GENTE BOA

Agostinho havia comprado seu primeiro carro zero quilômetro e rodava feliz pela cidade do Rio de Janeiro. Sentia-se como um alpinista, na medida em que realizava algo aprazível e ao mesmo tempo perigoso, muito perigoso. Sabia que a bandidagem da cidade era famosa por possuir um faro de cão perdigueiro, capaz de captar a longa distância, os agradáveis e inconfundíveis aromas de carro novo, recém-saído da fábrica.

Precavido, havia feito o seguro do veículo e só retirou o carro quando recebeu a confirmação da apólice. Claro, todo alpinista precisa da corda de segurança.

A compra do carro consumiu boa parte de suas reservas financeiras, mas Agostinho, a cada dia, mais se convencia de que tinha valido a pena. O veículo era lindo e a cor branca realçava seus traços e conferia ainda mais beleza ao design moderno.

No dia em que saiu da concessionária, parecia Napoleão montado naquele cavalo igualmente branco. Só decepcionou-se quando o vendedor recomendou-lhe parar no primeiro posto para abastecer. Entregaram-lhe um cavalo faminto e era preciso alimentá-lo antes de tudo. Quanta ganância: paga-se uma fortuna por um carro e o tanque vem com gotas contadas de combustível. Encher o tanque esvaziou o que restava de sua conta corrente. Mas realizar um sonho vale o preço, pensou.

Havia uns dois meses que Agostinho desfrutava deste prazer. Saía com o carro por qualquer motivo e, quando não tinha motivo, inventava. Foi assim que, num sábado à tarde, disse à mulher que iria até a Tijuca visitar sua tia, coisa que raramente fazia. Ou seja, foi mais pelo passeio de carro que pela tia…

Ela morava na Rua Uruguai, no trecho inclinado e, naquela tarde de sorte, Agostinho encontrou uma vaga em frente ao prédio. Que ótimo!

Subiu ao apartamento contente consigo mesmo por realizar a visita. Foi recebido também com alegria. A tia, que desconhecia a real motivação da visita e achava-se merecedora daquela atenção do sobrinho, logo serviu, com muito prazer, um café com biscoitinhos feitos em casa. Coisa de tia solitária…

Conversaram por cerca de uma hora. A noite já caía quando Agostinho despediu-se da iludida senhora com um abraço afetuoso, prometendo voltar em breve. Descia o elevador já antecipando o prazer do galope de volta em sua montaria branca, que o aguardava na porta.

Ao chegar na calçada, constatou surpreso que no lugar de seu carro havia um outro, mais velho, claro, pois o dele provavelmente era o mais novo da cidade. E, para sua surpresa, da cor azul!

Não acreditou. Olhou para a direita ao longo da calçada: não viu seu carro branco. Fez o mesmo para baixo. Também não. Abaixou os olhos incrédulo e coçou a testa, dizendo para si mesmo:

– Calma, Agostinho.

Uma sensação ruim foi crescendo dentro dele e em segundos estava cheio de um vazio que nunca havia sentido. Arrastou a palma da mão direita no rosto fazendo pressão da testa até os olhos e daí até o queixo, mas não encontrou alívio. Uma voz interior insistia em dizer o que não queria ouvir: “roubaram meu carro!”

Caminhou um pouco ladeira acima, depois ladeira abaixo, observando atentamente todos os carros estacionados. Sem nenhuma razão lógica, fez o mesmo do outro lado da rua. No fim, convencido da inutilidade de ficar vagueando nas calçadas, ligou para a mulher:

– Verinha, roubaram meu carro. – lamentou, numa voz baixa, quase sumindo.

– Ai meu Deus! Você está bem, Agostinho? Como foi o roubo? Eles estavam armados? – desesperou-se Verinha.

– Não. Foi furto. Eu estava na casa da tia e quando saí o carro não estava onde estacionei.

– Graças a Deus!

– O que?

– Graças a Deus que você está bem. Vai na delegacia fazer o registro e vem para casa, meu filho. O importante é que você não sofreu nada.

Agostinho concordou que estava bem, concordou em ir à delegacia, concordou em depois ir para casa, mas não concordou que não havia sofrido nada. Seu sonho tinha acabado. Porém, gostava quando Verinha o chamava de “meu filho”: era uma demonstração de carinho e expressava o desejo dela de consolar e proteger.

Na delegacia teve que suportar uma longa espera, pois havia quatro pessoas para registrar roubo de automóveis que chegaram antes dele. Enquanto aguardava, ficou pensando que obviamente não tinha diferença entre roubo de carro novo ou velho, nem na polícia, nem na justiça. Para os ladrões, se fossem presos, também não havia diferença na condenação. Então constatou o óbvio: a lógica dos bandidos era roubar carros novos, pois dando certo valiam mais e dando errado, a pena era a mesma. Uma questão de custo-benefício. Um absurdo! A sentença devia ser pelo ano do carro roubado, com punições progressivas quanto mais novo fosse o veículo. Os brancos deviam implicar ainda numa pena adicional. Estes delírios o ajudaram a passar o tempo…

Saiu da delegacia com a documentação necessária para dar entrada no seguro e foi para casa enfrentar uma noite mal dormida.

No dia seguinte compareceu à Seguradora para entregar os documentos e preencher formulários. O rapaz que o atendeu foi muito gentil:

– O senhor aceita um café, uma água?

– Não, obrigado. Só quero dar entrada logo nisso.

– Pois não. Vai ser rápido. Pode sentar.

E foi passando documentos, preenchimentos e assinaturas, formando um processo. Quase uma hora depois, estava tudo concluído:

– Pronto. Pode ficar tranquilo. Vai dar tudo certo.

– Quando vou receber a indenização?

– Demora cerca de um mês. Mas o senhor me dá o número do seu celular e qualquer problema lhe aviso. Rapidamente vai estar tudo resolvido.

– Ok. Obrigado. – respondeu Agostinho anotando seu número de celular num papel lembrete e devolvendo ao rapaz. Sequer lembrou de perguntar-lhe o nome e agradecer pelo bom atendimento.

Foi para o trabalho pensando como Napoleão se sentiria sem seu cavalo branco por um mês. E depois recebendo outro cavalo e não aquele ao qual se afeiçoara…

Chegando no escritório ligou para Verinha:

– Pronto. Tudo certo na Seguradora. Encontrei um camarada muito atencioso. Gente boa.

– Que bom, meu filho. Qual o nome dele?

– Não sei.

– O rapaz te atende bem e você nem pergunta o nome…

– Verdade. Estou ainda perturbado, Verinha. Mas ele vai me ligar para dar a posição do processo e aí vou saber.

No dia a dia Agostinho passou a usar carros de aplicativos para seus deslocamentos. Arrependia-se de não ter feito o seguro com direito a carro reserva, mas era mais caro e sua conta corrente, emagrecida na ocasião, exigia a opção mais econômica…

Passados uns 10 dias recebeu uma ligação de um número desconhecido:

– Sr. Agostinho?

– Sim. Quem fala?

– É sobre o seu processo na Seguradora. Estou ligando para avisar que está caminhando normalmente, sem exigências. Outra hora eu falo com o senhor com mais calma, mas pode ficar tranquilo. Estamos tentando antecipar a indenização. Eu voltarei a ligar para o senhor, ok? Boa tarde! – disse a voz.

– É o rapaz que me atendeu? Como é o seu nome? – tentou Agostinho, mas o telefone já havia sido desligado.

Ao chegar em casa, Agostinho contou o telefonema para Verinha. Estava contente: tudo corria bem e havia a perspectiva de anteciparem o pagamento. Explicou a ela que não teve tempo de perguntar o nome, pois o rapaz estava apressado, porém, mesmo muito ocupado, ligou para dar uma posição:

– Gente boa, Verinha! Esta cidade tem muito bandido, mas também tem muita gente boa. Ainda bem! Um pouco de sorte no azar.

Passados mais uns sete dias, seu telefone tocou, apresentando novamente um número que não conhecia. Achou que seria o rapaz da Seguradora:

– Alô.

– Sr. Agostinho. É para avisar que o seu processo na Seguradora está praticamente pronto.

– Ah, que bom. Foi com você que eu estive, não é? Como é o seu nome? Você é muito gente boa!

– Eu não trabalho lá, mas sei que está tudo pronto. Agora depende do senhor.

– De mim? Posso ir lá agora para receber?

– Pois é. Foi tudo resolvido para o senhor. Muitos ajudaram para o processo correr bem, sem complicações. O senhor sabe que a apólice tem muitas exclusões e qualquer detalhe pode complicar o recebimento. É preciso evitar que seja negado, pois aí a solução é só na justiça. E os advogados da Seguradora são muito bons. O senhor acha que o nosso serviço vale 10 por cento da indenização?

Agostinho teve raiva de si mesmo por ter sido tão ingênuo: essa era a gente boa…

Ficou mudo. O sujeito então arrematou:

– Amanhã eu ligo de novo para acertarmos os detalhes. Boa tarde!

Agostinho foi para casa abatido, pensativo e constrangido. Precisava de um colo de mãe. Ansiava por conversar com Verinha, sempre muito segura e lúcida.

Contou à mulher o ocorrido e concluiu:

– Pois é Verinha. Estou conseguindo o prodígio de ser roubado duas vezes numa única ocorrência…

– Isso não. No caso do furto do carro tudo correu independente da sua vontade. Agora é diferente.

– Como assim? Você acha que eu vou abrir mão da minha indenização?

– Meu filho, você tem que escolher um lado. Se fizer o jogo deles estará alimentando os golpistas. Acha que isso é coisa de gente boa?

– Pelo menos eu garanto 90 por cento do valor.

– O problema de participar de uma corrida de ratos é que, mesmo ganhando, você ainda será um rato. Conhece esta frase?

Agostinho ficou mudo.

Ela continuou:

– Você até pode ganhar os 90 por cento, mas junto ganha também uma mancha no seu caráter. Melhor correr o risco de não receber. Quem sabe estão blefando?

No dia seguinte o telefone tocou e Agostinho, por constatar que era um número desconhecido, não atendeu. Naquele dia e nos dias seguintes o telefone tocou mais algumas vezes e Agostinho recusou as chamadas.

Trinta dias depois do furto a Seguradora pagou a indenização.

Agostinho eufórico ligou para casa, deu a notícia e declarou:

– Verinha, eu te amo!

– Eu também te amo, meu filho!

 

Antonio Carlos Sarmento

20 comentários em “GENTE BOA”

  1. O problema é que tem “gente boa” demais tentando atrapalhar nossos caminhos. Resistir é sempre a melhor alternativa.
    Como sempre, você nos traz à realidade.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Boa Cau!!!!
    Verinha sabe “das coisas ” e de fato ser honesto é um valor inegociável!!!
    Bjo e ótima semana no seu “cavalo branco”….hahaha!!!

    Curtido por 1 pessoa

  3. A minha experiência com recebimento de sinistro até que não é tão ruim, assim.
    Em 2014, às 5:30hs da manhã, fui assaltado na Portaria do meu Condomínio e levaram minha caminhonete Chevrolet, S-10, cabine dupla, automática, com exatos 4.800 km rodados, e ainda, deram um tiro que, por sorte, não me atingiu.
    Como aconteceu com o Agostinho, nos primeiros momentos senti muita angustia, tristeza e forte abalo emocional, pois adorava o carro. Mas, no mesmo momento e recuperado do susto, fui direto para a Delegacia e, em lá chegando, para minha surpresa, fui muito bem e rapidamente atendido e às 8:00hs já estava com o boletim de ocorrências em minhas mãos.
    Voltei para casa, dei a péssima notícia à minha mulher e filha, que ficaram desoladas.
    Ato continuo, imediatamente, fiz contato com a Companhia de Seguros Tokio Marine (por sinal, excelente) para comunicar o sinistro, quando fui orientado a preencher um formulário e juntar cópia da ocorrência policial e documentos do carro. Fiquei pasmo, dei entrada no mesmo dia na Seguradora (via e-mail) e 12 (doze) dias depois, já estava com a minha indenização nas mãos e o recibo de compra e venda assinado em nome da referida Seguradora.
    Mas, não fiquei sujeito a qualquer ”cantada”, de algum “gente boa”, pedindo recompensa pelo inusitado feito, como o pobre do Agostinho.
    Sds. e parabéns pelo excelente artigo.
    Carlos Vieira Reis

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    1. Caro amigo Carlos,
      De fato você foi bem feliz na experiência com a Seguradora.
      E mais ainda por não ter sido atingido pelo tiro disparado.
      Obrigado por compartilhar a história.
      Grande abraço e um excelente domingo em família!

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  4. Ótima crônica! O desfecho só é conhecido no final. Tentei por várias vezes, adivinhar e não tive êxito.
    Isso prende a atenção e gera até uma certa ansiedade.
    Abraços

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  5. Quem não foi vitima de um “gente boa”? O problema é que nos desesperamos a toa, e abrimos espaços na nossa fragilidade pra esses pilantras. Boa crônica e bom alerta. Bom domingo, fiquem com Deus.

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  6. Querido Cau,
    Os “gente boa” abordam naquilo que mais nos interessa e nos deixam impactados, perplexos e sem reação.
    Que possamos sempre ter atitudes , embora morosas, mas firmes como Verinha.
    Beijo grande.

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      1. Oi amigo. Mais uma crônica deliciosa nos detalhes da história em si mas com aquela característica sua dos comentários paralelos e adicionais.
        Ligar ao cavalo branco de Napoleão e a corrida do rato que sempre será um rato mesmo após vencer a corrida é demais….
        E a Verinha chamando de meu filho ???
        Sensacional.
        Parabéns amigo pela história e pelos exemplos. Grande abraço.

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  7. Grande meu Amigo, Muito boa tarde, Puxa vida! Temi pelo desfecho, mas gargalhei ao final . . . É como se diz por aí: atrás de todo grande, ou pequeno, homem está sempre uma grande mulher . . . Parabéns!!! Recomendações à Sonia.

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  8. É impressionante como sempre tem alguém tentando se dar bem as custas dos outros. Que bom que a Verinha teve a lucidez de não compactuar com essa prática. No fim a justiça divina as vezes se faz aqui na terra aos homens de bom coração.

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