HOSPITALIDADE

Uma noite de inverno em Portugal acordei de madrugada para beber água. A sede provavelmente teve origem nas duas taças de vinho degustadas prazerosamente ao jantar.

Aqui, em sua própria terra, é imprescindível lembrar Fernando Pessoa, que dizia o seguinte sobre esta bebida tão apreciada pelos portugueses:

Um bom vinho é poesia engarrafada!

Se ele tem razão fica claro que o português adora poesia, já que é o povo com maior consumo per capita de vinho no mundo. E eu sigo o famoso provérbio: quando em Roma faça como os romanos!

Mas não vamos mudar da água para o vinho.

Enquanto bebia lentamente o copo d’água, eu observava o grande prédio de um hospital, bem em frente ao nosso apartamento. A cidade dormia, mas ali havia muitas luzes acesas quando a noite já ia alta. Pessoas passando nos corredores, provavelmente funcionários, médicos e enfermeiros realizando seu trabalho. Uma atividade incessante. Eu apenas acordei com sede, mas naquele prédio muitos dormem mal nesta noite. Aliás, em todas as noites, seja pelo trabalho, seja por consequência de doenças e medicamentos. Ali a cidade não dorme.

Parado diante da janela, enquanto a água lentamente lavava minha sede, ocorreu-me uma associação de palavras de nossa rica e maravilhosa língua: hospital e hospitalidade. Claro, são de mesma raiz, mas embora pareçam derivadas uma da outra, têm sentidos tão diferentes.  Hospitalidade todo mundo deseja, hospital é lugar que ninguém quer ir. Melhor dizendo, a única hospitalidade que não desejamos é a do hospital…

Logo desviei meu pensamento do hospital. Ainda na janela, agora com a sede já saciada, mas com o sono ainda a exigir um tempo para seu retorno, acabei optando por refletir sobre a hospitalidade. Principalmente nestes graves tempos de pandemia, melhor focar em temas mais leves. Ainda mais no meio da madrugada…

Fiquei pensando que a verdadeira hospitalidade talvez ocorra de fato quando recebemos os hóspedes em nossa casa. Sim, porque em hotéis trata-se de um serviço profissional e aí o modo afável e generoso de tratar o hóspede é remunerado, uma contrapartida do valor pago. Hospitalidade comprada. Ilegítima, portanto.

Porém, receber hóspedes em casa é coisa que me parece estar caindo em desuso em nossos dias, talvez pelo tamanho dos imóveis cada vez mais reduzido, talvez pelo ritmo e características da vida atual, ou ainda, pelas próprias complicações da convivência sob o mesmo teto.

Outro dia li uma frase que definia a hospitalidade como a capacidade de fazer com que as visitas se sintam em sua própria casa, mesmo quando desejamos que estivessem lá…

Um amigo certa vez me deu o seguinte conselho: a hospedagem que traz alegria é de 3 dias; um para chegar, um para ficar e outro para despedir.

Enfim, é possível que estejamos vivendo a decadência da hospitalidade.

Me vem ainda a ideia de que com os meios eletrônicos, os localizadores via satélite, as câmeras por toda a parte, os cadastros em todo lugar, os drones e os inúmeros meios modernos de identificação dos indivíduos, nossa privacidade esteja ficando cada vez mais restrita à nossa própria casa. No meu prédio, abriu a porta de entrada do apartamento já está sendo observado. A casa, ainda que parcialmente e pelo menos por enquanto, acaba sendo a nossa única ilha de privacidade. E então, cada vez menos cabe a presença de pessoas que não sejam os próprios moradores ou familiares muito próximos. É apenas uma conjectura, não uma certeza…

Com os olhos já quase fechando voltei a pensar nas palavras: hospitalidade e hospital. Palavras semelhantes, significados distintos.

Se assim for a hospitalidade, o dia da partida deixa alegre aos que ficam em casa, enquanto que no hospital, o dia da partida deixa alegre aos que vão embora para casa. Por isso se chama “dia da alta”: alta alegria!

Já quase adormecendo me recordei de uma pessoa que mantinha em casa, na sala de refeições, à vista de toda a família e também de eventuais hóspedes, um pequeno quadro de madeira, adornado com desenhos e arabescos de mau gosto, com a seguinte frase:

Benditos sejam os hóspedes,

Pela alegria que nos dão,

No dia em que se vão!

Esbocei um sorriso e dormi.

Antonio Carlos Sarmento

23 comentários em “HOSPITALIDADE”

  1. A crônica de hoje é muitíssimo interessante, pois a hospitalidade, principalmente a de receber pessoas em seu lar por alguns dias, nos obriga a uma doação do quê temos de melhor e conseqüentemente, abrirmos mão de nossa intimidade e rotina.
    O tema pode ser aprofundado e cabe até um livro um dia, quem sabe.
    Obrigado por mais este presente dominical que, coincidentemente é meu aniversário.
    Abraços primo e aproveite bem esse confinamento e saudades da terra do sabiá para aflorar inspirações .

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  2. Parabéns pelo artigo. Realmente ficar num hospital não é nada hospitaleiro. É suplício, por vezes tortura !!!
    Eu que o diga . . .
    Sds.
    Caros Vieira Reis

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  3. Prezado Sarmento, sou admirador incondicional das cronicas escritas no silencio da madrugada. Reflexão obrigatoria nesta manhã, de hospitalidade e hospital. Particularmente fujo de hospitais, sempre que possivel. Quanto à hospitalidade, vinho e Fernando Pessoa para mim representam alegria intensa na chegada e tristeza absoluta na partida. Obrigado pela cronica e um domingo de muita paz para vocês. Abs

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    1. Querido amigo Alberto,
      Compartilho com você a aversão aos hospitais e o apreço pelo vinho e pela literatura.
      Muito obrigado por seu gentil comentário. Desejo ao amigo e família uma ótima semana e muita saúde!
      Abraços

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  4. Estávamos conversando isso esses dias com meus pais e irmão, e observamos tb uma outra característica da hospitalidade: quanto maior o poder aquisitivo, as pessoas tendem a se sentirem mais incômodas e incomodadas com esse costume tão gostoso que é ter hóspedes em casa. Esperamos que continuemos curtindo a hospitalidade. 🙂

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  5. Querido Cacau
    Como sempre faço após o café de domingo, acabei de degustar mais uma das suas saborosas crônicas.
    Com essa situação tão dolorida pela qual estamos vivendo, não vou falar de hospital. Vou apenas relembrar a hospitalidade que há alguns anos praticamos aqui em casa, geralmente nas férias de Julho quando recebemos os nossos cinco netos. Ressalto que a presença dos pais é considerada totalmente inoportuna…
    Aí não posso deixar de exaltar a frase escrita no pequeno quadro da parede….
    São duas alegrias bem marcadas…
    A chegada do amado grupo e a ida do mesmo grupo….
    Só que o que aconteceu no meio entra a chegada e a ida foi tão intenso que sempre fica a suplica de que o ano passe logo e que eu e minha Jaciara possamos exercer novamente essa amada Hospitalidade.
    Obrigado querido irmão.

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    1. Querido Nei,
      Sei bem de sua alegria ao receber e hospedar seus amados netos. Aí é só farra!
      Espero que em breve possam passar novamente por esta experiência de amor tão gostosa.
      Uma ótima semana para vocês e um beijo especial nos dois que aniversariaram nestes dias!

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  6. Me lembro da casa da minha avó materna onde morava com meus pais. A casa era grande e para lá iam os velhos da família para algum tratamento de saúde, os jovens primos do interior em busca de trabalho, que ficavam até se aprumarem na vida, sem contar as crianças da família cujos pais deixavam lá em casa durante o horário de trabalho. A casa estava sempre cheia e parecia uma festa sem fim. Beijo grande!

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  7. Prezado Amigo, Muito boa tarde,

    *Benditos sejam os hóspedes,*

    *Pela alegria que nos dão,*

    *…*

    *No dia em que se vão!* Isso é poesia pura . . . rsrsrsrs Recomendações à Sonia, à Tatiana, ao Gui, ao Jean e demais familiares . . .

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  8. Caro irmão,
    Com muita propriedade sua descrição de hospitalidade, pois você e Sonia são pós graduados na habilidade de receber!!!
    Mas quero ficar um pouquinho mais de 3 dias, tá?🤭
    Beijos hospitaleiros!!!!

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    1. Oi minha irmã,
      Só agora vi seu comentário. Não sei porque mas não veio o aviso e novo comentário…
      Claro que você pode ficar muito mais que 3 dias!!!! Você e meu companheiro de viagem!
      Beijos e desculpe a demora da resposta.

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  9. Querido cronista,
    Um texto com uma pitada de bom humor.
    Confesso que tenho muita satisfação em receber as pessoas – o prazer é maior que o cansaço. Aliás, a própria fadiga advém dessa vontade grande de acolher, de agradar, de valorizar, de demonstrar toda a nossa afeição.
    E preferível estar cansada a estar só; e estar junto é melhor que a saudade.
    Penso que a pandemia trouxe uma reflexão a todos aqueles que preferem a acomodação.
    Estou de portas e coração abertos para receber meus queridos, inclusive você e sua linda família. Só precisam tomar cuidado para não tropeçarem nos carrinhos, nas bolas, robôs e dinossauros que preenchem a casa da vovó.
    Beijo

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    1. Querida prima Gena,
      Estar junto é melhor que saudades. Perfeito!
      Agradeço suas portas e coração abertos e saiba que aqui ou no Rio também teríamos uma imensa alegria em recebê-la.
      E não precisa de cuidados adicionais pois aqui também vai encontrar ursinhos, casinhas, bolas e quebra-cabeças espalhados pela casa…
      Obrigado por comentar!
      Beijos

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