CONCESSÃO FATAL

João Carlos, mal se formou e conseguiu seu primeiro emprego. Era uma empresa pública envolvida em grandes obras e atuar como engenheiro num empreendimento deste porte, representava um excelente início de carreira.

Ninguém tem mais motivação para trabalhar que um recém-formado.

Desde que recebeu a confirmação de que seria contratado, João Carlos encheu-se de orgulho e foi tomado de uma grande empolgação. Já sonhava com os grandes feitos que realizaria na vida profissional e as conquistas que teria na vida pessoal, viabilizadas pelo bom salário, acima de suas expectativas.

O primeiro dia de trabalho é sempre algo marcante, mas no primeiro emprego é inesquecível. Até então João Carlos não sabia qual seria a sua atividade. Havia sido entrevistado por um engenheiro que muito perguntou e pouco falou.

No dia marcado para seu início, chegou à empresa pontualmente e foi recebido por aquele que o entrevistou e seria o seu chefe. Logo ficou sabendo que trabalharia na área de logística, responsável por viabilizar todo o material e equipamentos necessários às obras: um mundo de coisas que ficavam armazenadas num grande galpão aguardando o momento da instalação. Não era bem o que imaginava, mas pensou que poderia ser um bom começo para integrar-se à empresa e conhecer aspectos técnicos.

Foi se inteirando da atividade, compreendendo a dinâmica de entrada e saída de materiais, supervisionando o recebimento de itens de fornecedores e o despacho para os canteiros de obras. Aos poucos começou a apresentar sugestões de melhor organização e em cerca de três meses estava bem ambientado e gostando do trabalho.

Foi quando soube que o chefe entraria em férias na semana seguinte e caberia a ele substituí-lo, coisa natural, pois eram os dois únicos engenheiros do setor. Ficou orgulhoso de, em tão pouco tempo, já exercer uma importante função na empresa.

No seu quarto dia como chefe substituto chegou uma grande remessa de lâmpadas especiais e teve que ir pessoalmente orientar o recebimento e armazenagem. Ao final, o representante do fornecedor foi à sua sala e estendeu a mão para entregar-lhe um envelope de papel pardo, fechado com um elástico:

– Esta é a sua parte.

– Como assim? Que parte? – admirou-se João Carlos.

– A sua parte na compra, doutor. Por favor.

– Não tem nada de minha parte. Não aceito. Pode levar isso de volta.

– Que isso, doutor. Sempre foi assim. O senhor vai me criar um problema. Não posso voltar para a empresa com este envelope.

– Problema seu. Fique sabendo que eu trabalho desta forma. Pode se retirar!

O sujeito saiu atarantado deixando João Carlos ruminando o desagradável episódio e principalmente aquela afirmação de que “sempre foi assim”…

Não haviam se passado dez minutos quando o telefone da mesa dele tocou:

– Engenheiro João Carlos?

– Sim.

– Um momentinho que o Diretor vai falar.

João Carlos alarmou-se e sentiu o sangue correr mais rápido. Em menos de quatro meses de empresa já substituía o chefe e falava com o Diretor. Provavelmente era alguma informação importante ou uma necessidade da empresa que precisaria atender. Estava a postos!

– João Carlos, boa tarde. Tudo bem?

– Sim senhor. Tudo tranquilo.

– O que está acontecendo aí?

– Aqui está tudo certo. Nenhum problema. – estranhou João Carlos.

– E este caso das lâmpadas?

Caiu a ficha. O sujeito do envelope provavelmente havia entrado em contato com a empresa fornecedora e o assunto chegou ao topo da hierarquia. Não sabia o que dizer…

– As lâmpadas chegaram, tudo conferido e a nota fiscal está correta.

– Não me traga problemas. Resolva isso. O representante está aí embaixo aguardando. Até logo!

Mal teve tempo de pensar e o sujeito do envelope já estava novamente em sua porta. João Carlos tinha apenas uma certeza: não receberia aquele dinheiro! Desta decisão não recuaria, quaisquer que fossem as consequências. Afinal, formou-se engenheiro e não propineiro. Mas tinha que encontrar uma saída honrosa.

– Bem doutor, tudo resolvido então. – disse o sujeito, pousando o envelope na ponta da mesa.

– Não senhor. Sente-se por um minuto.

– Pois não.

– Vamos resolver isso de maneira satisfatória para todas as partes.

– É só o que eu quero.

– O senhor vai fazer o seguinte: pegue este envelope e compre tudo em lâmpadas, da mesma que o senhor entregou hoje. Estamos sempre precisando deste material.

O sujeito ficou pensativo. Coçou o bigode, olhou para o chão, voltou a olhar o João Carlos, virou os olhos para cima como se quisesse enxergar sua própria testa e finalmente disse:

– Está bem. Vamos fazer assim. Semana que vem entrego as suas lâmpadas.

– Minhas lâmpadas não. Da empresa.

– Ok, ok…

João Carlos ficou satisfeito com a solução que arquitetou, ou, melhor dizendo, engenhou. Continuava de mãos limpas e o ganho seria para a empresa. Se o Diretor ligasse poderia informar que o problema estava resolvido. Passou o resto do dia e o Diretor não ligou, sinal de que a solução havia sido eficaz.

Uma semana depois, chegou a remessa extraordinária de lâmpadas. João Carlos acompanhou o recebimento, determinou o local e condições do armazenamento e, como de rotina, encaminhou a nota fiscal para a contabilidade.

Duas horas depois o telefone tocou:

– O senhor pode me dar um esclarecimento? Recebemos uma nota fiscal de lâmpadas com carimbo de “pago”, mas não temos registro deste pagamento nos lançamentos contábeis.

– É… É que foi uma cortesia do fornecedor. – improvisou João Carlos, que não havia pensado neste embaraço.

– Cortesia? Coisa estranha. Esta nota fiscal vai dar confusão. Vou levar o caso ao meu Diretor. Obrigado!

Dois dias depois o chefe de João Carlos retornou antecipado das férias. Agradeceu a ele o trabalho realizado e transferiu-o para um canteiro de obras bem distante da sede administrativa da empresa.

João Carlos foi para casa pensando no desafio que a vida lhe impôs de encontrar a medida certa daquilo que podia ceder em prol do entendimento, da harmonia e dos seus próprios interesses. É certo que ninguém pode viver cedendo em tudo ou não cedendo em nada. Mas ponderou consigo mesmo que era importante reconhecer quando se está diante de uma situação limite, na qual a decisão de ceder significa uma mudança irreversível no rumo da vida, nem sempre para melhor. É o caso em que a concessão pode ser fatal.

No dia seguinte pediu demissão.

Antonio Carlos Sarmento

28 comentários em “CONCESSÃO FATAL”

  1. Primeira crônica sua que me faz ficar tristemente pensativo. Não por sua culpa, mas pela triste realidade que ela retrata. Sua crônica mostra, penso eu, 90% da realidade de uma cultura que se tem no nosso país que nos impede de galgarmos o lugar que poderíamos ocupar no mundo. Bom domingo e fique com Deus.

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    1. Amigo Luigi,
      Também acho que quando conseguirmos mudar esta cultura o Brasil deslancha.
      Até lá vemos situações como aproveitar a pandemia para obter vantagens indevidas em prejuízo de vidas…
      Mas não devemos ficar tristes: tem muito João Carlos por aí!
      Este dia vai chegar, se Deus quiser!
      Obrigado pelo comentário, amigo e fique com Deus!

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  2. Hoje, não se tem mais tantas pessoas de caráter, como o João Carlos. Quantos vendedores de lâmpadas devem ter passado por situação idêntica ?
    Que Deus o conserve assim, sempre de cabeça erguida.
    Sds.
    Carlos Vieira Reis

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  3. Querido amigo.
    Quanto ensinamento na sua crônica de hoje. Parece que ser honesto é virtude quando é obrigação. Sua formação lhe proporcionou essa bela atitude.
    O cruel é que presenciamos nos dias de hoje a propina como coisa usual. É lamentável.
    Parabéns não só pela crônica mas sobretudo pelo exemplo.
    É por isso que você não aceita os bons vinhos que !!!as vezes quero te dar de presente. Não é propina não !!! É amizade mesmo. Grande abraço.

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    1. Amigo Nei,
      O bom humor do seu comentário me divertiu.
      Claro que aceito os vinhs de coração aberto: só capricha um pouco mais na escolha do rótulo…
      Lembre-se do Alexandre, que de São Paulo, pode lhe dar excelentes dicas!!!
      Abraços querido amigo!

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  4. Querido amigo, realmente dá tristeza em saber que moramos em um país que qdo alguém acha algo que não lhe pertence e devolve vira notícia, imagina devolver propina. Parabéns pro João Carlos.

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    1. Caríssimo Bira,
      Muito obrigado por comentar. E ainda lembrar este grande nome, até hoje presente pela sabedoria ímpar.
      Saúde para você e Enid.
      Se Deus quiser em breve tudo isso acaba e vamos estar juntos para aquele whiskinho!!
      Abraços

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  5. Meu Caro Amigo, Muito boa tarde, Essa crônica, infelizmente nos dias de hoje, pode-se dizer é surreal . . . Mas, em meu entendimento, dignidade não tem preço . . . Mais uma vez, parabéns!!!!

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    1. JH,
      De fato nos dias de hoje ficamos chocados com tantas manobras e irregularidades, mesmo no momento difícil que estamos vivendo com vidas humanas em jogo.
      Mas temos que ter a esperança de que muitos como João Carlos existem e resistem!
      Grande abraço meu amigo.
      Recomendações à família!

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  6. Se cem concordam com o esquema, basta um discordar pra que ele não se suceda. Parabéns ao João Carlos por não desistir e buscar fazer o verão sendo uma andorinha.

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  7. Dignidade acima de tudo. Poder dormir tranquilo com o cabeça no travesseiro não tem preço. O primeiro emprego do João Carlos durou pouco, mas a certeza de ser um grande profissional é pra sempre. Dois parabéns. Primeiro para mais uma excelente crônica e segundo pelos 40 anos de casamento. Parabéns, parabéns.
    Estava comentando com um amigo sobre suas crônicas, que na verdade, foi ele que indicou essas leituras, dizendo que você escrevia muito bem e eu também como escritor, não tão bom quanto a ti, comecei a ler e virar um leitor assíduo. Este meu amigo foi professor de inglês da sua filha e até hoje sou grato a ele por me indicar e grato a você por escrever belas crônicas.
    Abraços

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  8. Prezado senhor Sarmento.
    Em primeiro lugar gostaria de dizer que sua crônica é um libelo ou antes uma fábula (pois acredito ser ficcional) e nos leva a pensar na condição do nosso Brasil brasileiro. Não gostaria de entrar no ramo da política mas não há como associar o texto ao que estamos passando no momento ( a famosa política do toma lá, dá cá!). Acredito que na condição de explorado, todo brasileiro se sinta justificado na hora de conseguir alguma vantagem. Vide o caso do filho do William Bonner que algum espertinho conseguiu através do CPF do mesmo, dar entrada no auxílio de R$ 600,00 da CEF. Eu sei que estou divagando pois a sua crônica apenas faz menção a um “costume” que é considerado a norma em qualquer empresa. Isso me fez lembrar de um tio meu lá de Santa Catarina que era funcionário dos Correios e numa ação do governo Collor, resolveu aceitar o plano de demissão proposto e foi ser vendedor de brinquedos para escolas do munícipio e estado. Ele me relatou que ele abriu uma micro empresa de fundo de quintal (literalmente na garagem da casa dele) e sempre que participava de uma licitação, sempre havia alguém que ao receber o envelope com a proposta do certame sempre perguntava pelo “agrado”.
    Trata-se de uma cultura da qual é difícil deixar para trás. Porém, um texto dessa estatura nos faz pensar e acreditar que ainda existem cidadãos com seus princípios e brios bem a flor da pele e que não se deixam levar por tais atos vís.
    Ah sim, a propósito, sou amigo do Nelson Faria de Fortaleza e fui eu quem indicou seu blog para ele. Na verdade não fui professor de inglês da sua filha Tatiana Sarmento mas antes trabalhamos juntos como auxiliares de coordenação no curso Wise Up no condomínio Mundo Novo da Barra da Tijuca (época boa).
    Fique com Deus e um forte abraço!

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  9. Boa tarde Sr. Sarmento;
    Eu sou o amigo do Nelson Faria acima.
    Em primeiro lugar gostaria de parabenizá-lo pelos seus quarenta anos de matrimônio e também pela sua belíssima crônica sobre a honestidade. Num país como o nosso isso é quase impossível de acontecer, infelizmente.
    Em segundo lugar, gostaria de esclarecer que nunca fui professor de inglês de sua filha Tatiana. Apenas trabalhamos juntos como coordenadores auxiliares de curso Wise Up no Condomínio da Barra da Tijuca (Novo Mundo). Confesso que também nunca tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente e agora nem posso pensar nisso. Mas quem sabe um dia?
    Fique com Deus.

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    1. Bion,
      Com alegria recebo a sua mensagem e agradeço ter recomendado as crônicas ao Nelson, que tornou-se leitor assíduo. É uma pessoa muito gentil e sempre faz comentários interessantes.
      Em algum momento pós pandemia vamos marcar um chopp, convidamos o Nelson e batemos um bom papo.
      Um grande abraço!
      PS: A Tati me ajuda no Blog e vai ver o seu comentário.

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  10. Ei meu primo!!
    Que bondade a sua apresentar personagens íntegros!
    Acreditando e propagando !!
    Rui Barbosa disse que, de tanto ver crescer a injustiça , os homens teriam vergonha se ser honestos.
    Mas você não se rende : mostra uma, duas, três vezes que a retidão é fundamental
    E isso foi a herança que recebeu daquela pessoa querida, de olhos claros e de palavra firme, que um dia pediu a seu menino que devolvesse ao lugar uma borracha que não lhe pertencia.
    Beijo

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    1. Querida Prima Gena,
      Seu comentário me emocionou.
      A conexão que você fez com crônica CONTRASTE, na qual lembrei de fato ocorrido com minha mãe, foi sensacional.
      Muito obrigado, minha prima por tanta delicadeza e carinho.
      Beijos em toda a família!

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  11. Realmente um verdadeiro caso em que o nosso engenheiro não cedeu, uma concessão que seria fatal ao seu emprego e principalmente à sua vida! Parabéns amigo por esta crônica muito interessante!
    Vou aguardar, quem sabe, a uma outra crônica, desta vez sobre o confronto fatal 😂

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