SUBTERRÂNEO

A vida de Marcelo estava ladeira abaixo. Não uma ladeira íngreme, já que nenhum fato novo ou tragédia o acometeu. Mas o seu dia a dia, o casamento, o trabalho, a danada da rotina, tudo junto, o fazia sentir-se num percurso descendente no qual ia deixando pelo caminho a alegria, o entusiasmo e, pior que tudo, seus sonhos.

O trabalho, naquele escritório de contabilidade há mais de dez anos, tinha se tornado um eterno repetir de procedimentos e lançamentos. Um maldito sistema informatizado padronizava todo o seu trabalho, sem espaço para criatividade e evolução. É verdade que prevenia erros, mas em contrapartida subtraía qualquer estímulo, comprometendo também a perspectiva de um crescimento profissional. Marcelo marcava passo na mesma função desde o primeiro dia. Era a versão atual do trabalho mecânico e repetitivo retratado por Chaplin em “Tempos Modernos”. Sentia-se como alguém que monta e remonta o mesmo quebra-cabeça indefinidamente…

Porém, era dali que vinha o seu sustento, parco, mas certo e não via muitas alternativas. Tinha adquirido experiência num trabalho com estas características e não sentia ânimo para uma virada em outra direção. Achava-se um profissional mediano, mas o chefe achava-o medíocre, dois sinônimos completamente diferentes.

Na vida pessoal o quadro também não era animador. Quando conheceu Aline achou que tinha descoberto o amor e logo pensou em casamento. Foi só arranjar o atual emprego, alugar um pequeno apartamento na Pavuna e dar início à vida conjugal. Os primeiros tempos foram bons, tudo novidade. Marcelo voltava correndo do trabalho e conversavam muito: ela contava o dia, as coisas da casa e ele inflava seus feitos no trabalho para que ela se orgulhasse. Depois, um pouco de televisão e umas duas ou três vezes por semana, uma romântica noite de amor.

Mas a rotina é veneno lento. A cotação de Aline na bolsa de valores do coração de Marcelo apresentou tendência de baixa após o primeiro ano e foi caindo a patamares desanimadores. Ele chegou a pensar em investir, fazer um aporte de capital, convidando-a para uma viagem ou pelo menos um jantar fora, mas a situação financeira não permitia estas extravagâncias e o sentimento foi morrendo de inanição.

Marcelo resignava-se com a vida que levava, pensando que a gente se acostuma com tudo, mesmo o que é ruim. Mas não enxergava o preço que se paga por isso. A acomodação fazia inclinar o caminho da sua vida no sentido decrescente e transformava sua existência em penitência. Vivia num subterrâneo…

Certo dia, retornando para casa no metrô, como sempre fazia, algo fora da rotina ocorreu. O trem cheio na hora do rush, aquela proximidade excessiva com estranhos e o desconforto da viagem sempre de pé, levavam Marcelo a procurar desligar-se do ambiente. Quando não se pode viver na realidade, vive-se em pensamentos. E assim, estava quase ausente quando o trem chegou ao seu destino, na estação final do trajeto, onde todos desembarcam. Aquele tumulto, gente apressada saindo por todas as portas. Marcelo costumava deixar escoar a primeira leva de ansiosos, para depois se deslocar. Foi neste momento que uma moça o abordou:

– Com licença. É para você. – disse, entregando-lhe um papel dobrado.

– Obrigado. – respondeu Marcelo, observando que o papel tinha imagens de flores e parecia um panfleto de igreja evangélica.

A moça sorriu para ele, como se esperasse um retorno que não aconteceu, pois Marcelo colocou o papel no bolso achando ser alguma propaganda ou pedido de ajuda, coisa comum nos metrôs.

Ela então sorriu, fez um aceno de cabeça e dilui-se na multidão apressada.

Ele saiu do trem e assim que encontrou um espaço mais amplo, ainda na plataforma, não resistiu à curiosidade e tirou o papel do bolso, desdobrando-o. Num lado era mesmo uma imagem colorida de um local com grama e flores, de gosto duvidoso, parecendo um impresso barato. Não havia nada escrito, o que fez Marcelo olhar o verso para ver se compreendia sua finalidade. Aí veio a surpresa: um texto manuscrito, em caneta azul, com uma letra bonita, desenhada, de professora. Passou a ler:

Olá, boa noite!

Desculpe-me a invasão ao observá-lo. Mas olhei para você algumas vezes e gostaria de dizer que você é muito bonito. Transparece bondade e inteligência, mas não me parece ser feliz. Desculpe-me novamente, mas senti algo muito forte e não pude resistir a entrar em contato com você. Receba o meu carinho neste bilhete.

Desejo que encontre o amor da sua vida!

Fique com Deus!

Marcelo ficou atordoado. Dobrou o bilhete e colocou-o de volta no bolso. Olhou em torno, procurando a moça. Precisava encontrá-la. Como não percebeu e guardou o bilhete sem ler? Ela tinha ficado ali, na sua frente, aguardando, mas ele foi estúpido. Confundiu-a com uma pedinte ou vendedora e olhou-a por apenas alguns segundos. Quanto arrependimento!

No metrô todo mundo caminha rápido e procurar alguém numa estação cheia é estonteante. Para Marcelo, naquela circunstância, angustiante. Ele ainda estava na plataforma quando o trem, já sem passageiros, fechou as portas e saiu. O barulho e o vento do trem passando pareciam aumentar o grande vazio que estava dentro dele. Partiu para as outras áreas da estação: mezanino, passarela externa e até nas imediações, mas não encontrou a moça.

Parou na rua, encostou num poste e leu novamente o bilhete. Ela falava em beleza, amor, felicidade, bondade, carinho e terminou falando em Deus. Que coisa maravilhosa!

Caminhou mais um pouco. Sentia uma excitação que há muito não experimentava. Parecia ter descoberto uma força que não sabia que tinha, uma sensação de potência que estava adormecida, um gosto pela vida que tinha perdido. Como é possível que um simples bilhete, pequeno, escrito num folheto vagabundo, por uma desconhecida, pudesse ter tamanho impacto? Ela o destacara da multidão, tirara ele da média, da mediocridade e o colocara em primeiro lugar, coisa que quase nunca havia acontecido em sua vida.

Marcelo tentava reconstruir em sua mente o rosto daquela moça. Mas havia olhado muito pouco para ela… Era branca, cabelos pretos, uns 30 anos talvez, estatura média, mas as feições lhe escapavam. Tinha apenas uma vaga imagem dela. Que peça o destino lhe pregou…

Parou de novo, desta vez na frente de um botequim. Resolveu sentar sozinho e tomar uma cerveja, coisa que nunca fazia. Sentou-se, abriu o bilhete e leu mais uma vez. Passou a imaginar como as coisas aconteceriam se tivesse lido na hora: como ela ficou ali, aguardando, poderiam ter conversado. Desenvolveu mentalmente o diálogo que teriam:

– Oi, como é o seu nome?

– Eu sou Roberta. – responderia ela, encabulada.

– Marcelo. Muito prazer. Precisamos nos conhecer melhor.

– Está bem. Anota meu telefone.

E sairiam juntos da estação, conversando e andando até a porta do prédio dela. Assim saberia onde morava e, com o número do telefone, poderia entrar em contato a qualquer momento. Roberta era linda! Ao despedir pegaria suavemente na mão dela e faria uma carícia, sentindo a maciez e o calor do toque.

– Quer mais uma, meu chefe? – perguntou o garçom, interrompendo aquele devaneio.

– Não, obrigado.

Deixou o botequim e partiu para casa. Não podia demorar muito, pois Aline estranharia o atraso. Decidiu não contar nada sobre o ocorrido, mas precisava decidir o que fazer com o bilhete. Resolveu que o deixaria no trabalho, trancado na gaveta, a salvo de um flagrante da esposa. Teria a desvantagem de se separar dele, ter vontade de ler de novo e estar distante, mas a segurança assim era maior. Trancado no banheiro, leu mais uma vez e depois guardou no bolso interno de um paletó de pouco uso no guarda-roupa, até o dia seguinte.

Deitou-se sem dormir e assim foi até a manhã seguinte. Uma frase daquele bilhete ficou vagando na sua mente: Desejo que encontre o amor da sua vida! Era isso. Ele precisava de um amor, deixar aquela ladeira abaixo, sair do subterrâneo para a superfície e caminhar para uma vida com emoção. E tinha encontrado, aliás, tinha sido encontrado: era ela, aquela letra linda, a professora Roberta, aquele texto sensível, a pessoa que lhe abriu os olhos. Sim, e ela também queria ser este amor. Não sabia como isto era possível, mas tinha uma certeza: eles se amavam!

Durante o dia seguinte no trabalho, de vez em quando largava o execrável sistema, abria a gaveta e se deliciava lendo o bilhete ali dentro, preservado da curiosidade alheia. Todos o viam como se ele fosse o mesmo, mas agora era outro. Vivia um amor engavetado.

Os dias passavam e Marcelo tinha certeza de que iria encontrá-la. Provavelmente, no metrô, voltando para casa. Decidiu viajar sempre no mesmo lugar, onde ela lhe entregou o bilhete. Aquele pensamento vago que adotava na viagem, foi substituído por um estado de atenção permanente: perscrutava os rostos em busca da sua Roberta. Achava que se cruzassem o olhar ele a reconheceria. Muitas moças de cabelos pretos, estatura média, aparentando uns 30 anos, olhavam para outro lado incomodadas com aquela observação insistente, mas Marcelo não se intimidava nem desistia.

O passar do tempo ao invés de atenuar só fazia acentuar o sentimento de Marcelo. Estava cada vez mais apaixonado pela professora, mesmo sem conseguir encontrá-la. Já havia lido tantas vezes o bilhete que tinha decorado o texto. Mesmo assim, abria a gaveta só para ver aquela letra linda.

Mais de um mês vivendo de segredo e busca, Marcelo foi surpreendido pelo chefe ao chegar no escritório:

– Compramos um novo sistema informatizado, mais moderno e com novos recursos.

– Que bom!

– Você é o mais antigo e conhece muito bem como as coisas funcionam por aqui. Queria que fosse o responsável pela implantação. Claro que vai ser promovido e ganhar um bônus por isso.

– Pode contar comigo, chefia. – declarou Marcelo, esfuziante.

Naquele dia precisou ficar no escritório até mais tarde para uma reunião com a empresa do novo sistema. Marcelo estava numa alegria incontida. Saiu umas oito da noite e pegou o Metrô, naquele horário bem mais vazio. Entrou no vagão de costume e sentou-se ao lado de um sujeito que lia um livro. Teve vontade de contar para ele tudo que estava acontecendo: desde que o amor entrou na sua vida tudo estava mudando. Havia encontrado o amor, não a amada, mas jamais desistiria. Jurara amor eterno a ela e a buscaria até o último dia da sua vida.

O sujeito, absorto na leitura, passava as páginas sem tomar conhecimento da presença eufórica de Marcelo. Como é da natureza humana bisbilhotar a leitura alheia, Marcelo deu uma espiada no topo da página e leu a seguinte frase: “Com o amor consegue-se viver, mesmo sem felicidade”. Era um livro de citações e esta do escritor russo Dostoievsky, atingiu Marcelo em cheio. Era exatamente isso! Sentiu-se como um míope que via sombras e vultos e, de repente, o oftalmologista Dostoievsky lhe pôs uns óculos no grau certo, a descoberta da nitidez.

No caminho do Metrô até em casa foi pensando que o encontro com a professora Roberta, talvez nunca acontecesse. Mas o amor já havia acontecido. E só este amor já lhe permitia viver.

Chegou em casa decidido a separar-se de Aline.

Antonio Carlos Sarmento

27 comentários em “SUBTERRÂNEO”

  1. Bom dia António Carlos, Que final surpreendente…. Gostei muito. Como sempre a narrativa prende e torna o texto vivo. Parabéns Rosa

    Enviado do meu iPhone

    >

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  2. Grande meu Amigo, muito bom dia, final surpreendente, para mim, pois fique preso à crônica até a ultima palavra . . . Mais uma vez, parabéns . . . Recomendações à família.

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  3. Que linda esta crônica! Porém, triste. Nada quanto ao Marcelo. Seguirá a vida mediocre . A Aline não metecia a ctuel separação. Você poderia, pelo menos, acrescentar um psragrafo lamentando essa njustiça .
    BirEni

    Curtido por 1 pessoa

  4. Cacau, eu li um comentário de alguém que disse que ficou surpreso com o final.
    Confesso que também fiquei.
    Mas esse final foi determinante para mostrar que vc está cada vez melhor porque não permitiu que o leitor imaginasse o final.
    Mostrou que não é um cronista escrevendo textos açucarados de fácil imaginação.
    Parabéns mais uma vez!
    😘😘😘

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  5. Sarmento, começo a ver o nascimento de um escritor, ja, um ótimo cronista! Reserve pra mim a primeira edição do primeiro livro! Sucesso certo!

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  6. Um pedaço da nossa vida de cada dia, alimentada por sonhos.
    Uma leitura que prende, e como já comentaram, por tentarmos adivinhar o desfecho.
    Parabéns!

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  7. Estou adorando a pegada nelsonrodrigueana que você está trazendo pras crônicas. Muito interessante essa perspectiva.
    Que não seja preciso um encontro “milagroso” como esse pra gente redescobrir o amor.

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  8. Querido Cacau
    O amor realmente dá um colorido à vida: ficamos mais bonitos, mais otimistas e mais motivados…e toda atitude carinhosa, seja um sorriso, um elogio, uma atenção, nos faz sentir especiais.
    Mas o encantamento de Marcelo, para mim, não foi encorajador: ele não investiu no relacionamento com alguém que, um dia, também causou impacto na sua vida . Pelo contrario, se apegou à fantasia e à novidade .
    Sempre aprendo com suas crônicas .
    Essa, especialmente, me alertou da importância da atenção, dos gestos, das atitudes nos relacionamentos.
    Mas a vida nem sempre é um romance e o coração das pessoas , dificil de entender.
    Sua prima romântica nao se empolgou com a atitude de Marcelo, mas admirou muito seu talento numa narração bem desenvolvida.
    Beijos

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  9. Muito bom! Parabéns meu bom amigo e irmão, Antonio Carlos.

    “Os que esperam no Senhor retemperam a sua energia: Tomam a envergadura das Águias, lançam-se e não se fadigam, avançam e não fraquejam”. (Isaias: 40,31)

    Um fraterno abraço para todos da família.

    Oslúzio Félix Fonseca.

    Curtido por 1 pessoa

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