DISTRAÇÃO

Memória e impressão digital cada um tem a sua. Digo isso apenas como observador, sem nenhuma base científica. Mas acho que assim como qualidades e defeitos, todos nós temos pontos fortes e fracos em nossa memória, formando uma combinação única para cada indivíduo.

Os pontos fortes são mais fáceis de serem observados. Por exemplo, tem aquelas pessoas que guardam fisionomias de um modo impressionante. Eu já fui reconhecido por um colega de escola uns 40 anos depois: um constrangimento, pois para mim era um completo estranho. Não tive outra alternativa a não ser fingir que me lembrava dele também…

Outras pessoas são excelentes para nomes. Trabalhei numa empresa que tinha muitos empregados e o meu chefe sabia o nome completo de todos os funcionários do nosso setor.

Atores e Pastores são excelentes para textos e capazes de repetir fielmente trechos enormes, sem errar uma palavra sequer. Outras pessoas têm o talento de guardar números e datas: uma amiga nossa sabe aniversários e datas comemorativas da minha família, que eu mesmo preciso de agenda para confirmar.

Mas assim como existem estes pontos fortes, todos temos também os pontos fracos. A mesma pessoa fenomenal num destes aspectos mencionados, pode ser um desastre em outros. Sei de um pai que toda manhã de sábado ia à um clube perto de casa: certo dia, a esposa sugeriu que levasse o filho, um menino de uns 8 anos, para distrair- se um pouco e fazer companhia. Como de hábito, ele retornou na hora do almoço. Ela ouviu o barulho da chave na porta e foi ao encontro deles:

– Está sozinho!!! Cadê o menino? – apavorou-se a mulher.

– Ihhhhh! Esqueci o moleque no clube. – exclamou, voltando apavorado para reparar a situação.

Fatos assim, muitas vezes, fazem com que a pessoa seja gentilmente adjetivada como “distraída”. Não estou certo que seja simples distração, falta de atenção: pode ser uma característica da memória daquela pessoa, que não funciona bem para certas coisas do dia a dia. E aí não tem jeito!

Meu pai tinha uma memória deste tipo. Lembrava muito bem de fatos, pessoas, nomes, informações técnicas da sua profissão e não aparentava qualquer problema de memória. Tanto que viveu até os 103 anos reconhecendo tudo e todos. Mas em situações rotineiras parecia haver certa lacuna.

Certa vez, arrumou-se todo pra ir a um casamento. Minha mãe não iria, já que não conhecia os noivos nem os parentes e, como é sabido, para uma mulher ir a um casamento é uma custosa operação de guerra: unha, cabelo, vestido, sapato, bolsa, colar, brincos, maquiagem, perfume, etc… Para ele tudo muito mais simples: separou o melhor terno, caprichou na barba, uma escovada nos sapatos e tudo pronto. Já na porta, despediu-se com um “estou indo”. Minha mãe, que estava na cozinha, respondeu “até logo”, ouviu a porta fechar e em seguida, como de hábito, foi até a janela para acenar. No caminho viu o paletó vestindo o encosto de uma cadeira:

– Psiu! – chamou ela discretamente.

– Tchau! – respondeu ele sem olhar, andando em direção ao carro.

– Psiu! – ela insistiu.

Ele parou e olhou para cima:

– Você esqueceu o paletó! – disse ela, segurando o dito cujo com as duas mãos, como se fosse a bandeira brasileira.

– Ai minha Nossa Senhora da Penha! Joga aí pra mim. Já estou atrasado.

O paletó voou pelos ares, percorrendo os dois andares de altura. Ele agradeceu, vestiu, deu um sorriso pra ela e seguiu para o carro.

Minha mãe então, já de volta à cozinha ouve a porta de casa abrir-se e ele, de paletó, passar rápido em direção ao quarto:

– O que foi?

– Esqueci a chave do carro…

Desceu apressado. Ela então resolve verificar tudo e desce correndo, fazendo sinal para ele parar o carro:

– O que foi? – disse ele freando.

– O convite!

Em outra ocasião, viajávamos em dois carros: eu dirigindo o carro da família e meu pai de passageiro no carro de parentes que iam para nossa casa passar uns dias. Aquela viagem estressante, o tempo todo acompanhando pelo retrovisor se o outro carro estava junto, o desencontro nas ultrapassagens, a vontade contida de andar mais rápido ou mais devagar… Até que paramos para abastecer. Meu pai pegou a chave comigo para encarregar-se da tarefa. Concluído e pago o serviço, ele colocou a chave no bolso, fez um breve lanche, voltou ao seu lugar de carona e partiram antes de nós, quebrando a solidariedade da viagem e nos deixando impossibilitados de prosseguir. Ainda tivemos que empurrar o carro para liberar a bomba de combustível. Retornaram quase uma hora depois:

– Estão parados aí fazendo o quê?

– A chave do carro está no seu bolso!

– Ai minha Nossa Senhora da Penha!

Ainda teve o caso de um carro que levou para revisão. Foi buscar no dia seguinte e retornou já com fome, atrasado para o almoço, que para ele era sagrado. Estava com tanta pressa que sequer colocou o carro na garagem, estacionando em frente ao prédio.

– E aí, pai? O carro ficou bom? – perguntei, pois pretendia pedir emprestado para sair naquela noite.

– Ficou. Mas demorou muito. Uma simples revisão… – respondeu mastigando.

– Mas não estava pronto? Teve que esperar acabar?

– Estava pronto. Mas o recepcionista sumiu e me deixou esperando sentado. Até que deu a hora do meu almoço e fui atrás dele. Não achei, mas encontrei o carro. A chave estava na ignição, entrei e vim embora. Meu almoço primeiro!

Fui até a janela conferir. Realmente o carro estava lá, lindo, limpinho, a mesma cor, o teto preto de vinil que se usava naquele tempo, mas algo me chamou atenção: as rodas não eram originais.

– Pai, você trocou as rodas do carro?

– Eu não. Está sonhando? – respondeu ainda mastigando.

– Pai, esse carro não é o seu!

– Ai minha Nossa Senhora da Penha!

Deixei a mais dramática para o final.

Um dia, sei lá porque, meu pai resolveu reunir tudo que tinha de ouro em casa e colocou numa maleta. As joias da minha mãe, um relógio Rolex que ele havia ganhado numa homenagem de colegas de trabalho, uma caneta Parker com tampa dourada e tudo o mais que ele achava que era de ouro. Resolveu levar para fazer uma avaliação, próximo de onde trabalhava. Naquela época, morávamos no Rio de Janeiro e ele tinha o escritório em Niterói, usando as barcas para atravessar a Baía de Guanabara.

Próximo à estação das barcas encontrou um amigo, que o convidou para tomar um café, daqueles bem rápidos, de pé no balcão. Saiu dali e pegou a primeira barca. No meio da baía deu por falta da maleta!

Um desespero. Sentiu-se como um enterrado vivo, debatendo-se no caixão. Não conseguia ficar sentado: percorria a barca incessantemente, indo da proa à popa sem encontrar alívio. Vontade de pular na água e voltar nadando, o mais rápido possível. Mas não tinha jeito. Teve que esperar chegar em Niterói, comprar novo bilhete, pegar outra barca e retornar, tentando administrar a ansiedade e fazendo promessas sucessivas e mirabolantes à Nossa Senhora da Penha.

Saltou antes que a atracação fosse totalmente concluída e voou para o bar. Obviamente não estava mais ali, no chão, onde havia pousado. Ficava olhando incrédulo para o local. Saía e voltava. Olhava de novo… Depois de repetir isso umas dez vezes, convenceu-se da perda e, sem alternativa, exclamou:

– Ai minha Nossa Senhora da Penha!

Foi o cafezinho mais caro da história da humanidade…

Antonio Carlos Sarmento

35 comentários em “DISTRAÇÃO”

  1. Ai minha Nossa Senhora da Penha! Será que é hereditário?????

    Sou sua fã número um e por isso mesmo, minha opinião é suspeita.
    Como todas que já escreveu, essa também está muito interessante e nos desperta para termos mais atenção com nossa memória.
    Parabéns!!!!

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  2. Muito bom !
    Crônica divertida , e me fez lembrar de vários acontecimentos com as mesmas características, coisas que são comum de acontecer com esse perfil igual do pai.
    Você com inteligência e maestria nos fez ver as cenas contando esses capítulos, somente quem sabe escrever pode fazer isso acontecer.
    Parabéns!
    Você é uma Águia!

    Existem muitas pessoas assim, aliás , do que falávamos ? ( Risos)
    Ih,

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  3. Começando o dia rindo e recordando pessoas amadas, combinando perfeitamente com o sol lindo de Vitória hoje.
    Fiz Adauto parar o que estava fazendo, para ler comigo.
    É um prazer ouvir as histórias de tio Alfredo. Nossa! Poderia ouvir sua voz dizendo: ” estão parados aí fazendo o quê?” – rindo, até agora , desse trecho.
    Acho que essa distração esta no DNA da família. Adauto dia que, se eu ficar viúva, tenho que andar com um colar no pescoço, com uma medalha e a foto dele dentro, para me recordar de vez em quando.
    Palmas para você, por descrever tão bem a agonia da perda da maleta.
    Palmas para você , pelo ” bom dia” agradável que nos deu.
    Palmas e palmas…

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    1. Prima,
      Não sabia que também tinha esta característica. A genética é forte!!!
      Essa ideia do colar com a foto do Adauto é hilária…
      Que bom a leitura ter alegrado sua manhã de domingo!
      Obrigado pelo comentário, Gena!
      Beijos

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  4. Prezado Amigo, muito bom dia . . . com todo o respeito pelo seu amado Pai a quem tive o privilégio de conhecer em Dez/1998, mesmo lamentando pela perda da maleta do tesouro, estou “morrendo” de rir . . . rsrsrsrs

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    1. Querido amigo JH,
      Por falar em memória nem me lembrava que você conheceu meu pai…
      Fico contente que tenha se divertido com a crônica.
      Muito obrigado por acompanhar e sempre comentar.
      Grande abraço e um excelente domingo!

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  5. Nós, no alto dos nossos “sessenta e tais” sabemos bem o que voce escreveu. Grande domingo e uma semana abençoada por Deus para que domingo próximo sejamos brindados com nova crônica.

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  6. Distraído. Esta é do meu cunhado, que prefiro omitir o nome( são quatro). Ele trabalha em nossa empresa e às vezes ia de carro e outras vezes de carro. Em um destes dias que foi de carro, retornou para sua casa em Madureira(trabalhava em DEL Castilho) de ônibus, pois havia esquecido o carro na empresa. Coisas do meu cunhado.
    Parabéns pela crônica, abraços

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    1. Meu amigo Antonio,
      Se eu tivesse conhecido o seu cunhado falaria dele na crônica… hahaha
      Agradeço muito o seu comentário e fico contente que esteja se mantendo como leitor frequente.
      Um grande abraço, meu eterno coordenador!

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  7. Bela lembrança de Tio Alfredo nesta crônica e muito mais do seu jeito de falar…o DNA da família é forte. Eu sou mestra em perder a chave do carro. Agora ando com ela pendurada no pescoço. É muito bom ler suas crônicas…boa semana para vc. Bjs

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  8. Coitada de Nossa Senhora da Penha, ou de qualquer outra denominação, para aturar nossos esquecimentos.
    Já na espera do próximo domingo.
    Beijos.

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  9. Meu amigo boa noite, ou melhorbom dia? Não sei, rsrsrsrsrsrs
    À primeira parte foi divertida, mas o café e a maleta, foi sofrido, sofri junto com o seu pai, como ele se sentiu perdendo os anéis, brincos, pulseiras de sua mãe. Ele deve ter ficado muito mal…
    Um grande abraço e até breve!!!

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  10. Mais uma crônica show! Grande amigo, perdi muito tempo ao seu lado nos estudos, quando podia ter escutado essas crônicas ao vivo, que seria muito legal. Agora tenho que esperar o próximo domingo, mas com certeza NÃO VOU ESQUECER! Forte abraço.

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    1. Grande Rodolpho,
      Foi um prazer estudarmos juntos naqueles dois anos e daí ter nascido a amizade que mantemos até hoje.
      Obrigado pelo comentário. Com certeza não vai esquecer de ler no próximo domingo! Hahaha
      Grande abraço!

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  11. Só consegui ler hoje!!! O máximo!!! Considerando as diversas vezes que procurei desesperadamente pelos óculos que estavam no rosto ou o celular que estava no bolso, acho que esse DNA da memória eu também tenho!!! Hahahahaha. Parabéns por suas crônicas Antônio Carlos!!!

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  12. Minha Nossa Senhora da Penha! Agora já sei da onde herdei minha distração! Já esqueci carteira alguma vezes, bicicleta na faculdade, bagagem de mão no avião, mala no uber e até carro no trabalho! Minha senhora fica bolada quando tivermos filhos! rs

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