SALA DE ESPERA

Coisa irritante é aguardar consulta médica em sala de espera. Normalmente é um lugar apertado, com assentos pouco confortáveis, onde a distração oferecida é quase sempre uma pilha de revistas desinteressantes e antigas. Nelson Rodrigues dizia que não há nada mais velho que o jornal de ontem: acho que vale para as revistas também…

Em alguns consultórios, por puro sadismo, colocam uma televisão — ­­sem som! Conseguem assim aumentar a irritação dos que aguardam aquele tipo de médico, sempre atrasado e que já não sente desconforto em ter gente esperando, seja por uma hora ou mais. Às vezes, quando vem à porta ao final de uma consulta de um cliente mais amigo, serve a todos um jocoso sorriso de canto de boca, que só faz acentuar as moléstias e sintomas dos pobres infelizes. Estas longas esperas é que motivaram chamá-los de “pacientes”.

Houve uma época em que minha mulher fazia um tratamento, infelizmente longo, com um médico que utilizava um método sensacional: marcava todos os pacientes às 17 horas. A diligente secretária ia anotando a ordem de chegada, que afinal era a verdadeira agenda. A sala de espera, claro, não comportava tanta gente e as pessoas transbordavam para o corredor, sentando no chão e utilizando até a escada do prédio. Parecia acampamento de refugiados.

O aguardado doutor costumava chegar de uma a duas horas atrasado. Abria a porta do elevador sob os olhares suplicantes de todos e passava impávido entre a multidão, parecendo um general a cavalo num desfile militar. Vinha do distante laboratório da universidade, onde formulava as alquimias que curavam milagrosamente os males digestivos da multidão que o aguardava.

Decididos a levar o tratamento até o fim, passamos a levar lanches, almofadas, e livros de mais de mil páginas. Cheguei a pensar em levar um colchonete, pijama e travesseiro, mas minha mulher vetou. No final, ela alcançou a cura do mal do estômago, mas eu adquiri algumas sequelas ortopédicas de tanto ler sentado no chão…

Descobri há muitos anos um objeto mágico que torna estas esperas muito mais suaves e agradáveis: um bom livro! Assim, mergulhando no texto, é possível desconectar do ambiente. A sala de espera vira sala de estar! Salvo quando a secretária, por excesso de simpatia, resolve ser atenciosa e passa a desfiar comentários sobre o tempo ou a falar mal de políticos, assunto tão enfadonho quanto inesgotável.

E foi com um livro embaixo do braço que estive recentemente em um laboratório para fazer um exame de imagem, prescrito por meu médico, como parte da rotina anual. Desde já excluo este médico do time dos atrasados, para não correr o risco de ele ler esta crônica e me excluir da lista de seus pacientes.

A malfadada sala de espera do laboratório estava cheia, prenúncio de um longo tempo até ser atendido. Sentei próximo a um sujeito de uns 50 anos. Era um tipo de baixa estatura, calça jeans e uma camisa polo amarela que chamava muita atenção, não pela cor, mas pela barriga que emergia de seu interior, em formato de meia lua, começando na boca do estômago e traçando um perfeito semicírculo até a cintura. Coisa caprichada, traçada com a precisão de um compasso.

Devido àquela geometria, o corpo dele se projetava em uma posição que, ao invés de sentado, poderia ser chamada de semideitado, com as pernas esticadas para o corredor e o tronco inclinado para trás. Sua respiração era ofegante e rangia como uma porta de castelo, parecendo roncar acordado o tempo todo. Abri meu livro e me ausentei dali.

Passados uns 15 minutos, surgiu uma moça trajando o uniforme do laboratório, chamando o Sr. Getúlio Gomes. Era o próprio, da camisa amarela. Ela confirmou os 4 exames que ele faria e sentando-se ao lado dele, disse que precisaria de algumas informações. Com uma prancheta no colo iniciou um questionário em voz baixa, mas audível para mim. Lá se foi minha imersão no livro. Virei plateia daquele programa ao vivo. Para disfarçar, continuei com o olhar na página, vendo e não lendo. Como requinte, de vez em quando, mesmo sem ler, eu ainda virava a folha.

— O senhor faz uso de algum remédio de modo permanente? — começou ela.

— Ihhhhhh. Nem sei quantos. — respondeu Getúlio.

— Quais remédios o senhor toma?

— Não sei os nomes direito, mas vamos ver se me lembro de tudo. Tomo um remédio para pressão, um para baixar a glicose…

— Um por causa do sal e outro por causa do açúcar, não é? — brincou a entrevistadora.

Getúlio não gostou e não respondeu. Ela anotou e prosseguiu:

— O que mais, senhor?

— Ah, tomo também um para o coração, outro para o colesterol e tem um para circulação.

— Mais algum?

— Deixa-me pensar. Bom, eu tomo também um calmantezinho de dia e um remedinho para dormir à noite.

— Esses dois que o senhor falou no diminutivo, são fitoterápicos ou tarja preta?

— Tarja preta mesmo.

— Certo. Agora vou fazer umas perguntas sobre o seu estilo de vida, ok?

— Eu nem sabia que levava a vida com estilo… — ironizou Getúlio.

A moça não gostou e não respondeu.

— O senhor faz atividade física? — continuou a moça.

— Não tenho tempo para isso. Chego em casa muito cansado.

— Sei. O senhor bebe?

— Socialmente. Mas sou muito sociável. — gracejou.

— Certo. O senhor bebe todos os dias?

— Não. Domingo à noite não bebo nada. – afirmou, orgulhoso.

— Entendi. Como é a sua alimentação? O senhor come muitos alimentos industrializados?

— No jantar, com certeza. Eu moro sozinho e não gosto de cozinhar. Muito cansativo. Então, pego alguma coisa congelada e coloco no micro-ondas. No almoço em dias de semana, quando dá tempo vou num restaurante, mas quase sempre estou tão ocupado que peço um sanduiche e um refrigerante diet.

— Junk food…

— O que?

— Nada não. Era só isso. Pode aguardar mais um pouco que logo o senhor será chamado.

A moça foi embora e Getúlio olhou para mim. Percebi, mas mantive os olhos fixos no livro, enquanto algumas perplexidades percorriam minha mente. Claro que os remédios são essenciais e muito valiosos para curar várias doenças. Mas será que uma pessoa que come errado, dorme mal, bebe muito e é sedentária imagina que não vai ter problemas de saúde? Ou, o que é pior, acha que os problemas que surgirem poderão ser resolvidos sem nenhuma mudança de vida, só passando a engolir algumas pílulas? É crer que a saúde não precisa ser mantida à custa de esforço e disciplina, mas que pode ser comodamente comprada nas prateleiras das farmácias. Enfim, é querer resolver as consequências, sem mexer nas causas.

Getúlio interrompeu minhas conjecturas:

— Esta leitura deve estar muito boa, hein meu amigo?

Levantei os olhos do livro que não lia e respondi com um leve sorriso, para ser simpático, pois o questionário parecia ter deixado Getúlio um pouco transtornado:

— Sim. Muito bom. Erico Veríssimo.

— São quantas páginas?

Estranhei a pergunta. Esperava que sua curiosidade fosse sobre a história, o autor ou o nome do livro. Lembrei da famosa frase de que não se deve julgar um livro pela capa e pensei que, menos ainda pelo número de páginas. Mas dei uma olhada nas últimas folhas e informei a ele:

— São umas quinhentas páginas. Uma história muito interessante. O senhor gosta de ler?

— Mais ou menos. Um livro deste tamanho é muito sacrifício. Eu só leio coisas curtas, bem pequenas, em jornais e revistas. Prefiro outras formas de passatempo, coisas mais rápidas e atrativas. Acho que ler é cansativo.

Eu ia dizer que a literatura é arte e não passatempo, mas antes que pudesse responder, ele foi chamado para os exames. Levantou apressado e acenou para mim com a mão direita, se despedindo e parecendo aliviado por encerrar aquela conversa, para ele cansativa.

Permaneci aguardando a minha vez. E voltei a refletir sobre o Getúlio, suas respostas ao questionário e nossa breve conversa. Ele acha muita coisa cansativa. Talvez porque não reserve a energia necessária para manter um estilo de vida saudável, cuidar de sua alimentação, fazer uma atividade física e até mesmo apreciar uma arte, como a literatura.

Se houver muita gente como ele, posso ter encontrado uma pista para responder a uma questão que há muito me intriga: por que estamos vendo as ruas cada vez mais lotadas de reluzentes e prósperas farmácias, enquanto as livrarias estão fechando e são cada vez mais raras?

 

Antonio Carlos Sarmento

24 comentários em “SALA DE ESPERA”

  1. Bela reflexão sobre a vida moderna. Depois culpam o tal do stress por tudo. Estilo de vida (agitada ou calma, bem ou mal humorada, alegre ou sisudo) depende exclusivamente de nós, individuos. Tambem é arte a decisão de ler um bom livro, e sábia decisão faze-lo na ante-sala de um medico. Grande abraço, bom domingo e fique com Deus.

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  2. Antônio Carlos, perfeita sua observação do nosso cotidiano realmente cada dia mais farmácia e menos livrarias no que transformaram nossas vidas.? Porque permitimos? … muito boa sua crônica amei

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  3. Muito boa!

    Esse alerta é muito importante.
    Em estatística recente,
    97% dos brasileiros, não lê um livro por ano.

    Quando deveríamos ler pelo menos um livro por mês.

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  4. Também, pudera: agora, o “velho” Governo Bolsonaro quer taxar os livros e, assim dizimar todas as poucas livrarias ainda existentes. Para ele não vai fazer qualquer diferença, pois, ao que parece, tem ojeriza à leitura, prefere ler regulamentos militares, quer dizer milicianos !!!
    Espero que da próxima vez que tiver a infelicidade de frequentar um consultório médico, não se defronte com o um novo ou talvez o mesmo intolerável Getúlio.
    Sds. do amigo e parabéns pelo belo artigo.
    Carlos Vieira Reis

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  5. Belíssima análise do nosso cotidiano. E nessa pandemia confesso que troquei o sol por pílulas de vitamina D. Exercícios vc sabe que nunca foi meu forte. Preciso mudar isso! Grande abraço!

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  6. Grande Meu Amigo, Muito boa tarde, Excelente reflexão encerra essa crônica de hoje, sobretudo pela constatação de que se tenta corrigir as consequências ao invés de tentar corrigir as causas . . . Recomendações à Sônia e aos novos lusitanos quando falar com eles.

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    1. Amigo JH,
      Concordo que muitas vezes nos desgastamos atacando os efeitos e não as causas. E aí nada resolvemos.
      Obrigado pelo seu assíduo comentário.
      Quanto aos lusitanos, vou enviar o seu abraço: falamos diariamente.
      Felicidades para você e toda a família!

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  7. Irmão
    Sua crônica traduz com clareza a terceirização da saúde, o postergar da qualidade de vida e o escasso auto- cuidado, lamentável….
    Que a modernidade não nos prive de nós mesmos!!!!
    Bjo

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  8. Infelizmente é isso mesmo, uma farmácia em cada esquina e poucas livrarias ou quase nenhuma nas ruas de comércio.
    Sala de espera de consultório médico, dentista e laboratório para exames são ótimas para ler o seu livro ou revista e desconectar daquele ambiente.
    Valeu amigo! Ótima crônica!
    Abraços.

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