FORA DE ESTRADA

Interessante que enquanto meu pai era vivo, as histórias da vida dele não me chamavam muita atenção, nem me pareciam tão pitorescas quanto agora, algum tempo após o seu falecimento. O presidente Getúlio Vargas escreveu a famosa frase, com a qual termina a carta deixada por ocasião do seu suicídio: “saio da vida para entrar na história”. Parece que meu pai saiu da vida para entrar nas histórias…

Quando penso que foi a última história, mais uma vem à minha mente, como a que passo a contar.

Antes do fato, para situar o leitor, preciso explicar um pouco sobre o caráter de meu pai, sua maneira de ser. Era rigoroso, exigente, seco e ao mesmo tempo muito destemido e autoconfiante. Sua autoconfiança era tanta que transbordava para as outras pessoas. Na minha infância, muitas vezes delegou-me tarefas para as quais me sentia incapaz, acima da minha maturidade e capacidade, mas que ele acreditava que eu poderia realizar. Na maioria das vezes ele tinha razão.

Lembro-me de um fato que ilustra esta característica. Havia na janela de um dos quartos de nossa casa, uma persiana de lâminas metálicas horizontais que, pelo uso, apresentava desgaste nas cordas de comando, emperrando os movimentos de subida e descida. Meu pai obteve um orçamento para o reparo e estava na sala examinando, quando eu, àquela altura com uns 12 anos, cruzei a sua frente. Ao me ver passando, teve a ideia:

– Vou comprar o material e você vai trocar as cordas da persiana. Se conseguir, vai ganhar um dinheirinho.

Arrancar um dinheirinho dele era mais difícil que qualquer dos doze trabalhos de Hércules!

Eu não tinha a menor noção de como realizar aquele serviço:

– Pai, nunca fiz isso. Nem sei como funciona.

– É simples: sobe na escada, tira a persiana do suporte e troca as cordinhas. – respondeu, com aquela irritante autossuficiência.

Acho que ele mesmo não sabia como fazer, mas queria que eu enfrentasse o desafio. Ainda inseguro, mas incentivado pelo ganho prometido e mais ainda, para fazê-lo orgulhar-se do filho, larguei-me de corpo e alma na tarefa.

Dias depois, já com o material novo fornecido pelo desafiante, tirei a persiana do suporte e estendi no chão do quarto. Passei um bom tempo examinando, procurando entender como aquilo funcionava. Na verdade, era simples. O mais difícil foi encontrar o fio da meada, a ponta do novelo, ou seja, das cordinhas. Ficavam escondidas na base inferior. Removidas as cordinhas, as lâminas ficaram soltas e pude retirar para lavar. Meu pai, de vez em quando, passava na porta do quarto e conferia o andamento dos trabalhos, mas sem interferir nem ajudar. Ele queria que fosse um trabalho autoral!

Troquei as cordas e remontei a persiana, com alguns erros. Desmontei e remontei algumas vezes, até que tudo me pareceu correto. Pendurei no suporte e testei: milagrosamente ela subia, descia e inclinava as lâminas com perfeição!!

Fiquei admirando o resultado, degustando aqueles momentos antes de chamar meu pai, antevendo sua satisfação e já fazendo planos para gastar a minha remuneração. Ele olhou e com naturalidade disse apenas:

– Ficou nova.

Eu vibrei com essa migalha de elogio. Na mesma hora foi buscar o dinheiro, o primeiro que ganhei com o suor do meu rosto. Naquela tarde, quase à noitinha, converti parte do dinheiro numa comemoração solitária, devorando um belo pedaço de pizza com refrigerante!

Nos dias que se seguiram eu não conseguia passar na porta do quarto sem olhar orgulhoso para a minha obra. Queria que o tempo passasse rápido para as cordinhas envelhecerem e ser necessária uma nova troca. Quem sabe o meu futuro na vida seria a próspera profissão de trocador de cordinhas? Experiência eu já tinha!

A esta altura já deve estar o leitor impaciente pela história prometida e adiada por conjecturas e acontecimentos outros que não o anunciado.

Voltemos então uns 14 anos antes da saga da persiana, ocasião em que meu pai administrava uma fazenda no norte do Estado do Rio de Janeiro. A fazenda era do governo estadual e tinha por finalidade produzir sementes para os agricultores da região. Havia na fazenda um garoto de uns 16 anos, em quem meu pai enxergou virtudes, decidindo treiná-lo para um dia ser o capataz da fazenda. Atribuía ao garoto as tarefas mais diversas de modo que estivesse preparado para o futuro cargo. Acho que meu pai foi o precursor das técnicas do on-the-job-training no norte fluminense!

Agora a história começa, impaciente leitor. Partiram numa pequena viagem de compras em uma cidade próxima, meu pai, minha mãe grávida de sua primeira filha e, claro, o menino, para carregar as mercadorias. Na volta, naquele interior sem polícia nem fiscalização, meu pai, coerente com seu estilo, entregou o volante do Jeep ao acompanhante de 16 anos, ainda iniciante na direção.

Seguia a viagem normalmente, quando na entrada de uma ponte estreita, vinha um caminhão em sentido contrário. Aos olhos do neo motorista, o caminhão parecia ocupar a ponte quase toda. Não havia tempo de frear: o garoto apavorou-se e deu uma guinada para fora da estrada. Era uma ribanceira de uns 5 metros de altura, com o rio passando embaixo. O Jeep projetou-se no ar. Naquele momento meu pai gritou:

– Salvai-nos, Nossa Senhora da Penha!

A seguir, o veículo embicou pelo peso do motor e realizou um espetacular mergulho de cabeça no rio. Foi afundando lentamente. Meu pai, bom nadador, debateu-se para sair e logo emergiu na superfície. Olhou em volta e viu o garoto bem próximo, também flutuando. Nada da minha mãe na superfície da água! Mergulhou ávido em busca dela. O Jeep já estava pousado no fundo. O rio barrento e a profundidade tornavam a busca difícil.

Meu pai vasculhou um lado do Jeep e subiu para pegar ar. Na superfície demorou apenas o tempo de encher os pulmões e voltar ao fundo. Na segunda vez ainda não conseguiu encontrar sua mulher. Novo mergulho. Infrutífero. A comoção aumentava a cada vez que mergulhava sem sucesso. Pela quinta ou sexta vez precisou dar uma parada maior para respirar um pouco e tentar controlar a emoção. Nesta pausa, seu olhar foi para a margem direita: ali, sentada numa pedra, minha mãe acenava!

Com todo respeito, para ele foi como se Nossa Senhora da Penha, em roupas de banho – um discreto maiô, obviamente – houvesse mergulhado, retirado minha mãe e, com ela no colo, feito uma revoada até a pedra mais próxima, deixando-a segura e confortavelmente secando daquele banho inesperado.

A gratidão à Santa tomou o coração dele: poderia ter morrido ou perdido a mulher e a filha de uma vez só. Ainda salvou o rapaz, àquela altura já reclassificado pelo rigor e exigência de meu pai, como ex-futuro capataz.

Era muita graça: precisava retribuir, fazer algum agrado a Nossa Senhora, materializar de alguma forma seu sentimento. Dias depois, ainda sob a emoção do acontecido, veio a inspiração: construiria uma capela em sua homenagem. No terreno da fazenda, mas com seus próprios recursos. Uma obra particular numa área pública.

Determinou um local, próximo da entrada, de modo que quem entrasse veria primeiro a capela, antes de chegar à sede da fazenda. Pediu as autorizações necessárias e partiu para edificar o pequeno templo. Em três meses de obras estava pronta. Adquiriu então uma bela imagem de Nossa Senhora da Penha e, num domingo ensolarado, um padre da região celebrou ali a missa de inauguração.

Uns 2 ou 3 anos depois, nos mudamos de lá e fomos morar na cidade do Rio de Janeiro. Mas a devoção a Nossa Senhora da Penha permaneceu inabalável: todos os anos nossas férias eram passadas em Vitória, no Espírito Santo e, infalivelmente, família toda reunida, íamos visitar o célebre Convento da Penha, para orar e agradecer.

Quase 50 anos depois, meu pai já na casa dos 90 anos, resolvemos levá-lo a visitar a fazenda e, claro, rever a capela por ele construída. Eu, que havia nascido ali e vivido até 1 ou 2 anos na fazenda nunca havia retornado para uma visita: era como se não conhecesse. E minha irmã mais nova, nascida já na fase do Rio de Janeiro, possuía a mesma curiosidade. Meu pai a esta altura caminhava mais lentamente e com o auxílio de uma bengala, mas ainda lúcido e bem-disposto. A expedição saiu num sábado, numa viagem de ida e volta no mesmo dia.

Chegamos à fazenda sob muita expectativa: ali estava o cenário de uma fase importante da vida da nossa família. Passamos pela capela e seguimos direto para a sede. Eu havia telefonado previamente e uma pessoa nos aguardava. A fazenda não exibia sinais de muitas atividades, pelo contrário, apresentava traços de certo abandono, mas fomos recebidos gentilmente.

Fizemos a visita e meus pais recordaram alguns aspectos mais marcantes, como a sala em que todo dia às 6 da tarde rezavam juntos a Ave Maria. Lembraram acontecimentos, comidas e pessoas daquela época da vida e tiramos algumas fotos.

Em seguida fomos à capela, mas encontrava-se trancada. A pessoa que nos recepcionou informou que a chave ficava com uma senhora chamada Conceição e explicou-nos onde morava. O nome soou familiar à minha mãe. Chegamos à casa, estacionamos em frente e todos ficaram no carro aguardando, enquanto eu batia à porta. Atendeu um senhor:

– Bom dia! Eu queria falar com a D. Conceição.

– Ela está na cozinha. Pode entrar. – disse com aquela gentileza e simplicidade do interior.

– Não, muito obrigado. Estou com pessoas aguardando no carro. O senhor poderia chamá-la?

Veio a Conceição, com as mãos molhadas e pingando sorrisos. A simpatia e o olhar bondoso dela ainda estão na minha memória. Expliquei que meus pais tinham vivido na fazenda há muitos anos e construído a capela que queríamos visitar. Ela deu um pulo:

– Eles estão aí?

– Estão no carro.

– Ai meu Deus do céu!!!

Saiu correndo em direção ao carro. Minha mãe a reconheceu de longe, saltou e trocaram um demorado abraço, molhado de lágrimas. Parecia que não iriam mais desabraçar. Conceição tinha sido sua aluna na catequese e havia recebido a primeira comunhão na capela.

Daí para frente foi pura emoção.

Entramos na capela: meu pai percorreu o ambiente com os olhos brilhando. Contou que havia encomendado os bancos de madeira numa cidade próxima. Olhava tudo com atenção e reverência, examinava o telhado, as paredes, o altar e apontava seguidas vezes a imagem da Santa. Perguntou à Conceição se ali ainda eram celebradas missas: ela informou que ocorriam regularmente, um domingo por mês e que a capela ficava lotada!

Ao final, meu pai sentou-se no primeiro banco, de frente para o altar e ali permaneceu alguns minutos de cabeça baixa, rezando e agradecendo. Acho que nunca havíamos dado a ele um presente tão bom!

Eu não trocaria aquela pequena viagem ao interior por um passeio à Europa. Nem por uma volta ao mundo!

 

Antonio Carlos Sarmento

24 comentários em “FORA DE ESTRADA”

  1. Lindíssima narrativa Sarmento! Fiquei emocionado porque me lembrei que por mais secos e silenciosos sejam nossos pais, temos que agradecer a Deus pela herança de sentimentos e emoções que juntos tivemos, mesmo que naquela hora nem valorizássemos o que ouvíamos e assistíamos . Meu amigo, família é a melhor coisa que Deus nos deu nessa vida. Bom domingo e Deus o abençoe.

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    1. Luigi,
      Isso mesmo: família é a melhor coisa que Deus nos deu nesta vida. E amigos são a família que nós mesmos escolhemos!
      Obrigado pelo comentário. Ter despertado a sua emoção e lembrança de seu pai é muito gratificante.
      Um afetuoso abraço e uma ótima semana a você e sua família!

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  2. Que presente lindo vocês deram a seus pais, isso é amor, carinho, cuidado, etc…
    Fiquei imaginando você, menino, consertando uma persiana, que tarefa difícil e você deu conta. Essa lição você levou pra sua vida e transformou o aprendizado em cuidado, carinho e atenção, parabéns crônica muito boa como sempre. Bom domingo pra vocês!!!

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  3. Cacau, quando descreve seu pai, meu tio, posso quase toca lo, de tão próximo e marcante que foi na minha, e acredito, de muitos que moram aqui no ES.
    Já sua mãe, uma pessoa doce e extremamente atenciosa para com todos.
    Essas lembranças são os nossos vínculos eternos e que em um determinado momento de nossas vidas, nos guiam sejam para dar exemplos a outrem ou então a nós mesmos quando estamos perdidos na estrada da vida.
    Bela recordação!

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    1. Rômulo,
      Muito obrigado meu primo!
      Temos que sempre fazer memória destes nossos vínculos. E lembrar de pessoas maravilhosas, como Délio, que foi sempre um companheiro na vida de meu pai: e que companheiro! Pessoa excepcional!
      Grande abraço e muito obrigado por comentar.

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  4. Cau
    Sua crônica me fez reviver esse dia inesquecível e repleto de emoções de nossos pais…confirmando que atenção e carinho são os melhores presentes que podemos dar e receber!!!
    Descrição fidedigna e emocionante!!
    Obrigada por essa saudade calma e profunda!!!!
    Muito AMOR envolvido😍

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    1. Minha irmã,
      Vivemos juntos este momento emocionante, que ficou para sempre na nossa memória.
      E depois você revelou uma foto minha entre eles dois, colocou num porta-retrato e me presenteou: até hoje está na minha mesa de cabeceira, eternizando a lembrança desta viagem ímpar.
      Beijos e obrigado por comentar!

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  5. Emocionante ouvir histórias de familia. Recordar o que nos fez feliz revigora nosso ânimo.
    Mas , Cacau, o que me chama atenção é o seu olhar sobre os acontecimentos. Um olhar de quem sabe valorizar e saborear os momentos, simples ou significativos; um olhar de quem valoriza a familia e os amigos …enfim, de alguém que percebe o melhor em tudo o que vive.
    Por isso suas crônicas agradam tanto e fazem bem .
    É possível que você já tenha ” aberto os olhos” de algum leitor amargo, ou impaciente, ou cético, com suas historias sensiveis. Quem sabe , eles já estão percebendo que , às vezes, basta mudar o olhar.
    Já esperando a próxima!
    Um beijo

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  6. Que história emocionante! Eu também não trocaria essa viagem por um passeio a qualquer parte do mundo. Família é a base de tudo!
    Abraços.

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  7. Cacau, bela homenagem aos tios tão queridos e marcantes em nossas vidas. Foi com emoção que li o texto familiar e marcante na vida de vocês. As melhores fotos estão na memória de fatos que nos marcaram e que serão eternos em nossa caminhada pela vida. Bjs

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