NA CABEÇA

Houve uma época em que eu era dono da Floresta da Tijuca. Sim, a maior floresta urbana do mundo, localizada aqui no Rio de Janeiro, foi minha por quase dois anos. Calma leitor, eu explico.

No início da década de 1990, adquiri uma bicicleta importada, tipo mountain bike e, em meus horários de almoço, como eu trabalhava por perto, pedalava na Floresta. As bicicletas deste tipo, naquela época, chegavam ao Brasil pelas mãos de pessoas que viajavam aos Estados Unidos e traziam uma ou duas desmontadas para revender aqui. Paguei caro, mas valeu a pena. Nos dias de semana, nos horários em que eu pedalava, não havia ninguém na Floresta! Só eu, dono absoluto daquele paraíso.

Através de um amigo consegui um local para deixar a gringa, bem próximo da entrada da Floresta. Era uma casa enorme. Com autorização da dona, a coisa funcionava assim: a bicicleta ficava lá, guardada num quartinho. Na hora do almoço eu chegava de carro, o caseiro abria o portão e aí era só trocar de roupa e desfrutar de um passeio belíssimo, além de uma atividade física completa e revigorante. Na volta, selava o passeio com um banho de água gelada vinda direto da mata. O caseiro era um simpático nordestino chamado Generino, que eu logo achei que devia se chamar Generoso, pois me recebia sempre prestativamente e com um grande sorriso.

O circuito era uma verdadeira montanha russa: uma longa e lenta subida até o topo e depois muita velocidade e emoção no percurso da descida. Passado o portão de entrada da Floresta, era só aclive. O deserto ladeira acima, antes do oásis ladeira abaixo. O ritmo lento na subida me permitia apreciar aquela maravilhosa natureza, com fundo musical de passarinhos e o farfalhar da vegetação. O oxigênio puro me invadia e proporcionava a energia necessária para escalar aquela vertente.

Na ocasião eu havia lido que os japoneses inventaram uma bicicleta ergométrica que ficava de frente para uma enorme tela de projeção, onde se tinha a sensação de percorrer uma trilha na floresta. Reproduziam os sons, o vento e até os aromas para aumentar a sensação de realismo. Quanto dinheiro e esforço gasto para simular uma situação que eu estava vivendo ali, ao vivo, real, de graça e com absoluta exclusividade: muito privilégio…

A bicicleta tinha um excelente rendimento: um câmbio sofisticado permitia ir vencendo a subida com esforço reduzido. Claro que mesmo assim, exigia bastante, tanto que eu costumava dar uma parada um pouco antes do topo, para respirar, enxugar o suor e descansar um pouco, preparando-me para a segunda etapa. Este local era um pequeno mirante com um banco de pedra e uma ampla vista que sempre me impressionava, pois apesar de ser dentro da imensa cidade do Rio de Janeiro, dali, até onde a vista alcançava, só se via verde: só a obra de Deus, sem nenhuma construção humana.

Mas eu subia para poder descer. Aí vinha a verdadeira diversão. A bicicleta tinha um velocímetro e no final do percurso eu me espantava: havia alcançado mais de 50km/h. Que delícia desfrutar do vento refrescante, da sensação de velocidade e das curvas emocionantes em meio a pura natureza.  O contraste do muito lento da subida com o muito rápido da descida parecia uma espécie de choque térmico, como o que ocorre na sauna. E proporcionava também um enorme bem-estar.

Enfim, uma experiência de desprender-se da realidade, voar em liberdade! Abandonar o adulto e voltar a ser criança. Só eu e a minha floresta. Sim, naquele intervalo de tempo a floresta era minha! Apesar de passarmos a vida inteira correndo atrás de dinheiro, as coisas mais maravilhosas que temos não são compradas. E muitas vezes nem temos a consciência de possuí-las. Ou não atribuímos a elas o devido valor. Passam despercebidas, enquanto o nosso foco está na compra disso ou daquilo: talvez coisas de muito custo e pouco valor…

Mas voltemos à floresta. Um dia, em plena descida, o adulto prevaleceu sobre a criança e me veio um pensamento: e se eu cair aqui, nesta velocidade, com este declive íngreme, cheio de pedras e árvores? Há grande probabilidade de bater a cabeça e, na hora, passar por um outro tipo de choque térmico: do frescor da floresta para o ardor do forno crematório… Ou ficar inerte, aguardando um socorro que não vai chegar, agonizando e pagando caro pela exclusividade de uso do local. Então achei que devia reduzir um pouco o risco e decidi comprar um capacete, coisa que naquela época, ninguém por aqui usava para andar de bicicleta. E assim fiz.

Demorou um pouco, pois a peça veio dos Estados Unidos. Lindo, preto brilhante com uma pintura de grafismo amarelo nas laterais, levíssimo, bem ajustado na cabeça e com uma tira de segurança prendendo no queixo. Quando chegou, ansiei pela estreia no dia seguinte.

Parti para o passeio já na expectativa de realizar a primeira descida em segurança, depois de meses. Durante a subida tive a sensação de que suei um pouco mais, por estar com a cabeça coberta, mas valia a pena. Cheguei ao tradicional ponto de descanso e logo tirei o capacete para refrescar-me, coloquei em cima do banco de pedra e enxuguei um pouco o suor enquanto, solitariamente como sempre, apreciava a vista e respirava aquele ar puro.

Parti animado para o topo, onde existe uma pequena praça, fiz o contorno e ingressei na descida. Como sempre, a bicicleta embalou rápido e em menos de um minuto eu já voava pela pista, sentindo o vento até nos cabelos. Nos cabelos??

– Ai meu Deus, esqueci o capacete no banco de pedra!

Soltei um palavrão, que o leitor sabe bem qual foi. Cravei nos freios, retornei no meio da pista e iniciei o percurso de volta ao mirante. Aos poucos, fui ficando impaciente com a baixa velocidade e constatando que, apesar do pouco tempo de descida, já havia percorrido uma grande parte. Ansioso, percebi que o retorno iria demorar muito: melhor seria descer rapidamente de bicicleta mesmo e pegar o carro.

Desci ainda mais rápido do que de costume. Logo cheguei ao portão e toquei a campainha nervosamente. Generino, o generoso, abriu logo e avisei a ele do ocorrido, enquanto já me dirigia ao carro. Aí foi só manobrar e pegar o caminho do mirante. Eu estava otimista: a floresta é minha, nunca tem ninguém lá! Meu capacete vai estar no banco, descansando, esperando o dono. Pisei fundo no acelerador para ir ao encontro daquela beldade, ainda virgem. Passei o portão e ingressei na subida, sem ouvir passarinhos nem farfalhar de vegetação: só o motor roncando. Cheguei logo: estacionei e corri esperançoso para o banco de pedra. Se este texto fosse de uma novela, aqui se encerraria um capítulo…

O capacete não estava lá! Custei a acreditar. Procurei por perto, embaixo do banco, na vegetação próxima. Nada. Não é possível! Quis acreditar no improvável: só se ventou, o capacete caiu do banco e saiu rolando. Percorri um longo trecho da pista para baixo, buscando nas laterais, sem resultado. Que frustração! Nunca tinha ninguém por ali. Que cidade insegura: somos roubados até onde não existem ladrões…

De volta, ainda no carro, encontrei consolo parodiando o velho ditado: vão-se os capacetes, ficam as cabeças!

Isso mesmo! As coisas que o dinheiro resolve não merecem sofrimento.

Decidi comprar outro capacete, se possível, igualzinho. E nunca mais tirar da cabeça, antes do final do passeio. Depois disso, pedalei protegido por mais um ano e meio, sem nunca ter sofrido um acidente.

Até que mudei de emprego e no novo endereço ficou inviável. Acabou-se o encanto: deixei de ser dono da Floresta da Tijuca. Um bem maravilhoso, como tantos outros em nossa vida, que desfrutei muito, sem ter sido preciso comprar nem vender.

Daí para frente, tive que me contentar com pouco em meus intervalos de almoço e fazer apenas uma coisa: almoçar…

Antonio Carlos Sarmento

25 comentários em “NA CABEÇA”

  1. Vários foram os proprietários da Floresta da Tijuca…….
    Delícia de crônica, me despertou lindas lembranças.
    Continue a nos emocionar.
    Beijos.

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    1. Ana,
      Se despertou em você lindas lembranças, já fico recompensado. Muito bom para quem escreve, saber que despertou coisas boas, ainda mais em pessoas que gostamos, como é o seu caso.
      Obrigado pelo comentário minha amiga! Vou continuar escrevendo e buscando a emoção, o divertimento e a reflexão de quem lê.
      Uma ótima semana!
      Beijos

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  2. Sarmento, de todos os especiais “apetrechos” com que Deus nos presenteou, a imaginação e a memória são dos mais notáveis. “senti” o vento e a frustração do fim dos seus passeios, mas agradeci pelas memórias que lhe permitem lembrar e reviver essas sensações. Abraços, + uma vez, obrigado e bom domingo.

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    1. Luigi,
      Sempre aprecio muito os seus comentários. Agradeço por sempre ler as cronicas e opinar: para quem escreve este retorno é muito importante!
      Obrigado mais uma vez.
      Desejo uma semana abençoada a você e todos os seus.

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  3. Muito bom dia . . . “vão-se os capacetes, ficam as cabeças!” síntese de mais uma crônica maravilhosa. Parabéns, meu Amigo. Recomendações à família.

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  4. Você é bem rico de coração e das ideias com as palavras que o ESPIRITO SANTO vos coloca em seu lindo coração,pura é a verdade de tudo isso,que o próprio JESUS CRISTO VOS CUIDE E VOS ABENÇOE AMÉM E VOS PROTEJA COM AS BÊNÇÃOS DO CÉU AMÉM.😇🤗🥰😄!

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  5. Meu irmão querido!!!
    Confesso que fiquei aliviada ao saber que o “prejuízo” foi somente o capacete…
    A floresta será sempre Sua!!!!!

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  6. E o grande cronista despertando emoções :
    enquanto te acompanhava junto ao verde , junto aos pássaros, junto à brisa da floresta, eu pensava: isso é Rio de Janeiro?
    Mas é. E só Cacau nos lembra e nos confirma como essa cidade é maravilhosa.
    Tem sempre o melhor de tudo para nos mostrar .
    É assim, meu primo: suas crônicas inspiram mais que sua intenção.
    Esta despedida já está patenteada:
    Parabéns!

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    1. Minha prima querida,
      Mais uma vez agradeço muito por seu comentário. É muito bom saber que a crônica desperta emoção. E que talvez vá além da minha intenção: a leitura tem esta qualidade de dar asas à imaginação e mexer com as emoções.
      Obrigado e um carinhoso beijo!

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  7. Delícia de história!! Sabia que aqui na Holanda, o país em que mais se pedala
    no mundo, eles não usam capacete? Estou “estudando” o tema e quando nos vermos compartilharei minhas observações kkkk

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  8. Querido Cacau. Gostei da frase. ” Somos roubados até mesmo não existem ladrões !!!”. Achei que o capacete estivesse com o Generoso…
    Volta lá … Quem sabe algum outro generoso o achou e devolveu…
    Muito interessante. Parabéns. Bjs

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  9. Que privilégio trabalhar próximo a floresta da tijuca e usufruir das maravilhas da natureza na hora do almoço. Senti o frio no rosto na hora da descida, sem capacete é claro. Ótima crônica!
    Um abraço.

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  10. Vários ensinamentos em uma única crônica , assim como, várias lembranças de coisas vividas com a minha bicicleta.
    Uma das reflexões que me veio, foi a que Deus nos dá muitos presentes , assim como a floresta da Tijuca, que é de todos mas somente sua , somente minha e somente de fulano e sicrano. E não nos damos contas que realmente podemos voar , estar nas nuvens, só depende de nós e muitas vezes somente quando vem as lembranças é que conseguimos dar o valor real , que geralmente é muito maior do que o vivenciado naquele momento . Mas , ao mesmo tempo, essas lembranças também são presentes enviados por Deus , que através do dom que Ele te deu para escrever crônicas que a cada dia são mais maravilhosas e ricas .
    Estou me sentindo um milionário depois de tudo que você escreveu nessa linda crônica.
    Obrigado Cacau!
    Viajei na minha bicicleta , fui até o céu e voltei e sem capacete !

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