BANHO DE MAR

Às vezes as pessoas confundem ir à praia com tomar um banho de mar, coisas bem diferentes. Existem aqueles que ficam na areia pegando sol, conversando, lendo, talvez bebendo, talvez comendo e vez por outra vão até a beira d’água, molham os pés, enchem um baldinho para molhar o corpo ou no máximo dão uma entrada rápida para se molhar e saem da água correndo: esses são os que vão à praia. Outros, como é o meu caso, logo após chegarem e se instalarem na areia partem para a água, entram correndo, espalhando espuma e alegria e mergulham furando ondas até a linha da arrebentação. Ali permanecem muito tempo desfrutando do frescor e das delícias da água: esses tomam banho de mar. Ou seja, uns correm para entrar e outros para sair…

Para mim, o banho de mar é um dos momentos de maior contato com a natureza. Os pés descalços na areia do fundo, o corpo quase nu envolvido com magia pela água salgada, o céu ensolarado sobre a cabeça, o ar puro e cheiroso e uma maravilhosa sensação de movimento do planeta transmitida pelo balanço do mar. Isto tudo me fascina! Desde criança.

Tenho vivo na minha memória que todos os anos, nas férias de janeiro, fazíamos uma longa viagem do Rio de Janeiro ao Espírito Santo para visitar meus avós, que tinham uma casa à beira-mar. Saíamos para a viagem bem cedinho, umas 5 da manhã e depois de muito calor, longas filas para atravessar de barca a Baía de Guanabara e estradas muito ruins, chegávamos apenas no final da tarde ao nosso destino. Eu então com uns 10 anos de idade, acompanhava os passos de meu pai. A gente nem descarregava o carro direito: era só o tempo de cumprimentar rapidamente os nossos anfitriões, colocar o calção de banho, uma toalha ao pescoço e sair correndo em direção ao mergulho naquelas águas calmas e repousantes. Uma hora de imersão, intercalada com algumas nadadas já refaziam nosso ânimo.

Meu pai, no caminho de volta à casa, sempre afirmava:

— O mar me renovou. Estou me sentindo um garoto!

E foi lembrando destes banhos de mar que acordei no dia 26 de dezembro de 2015. Com o corpo ainda pesado dos excessos das comemorações, não saía da minha cabeça um pequeno folheto sobre um grupo na praia de Copacabana que promovia um banho de mar para pessoas em cadeira de rodas ou com a locomoção prejudicada. Desde que vi o folheto, havia já um ano, pensei em levar meu pai, então com 103 anos. Ele que a vida toda adorou o mar, agora, morando no Leme, não conseguia mais andar. Olhava a praia, mas não experimentava, via mas não vivia.

Num impulso pulei da cama antes das 8 da manhã e anunciei o empreendimento à família: vai ser hoje, vamos levar papai para um banho de mar!

Uma hora depois eu estava diante dele:

— Pai, vamos tomar um banho de mar?

Os olhos dele brilharam. Parecia incrédulo, mas no fundo sabia que eu nunca faria uma brincadeira de mau gosto com um assunto tão sério. Acho que desacreditou, mas teve esperança.

Com o consentimento dele manifestado pelo silêncio, seguimos no intento. Eu havia levado uma sunga de praia e assim vestimos (ou despimos) o homem e, superadas as questões logísticas, em mais uma hora chegamos ao local, nas areias do posto 6.

Para fins de um breve cadastro perguntaram o nome dele e a idade. Já ali registrou-se um recorde: a pessoa mais idosa a participar do projeto, que existia há uns 5 anos! Contei isso a ele na hora. Pareceu orgulhoso. Lembrei que antes dos noventa anos ele mentia a idade para menos, mas depois disso mentia para mais, exagerava, gabava-se…

Daí para frente instalaram meu pai numa espécie de cadeira anfíbia e dois salva-vidas entraram com ele no mar. Nós da família entramos também e acompanhamos todo aquele maravilhoso banho, que durou uns 30 minutos. As pequenas ondas do mar calmo daquele dia contribuíram para a dinâmica da flutuação. Ele, acomodado na cadeira, era guiado pelos dois homens cuidadosos e hábeis.

Ao sair meu pai ainda quis ficar um pouco ao sol, aquecendo o corpo e respirando a deliciosa maresia. Voltamos para casa felizes por ter realizado a façanha e proporcionado uma inesperada e prazerosa experiência a quem estava vivendo uma rotina monótona e repetitiva. Foi o nosso presente de Natal!

Menos de um mês depois, há exatos 5 anos da publicação desta crônica, precisamente no dia 24 de janeiro, ele almoçou, comeu muito bem como sempre, pegou na mão de minha mãe, olhou para sua companheira dos últimos 60 anos sem dizer uma palavra e deu seu último suspiro. Não precisou de médico, nem de hospital. Partiu corajoso e bem alimentado para a travessia em direção à vida eterna. Era um domingo ensolarado, bom para um banho de mar.

Desde então, todo dia 24 de janeiro, sinto uma tremenda saudade dele. Fico imaginando como seria bom se, naquele último banho de mar, no caminho para casa, ele voltasse a repetir, como outrora:

— O mar me renovou. Estou me sentindo um garoto!

 

Antonio Carlos Sarmento

44 comentários em “BANHO DE MAR”

  1. Querido Cacau, me lembro bem de quando você me contou o episódio do banho de mar com seu pai, então com 103 anos.
    Emocionante demais! Inimaginável o prazer dele e alegria de vocês por terem proporcionado esse prazer para seu pai.
    Sua crônica de hoje é gigante, mediante o ” mergulho de amor” nesse imenso mar da vida.
    Parabéns!

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  2. Prezado Antonio Carlos:

    Parabéns pela sua brilhante iniciativa de fazer aquilo, que também gosto, com seu pai. Que Deus o tenha em um bom lugar, dê-lhe o descanso eterno.

    Também, quando me sobra tempo e sem as restrições da pandemia, gosto de chegar na praia, por volta das 6:00hs para desfrutar as belezas e os benefícios do mar, que, aliás, está bem próximo da minha casa.

    Mais, uma vez, parabéns pela beleza e inspiração do seu artigo,

    Sds.

    Carlos Vieira Reis

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    1. Muito obrigado meu grande incentivador e amigo Carlos!
      Espero que em breve você possa voltar a desfrutar de seus mergulhos matinais, uma forma maravilhosa de começar o dia.
      Um afetuoso abraço, meu caro!
      Abraços e saúde!

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  3. Cau essa foi uma atitude maravilhosa como tantas outras iniciativas suas ,que revela seu lado sensível e carinhoso. Com certeza foi o último Grande prazer que papai teve e pôde se despedir fazendo o que ele tanto gostava!!!Muito obrigada por esse exemplo de AMOR!!!

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  4. Meu único ressentimento com meu antigo emprego foi não poder participar desse dia. Mas isso tb não é nada diante de tantas boas lembranças que tenho de vovô e sua paixão pela natureza. Grande Garboso! Pra sempre nos nossos corações

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  5. Muito boa essa recordação. Lembro dele nos seus aniversários e a façanha do banho de mar. Parabéns pela crônica e deixe as saudades boas penetrarem em seu coração.

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  6. Ótima crônica/depoimento. Deu vontade de ir a praia! Adoro o mar e também o calçadão. Praia/areia detesto! Se pudesse obedeceria a determinação do repugnante Crivella: voar do calçadão para o mar.

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  7. Linda, linda crônica AC!!!!
    Recordo tbm desta aventura contada por vc!!! Que recordação maravilhosa!!!
    Não consegui segurar as lágrimas….
    Bj

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    1. Marilete,
      Suas lágrimas me comovem.
      De fato somos como uma só família e temos muitas passagens para partilhar. Me lembro do nosso cruzeiro à Argentina com ele, minha mãe e todos nós.
      Obrigado por seu comentário e até domingo que vem!
      Abraços

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  8. Emocionante meu amigo. Não conheci seu pai pessoalmente só das histórias que você contava sempre que nos encontrávamos. Devo confessar que no Rio tomava banho de baldinho ( depois que a água esquentava sob o sol) pois detesto água fria mas, quando ia ao nordeste aí sim , me esbaldava!!!

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    1. Amiga Lucia,
      Passar emoção no texto é uma realização para quem escreve. Portanto seu comentário é para mim muito gratificante.
      “Sempre que nos encontrávamos”… Nossa, há quanto tempo não temos este prazer.
      Tomara passar logo esta pandemia e podermos reencontrar pessoas queridas, como você.
      Beijos

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  9. Meu querido irmão,
    Estávamos na nossa pequena praia(piscina) onde Garboso nos deu o prazer de compartilhar momentos alegres, sempre se deliciando com o contato com a água embaixo da cascata e repetindo QUE BELEZA. Era difícil tirá-lo de lá.
    A Anna iniciou a leitura da crônica em voz alta mas a emoção foi tamanha que não conseguiu prosseguir. Peguei o celular dela e continuei a maravilhosa narrativa. Também tive dificuldades para completar a leitura pelo mesmo motivo da Anna. Variando a intensidade da voz, com algumas pausas inevitáveis, consegui chegar ao final. Como conversamos ontem, que MARAVILHA termos o privilégio de tão ricas recordações. Temos muito que agradecer à Deus por estas bênçãos especiais. Parabéns e obrigado por nos proporcionar mais alguns dos belos momentos com nosso querido pai nesta data. Proponho que mais tarde 19h no Brasil 22h em Portugal, nos reunamos para cantar um PARABÉNS para Garboso. Se estiverem de acordo peça a Tati para mandar o link com o convite. Ele merece e tb podemos, retomar o que fazíamos família algum tempo atrás, uma reunião mensal adaptada as condições de hoje. Que tal? Forte e carinhoso abraço.

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    1. Meu querido irmão,
      É realmente um grande privilégio podemos compartilhar tantas recordações maravilhosas, histórias que vivemos juntos, em família.
      Como você bem disse, devemos o nosso agradecimento a Deus pela graça de uma vida inteira no amor e na harmonia da nossa família.
      Muito bonito saber da emoção de vocês!
      Em breve faremos sim, a reunião que você tão bem sugere.
      Beijos afetuosos a todos!

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  10. Meu amigo Sarmento, que emoção sua cronica me trouxe hoje. Seu pai, onde esteja, está com certeza, muito orgulhoso pelo filho maravilhoso que ele forjou. Sorte de sua familia em te-lo no seio deles. Bom domingo, boa semana, obrigado pela emoção de hoje e que Deus te abençoe e proteja, e à sua familia.

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    1. Caro amigo Luigi,
      Saber da sua emoção é uma realização para mim. Quando o texto mexe com nossos sentimentos, a leitura assume uma outra característica, mais rara e valiosa.
      Muito obrigado por compartilhar.
      Me sinto sortudo de ter um amigo e leitor como você, tão sensível e generoso.
      Grande abraço, saúde para você e toda a sua família.

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  11. Querido amigo.
    Mais uma vez somos brindados com história de amor entre você e seu pai. Impossível não chegarmos a emoção. Lembro desse momento pois você comentou comigo que iria fazer.
    Quanto amor, quanta ternura e dedicação de um filho para seu pai. Esse é o meu amigo Cacau que Deus me concede a Graça de conviver e chamar de irmão.
    Grande abraço saudoso para você, Sônia, Tati, Jean e o grande Gui.

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    1. Meu querido amigo e irmão Nei,
      Eu aguardava ansioso o seu comentário, pois pensei em você várias vezes ao escrever esta crônica.
      Talvez por seus filhos serem tão amorosos e dedicados à você e Jaciara.
      Obrigado pelas generosas palavras! Também agradeço a Deus ter você como amigo, numa convivência verdadeiramente fraterna.
      Deus abençoe vocês e toda a família que tanto amam!
      Beijos saudosos!

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  12. Que crônica e lembranças lindas, Antonio! Fiquei emocionada. Maravilhoso seu pai ter tido um bom banho de mar e apreciado a experiência. Já deu para ver que era um homem que amava a vida. Obrigada por compartilhar!

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    1. Nicole,
      Saber da sua emoção é muito gratificante para mim.
      Agradeço seu comentário tão amável e fico feliz de notar que tem acompanhado as crônicas.
      Saiba que também acompanho com atenção e prazer todos os seus textos.
      Uma ótima semana e um grande abraço!

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  13. Querido Irmão,
    Parabéns pela linda homenagem ao nosso Pai nesse dia. A narrativa da sua atitude naquele 26 de dezembro emociona pela oferta do mais belo , sensível e exclusivo presente .
    Que sua inspiração vá buscando nas suas memórias as maravilhosas e especiais atitudes que você sempre tem, presentes para todos nós!
    Beijos, até breve.

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    1. Obrigado minha irmã,
      Meu desejo foi trazer nosso pai à lembrança de todos nós, além de procurar contar uma boa história.
      Em matéria de presentes belos, sensíveis e exclusivos não chego nem perto de você, minha irmã! Como já lembrava o saudoso Afonso, com toda a razão, “não dá para competir com a Beth!!”
      Beijos e que sempre tenhamos oportunidades de lembrar nossos pais, princípio e fonte da nossa amorosa família!

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  14. Excelente texto e que me emocionou. Serão muito poucos os filhos que teriam a coragem de propor um banho de mar a um pai de 103 anos!
    Lá… no “mar” que deve existir entre as nuvens, algures no céu…ele certamente continuará a nadar com o António sempre que está em causa um banho de mar!

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  15. Querido amigo,

    Que depoimento emocionante! Que lembranças maravilhosas do seu pai, que momentos em família!
    Obrigado por dividir conosco essas lembranças.
    Abração.

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    1. Querido amigo Newton,
      Espero que você e Nuri estejam bem.
      Agradeço suas palavras e seu constante estímulo às minhas publicações. O incentivo dos amigos é uma mola a nos impulsionar e animar.
      Muito obrigado!
      Fiquem com Deus e recebam o nosso afetuoso abraço!

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  16. Querido Amigo, Muito boa tarde, Parabéns pela riqueza das suas recordações, eu só o vi uma vez, em dezembro de 1998 mas guardo dele uma terna recordação, ao vê-lo dançar, lépido e faceiro, com a minha mulher nos salões do Itamaraty . . . Recordar é viver novamente, muito agradecido pela oportunidade de reverenciar, ao meu modo, a figura do seu pai . . . Recomendações à Sônia e ao pessoal de além-mar . . .

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    1. JH,
      Só você para lembrar desta passagem na nossa formatura ESG – memorável!
      Naquela época meu pai já tinha uns 85 anos e de fato estava “lépido e faceiro” como você disse.
      Grandes recordações!
      Obrigado pelas palavras, meu amigo querido!
      Abraços a você, Sueli e os “meninos”.

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  17. Querido Cacau
    Suas crônicas falando de tio Alfredo estão sempre entre as minhas preferidas. Foi um tio muito amado.
    Mas hoje, especialmente, foi a sua atitude que me encantou: empatia, um dom raro, sempre acompanhado de amor .
    Ler foi emocionante – por imaginar o prazer que proporcionou e por admirar tanto carinho e doação em sua atitude.
    E me proporcionou uma emoção a mais: me fez lembrar de bons momentos com meu pai.
    Palmas para você!!

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    1. Minha querida prima,
      Sei do seu afeto por ele e daí vem sua preferência pelas crônicas que protagoniza.
      E sei também do seu enorme carinho e dedicação ao Tio Betinho, de saudosa memória.
      Que maravilha relembrarmos bons momentos da nossa vida!
      Obrigado por seu gentil comentário.
      Fique com Deus!
      Beijos

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  18. Cacau, muito emoção ao ler o texto. Vc foi um filho exemplar e lembrei das fotos que vc nos enviou do momento de luz para titio. Bjs

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