VIAGEM BARATA

Interessante que tudo escrito na primeira pessoa do singular ganha ares de realidade para quem lê. Entretanto, nem sempre corresponde exatamente aos fatos, pois a literatura tem precedência sobre a vida real e muitas vezes exige algumas ilustrações nem sempre fiéis ao ocorrido. Mas posso garantir que esta história não é estória, e sim baseada em fato real.

Eu tinha uns 16 anos e estava num ônibus retornando de Copacabana para minha casa em Laranjeiras. Eram umas dez horas da noite. Vestia na ocasião uma calça jeans, camiseta e tênis, já constatando o leitor que não sou tão velho assim, pois me vestia de um modo que ainda está na moda.

Apenas naquela época, a calça jeans era do tipo reta e, infelizmente, depois o leitor vai entender o porquê, não havia a moda da boca estreita, hoje chamada skinny. Na verdade, era a famosa calça Lee, produto importado que inaugurou o mercado do jeans aqui no Brasil e seu preço estava longe de ser popular. Quem tinha uma, já se dava por muito satisfeito.

O ônibus estava bem vazio, como era de se esperar neste horário e eu vinha sentado tranquilamente, sozinho, num banco de dois lugares.

Mas o espírito do mal paira sobre nós o tempo todo. De repente, senti uma coceira na parte interna da perna direita, pouco acima do tornozelo. Antes que eu pudesse reagir, a coceira caminhou perna acima e se aproximava rapidamente do joelho quando coloquei a mão esquerda por cima da calça para estancar aquela escalada. Agarrei aquele caroço vivo, que ficou se debatendo. Meu Deus! Entrou um bicho na minha calça!!!!

Numa fração de segundo, pelo espernear do animal, concluí que era uma barata. Grande, cascuda e nojenta. Não sei exatamente por que, mas barata, quanto maior mais nojenta. Eu estava sentindo aquelas perninhas asquerosas esfregando-se contra a lateral do meu joelho. Era preciso urgentemente afastar o repugnante inseto da minha perna. Aquele sapateado era insuportável.

Fiz uma manobra, aliviando a pressão sobre o animal e procurando pegá-lo com a mão direita, envolvendo-o por inteiro com o tecido da calça. Assim, ficaria com a barata encapsulada, sem contato com a minha pele da perna ou da mão, protegidos pelo jeans e mantendo-a imobilizada até que pudesse tirar a calça, ato que, no momento, seria escandaloso.

A manobra foi mal sucedida e a desgraçada escapou, lançando-se velozmente em uma trajetória ascendente pela parte interna da coxa, direcionando-se para um local muito sensível do meu corpo, que acho desnecessário citar. Graças à Deus já tinham inventado a cueca. E eu usava…

Capturei-a novamente à uns quatro dedos da região sensível à qual me referi. Ufa! A barata estava inteiramente na minha mão, protegida pelo jeans, sem tocar na minha perna, debatendo-se ansiosamente, mas sem a menor chance de escapar. O polegar travava o seu avanço para diante e os outros quatro dedos envolviam o corpo oval da barata, imobilizando-a.

Decidi que dali não a deixaria passar mesmo que tivesse que espremê-la, coisa que devia evitar face aos subprodutos que acompanham a morte da dita cuja por este método medieval. Coisa difícil era controlar a pressão da mão: nem tão leve que ela pudesse escapar, nem tão forte que rompesse aquela carcaça frágil que me separava dos temidos líquidos e gosmas do seu interior.

No veículo ninguém sabia da minha luta contra aquele ser diabólico. A viagem prosseguia, já que uma barata não tem cacife para fazer parar um ônibus. Tentei localizar onde estávamos, ansioso por chegar ao meu destino: acabávamos de entrar na Rua das Laranjeiras, mas eu morava quase no Cosme Velho e ainda faltava um longo trecho.

O suor escorria do meu rosto, embora não estivesse calor. Uma barata é capaz de transtornar totalmente um ser humano. Ainda mais dentro da calça. E viva…

Fiquei naquela luta até que, depois de uma eternidade, chegou a minha hora de saltar. Levantei de modo estranho, com as pernas abertas, a mão direita fechada próxima à braguilha e arrastando-me como um cão com uma perna quebrada. Fingi não ver os olhares de reprovação do motorista e dos poucos passageiros, que provavelmente interpretavam de formas fantasiosas aquela posição esdrúxula.

Ao saltar, notei que a barata já não se debatia. Sentia a minha mão úmida, mas não conseguia saber se era suor ou os tais subprodutos. Do ponto do ônibus até em casa, trajeto que normalmente levaria uns 5 minutos, foram quase 20 minutos capengando. Felizmente não encontrei nenhum conhecido e havia pouca gente na rua.

Finalmente cheguei na porta de casa. Aí deu-se o impasse: a chave estava no bolso direito e tentar pegá-la com a mão esquerda, numa calça jeans que tem bolso tipo faca, é tarefa de contorcionista do Cirque de Soleil. Não consegui.

A barata já estava há um tempo sem se mover, mas eu não confiava naquele animal traiçoeiro. Suspeitei que estivesse simulando a morte para escapar na primeira oportunidade. Só me restava uma chance: trocar de mão. E foi o que fiz. Lentamente fui substituindo a direita pela esquerda, dedo a dedo, enquanto a barata permanecia impassível.

Completada a manobra e liberada a mão direita, abri a porta e nunca fui tão feliz em chegar ao banheiro. Desafivelei o cinto, abri o zíper e fui descendo a calça com a mão direita, mantendo o monstro aprisionado firmemente com a esquerda. Finalmente consegui me livrar da calça. A mão esquerda continuava fechada assegurando a prisão da barata.

Eu não sabia se ela ainda estava viva, mas decidi que dali não sairia com vida: seu destino seria o cemitério de baratas intrometidas em calças alheias.

Virei então a perna da calça pelo avesso, dei um aperto final como um golpe de misericórdia e abri a mão. Vi exatamente que pretendi evitar o tempo todo. A barata estava esmigalhada, pois não tive o equilíbrio suficiente para evitar a pressão excessiva. Deixo de descrever a cena para não perder o leitor, que como quase toda humanidade tem medo e nojo do inseto vivo e talvez, mais ainda, morto.

Joguei fora os restos mortais da barata, sem sequer cogitar de um velório. Lavei a calça no tanque, passando sabão umas 18 vezes.

Depois pendurei-a no varal e nunca mais usei minha única calça Lee.

Barata cara!

 

Antonio Carlos Sarmento

32 comentários em “VIAGEM BARATA”

  1. Caro Antonio Carlos:

    Realmente, a poderosa e traiçoeira barata deve lhe ter trazido muito desconforto, isto para não nos esquecer dos sérios riscos que o inseto trouxe para suas partes intimas.

    Parabéns pela magnifica crônica.

    Sds.

    Carlos Vieira Reis

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  2. Querido amigo, é nessas horas que eu invejo a coragem e controle do sexo oposto, pois se acontecesse comigo, tenho certeza que estaria nas manchetes de “atentado violento ao pudor” , Bjs e um ótimo domingo.

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  3. Barata Horrorosa…..
    Sempre me pergunto pra que existe esse inseto repugnante e tão detestado por todos. Quanto pavor já me causaram!!
    Pior mesmo foi ficar sem a calça Lee, inseto traumático, né meu irmão?!

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  4. Querido amigo.
    Dessa vez já vou refutando a sua alegação de que o escrito na primeira pessoa do singular vira realidade.
    Pelo tempo que lhe conheço e considerando as suas atitudes acho difícil que você tenha se comportado como relatou nessa história tão tensa e empolgante.
    Imagino você antes mesmo da indefesa baratinha ter chegado ao seu joelho você já teria saído desesperado pela porta do ônibus resolvendo dado o adiantado da hora, de outra maneira.
    Feito os meus respeitosos comentários quero lhe parabenizar mais uma vez por essa empolgante crônica.
    Fiquei na dúvida se ria ou chorava por você. Muito legal. Fiquei muito curioso por esse lugar tão sensível que você tem no corpo… Mas deixa pra lá.
    Kkkkk Parabéns amigo.
    Bom domingo.

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    1. Querido amigo Nei,
      Seu comentário é sempre muito interessante. Eu achava que iria falar do metáfora do cão com a perna quebrada, mas você surpreendeu e prendeu-se ao primeiro parágrafo.
      Obrigado pelo comentário, meu amigo.
      Prefiro não fazer menção à sua curiosidade expressa no final… hahahaha
      Grande abraço!

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  5. Meu amigo querido, tenho PAVOR DE BARATA!! Já chamei um porteiro em casa , as duas da manhã, esperando de camisola com as 3 filhas. , que só poderiam ter o mesmo pavor que tenho. A intrusa havia entrado voando pela janela. Só voltamos pra casa quando ele matou a infeliz e removeu o cadáver. Se fosse eu no ônibus seria um escândalo!!!

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  6. Hahahahaha crônica otima, mas…. bem nojenta pra quem, literalmente tem horror a elas. Vou enviar a amigos/tias que tem pavor do minúsculo ser, mas que não sei se conseguirão ir até o fim. Bom domingo, boa semana e fique com Deus.

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  7. Cacau!! Excelente!!! Confesso que ao longo da narrativa tive muita vontade de ir direto para o final, para saber o desfecho, mas resisti bravamente segundo o texto entre o sofrimento relatado e as minhas gargalhadas de cada parte da história. Parabéns!!!

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    1. Grande Gilvan,
      Que bom ter se divertido, meu amigo. Esta crônica tinha exatamente este objetivo.
      Sua ânsia de ir logo para o final, considero um elogio ao texto. E as gargalhadas que deu, um elogio maior ainda.
      Grande abraço, meu amigo.

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  8. Meu caro Amigo, Isso não é uma crônica é um pesadelo . . . Tatiana está viajando hoje para Portugal? Beijos para ela o Gui e o marido. Recomendações à Sonia.

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  9. Impossível não rir imaginando a situação… No momento do ocorrido deve ter sido um sufoco, mas hoje, acredito, deve ser motivo de risos.

    Bem , não vou tocar no assunto quanto a barata e partes íntimas…

    Muito bem contada a aventura…Vi a cena.

    Parabéns Cacau!
    Bj

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  10. Poxa Antonio Carlos, que horror ! ahhhhhhhhhhhhhhh…..eu tiraria a calca no onibus mesmo! Na verdade digo isso se fosse hoje. Quando jovens, temos vergonha de tudo . Ainda mais naquela epoca !!!!!!!!!!! Que nojo !

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  11. Bom dia.
    Um fato corriqueiro transformado em uma belíssima crônica.
    Destaque para o primeiro parágrafo, uma jóia da filosofia contemporânea.
    Parabéns e um abraço!

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    1. Caro primo Rômulo,
      Grato pelo comentário. De fato a crônica exige que tenhamos a possibilidade de, à partir de algo comum ou até banal, desenvolver um texto que venha a interessar o leitor.
      Muito obrigado e um grande abraço!

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  12. Nossa, Cacau!!
    Na minha adolescência, tinha muito medo de que isso me acontecesse. Depois, com tantas coisas a fazer e a pensar, esqueci das baratas.
    Se vejo alguma no meu caminho, piso. Mas se voar, fico arrepiada. Que bichinho repugnante!
    Você se saiu bem e valeu se desfazer da LEE ( um sonho de consumo) . Descartou a possibilidade de se lembrar desse momento de aperto.
    Para reviver, só coisas boas!!!
    Grande abraço!!

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  13. Hahahaaha o relato dessa luta interminável foi muito boa. Eu acho que eu tiraria a calça, mas sei lá. Momentos desesperados, merecem ações desesperadas.

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