TRAGICÔMICO

Divertimento e passatempo para mim são sinônimos apenas no dicionário. Eu acho que fazer algo só para passar o tempo devia ser considerado um pecado contra si mesmo. O tempo é o que temos de mais valioso e apenas fazê-lo passar ou gastá-lo sem proveito é desperdiçar uma parte da vida.

Estou aprendendo isso com meu neto de um ano e pouco. Desde que venceu a fase inicial do come e dorme, ele está sempre à procura de diversão. Gosta de música, de brinquedos, de água, de rir muito, de brincar de esconder e quer fazer e descobrir coisas divertidas o tempo todo. É óbvio que, daqui a mais algum tempo vai ter que incluir no seu dia-a-dia algumas atividades e obrigações, mas que não seja à custa de minimizar ou suprimir o divertimento.

Fico pensando que talvez a gente vá pela vida reduzindo o espaço da diversão à medida que amadurecemos. É como se fosse uma pirâmide, com a infância na base e a velhice no topo: vamos subindo e encolhendo as brincadeiras e o divertimento, que vai sendo em parte substituído por alguns passatempos, sem a emoção e o prazer verdadeiros.

E aí, a partir de certo ponto, já nem sabemos mais o que nos diverte de fato. Corremos o risco de comida e bebida passarem a ser mais diversão que alimentação.  E os noticiários e novelas da televisão? Talvez estejam mais para distração que para diversão.

Eu arriscaria dizer que a gente envelhece quando perde a capacidade de se divertir! Em outras palavras, envelhecimento é escassez de divertimento.

As boas lembranças da infância e juventude podem ter origem exatamente no fato de que é lá que estão as épocas em que mais brincamos, mais nos divertimos. Vem à minha mente um episódio quando eu tinha uns 14 anos. Talvez fosse mais prudente nem contar, pois corro o risco de muitos acharem condenável, politicamente incorreto, etc… Mas não resisto. Como sei que vou me divertir contando, vamos lá!

A rua em que eu morava tinha uma turma grande de garotos, agrupados por idade. Sempre em busca de diversão, alguém trouxe uma idéia maluca e irresponsável, logo apoiada com grande entusiasmo por todos. Consistia em simular um atropelamento na esquina da rua, bem próximo ao ponto de ônibus, com velas acesas e um corpo coberto de jornais.

Dois dias depois, com tudo planejado, aguardamos o horário de retorno do trabalho, em torno de umas seis e meia da tarde e montamos o cenário. Foi difícil escolher aquele que faria o papel de morto, pois exigia talento para respirar curto, sem movimentar as folhas de jornal e, principalmente, não rir. Os demais ficariam em volta, rezando e chorando.

E assim foi feito, numa quarta-feira. Só tínhamos duas velas e colocamos uma em cada extremidade do finado, com um afastamento para evitar pegar fogo no jornal e aí termos não um velório, mas uma cremação… Ainda utilizamos pequenas pedras para prender as folhas de jornal, evitando voarem com o vento ou com o deslocamento de ar dos ônibus. Coisa profissional, planejada com requintes sofisticados.

As pessoas saltavam dos ônibus e ali ficavam, pois por razões que nunca compreendi, a desgraça alheia atrai muito a atenção.

– O que houve? – perguntou uma senhora com ar de grande tristeza.

– Foi atropelado… – respondeu um dos coadjuvantes.

– Ai meu Deus! Já avisaram a família?

– Não sei senhora. Muito triste. – disse, escondendo o rosto e artisticamente rindo de modo a dar impressão que chorava.

Aos poucos foi juntando uma pequena multidão. Muitos curiosos saltavam de outros ônibus que circulavam em sentido oposto e atravessavam a rua. Outros saíram de casa para ir até o local saber do ocorrido. Um reboliço!

Como combinado, no auge da encenação, com a calçada bem cheia e já sendo quase impossível conter o riso, um dos “atores” aproximou-se do falecido e proferiu a palavra-chave:

– Coitado. Alguém já chamou a “polícia”?

Ao ouvir a senha, o morto, lambuzado de ketchup, deu um pulo e emergiu das folhas de jornal aos gritos, sacudindo os braços. Foi um verdadeiro barata-voa! Aquela ressurreição súbita e inesperada fez o povo disparar em todas as direções, invocando anjos e santos. Senhoras largaram os sapatos de salto e desapareceram depois da curva. Senhores de terno deixaram cair pastas e deram tiros de 100 metros de fazer inveja a Usain Bolt. Eu vi pessoas paralisadas, com as duas mãos na cabeça e soltando gritos histéricos.

O frenesi durou apenas alguns segundos e nós já sabíamos que, passado o susto e tão logo ficasse evidente a encenação, a energia do pavor das vítimas seria convertida em ódio. Portanto, nos incorporamos à correria desabalada e convergimos para o ponto de encontro, bem afastado do local, como previamente combinado. Ali foi uma chuva de gargalhadas de fazer correr lágrimas, faltar o ar e doer a barriga. Quando as risadas acalmavam, alguém lembrava um detalhe e começava outra sessão de risos desesperados. Fui dormir todo doído de tanto rir, coisa maravilhosa!

No dia seguinte, claro, recebemos a pesada carga de condenações de pais e vizinhos. Praticamente fomos proibidos de repetir a façanha, o que não chegava a ser um problema, pois se realizar aquilo já era arriscado, repetir seria uma temeridade. Além disso, as lembranças e detalhes foram sendo degustadas por muito tempo, rendendo risos e conversas intermináveis.

Aos poucos as reprovações foram sendo esquecidas e começou a crescer entre nós a intenção de repetir o feito. Mais ou menos uns seis meses depois decidimos realizar novamente o evento apoteótico. Era irresistível! A gente ria só de pensar…

Mas não contávamos com a perspicácia de uma vizinha que, da sua janela, viu o cenário sendo montado e ligou para a polícia. Estávamos ainda no estágio inicial, com pouco público, quando um guarda chegou de surpresa. Assustado, um dos coadjuvantes anunciou:

– Polícia!

O morto ouvindo a palavra-chave deu um pulo e aos berros levantou.

Não houve risos nem correrias.

O defunto perplexo, sem graça e com ketchup foi pego pelo braço:

– Vamos para a Delegacia! – disse o guarda.

– Todo mundo vai. – respondemos solidariamente.

E assim fizemos. Até hoje me recordo do número da Delegacia Policial, que deixo de citar para evitar investigações, por mais improváveis que sejam, já que, se houve crime, está prescrito após mais de 50 anos…

Chegamos lá e fomos colocados numa sala apertada e quente, como é padrão em qualquer delegacia. Um funcionário anotou nome e endereço de cada um de nós. Éramos quinze meliantes.

Ficamos ali por quase duas horas, ao fim das quais o delegado apareceu. Foi um silêncio de cemitério quando ele entrou:

– O que houve? Fizeram o que?- disse ele, com roupa de delegado, cara de delegado e voz de delegado.

O guarda explicou:

– Recebemos uma denúncia. Eles estavam fingindo um atropelamento com cadáver para assustar as pessoas.

– Como assim?

– Tinha um deles, esse sujo de ketchup, coberto com jornal, cheio de velas em volta e todos chorando. Ia juntando gente e quando estivesse cheio, o morto ressuscitaria aos gritos. Já fizeram isso uma vez.

O delegado não conteve um riso no canto da boca.

– E aí?

– Aí, seria uma correria maluca, todo mundo apavorado, gente gritando, ataques histéricos. São uns irresponsáveis!

O delegado não conteve a gargalhada.

Deu uma pausa e disse:

– Isso faria um paralítico andar. Andar não, correr!

Novas gargalhadas, desta vez, acompanhadas pelos quinze marginais. Quando as risadas acalmaram, ele determinou:

– Nunca mais façam isso, entenderam? – disse, ainda sorrindo.

– Sim senhor. – respondemos em uníssono.

– Mas se forem fazer, me chamem… – e caiu novamente na gargalhada enquanto deixava a sala.

Fomos para casa, alegres e leves.

No caminho, o falecido arrematou:

– Quem disse que com morte não se brinca?

 

Antonio Carlos Sarmento

40 comentários em “TRAGICÔMICO”

  1. Muito boa! Minha avó sempre dizia que jovem só faz M…! Verdade! Mas que era divertido demais, era. Fazer Essas coisas nessa idade fazem oarte da boa formação de qualquer adolescente. Fico triste com essa papagaiada de “politicamente correto” de hoje, que oprime os jovens fazendo a voda mais chata e sem graça. Bom domingo.

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    1. Amigo Luigi,
      Grato por comentar.
      Pelo jeito também teve uma infância rica e cheia de acontecimentos interessantes.
      Espero que a pandemia por aí tenha arrefecido e em breve estejamos todos livres novamente!
      Um grande abraço!

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  2. Garoto
    Que fiasco!!!
    Tão legal memórias de infância e dores de gargalhada….
    Amei a história, meninos travessos e divertidos!!!
    No nosso próximo encontro:
    Vamos jogar um jogo???
    Viva o divertimento!!!

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  3. Meu querido Amigo, Muito bom dia, Mais uma vez, uma crônica espetacular . . . Nós, que já estamos há um bom tempo esta Terra, devemos sempre recordar da criança que fomos um dia, puras e sensíveis . . . Essa brincadeira relatada, assim como tantas outras, eram brincadeiras, só isso . . . ainda, que, eventualmente, pudesse causar uma consequência, como essa que ocorreu ao final e que, foi prontamente relevada por quem “entendeu” o espírito da coisa . . . Recomendações à Sonia, à Tatiana, ao Gui, referido com muito amor neste texto, e ao seu genro . . .

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    1. Amigo JH,
      Só a sua sensibilidade de perceber a referência ao Gui na crônica já valia o comentário.
      De fato, como você lembrou, precisamos manter viva a criança que vive em nós.
      Sonia, Tatiana, Gui e o Jean agradecem sua lembrança!
      Um afetuoso abraço meu amigo. E recomendações à Sueli, Luizinho e Júnior.

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  4. Que crônica maravilhosa!
    Consegui enxergar minha infância no subúrbio , sempre muito divertida e lotada dessas brincadeiras , e nos trouxe, além de tudo, um alerta: “Quando esquecemos que fomos crianças, passamos a viver sem a melhor parte da vida dentro de nós “. É aí passamos a conviver com as ” coisas” da velhice, só envelhecemos biológicamente, o restante é pura opção do modo de viver .
    Parabéns Cacau !

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    1. Amigo Chico,
      Seu comentário é uma lição de vida.
      Envelhecer biologicamente é inevitável, mas no espírito e na maneira de viver depende de cada um de nós.
      Se conseguimos manter viva a criança que temos no peito, aí a juventude pode ser vivida para sempre!
      Beijos

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  5. Que bom poder começar o domingo literalmente chorando de rir, quem não tem na lembrança alguma história marcante como essa , pode chorar porque não teve infância. Bjs

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  6. Caro Antonio Carlos:

    Tem certos divertimentos que põem, por vezes, custas caro.

    Mas, de qualquer forma, muito interessante o episódio.

    Mais uma vez, parabéns pela criatividade.

    Sds.

    Carlos Vieira Reis

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  7. MARAVILHA meu caro irmão e oportuno neste momento da pandemia. Sinto não ter podido participar da deliciosa molecagem. Mas tive , GRAÇAS A DEUS, e ainda continuo tendo boas oportunidades de divertimentos assemelhados. Além do momento divertido com gostosas risadas, você faz uma excelente provocação a todos para refletirem se querem envelhecer ou se divertir. PARABÉNS E OBRIGADO. FORTE E AQUELE CARINHOSO ABRAÇO QUE NÃO DÁ VONTADE DE DESABRAÇAR.

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    1. Meu querido irmão,
      Seu comentário me traz muita alegria.
      Naquela época, pela diferença de idade, éramos de turmas diferentes, mas compartilhamos muitas coisas da nossa rica juventude.
      Entre envelhecer e se divertir fiquemos com o divertimento!
      Muito feliz em levar à vocvês um pouco de risos e boas lembranças.
      Continue se divertindo MUITO!
      Um grande abraço jamais desabraçado!

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  8. Cacau , quem te conhece hoje não imagina vc fazendo essas traquinagens. Aí vem à conclusão: quem teve infância é mais feliz ! Esconde essa e outras crônicas do GUI, ele pode querer ser igual ao vovô na época do politicamente correto e se dar mal. Hoje não temos delegados com senso de humor, temos “ otoridades “ cheios de animosidades . Bjks

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  9. Querido Cau,
    Ótima e divertida recordação de uma infância alegre , cheia de amigos unidos e naquela rua tão agregadora.
    Vivemos essa etapa, depois a dos nossos filhos e agora com netos continuamos a nos divertir muito chorando de tanto rir!!!
    Resgatando as memórias com suas crônicas fica ainda mais divertido.

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  10. Sarmento, eu fiz parte dessa brincadeira, realmente vc relatou TD, mas felizmente eu não cheguei a ir para a delegacia, pois como eu era mt medroso, e não tinha pai, eu me lembro que me escondi, rsrsrs.
    A nossa infância na Pires, foi mt Boa, eu acho que vc teria mts crônicas para fazer.
    Abraços.

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    1. Milton,
      Pois é Milton. O Luiz Eduardo conta também que fugiu pelo redondo, saiu na Rua Santa Lúcia e desceu pela Rua Mario Portela, escapando da polícia.
      De fato temos muito o que lembrar da nossa infância.
      Muito obrigado pelo comentário!
      Um grande abraço!

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  11. Muito boa essa crônica, apesar de narrar uma simulação de acidente (que não existiu), em um ponto de ônibus, por duas efetivas brincadeiras, acabando em gargalhadas compartilhadas por todos até hoje. Que bom terminou tudo bem!
    Parabéns meu bom amigo, eu também dei boas risadas durante a leitura de sua crônica.
    Você é muito genial! Creio que em futuro breve irá contar essa passagem da sua vida para o seu querido e amado filho/neto.

    Um carinhoso beijo em todos e fraterno abraço na família.

    Oslúzio Félix Fonseca

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    1. Querido amigo Oslúzio,
      Ter proporcionado a você boas risadas é o melhor retorno!
      Obrigado meu amigo por estar sempre lendo e comentando as crônicas. É uma alegria!
      Um grande abraço e uma excelente semana para esta família amada!

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  12. Querido amigo
    Desculpe a demora em postar meu comentário.
    O cuidado ao colocar a vela afastada do jornal e não transformar o velório em cremação foi sensacional. Aliás as suas crônicas no domingo,querido amigo, tem sido quase que uma obrigação.
    Impossível não satisfazer a curiosidade do novo texto. E sempre vale a pena.
    Parabéns. Grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Amigo Nei,
      Os aspectos que chamam a sua atenção, curiosamente são pontos de destaque para mim também.
      Na PRATO FINO você comentou a frase sobre o atendente não ser confiável sequer para empurrar carro enguiçado…
      E agora a conversão de velório em cremação.
      Até nisto nos identificamos!
      Amigo, muito obrigado por seus comentários, sempre interessantes.
      Grande abraço!!

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  13. Querido amigo, as brincadeiras de infância são sempre muito divertidas mas eu não cheguei a tanto. Boas lembranças!
    Parabéns pelo texto e um forte abraço.

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  14. Que beleza esses momentos de recordações!
    Um dos méritos de suas crônicas é esse: resgatar as alegrias e as emoções de nossa história.
    Minhas ” artes ” foram mais tranquilas, mas repletas de alegria e de risos. E foi muito bom traze-las à memoria.
    Essa curiosidade, essa vontade de rir , esse desejo de novidade e esse companheirismo é que rendem diversão em qualquer fase da vida.
    Fica velho quem abre mão disso.
    Gostei muito da leitura e das reflexões que provocou.
    Obrigada por compartilhar conosco esse olhar otimista da vida.

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  15. Essas recordações me matam.
    Me matam de rir. kkkkkk
    Você é ótimo.
    Que tal você fazer uma outra crônica comparando a mesma situação nos dias atuais.
    É apenas uma sugestão. Parabéns pela crônica. Não consigo parar de rir.
    Abraços

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