PONTO FORA DA CURVA

Os fatos que despertam o interesse das pessoas são aqueles inesperados, atípicos, fora da normalidade. Ninguém atina com aquilo que é de rotina. O que sai do padrão é que chama a atenção. Quem escreve histórias, seja para livros, filmes ou peças de teatro, vive de lupa atrás destes acontecimentos.

Me ocorrem dois casos de motoristas que derraparam na curva da normalidade e dirigiram por caminhos extraordinários.

Entre os anos de 1997 a 2000, eu viajava a trabalho todas as semanas. Um ir e vir constante que me levava a utilizar muitos serviços, principalmente aviões, táxis, hotéis e restaurantes: um excelente laboratório de observação do inusitado.

Foi o que ocorreu certo dia, chegando ao aeroporto de Brasília. Já conhecia aquele embarque bem organizado nos táxis. Coisa simples: uma fila única de passageiros desaguava numa fila única de táxis, como dois afluentes de um rio que se encontram e passam a correr juntos. Um sujeito, com apito na boca e colete refletivo, era o juiz do jogo e comandava o embarque. Tudo ocorria de forma rápida e fluida, exatamente por não haver possibilidade de escolha. Era como um restaurante sem cardápio, com um único prato e já pronto.

Na minha vez, por uma sorte incrível, parou um carro de um padrão que eu nunca havia visto naquela fila: era um Omega da Chevrolet, carro de autoridades e embaixadas… Estava impecavelmente limpo por fora, polido, o que já fugia do estilo ao qual eu estava acostumado naquele aeroporto. O motorista, igualmente polido, saltou rapidamente:

– Bom dia. Sua mala, por favor. – disse sorrindo e já abrindo a porta de trás para que eu me acomodasse.

– Será que estou sendo confundido? – pensei…

Enquanto eu entrava, ele alojou minha bagagem no enorme porta-malas. No interior do carro um aroma agradável, bancos de couro, ar condicionado geladinho e muito espaço. Achei que o avião errara de aeroporto e estávamos em Paris…

O motorista usava camisa clara por dentro da calça preta, sapatos também pretos brilhando quase tanto quanto a pintura do carro e um sorriso persistente, incabível em alguém que estava há muito tempo na longa fila dos táxis.

Iniciamos o percurso e eu ainda notava seus cabelos cortados e a barba bem-feita, quando ele perguntou:

– O senhor fez boa viagem?

– Sim. Tranquilo. – respondi, ainda desconcertado.

– Aonde vamos?

Dei o endereço do local da reunião para a qual estava indo naquele horário e comentei:

– Acabo sempre indo para estas reuniões levando a mala, pois não dá tempo de passar no hotel.

– Se o senhor quiser pode deixar a mala aqui no carro. No final do dia o senhor me telefona e eu lhe levo ao hotel.

– Isso dá certo? – indaguei, desconfiado.

– Sim. Já tenho vários clientes que atendo desta forma. Só agora tem 4 malas aí na mesma situação. É só o senhor me ligar na hora em que estiver liberado.

– Sei…

Ele percebeu minha hesitação. Deixar a mala com alguém que acabei de conhecer não me parecia uma alternativa muito segura para os padrões brasileiros, apesar da aparência confiável do motorista.

– Como o senhor ainda não me conhece, vamos fazer o seguinte: depois de lhe deixar eu passo no hotel e entrego sua mala. Sem custo, é caminho para mim. Eu aviso e, se quiser, o senhor liga para lá confirmando.

Para aumentar a confiança, ao saltar ele abriu o porta-malas e mostrou-me a bagagem dos outros clientes. Resolvi arriscar.  Nada de muito valor na mala: apenas algumas roupas e itens de higiene pessoal. O pagamento da corrida ficou para o final do dia, como era a prática dele.

Deu tudo certo. Em meia hora minha mala estava no hotel.

Daí para frente, ao embarcar no Rio de Janeiro eu ligava e ele me aguardava no aeroporto, atendendo-me em todos os deslocamentos durante o tempo que eu passava em Brasília. Nunca atrasou, nunca veio com o carro sujo, nunca se apresentou com a barba por fazer ou o cabelo por cortar, nunca cobrou um centavo a mais que o valor correto e nunca tirou do rosto aquele sorriso gentil. Nos táxis de Brasília ninguém tinha o carro que ele tinha, mas principalmente, ninguém era o motorista que ele era.

Ser um ponto fora da curva pode ser maravilhoso!

Nesta mesma época, soube por colegas de trabalho que, em outra cidade, uma empresa pública de transporte de ônibus vinha passando por dificuldades graves: veículos em mau estado de conservação, salários e ônibus atrasados, serviço ruim e prejuízos financeiros crescentes. No auge da crise, um diretor sugeriu uma pesquisa de opinião dos passageiros para levantar informações que pudessem orientar um possível plano de recuperação da empresa.

Na análise dos resultados, algo intrigou os pesquisadores: um dos motoristas, apenas um numa empresa com mais de 600 ônibus, recebeu elogios e foi considerado excelente pelos passageiros. E os mesmos, impactados pelo atendimento do motorista, avaliavam de modo menos rigoroso as demais deficiências da empresa.

O fato causou perplexidade entre os pesquisadores. Resolveram chamar o motorista para uma entrevista visando obter elementos para compreenderem o insólito resultado.

– Há quanto tempo o senhor trabalha na empresa como motorista?

– Uns 10 anos.

– E o que o senhor pensa da empresa?

– Ela presta um serviço que é necessário para muitas pessoas.

– Sim, mas o senhor acha que ela presta um bom serviço?

– O que me cabe é buscar fazer o melhor possível.

– Como, com os ônibus em mau estado, sem manutenção?

– A gente tenta superar para poder transportar as pessoas.

– E o salário atrasado?

– Tenho a esperança de receber.

Deram a entrevista por encerrada. Ninguém ali sabia interpretar aquelas intrigantes respostas…

– Não é possível! Tem algo errado. – disse o chefe.

– Com a pesquisa?

– Não. Com o motorista!

– De fato. Não é normal…

– O comportamento dele precisa ser investigado mais profundamente. Não é crível que uma pessoa em seu juízo perfeito, submetida a estas condições de trabalho, possa obter tal performance. – concluiu.

A discrepância do resultado da pesquisa foi resolvida, atribuindo-se a anormalidade ao motorista. Ele foi afastado da função, por tempo indeterminado, para tratamento de saúde. A empresa entrou em processo de extinção 6 meses depois.

Ser um ponto fora da curva pode ser perigoso!

 

Antonio Carlos Sarmento

30 comentários em “PONTO FORA DA CURVA”

  1. Como está cada dia mais difícil ser ou encontrar “pontos fora da curva” hoje! Fomos servidores do publico durante anos de nossas vidas e me lembro que era raro termos colegas que entendessem que “servir ao publico” era nossa missão. Como o tal publico é, foi e será mal tratado por quem é pago para servi-lo…. Bela crônica Sarmento.

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    1. Caro Luigi,
      Mais uma vez inaugurando os comentários! Obrigado!!
      A sua reflexão sobre a crônica vem ao encontro do que pretendo com o Blog: “histórias leves e curtas para divertir e fazer pensar”!
      Muito bom que a crônica te proporcionou esta reflexão.
      Mais uma vez agradeço por acompanhar o Blog de forma tão ativa e desejo um 2020 de muitas alegrias a você e sua família! Deus os abençoe!!
      Grande abraço!

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  2. Ser ponto fora da curva é perigoso e trabalhoso. Mas com certeza recompensador.

    P.s. Creio que o motorista da empresa de ônibus foi recolocado rapidamente.

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  3. Obrigado Cacau !
    Que em 2020 tenhamos a continuidade de aos Domingos , ter o privilégio dessas lindas crônicas , que fazem refletir e sempre trazendo o que há de bom.
    Hoje foi simplesmente excelente , escrita por um ” fora da curva”, que me levou a pergunta :
    Eu ajo como tudo sendo comum ou como devo ser, normal ?

    Grande abraço

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  4. Grande meu Amigo, muito boa tarde . . . continuemos, no novo ano que se inicia, a procurar e, sobretudo, a ser esse ponto fora da curva . . . recomendações à família . . .

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  5. Antônio Carlos, comecei a trabalhar profissionalmente numa época em que as pessoas tinham orgulho de fazer um trabalho bem feito. Infelizmente isto foi se perdendo ao longo dos anos até chegarmos aos dias de hoje onde para se ter um bom serviço é preciso uma fiscalização rígida e constante. Triste.

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  6. Obrigado Antônio Carlos pelas crônicas semanais que nos levam as variadas reflexões.
    Ser um ponto fora da curva é perigoso e arriscado, principalmente pelos interesses contrariados.
    Até 2020 com as maravilhosas crônicas.
    Um abraço.

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    1. Amigo Newton,
      Agradeço muito sua gentileza de sempre comentar as crônicas.
      Você tem sido um dos meus incentivadores. Com certeza em 2020 continuarei a publicar novas crônicas.
      Aproveito para desejar à você e Nuri um novo ano cheio de alegrias e realizações: vocês merecem!
      Grande abraço!

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  7. Querido Cau,
    Excelente crônica ! Você com esta sensibilidade aguçada prestou atenção neste ponto “fora da curva” que fez toda a diferença!
    Como seria bom se todos os prestadores de serviços tivessem esse cuidadoso olhar e conduta.
    Que em 2020 você continue nos presenteando com essas crônicas que nos tocam!!!

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  8. Meu prezado amigo e irmão Antonio Carlos.
    Encontramos pelos caminhos pessoas que surpreendem pela forma de agir para com o próximo, A nossa sociedade baseia seus juízos e sua conduta numa visão do homem e de seu destino. Eu gostei, parabéns pelo relato da crônica.

    Um fraterno abraço para vc e família.

    Oslúzio Félix Fonseca

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  9. Infelizmente, a nossa sociedade estima a boa conduta como “”pontos fora da curva””. Uma vez sendo ATITUDES HUMANAS possiveis em todxs nós!!!!

    Me recordo uma bela conversa que tivemos na capela da SFP, no periodo da JC que em cada momento que vivemos na Comunidade SFP encontramos pessoas incríveis…

    …Arrisco a dizer pessoas DENTRO da curva humanamente possível!!!

    Obrigada pelas reflexões dos Domingos de 2019

    Que venham as próximas em 2020

    Forte abraço para Você e Sônia
    Feliz 2020

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  10. Admiráveis os motoristas que ” derraparam na curva da normalidade”.
    O esperado seria que todos fizéssemos da melhor forma o que nos cabe.
    Essa é uma ordem do Divino.
    ” Tudo o que vier à tua mão para fazer, faz conforme a tua força”.
    Proponho que esse seja nosso maior desafio para 2020: como cidadãos, como profissionais; como pais ou como filhos; como amigo, vizinho, cônjuge ou como irmão: sejamos o nosso melhor.
    Querido cronista, seus personagens nos inspiram a alcançarmos essa meta:
    – a paciência e a resiliência de Paulo ( Pizza de Domingo);
    – o brilho e a bondade de Josefa ( Intervenção Cirúrgica);
    – a atenção e a consideração do casal apaixonado ( Diferenças);
    – a alegria compartilhada dos primos ( Ao Ataque).
    E mesmo a fraqueza de Antunes (O Recurso) que nos lembra que todos cometemos falhas, o que nos obriga a sermos mais compassivos .
    Obrigada pelas reflexões que nos ofereceu.Isso é mais que talento . É bondade.
    Continuarei sua leitora assídua. E orgulhosa!
    Feliz ano novo!

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    1. Querida Gena,
      Esse comentário foi demais!!! Quase um resumo de 2019, com citações à outras crônicas.
      Fico muito feliz que continue minha leitora assídua! Mas é também uma grande responsabilidade.
      Um maravilhoso ano para vocês, pessoas tão queridas!
      Beijos

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  11. Prezado senhor Sarmento. Como sempre brilhante! É uma pena que aqui no Brasil as pessoas em toda a parte tenham essa mentalidade medíocre do “qualquer coisa tá bom”. Isso a que o senhor se referiu chama-se “destacar-se da multidão”. Em países de primeiro mundo não se espera menos do que esse tipo de atitude.
    Felicidades!

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