientações da Katia, fui levá-la à porta, com vontade de levá-la em casa…
Para encurtar a história, fiz tudo o que a Katia indicou e quando meu pai faleceu, 9 anos depois, constatei que aquela moça era como certas coisas do Japão: discretas na forma, inesgotáveis no valor. Procurei-a para um agradecimento em meu nome e de meus quatro irmãos, mas ela já tinha deixado o banco e perdemos o contato.
Esta história veio à minha lembrança quando, na leitura de um livro, me deparei com a seguinte frase:
Não podemos nos dar ao luxo de nos determos em coisas inúteis.
Essa afirmação deixou em mim um rastro de reflexões a ponto de me fazer interromper a leitura. De início achei-a correta e passei logo a fazer uma autocrítica dos meus dias, procurando identificar hábitos ou rotinas que se enquadrariam neste caso. Fiquei impressionado com o quanto é “luxuosa” a minha vida…
Na sequência de pensamentos, lembrei da expressão dia útil, com a qual nunca me conformei por achar que implica em admitir que também existem dias inúteis…
Talvez sem pensar muito, acabemos por associar o que é útil ao que tem valor. Este pode ser um grande engano. Quantas vezes o aparentemente inútil pode ocultar uma preciosidade, assim como o que é notadamente útil pode acabar por se revelar vão, fútil ou até negativo.
Dizia Oscar Wilde que toda arte é completamente inútil. Parece que sim, mas imagine a nossa vida sem o toque da literatura, da pintura ou da música… Prefiro ficar com a citação atribuída a Nietzsche de que a arte não serve para nada, exceto para tornar a vida suportável.
Passei a desconfiar que aquilo que vale para a arte talvez valha também para a própria experiência humana.
Há quem cultive pessoas como se fossem investimentos — esperando retorno. São aqueles que nos procuram apenas quando precisam de alguma coisa. Buscam no outro aquilo que pode ser útil. E quando o interesse chega primeiro, o afeto costuma chegar atrasado, se é que chega.
Ora, se por definição, útil é aquilo que pode ser usado, reduzir a relação humana a tal condição subverte a ideia de que se deve usar as coisas e amar as pessoas.
Tenho um amigo do Brasil que me liga com muita frequência. Não nos vemos há muito tempo, mas dificilmente passamos uma semana sem nos falar. Muitas vezes a ligação demora. Em uma ocasião, após desligar minha mulher perguntou:
— Quem era?
— Adivinha.
— Já sei. E o que ele queria?
— Nada.
— Este tempo todo para nada.
— Não. Este tempo todo para conversar, saber da vida, da família, da saúde, trocar opiniões, ouvir a voz, sentir-se próximo e manifestar afeto. Amizade de verdade é uma fogueira: precisa de lenha para manter a chama acesa.
— É verdade!
Viver em um mundo obcecado por utilidade tende a nos levar para a busca incessante de produtividade, de resultados concretos, mas não devemos deixar de lado coisas consideradas “inúteis”, como um simples gesto de afeto, o saborear de uma doce lembrança, a apreciação de uma pequena flor, um momento de silêncio e encontro consigo mesmo ou até o roçar de uma suave brisa em nosso rosto.
Pode ser justamente no “inútil” que a vida deixe de ser apenas administrada e passe, de fato, a ser vivida.
Sobretudo nas relações humanas a inutilidade é um território de pureza, onde não há finalidade, há sentido. Por isso, prefiro reformular a frase e dizer:
Não podemos nos dar ao luxo de nos determos apenas em coisas úteis.
Antonio Carlos Sarmento