SILÊNCIO

Às vezes tenho a impressão que faço parte de uma minoria diminuta. Sou daqueles que precisam em alguns momentos do dia e durante toda a noite, de algo cada vez mais raro em nossos dias: o silêncio.

É possível que não seja uma minoria diminuta, mas apenas uma minoria silenciosa…

Vivemos hoje em meio à um constante burburinho, aliás constante não, crescente. São vozes, aparelhos sonoros, sirenes, campainhas, veículos, máquinas e toda a espécie de fontes de som, agradáveis ou não, mas certamente excessivos. O mundo do silêncio, se não acabou, está prestes a deixar de existir.

Certa vez estava com minha mulher num hotel em Ilhéus, na Bahia, em período fora de temporada para garantir melhores preços, é verdade, mas também um ambiente mais tranquilo e repousante. Enquanto tomava sol na beira da magnífica piscina, fiquei ouvindo o farfalhar dos coqueiros, o cantar dos pássaros e o assobio da brisa suave vindo do mar. Eu fazia um revezamento entre um mergulho e a leitura de um livro. Um dia perfeito.

Estávamos praticamente sozinhos, havendo apenas um outro casal na borda oposta. De repente, um espírito do mal baixou sobre um funcionário do hotel e este ligou uma música ambiente em alto volume, dando início a uma discografia carnavalesca. Como uma mágica, apenas aquele som, transformou o pequeno paraíso num inferninho!

Quando pensei em tomar uma providência, o casal levantou e veio em nossa direção:

— Vocês estão gostando de terem ligado a música? — perguntou a mulher, num português carregado de sotaque estrangeiro.

— De jeito nenhum — respondi.

Dirigiram-se então à recepção e em poucos minutos a música cessou, permitindo que a orquestra da natureza voltasse a fazer seu encantador concerto, que muitos ouvidos não ouvem.

A mulher então explicou que o marido era holandês e acabara de se aposentar, sendo seu último trabalho na embaixada no Brasil. Disse que em suas viagens buscavam redes de hotéis de silêncio, que existem na Europa, mas que no Brasil não havia este tipo de classificação. Não havia e, que eu saiba, não há.

Talvez seja apenas coisa de um sujeito meio chato, mas acho que eu preciso tanto do silêncio quanto de alimento. O alimento sustenta o meu corpo e o silêncio sustenta a minha paz.

Adoro música, assino um aplicativo famoso com milhares delas e tenho um sem número de playlists que desfruto com grande prazer. Porém, acho que tem o momento certo de ouvir e, claro, o gosto musical de cada um. Por exemplo, jamais coloco algo para tocar enquanto escrevo ou leio. Parece que a minha atenção se divide entre as duas artes e desconcentro. Aprecio muito melhor uma arte de cada vez.

Quando alguém alimenta uma caixa de som com seu gosto musical e utiliza um volume alto, para mim é como se estivesse impondo aos outros que ouçam uma música que não escolheram, num momento que não desejaram e num volume que não optaram. Tenho o ímpeto de encher uma bolsa com fones de ouvido e fazer uma farta distribuição, mas desconfio que não seria bem recebido…

E o que dizer das modernas caixas acústicas bluetooth? Meu Deus! Produzem um som inacreditável, em qualidade e volume. Como o custo é acessível, proliferam como coelhos. Basta conectar com o celular e as playlists particulares tornam-se públicas, queira o público ou não.

Claro que é um exagero, pois não são armas, mas talvez devessem ser vendidas exclusivamente à quem tivesse “porte de caixa”. Em primeiro lugar, o pretendente precisaria fazer uma audiometria, pois um equipamento destes nas mãos de alguém meio surdo é um desastre. Depois a pessoa precisaria apresentar um atestado de bons antecedentes, provar a perfeita sanidade mental e aí bastaria fazer um curso, até mesmo online, aprendendo as regras de respeito ao sossego e integridade auditiva de terceiros.

Ainda outro dia estava na praia, numas cadeiras dessas que os bares colocam e ali servem bebidas geladas e beliscos, uma invenção dos deuses. Fui dos primeiros a chegar e tudo corria muito bem, até que um casal se instalou bem ao lado de onde eu estava. Logo me preocupei, pois notei o indivíduo sacando da bolsa uma caixa de som, dessas à prova d’água. Fez pontaria, posicionou a dita cuja e sentou para sincronizar com o celular.

Pelo perfil dele, mesmo antes de iniciar o recital, imaginei que seria um gosto musical bem diferente do meu. De repente puxou o gatilho e explodiu a música. Quase não acreditei que provinha daquela pequena caixa. Parecia um show ao vivo!

Passado um primeiro momento de perplexidade, prestei atenção à letra da, digamos assim, música:

Te achei mó gata, não consigo disfarçar, quando você passa
Meu coração balança quando você dança
Nós louco de MD, só eu e você praia e Jurerê
Tem ice na bag, pra nós se esquecer do que temos que fazer
Só vamos tirar lazer

Percebi na hora que aquela música para mim deveria se chamar “Fim de Praia”. Peguei minhas coisas e voltei para casa.

Haveria mais uma infinidade de exemplos para citar, mas já sou suficientemente chato com barulho e não vou agravar ainda mais, sendo também prolixo ou repetitivo.

Conto apenas que, recentemente fui fazer um passeio pela Serra da Bocaina e parei na pacata cidade de São José do Barreiro, ponto base para as visitas àquela área maravilhosamente preservada e de belíssimas paisagens.

A pequena cidade de cerca de quatro mil habitantes, como já era de se esperar, tem a praça principal onde fica a igreja do santo que deu nome à cidade e, em torno dela, o comércio local. Parei para um café e, ao saltar, percebi várias faixas estendidas na praça com mensagens da Prefeitura. Achei que seriam alertas sobre a covid, recomendando distanciamento físico, uso de máscaras e álcool gel.

Nada disso! Eram referências à proibição de som na praça, citando a lei e alertando quanto às sanções previstas. Ou seja, ali a pandemia era outra!

Fiquei imaginando que Charles Chaplin, em algum momento de sua vida, visitou a cidade e ali, sentado num banco da praça, proclamou: “O som aniquila a grande beleza do silêncio”.

Nem sempre encontramos beleza no silêncio. Às vezes, ele até diz coisas que não queremos ouvir. Sim, é sincero demais…

Mas, seja como for, apenas no silêncio Deus fala!

Antonio Carlos Sarmento

30 comentários em “SILÊNCIO”

  1. Prezado Antonio Carlos:
    Estou solidário com você. Realmente, o barulho me enlouquece, me tira a tranquilidade de viver. Quer me afastar de qualquer ambiente, ponha a tocar uma música em alto som. Me tira o bom humor.
    Por exemplo, detesto carros e motocicletas barulhentas, ruidosas. O silêncio, para mim, significa paz e tranquilidade.
    Sds. do seu assíduo e incentivador leitor.
    Carlos Vieira Reis

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    1. Meu grande incentivador Carlos,
      Concordamos totalmente em relação à música dos “outros” em alto som.
      Apenas devo confessar que o barulho das Harley Davidson ou de uma Ferrari eu até aprecio…
      Porém, sempre prefiro o silêncio, como o que ouço neste momento.
      Muito obrigado por comentar, meu caro amigo!

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  2. Assino embaixo deste texto. É uma experiência de quase morte tentar permanecer na praia em um dia de sol e calor. São tantas caixinhas de som com músicas de gostos variados e duvidosos que fica impossível ouvir o que seria mais natural e óbvio: o mar.
    Outra coisa que me irrita muito é estar assistindo à TV e ter alguém rolando o feed de uma rede social qualquer reproduzindo fragmentos de vídeos com sons aleatórios.
    Saudades de quando a vida era menos barulhenta.

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    1. Pedro,
      O barulho do celular dos outros também considero insuportável.
      Vejo gente assistindo vídeo em público sem usar headphone, ou seja, compartilhando o som sem a imagem…
      Eu também desejo tempos menos barulhentos, embora não veja a menor chance disto acontecer.
      Abraços e grato por comentar!

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  3. Acredito, que tenha hora para tudo.
    Particularmente, em muitos momentos adoro e necessito do silêncio.
    Exemplo:
    Eu não gosto de Shopping, na verdade me irrita, e descobri o por que. Fui fazer um exame no Centro médico do BarraShopping e acabou exatamente na hora de abertura do shopping, uma segunda feira, resolvi tomar um café… resumindo, shopping em silêncio, sem aquele passa passa , e acabei dando uma volta no Shopping e gostei.
    O problema está no comportamento.
    Sendo que, atualmente, o desrespeito com o outro em relação a escutar música é absurdo!

    Muito bom Cacau!
    Me fez lembrar muitos e lindos momentos do silêncio tanto no mar, quanto na Serra.
    Beijos

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    1. Isso aí Chico,
      Viva o silêncio, até no Shopping. Embora este, mesmo com pouca gente e menos barulho, continua não me atraindo.
      Fica a questão que você propôs: como mudar os comportamentos? As caixas são maravilhosas, mas o uso…
      Obrigado por comentar, meu irmão!
      Beijos

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  4. Sarmento, sem querer ser chato, creio que ambos temos a mesma doença: Civilidade! Sou apaixonado por musica, mas das musicas que me agradam. Fico transtornado quando acontece comigo o que voce narra. Gente que quer sim, impor sua musica, e seu mal gosto, aos outros. Imagine se eu fosse apaixonado por opera e fizesse isso numa praia! Seria linchado ou expulso. Um dia vou tentar. Levo um som de opera, coloco a 160 decibéis e qdo reclamarem, proponho que NINGUEM ouça outra coisa que não seja a natureza… Acho que slem de chato estou me tornando intolerante. Bom domingo e que Deus os abençoe.

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    1. Amigo Luigi,
      Me coloco em primeiro lugar na sua lista de chatos.
      Mas de fato não consigo tolerar músicas ou outros sons indesejados em alto volume.
      Afinal, é aquele conceito de que o direito de um vai até onde começa o direito do outro. Conceito antigo, mas tão ignorado.
      Muito obrigado por comentar, meu amigo!
      Desejo a você e sua família uma ótima semana!

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  5. Precisa crônica! E quando a música é de sofrência! Um horror! Já propus a minha mulher andar armado com um potente aparelho de som para guerrear atirando com a obra completa de Vila Lôbos!!! kkkkkkk ABS . Bom domingo

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    1. Amigo Mario,
      Hahahaha. Essa guerra não vai ter vencedor…
      Eu já estou meio conformado: quando não tem solução, apenas me retiro, embora indignado.
      Muito grato por seu comentário!
      Grande abraço e uma ótima semana.

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    1. Amiga Lucia,
      Se você fosse hoje em dia à praia no Leme, onde provavelmente frequentava, não teria sequer um minuto de silêncio. As caixinhas estão à toda! Infelizmente.
      Obrigado por comentar, minha amiga.
      Beijos

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  6. Pois é Cacau , o silêncio hoje é coisa rara . Praia no fim de semana nem pensar . Depois que vim morar na Barra fiquei mais chata , não consigo ir para a zona sul e ficar andando pelas ruas, o barulho de ônibus e buzina me incomodam tremendamente,. Não conseguiria morar em Cidades com barulho constante de sirene.. Torço para que na velhice a surdez não me faça atrapalhar a vida do outro. Bjks

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  7. A diversidade que somos leva a um leque de atitudes por vezes extremadas e incompreensíveis. Este é mais um daqueles assuntos em que as clivagens são evidentes, na medida em que há muitos que não conseguem ouvir a melodia do silêncio. E muito menos viver com ela!
    Assunto sempre pertinente e cada vez mais actual!

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    1. Dulce,
      De fato, certas atitudes extremadas precisam ser contidas na vida em sociedade. Claro que a educação e a cultura podem ajudar, mas em casos como aqui no Brasil, precisamos também contar com as disposições da lei e de uma efetiva fiscalização, muitas vezes ainda precária.
      Agora mesmo, no momento em que respondo a seu comentário, ouço resíduos sonoros de uma música distante que viaja até os meus ouvidos, mesmo já passando das 10 da noite…
      Agradeço seu comentário e te desejo muitas oportunidades de desfrutar a “melodia do silêncio”.

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  8. Suas descrições nos fazem imaginar exatamente o que está sendo narrado. Silêncio é profundidade e nem todo mundo aguenta a profundidade. Preferem se distrair e ficar no raso do que se conectarem. Corajosa característica a sua.

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    1. Fefe,
      Fico contente que aprecie o texto e o estilo das crônicas. A boa leitura é a que conduz nossa imaginação e nos faz quase sentir o texto.
      Muito obrigado por comentar.
      Uma maravilhosa semana para você, Marcos e Tom!

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  9. Querido amigo.
    Concordo inteiramente com você. Também encontro no silêncio momentos de muita paz e que me fazem muito bem.
    Nesse momento, como você sabe, estou descansando com Jaciara num local que tem como seus grandes patrocinadores o, o silêncio. Mais uma vez sua crônica veio na hora certa e por incrível que pareça também no lugar certo. Você cada vez melhor…. Até mesmo se desejar ficar em silêncio. Abrs.

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    1. Querido amigo Nei,
      Não tenho como ficar em silêncio diante do seu comentário.
      Achei que iria tirar férias das crônicas também, mas fico contente de ver que optou por me prestigiar, lendo e comentando como todas semanas.
      Desfrute muito do silêncio e que tenham dias maravilhosos de descanso e lazer.
      Cuidado para não aparecerem por aí umas caixas bluetooth… hahaha
      Grande abraço à você e Jaciara!

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  10. Deveria ser lei o direito ao silêncio e o oposto, uma concessão muito restrita com obrigação de alvarás com consultas públicas, ainda mais quando a comunidade é diversa e com tendências ao exagero.
    Certa vez fiz uma viagem com minha esposa para uma estação de ski na cordilheira dos Andes e fizemos uma parada programada onde o guia nos solicitou que por cinco ou dez minutos, abrisssemos os ouvidos para ouvir o silêncio.
    Experiência inesquecível, àquela imensidão diante do olhar, onde tudo é monumental e ao mesmo tempo, nenhum som se podia ouvir, só o seu coração como uma prova que estava ali, vivo.
    Obrigado primo por me lembrar da maravilha que é o silêncio.
    Tenha uma ótima semana.
    Abraços.

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    1. Querido primo Rômulo,
      Fico muito contente que a crônica tenha despertado em você uma lembrança tão marcante.
      De fato o silêncio é uma maravilha! Feliz de quem, como você, tem sensibilidade para apreciá-lo.
      Muito obrigado por comentar.
      Desejo uma excelente semana!
      Abraços

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  11. Prezado Amigo, Muito bom dia, Como é difícil curtimos o silêncio em meio à balbúrdia que alguns pensamentos insistem em fazer em nossa mente, mas alcançar esse silêncio é possível, a partir de um exercício diuturno, iniciado pela seleção de pensamentos que permitimos entrar em nossa casa mental, você já pratica esse exercício, quando decide realizar uma tarefa de cada vez, se está escrevendo, não está ouvindo música ou conversando, ou desenvolvendo outra atividade qualquer, daí o brilhantismo das suas crônicas, tão ansiadas por nós a cada domingo. Parabéns! Recomendações à Sônia, à Tatiana, ao Jean, ao pequeno Gui e demais familiares.

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  12. Oi Cau,
    Sinto também um enorme prazer no silêncio, quase uma necessidade mas infelizmente nosso corpo vai se adaptando e sua crônica desperta o desejo de busca- lo de volta…
    Muito bom!!!🤫

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    1. Minha irmã,
      Que bom ter despertado em você o desejo de buscar o silêncio e a paz que ele proporciona.
      Tem uma poesia da Cecília Meireles que diz: “A gente se acostuma, mas não devia…”
      É o caso do barulho.
      Beijos e uma excelente semana, vovó do Tom!

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  13. Antonio Carlos
    Ri quando li a letra da música… mais de desepero que qualquer outra coisa. Apreciar a natureza e o silêncio é coisa que poucos entendem ou conseguem.

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  14. Realmente, meu primo: canto de pássaro, som do mar, da chuva, da cachoeira – delicioso concerto em total harmonia com nosso ser.
    Infelizmente, a rotina da maioria das pessoas oferece sons agressivos que disconectam os sentidos. A começar, logo cedo, pelo grito enérgico do despertador. A partir daí, surgem um turbilhão de estimulos desagradáveis, de sons que incitam a agressividade, a irritação e, até mesmo, a violência.
    Com certeza, esse é o motivo de muitas doenças modernas e de desajustes diversos.
    Há pouco, desligamos a televisão , com desenhos e músicas infantis – que alivio!! confortante o silêncio que preencheu a sala. Pude desfrutar do som carinhoso da voz nordestina do meu querido dizendo: ” quero mãinha”. Isso tambem é gostoso ouvir.
    Afetuoso abraço

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    1. Querida prima,
      Que bom ainda estar aí curtindo o Samuel e se deliciando com o som da voz dele: essa vai direto no coração amoroso da avó!!!
      Grato pelo comentário, Gena. Aproveite muito enquanto provavelmente se acumulam as saudades do João.
      Um afetuoso abraço!

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