SITUAÇÃO ESPINHOSA

O escritor Millôr Fernandes é autor de frases excelentes. Exímio observador do comportamento humano e sempre com um tempero de humor, revela sua genialidade em textos e desenhos.  Uma de suas frases que gosto muito: “Como são maravilhosas as pessoas que não conhecemos bem.” Dá para rir um pouco e pensar muito…

Certa vez em uma viagem, entrando numa pequena e linda cidade da Toscana na Itália, me veio uma paráfrase desta citação do Millôr: Como são maravilhosas as cidades que não conhecemos bem! Será verdade? Talvez o encanto do turismo seja exatamente este: em viagem não chegamos a conhecer bem os locais e assim nos maravilhamos com tudo e até pensamos em nos mudar para quase todas as cidades que conhecemos. É provável que o morador do local tenha uma perspectiva bem diferente do turista e suporte mazelas que nossa visita superficial não alcança.

A expressão “maravilhosa”, logo faz lembrar o Rio de Janeiro, cidade muito visitada e admirada por turistas nacionais e estrangeiros. Mas eu que moro aqui há muitos anos observo aspectos, até mesmo banais, que passam despercebidos aos visitantes. É o caso, por exemplo, dos restaurantes: de modo geral considero que os de São Paulo são bem superiores aos nossos. Quando se trata de peixes então, é algo incompreensível: com honrosas exceções, é difícil comer um bom peixe por aqui, apesar de ser cidade litorânea, na qual a pesca poderia prover um sortimento rico e de qualidade, como acontece bem próximo, no Espírito Santo. Na capital Vitória, pode-se comer um bom peixe em centenas de restaurantes, assim como em muitas outras cidades do nosso país.

E foi em busca de comer um peixe, que estive num ótimo restaurante próximo de minha casa, há muitos anos atrás. O local manteve-se aberto por poucos meses, sendo mais uma evidência desta sina carioca. O prato mais comum de peixe servido por aqui é o malfadado filé de peixe, normalmente congelado. É servido grelhado e tem o sabor da parte branca da melancia e a textura de banana. Para contornar costumam acrescentar molho de alcaparras, que muito salgado, confere algum sabor ao insípido pescado.

Pois foi no finado restaurante que se deu o caso espinhoso, anunciado no título e até agora oculto por uma introdução sem fim. Havia lá um peixe conhecido como “trilha”, assim chamado porque costuma acompanhar os cardumes de camarão e comer os mesmos alimentos, ficando com a carne rosada e o sabor semelhante. Deliciei-me com uma meia dúzia dos pequenos peixes e fiquei feliz pelo prazer tão excepcional na cidade. Em seguida, parti com minha mulher para visitar a mãe dela – prefiro não usar o substantivo feminino que a designa…

No caminho comecei a sentir umas espetadelas na garganta, causando incômodo. Fiz algumas tentativas de tossir e rosnar procurando acomodar ou ingerir aquele alfinete, mas não tive sucesso. A sensação era péssima. Não conseguia pensar em outra coisa e fui sendo tomado por um nervosismo crescente. Pareciam aquelas situações em que quanto mais se mexe, pior fica. A espinha, ao invés de acomodar-se, ia ficando cada vez mais atravessada.

A mãe da minha mulher – mais uma vez omito a designação própria para não passar ao leitor a impressão de que estou atribuindo-a alguma culpa – logo correu com a clássica receita de miolo de pão e água, que aceitei prontamente, pois para afogado qualquer tábua flutuando pode ser a salvação.

Para cada peixe que comi devo ter engolido umas cinco bolotas de miolo de pão, empurrados goela abaixo por copos d’água em grandes goles. Num certo ponto meu estômago empanturrado de pão e água não aceitava mais nenhuma ingestão. Sentei-me no sofá feito um Buda, imóvel, mudo, estufado e espetado.

Naquele momento tudo que eu queria era paralisar minhas glândulas salivares, pois engolir era torturante. Assim foi ao longo da tarde toda. À noite comecei a perceber uma leve melhora e resolvi voltar para casa e dormir. Mas a espinha apresentava um comportamento misterioso, parecendo brincar de esconder: dava sinais de que sumiu, deixava-me satisfeito e, de repente, como num susto, aparecia novamente, ou melhor, fazia notar a sua presença.

Antes de dormir fiz promessa para São Brás, protetor da garganta, afirmando que, livre daquilo, nunca mais na minha vida comeria peixe. Mas a situação era desesperadora e até quebrei a hierarquia, apelando também para o chefe dele. Embora, se eu continuasse a morar aqui no Rio de Janeiro, ficar sem comer peixe nem seria tanto sacrifício…

Eu pensava no risco de ter que passar por uma cirurgia na garganta, com tantas estruturas sensíveis e difícil acesso. Na sequência do céu da boca vem o inferno da garganta, cheio de cordas vocais, mecanismos de deglutição, válvulas, amídalas, glândulas e sabe-se lá o que mais, tudo comprimido e arrumado num tubo compacto, porta de entrada do organismo: eu sabia que porta arrombada nunca mais fecha direito.

Acordei umas três vezes na madrugada incomodado por aquele ouriço na garganta que parecia apenas querer me deixar nervoso e, alcançado este objetivo, voltava a silenciar. Que desespero! Passei dois dias e, o pior, duas noites neste vai e vem de sensações desagradáveis.

Decidi então que no dia seguinte iria procurar um médico e enfrentar o que fosse necessário, pois não poderia continuar aguentando o suplício. Não sei se foi por esta ameaça, mas a trilha deve ser um peixe covarde, pois acordei no dia seguinte sem a desagradável sensação na garganta. Nos dias que se seguiram deixei de sentir as espetadas e aliviado dei seguimento à minha vida, procurando esquecer a conversa com o Santo e a promessa extremada que havia feito no momento de fraqueza. É que na hora não me lembrei que bacalhau é peixe e esqueci de excluí-lo do compromisso da abstenção…

Daí em diante, todas as noites antes de dormir, agradecia aos anjos e santos pelo alívio, mas com cuidado excluía da lista o São Brás, que poderia me cobrar o prometido. Preferia agradecer direto à autoridade máxima, a qual na ocasião apelei, mas não prometi…

Mas o corpo humano é uma máquina fabulosa. Quase trinta dias depois daquele almoço, quando já nem me lembrava mais do ocorrido, acordei num domingo ensolarado, por volta das seis da manhã, sentindo uma agulhada leve na saída da garganta. Fui ao espelho do banheiro, abri bem a boca e a espinha estava lá, como um mastro sem bandeira. O organismo tentava expulsar aquele corpo estranho, expelindo-o para fora da garganta. Acordei a filha da minha sogra – não resisti e tive que usar a palavra antes de terminar esta crônica – e mostrei a ela o fenômeno.

Muito habilidosa, minha mulher procurou uma pinça para retirar o fragmento de esqueleto do peixe. Mas pinça de mulher é curta, concebida para outras finalidades e ao tentar alcançar a espinha, a mão precisava entrar demais na minha boca e eu não conseguia suportar a ânsia. Em duas tentativas desistimos desta opção.

Tive então uma idéia luminosa: procurar um dentista destes que atendem 24 horas por dia. Liguei para o primeiro número de telefone que encontrei e logo fui atendido:

– Bom dia. Estou com uma espinha na garganta quase saindo na boca. O senhor tem uma pinça longa que possa alcançar o início da garganta?

– Sim. Pode vir agora.

Saí imediatamente, sem tomar café da manhã nem beber água e fui pelo caminho rezando para que a espinha não se deslocasse. Cheguei em meia hora, pois num domingo às seis e meia da manhã só estão na rua aqueles que viraram a noite de sábado e estão indo para casa.

Era um consultório em Ipanema, num sobrado. Subi as escadas ansioso e o dentista já me esperava. Logo ao entrar observei que a pinça estava na mesinha de apoio. Alegrei-me e já sentei com a boca aberta: em dois segundos ele retirou a peça. Foi aí que, literalmente, cheguei ao fim da picada!

O dentista então colocou a espinha num vidrinho e mostrou-me que estava toda carcomida: o organismo atacou-a, tentando destruir o que não conseguia engolir. Não sendo possível, optou por expelir. Coisa fantástica!

– Quanto lhe devo?

– É o preço de uma consulta aos domingos.

Deixei lá quase 20% do meu salário.

Nunca vi trilha mais acidentada e cara em toda a minha vida!

 

Antonio Carlos Sarmento

37 comentários em “SITUAÇÃO ESPINHOSA”

  1. Vovó dizia que Santo é Santo. No sincretismo de minha familia, São Braz, se Invocava quando alguem engasgava, mas uma empregada nossa invocava o mesmo Santo quando ao andar numa rua se deparava com um cão meio invocado… kkkk. Hoje quem eu encho o saco é de São Longuinho porque vivo perdendo as coisas. Da certo mas tem que dar os 3 pulinhos… kkkkk abraços, bom domingo e fique com Deus.

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    1. Amigo Luigi,
      Desculpe a demora na resposta, mas passei a semana as voltas com a declaração do imposto de renda…
      Obrigado pelo comentário! Será que São Longuinho toparia nos livrar do Corona? hahahaha
      Grande abraço!

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  2. Que sufoco meu irmão!!!!
    Aflição descrita com fidedignidade, cheguei sentir aqui tamanha aflição !!!
    Não valeu a trilha, mas o dentista pensando bem… foi até barato!!!!
    Viva o filé de linguado!
    Partiu Sampa!!!!

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  3. Mais uma crônica especial para guardarmos e lermos de vez enquando. Como sempre nos levando a reflexões com suas lindas e leves histórias.
    Adorei a paráfrase. Realmente acredito que em viagem nos encantamos com tudo porque não temos tempo de conhecer a fundo os lugares que visitamos. Esse é o gostoso da viagem e daquele sentimentode de quero mais.
    Dessa espinha me lembro muito bem e me deu muito trabalho e preocupação.
    Graças a Deus acabou tudo bem 🙏

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  4. Meu caro:

    A mim, posso lhe garantir, não traz qualquer preocupação as espinhas, porque não gosto de peixes. Quando muito e com grande sacrifício, consigo degustar um filé de peixe grelhado.

    Abs.

    Carlos Vieira Reis

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  5. Que agonia!!!Ufa!!! Tudo passa, até a espinha de peixe passa, ou melhor, não passa, teve que ser tirada. A espinha e o dinheiro do bolso, mas valeu a pena, porque tivemos mais uma história contada. O importante é que as crônicas estão saindo.
    Abraços

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      1. Claro que sim. Você estava com um problema no olho.
        Meus comentários servindo como inspiração, foi muito legal.
        Com certeza estarei lendo todas as suas crônicas que ainda estão por vir e comentarei para que você tenha mais inspirações. Se bem que você já é um poço de inspirações.
        Abraços

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  6. Querido Irmão,
    Ao tentar (não foi fácil) ler SITUAÇÃO ESPINHOSA, magnificamente bem escrita, nos transportamos (ANNA, VIVIANNE e Eu) automaticamente para o seu lado vivenciando intensamente a situação. Cau fomos acometidos de um incontrolável acesso de risos a tal ponto que não conseguíamos prosseguir a leitura. Gargalhadas tão prazerosas que chegaram provocar aquelas lágrimas e afetando as gargantas, tão fortes que eram. Tentamos várias vezes controlar para poder chegar ao final da leitura e evitar uma consulta médica para recuperar as gargantas. Um grande presente após o café desta manhã de domingo. Coisa que sòmente um GRANDE CRONISTA pode proporcionar. Parabéns meu Irmão. Obrigado. Ganhamos o dia.

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    1. Querido irmão,
      Só agora, livre da declaração de imposto de renda, estou podendo responder os gentis comentários.
      Ter possibilitado a vocês, num domingo de manhã, gargalhadas prazerosas é um ótimo retorno e me faz acreditar que está valendo a pena escrever.
      Obrigado pelo comentário bem humorado e amoroso!
      Beijos

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  7. Só uma perguntinha: você manteve a promessa ou foi só o desespero??
    Espero os domingos para “ouvir” suas histórias.
    Beijinhos

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  8. Como sempre muito criativa e apreensiva…
    Você cada vez melhor.
    A trilha é mais barata que sardinha.
    O dentista tirou o lucro….
    Parabéns amigo.

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    1. Querido amigo Nei,
      Muito obrigado por comentar.
      Nem sei o preço da trilha atualmente, pois não como mais peixe que tem muita espinha…
      Se depender de mim agora aquele dentista vai a falência!
      Grande abraço meu amigo!

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  9. Boa noite amigo!
    A crônica Exagero é excelente. Esse comportamento é causa de grandes e graves transtornos em todos os sentidos, principalmente qdo se trata de bebida.
    Um tema fantástico.
    Quanto a Situação Espinhosa, apesar do sofrimento descrito, não pude deixar de rir muito.
    Qdo vc descreve a situação na casa da sogra, que tentando ajudar, imbuída com certeza das melhores intenções, te entope de miolo de pão e água, a descrição é hilária.
    A crônica é ótima , vc está cada dia melhor.
    Parabéns!
    😘😘😘😘

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    1. Querida Arlete,
      Seu comentário me enche de alegria!
      Fico realmente feliz de saber que se divertiu e apreciou as duas crônicas.
      Muito obrigado pela gentileza do comentário!
      Fique com Deus e um grande abraço no meu amigo Mario!

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  10. Querido primo,
    Em meio ao isolamento, preocupações e esperanças, saudades e resiliências, me vejo no meu cantinho rindo sarisfeita com sua história.
    Grande Cacau, que ameniza nosso dia a dia!
    Nem era para rir – afinal, espinha na garganta dos outros é refresco. Mas me rendi ao seu talento .
    No final, até pude sentir sua sensaçao de alivio…ufa! bem- estar nao tem preço.
    Grande abraço!!

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    1. Querida Gena,
      Fazer você rir um pouco e amenizar este período tão difícil que estamos passando é um privilégio para mim.
      Obrigado por estar sempre lendo e comentando.
      Um beijo minha prima e por favor mande um grande abraço para Adauto, suas filhas e netos!

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  11. Achei muito interessante, porém, mais do que se possa imaginar deve ter sido um sufoco.
    Quem entende de peixe é São Pedro, a promessa foi para o Santo errado .

    Espero que não aconteça novamente, escolha o peixe melhor e o Santo certo , no caso de alguma emergência….

    As crônicas, cada dia melhores é fixando atenção .
    Parabéns meu irmão!

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  12. Meu bom amigo Antonio Carlos.
    A conclusão que faço é que o bem estar do corpo e a vida não tem preço, mesmo que tenhamos que optar pela cura no dia de domingo. rssssss.
    Um fraterno abraço meu querido irmão em Cristo.
    Oslúzio Félix Fonseca

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