RISCO DO CÃO

Um grande mistério permanece indecifrado no estudo do comportamento humano: a aversão à guarda-chuvas. Não posso afirmar com absoluta convicção, mas o distúrbio parece acometer predominantemente os homens, desde a invenção do artefato, há mais de 3 mil anos. Coisa séria, mas que até hoje sequer foi determinado se consiste em um fenômeno biológico, sociológico, psicológico ou patológico!

Entre as vítimas deste mal – permitam-me tratá-lo provisoriamente como uma patologia -, desde já me incluo, revelando que, durante muito tempo, possuí-o em grau máximo e em estado ao mesmo tempo crônico e agudo, dada a constância e a intensidade.

Uma das características comuns aos portadores da enfermidade é uma espécie de amnésia seletiva: sem nenhum problema de memória, o indivíduo acaba por sempre esquecer o guarda-chuva em qualquer local, hora ou situação, inconscientemente livrando-se daquilo que o estorva, atravanca, desarranja e transtorna. Poderíamos até complementar uma frase famosa da seguinte forma: “Nada se esquece mais lentamente que uma ofensa e nada mais rápido que um favor… ou um guarda-chuva!”

Uma corrente científica defende a tese de que a moléstia tem origem em um trauma infantil, causado pelas mães que, diuturnamente, alertam seus filhos:  – Vai chover. Leva o guarda-chuva! Basta uma única vez em que a chuva não ocorra para a mãe cair em absoluto descrédito e a doença se apoderar da criança de modo permanente e, quase sempre, irreversível.

Destaco aquilo que, a meu ver, constitui uma grande contribuição dos chineses na redução de danos desta enfermidade. Não alcançaram a cura, mas pelo menos atenuaram muito os sintomas. E não me refiro a tratamentos da prestigiada medicina chinesa, como pode pensar o leitor, mas ao fato de produzirem guarda-chuvas em larga escala e a preços módicos, tornando o acessório quase descartável. A culpa da perda, que antes compungia pesadamente a vítima, agora se encontra um tanto amenizada: na primeira esquina adquire-se um novo exemplar, zero quilometro, automático, com etiqueta de fábrica, em cores e padrões diversos, por 10 ou 15 Reais! Revelo aqui que, para melhor suportar a perda, sempre compro exatamente a mesma cor e tipo que acabei de perder, com a intenção de aplacar ainda mais a dor dos sintomas.

Curioso que, mal cai um pingo de chuva, muito antes de se formar a primeira poça d’água, surgem, sabe-se lá de onde, centenas de sujeitos vendendo os tais guarda-chuvas chineses, tão necessários aos portadores da lesão em pauta. Mais curioso ainda é tentar descobrir o que fazem estes sujeitos quando não chove, já que pelo menos no Rio de Janeiro, ninguém usa guarda-sol…

Deixo então as observações genéricas para descrever minha experiência própria, que aqui apresento como uma possível contribuição à ciência, nos estudos para o desvendamento deste mal. E pretendo, sem falsa modéstia, deixar neste ensaio, pistas para as pesquisas que possam levar à sua erradicação.

Passo a narrar o caso.

Na ocasião, década de 1980, eu trabalhava no bairro da Tijuca. Afeito à comida natural e avesso à comida por quilo, na maioria dos dias de trabalho saía para almoçar sozinho, pois era uma exceção entre os colegas, quase todos conquistados pela quilomania. Minha preferência era por um restaurante nas proximidades, que funcionava de modo informal, numa casa adaptada para este fim – mal adaptada, diga-se de passagem. Era quase uma pensão: um local simples, de poucos clientes e servia ótima comida caseira.

A casa era aquele projeto típico: sala e cozinha no andar térreo e quartos no pavimento superior. Banheiros nos dois andares. Ficava em centro de terreno, tendo um grande salão envidraçado onde ficavam as mesas. Dali se podia visualizar a frente, uma lateral e os fundos da casa. Na outra lateral, a cozinha adaptada e os banheiros.

A casa ficava numa esquina, toda cercada de um muro alto, com um portão na rua principal: eu chegava, estacionava na rua lateral e em segundos estava no portão, sempre fechado por questão de segurança e também devido à informalidade do estabelecimento. Era só tocar a campainha e destravavam à distância. Em seguida, por força de uma mola, o portão batia sozinho.

A comida, estilo natural, a gente escolhia: sempre tinha um feijão azuki, arroz integral com gersal, legumes, verduras e frango ou peixe cozidos, nunca fritos. Eu já era tão íntimo da casa que entrava na cozinha e levantava as tampas das panelas para decidir o que iria comer. A cozinheira era adorável: sorridente, gentil e competente. Um achado!

Os clientes, um bando de naturebas. Pessoas de todos os tipos e idades que buscavam uma alternativa aos restaurantes comuns, uma comida mais leve e saudável. Me lembro de um casal, aparentando ambos quase 80 anos, já caminhando com certa dificuldade, porém mais assíduos até do que eu mesmo. Olhava para eles e imaginava que já não se dispunham a cozinhar, fazer supermercado, feira, lavar louça e toda a trabalheira necessária às refeições em casa. Fizeram daquele restaurante a cozinha da casa deles. Tinham também os falsos naturebas, que enchiam a cara no fim de semana e enchiam a casa nas segundas-feiras, em busca de amenizar as culpas dos exageros cometidos. No resto da semana, sumiam… E havia ainda alguns colegas da minha empresa que iam duas ou até três vezes por semana, mas ninguém como eu, que ia quase todos os dias.

Certa vez sentei numa posição voltada para os fundos da casa e observei que havia um canil, um pouco precário como tudo por ali, onde além das grades, foram colocadas tábuas fechando as laterais. Pelas frestas, lá dentro, dava para ver uma massa negra que se deslocava em um vai e vem incessante. Uma cena de filme de terror…

Perguntei ao dono sobre o animal e me disse que era um cachorro muito violento, uma fera. Ficava preso de dia e à noite patrulhava a casa:

– Fechei com tábuas para ele ficar mais calmo. Tenho até pena de quem pular este muro. Ele ataca sem dó… É mais lobo que cachorro! Mas aqui tem que ser assim. Lugar perigoso.

– Deus me livre. Reforça as grades, por favor. – respondi.

– Fica tranquilo. Está bem preso. Só solto ele lá pelas 10 da noite.

Mas o diabo tem as suas artimanhas. Em um dia muito chuvoso, eu vinha de um compromisso externo e decidi almoçar antes de retornar à empresa. Cheguei ao restaurante um pouco mais cedo que de costume, talvez umas 11:50h.

Estacionei na rua lateral e a chuva ainda persistia, embora bem mais fraca. Eu tinha uns guarda-chuvas no porta-malas do carro. Saltei, sentindo aquela poeira molhada e pensei em nem levar aquele estorvo, atravanco, desarranjo, transtorno, como o espírito do mal me fazia pensar.

Cheguei a trancar o carro e dirigir-me ao portão. Porém, Deus tem mais sagacidade e cochichou para que eu levasse o dito cujo: me fez pensar que a chuvarada poderia voltar e, mesmo sendo perto, acabaria todo molhado.

Retornei ao carro, abri o porta-malas e peguei um dos três guarda-chuvas que ali jaziam inúteis a maior parte do tempo. Um capital imobilizado de pelo menos uns 30 reais… Escolhi um preto. Mas resolvi nem abrir, pois era muito perto. Bastava apertar o passo.

Cheguei ao portão com o guarda-chuva fechado. Constatei, com estranheza, que o portão estava entreaberto. Uma pequena pedra no chão impedia seu fechamento. Por educação achei melhor tocar a campainha. Ouvi ela soar lá dentro, mas ninguém atendeu. Aguardei um pouco e toquei de novo. Ela voltou a soar. Nada…

Como já era íntimo da casa, resolvi empurrar o portão e entrar, imaginando que o travamento à distância estivesse com defeito e eles muito ocupados, finalizando os preparativos para o almoço. Quando já estava dentro, voltei-me para deixar o portão na posição anterior sem uma pancada da mola.

Foi quando ouvi um ruído atrás de mim: era ele! Despertado pelos dois toques da campainha, ali estava o monstro negro, com os dentes arreganhados, espumando. Não rosnava, rugia. Ele me olhava fixamente e avançava devagar em minha direção, pé ante pé, como uma onça antes de dar o bote, estudando a melhor forma de ataque. Nunca concordei com o dito popular de que “cão que ladra não morde” e sempre achei que cão que rosna também quer morder.

Um arrepio começou no meu dedo do pé e chegou instantaneamente ao topo da cabeça. Senti-me como um gato acuado num beco sem saída…

Instintivamente apontei o guarda-chuva fechado para ele. A ponta cromada o fez parar. Ficamos ali, um olhando para o outro, num impasse. O preto de lá com uma boca de tubarão e o de cá, com uma ponta brilhante como se fosse um único dente, de prata. Ambos paralisados, aguardando a reação do inimigo. Eu morrendo de medo daquela fera e ele sem entender aquele objeto pontiagudo apontado entre os seus olhos, mas sentindo-se ameaçado. O guarda-chuva ali mereceu um respeito de arma de guerra, coisa que eu nunca poderia imaginar…

Eu receava virar as costas para sair e ele voar em cima de mim. Ao mesmo tempo não queria enfrentá-lo com aquela arma chinesa, pois duvidava da minha habilidade na esgrima e também não confiava na resistência dos metais de que era feita a minha espada. Além disso, se errasse uma estocada, ele me atacaria de modo inexorável.

Concluí que não poderia permanecer ali, naquele perigo iminente. Precisava sair!

Eu estava bem próximo do portão, mas seria necessário voltar-me, abrir e ainda tirar a pedra para fechar, pois o monstro poderia passar pela fresta, sei lá… Avaliei a que distância eu me encontrava do portão e percebi que bastaria um passo atrás. O instinto de sobrevivência me fez acionar a região do cérebro especializada em estratégias militares e rapidamente concebi e coloquei em ação meu plano de defesa.

Fui recuando muito lentamente, de modo quase imperceptível para a fera, sem tirar os olhos dele, que permanecia imóvel, ameaçador e espumando. Quando consegui tocar a mão esquerda na maçaneta do portão, parti para o passo decisivo de minha estratégia: respirei fundo e apertei o botão de disparo do automático do guarda-chuva. O efeito surpresa contra o inimigo surtiu efeito. O animal assustou-se com o barulho e a extensão preta que se formou na sua frente: vacilou e deu uma recuada. Naquela fração de segundo senti que, ao contrário de uma tourada, o bicho não investiria contra o pano à sua frente.

Foi o tempo suficiente para que eu me esgueirasse para o lado de fora, mantendo com a mão direita o guarda-chuva aberto do lado de dentro. Em seguida, com o pé, empurrei a pedra para dentro e dei o golpe de misericórdia: numa manobra rápida, soltei o guarda-chuva e quase ao mesmo tempo bati o portão!

Meu coração estava acelerado, a respiração suspensa e minhas pernas tremiam. Acho que naquela hora não havia sangue em minhas veias: só adrenalina. Eu havia acabado de passar por um risco de morte real e concreto. Tive a vida salva por um artefato chinês de menos de 15 reais… Não era um guarda-chuvas, era um salva-vidas!

Mal voltei a respirar e chegaram os dois velhinhos aos quais me referi anteriormente. Que desgraça se tivessem chegado antes de mim… Avisei-os do perigo e ficaram perplexos.

Em seguida, chegou correndo um dos rapazes que trabalhava no restaurante:

– Só um momento. Eu estou sozinho e fui ali levar uma quentinha para uma senhora.

– Sim. E deixou o portão entreaberto e o cão solto! – admoestei-o.

– Foi rapidinho.

– Pois é. Rapidinho. O suficiente para ele matar alguém. Se não estivesse chovendo…

E contei-lhe o ocorrido.

Ele pulou o muro, trancou o meliante e abriu o portão.

Pude então resgatar o herói desta história, que estava intacto. Foi assim que a aversão virou afeição: aquele guarda-chuva eu nunca mais esqueci em lugar nenhum!!

Antonio Carlos Sarmento

31 comentários em “RISCO DO CÃO”

  1. A riqueza de detalhes nos coloca vivendo a situação e gera a espectativa, a ansiedade e o medo que vc sentiu.
    Muito boa!
    Mais uma semana de deleite ao iniciar o domingo com uma leitura gostosa.
    Parabéns!
    Você é meu escritor favorito!

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  2. Ainda bem que consigo conviver com quatro “feras”, com gênios mais ou menos parecidos; um tanto irascíveis. Mas, pelo menos, não preciso usar o guarda-chuvas para me defender dos seus “amorosos” ataques. Aliás, já me conhecem bem, despois de uma convivências de mais de 10 anos, pudera !!!.
    Sds. do amigo,
    Carlos Vieira Reis

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  3. Excelente. Parabéns amigo.
    Muito bem encaminhada.
    Uma delícia você unir o desprezo ao guarda chuva e a perspectiva de que um dia ele seria tão útil. Muito boa como sempre. Bom domingo.

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  4. Até eu fiquei com a expectativa do término desta situação, mas me veio a realidade e conscientemente analisei. Se tivesse acontecido alguma coisa contigo, não estaria escrevendo este relato. Final feliz e estou com meu escritor favorito. Viva o guarda-chuva!!!!!

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  5. Agora depois de 65 anos entendi pra que servem os guarda-chuva pra quem é carioca! Sempre imaginei que era pra nós, homens exercitarmos nosso defeito de perder o que não está nos bolsos… kkkkkk. Ótima crônica Sarmento. Alias otima crônica é redundância no seu caso. Abraços.

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  6. Nunca imaginei que um objeto sem- graça que estorva, atravanca , desarranja e transtorna pudesse oferecer uma leitura assim agradável.
    Mérito desse cronista de quem sou fã.
    Aliás, gosto muito quando o texto se refere a uma experiência pessoal. Assim podemos conhecer mais um pouco desse primo querido.
    Hoje divagamos em seu lado Indiana Jones, diante de uma aterrorizante aventura .
    Talento e coragem. Parabéns!!

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    1. Minha querida Prima,
      Tenho procurado alternar experiências pessoais com outras histórias, mas claro que aprecio seu interesse pelas histórias da vida real.
      Muitíssimo obrigado por mais um comentário interessante e gentil, utilizando com inteligência partes do próprio texto da crônica.
      Muito bom!
      Beijos!

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  7. Bom dia meu amigo! Ótima crônica, a partir de agora, darei mais valor ao guarda chuva . Aliás, além de guarda chuva também tenho restrições à cachorro. Abração e ótima semana

    Enviado do meu iPhone

    >

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  8. Eu tenho mania de andar sem guarda chuva….mas , depois dessa ! UFA !
    Vou comprar um .

    O suspense até o último instante , foi excelente !

    Parabéns !
    Mais uma vez , nota dez !

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  9. Querido amigo,
    Só agora estou podendo ler suas crônicas, pois estive viajando, depois pintando muito e depois com os netos! Ufa! Mas agora lerei todas, inclusive as passadas. Parabéns pelo trabalho e persistência. Muito bom conhecer mais uma faceta desse amigo. Um prazer ter suas crônicas todas as semanas. Continue firme e nunca mais despreze o guarda chuva! kkkkk

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  10. “Nada se esquece mais lentamente que uma ofensa e nada mais rápido que um favor… ou um guarda-chuva!” Genial.
    Parece que todo o contexto não foi mais uma história produzida por uma mente imaginativa e sim algo que realmente aconteceu muito próximo na sua vida, a começar pela introdução sobre a sua relação pessoal com os guarda chuvas.

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