AMIGO É PARA ESSAS COISAS

Esta semana, em 20 de julho, comemorou-se o dia do amigo. Não sei se é uma comemoração municipal, estadual, nacional, internacional ou mundial, mas sei que é sensacional! Coisa maravilhosa ter amigos e um dia por ano para homenageá-los.

Não se preocupe o leitor que de modo algum farei citações de frases clichês, ou mensagens e ideias veiculadas em banners da internet, pois certamente já estão todos saciados desta fome, cujo apetite talvez nem existisse.

Fico pensando que sou um cronista um pouco destorcido, pois se a crônica tem origem em “cronos” deveria sempre tratar de temas atuais, do tempo presente, coisa que agora me dispus a fazer, mas que dificilmente faço.

Meu norte para escrever vem das coisas que observo, pensamentos que me ocorrem sem explicação, ideias que afloram em minha mente. Sempre que posso, anoto para não esquecer e vou deixando um estoque de temas e histórias para futuros escritos. Mas a decisão sobre o que escrever só vem quando sento diante do computador e a inspiração me guia e determina por onde quer ir. Não é minha culpa se normalmente ela se recusa a aderir às manchetes do dia.

Por isso, prefiro ficar com a definição muito menos rígida do grande Luis Fernando Veríssimo, que diz escrever “crônicas ou coisa parecida”. Eu estou mais para “coisa parecida”…

Mas voltando ao tema da amizade, pretendo afirmar (é apenas uma tese minha, mas que eu sustentaria em qualquer tribunal) o seguinte:

Amigo é algo que ninguém tem muito!

Talvez seja uma das poucas coisas que ninguém no mundo tem muito. Até virtude é possível ter em grande quantidade, embora mesmo nas melhores almas a gente reconheça uma ou duas delas e logo colocamos ao lado uma penca de defeitos. Mas eu acho que amigo é impossível ter em grande quantidade.

O desejo do Roberto Carlos de ter um milhão de amigos nunca me convenceu, embora eu goste da música. Claro que estou considerando que a denominação de amigo não seja banalizada e generosamente estendida a conhecidos, aliados, simpatizantes, seguidores, contatos, companheiros, colegas e sócios. Tem gente que inclui na categoria de amigo até seus próprios parentes. Gente exagerada!

Isto talvez ocorra porque ter muitos amigos é visto como algo grandioso, que confere um status especial a quem, aparentemente, os possui em quantidade.

Entretanto, o amigo verdadeiro não faz parte desta legião heterogênea de pessoas com as quais nos relacionamos. Não deveriam estar incluídos como amigos verdadeiros aqueles com quem mantemos relações mais superficiais, episódicas, aquelas pessoas de quem podemos dizer que confiamos desconfiando. Muitas vezes estes, por benevolência e conveniência, recebem o título honorífico de amigos, sem sê-los de fato. Amizade é uma relação de amor e, portanto, especial e limitada. É o que penso.

Aliás, uma coisa curiosa na língua portuguesa é o sentido do verbo amigar. Este deveria expressar a conquista de um amigo, o ligar-se por laços de amizade. Entretanto, no senso comum, ficou restrito à ligação com um ou uma amante. É certo que no dicionário há o sentido da amizade, mas imagino o que pensaria o leitor de uma frase como: “Paulo está amigado com Pedro”.

Vamos então às histórias, minha parte preferida das crônicas. Não sei explicar ao caro leitor, mas desta vez achei melhor contar apenas uma história, das várias que me vieram à mente. Esta é a maravilha de escrever: a gente decide o que vai fazer sem precisar da autorização de ninguém. Claro que depois, a apreciação do texto cobra seu preço, mas no momento da escrita é só liberdade. Ah, a maravilhosa liberdade!

Ouvi esta história há uns 40 anos e nunca mais esqueci. Acho que foi numa entrevista com o médico, jornalista e escritor Pedro Bloch, falecido há quase 20 anos. Não posso afirmar, mas por via das dúvidas dou o mérito a ele, já me desculpando se estou enganado.

Dois irmãos gêmeos, na faixa dos 10 anos de idade foram a uma consulta com o pediatra. Para quebrar o gelo e deixá-los à vontade, o médico optou por conversar um pouco com os dois, antes de entrar nos assuntos de saúde:

— Qual de vocês joga futebol?

— Nós dois jogamos, mas o meu irmão é muito melhor que eu. Ele joga muito. Muito. É o melhor do time. Faz gol toda hora. O meu irmão é ótimo no futebol — disse um deles, muito animado.

O médico então aderiu ao caminho da conversa para fazê-los falar e assim descontrair.

— Muito bem! E natação? Vocês gostam?

O mesmo menino se antecipou:

— Nadamos sim. O meu irmão é muito bom em natação. Nada rápido. Ele atravessa a piscina antes de todo mundo. Ele é muito bom. Bom mesmo.

— E quem tira melhores notas no colégio? — tentou o médico.

Novamente o menino adiantou-se:

— Meu irmão. O boletim dele é todo azul. Só nota boa. Meu irmão é muito bom no colégio. Até em matemática ele tira nota alta. Ele é muito bom, demais.

— E quem é mais organizado?

O menino mais uma vez antepôs-se:

— O meu irmão. Ele é muito organizado. Tem as coisas sempre no lugar certinho. Ele até faz a cama de manhã, logo que acorda. Ele é muito bom em organização. Muito bom!

O médico percebeu que para integrar o outro menino na conversa precisaria ser mais direto. Dirigiu-se então ao garoto que permanecia calado:

— Então você é bom em tudo, não é? E o seu irmão, é melhor do que você em alguma coisa?

A resposta do menino foi definitiva:

— Ele é melhor amigo!

Antonio Carlos Sarmento

28 comentários em “AMIGO É PARA ESSAS COISAS”

  1. Prezado Amigo Sarmento, Muito bom dia, Eu me sinto muito bem em chamá-lo de Amigo, não tenho muitas explicações para dar, sinto-me bem e pronto. Com prazer e alegria, agrego a esta amizade que sinto por você, os seus familiares mais chegados, seus saodosos pais, a Sonia, a Tatiana e, mais recentemente, o Gui e o Jean. E, lhe agradeço mais essa oportunidade de externar esse meu sentimento. Fique bem. Recomendações à Sonia e demais familiares.

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    1. Caro amigo JH,
      Seus comentários são sempre muito bem-vindos!
      Sua amizade é um presente pra mim e saiba que é recíproca, tanto que muitos anos depois de sermos colegas, continuamos juntos.
      E assim será sempre!
      Um afetuoso abraço, meu amigo!

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  2. Prezado Antonio Carlos:
    Para mim, os amigos se dividem em duas categorias: os AMIGOS e os poucos AMIGOS FIÉIS, estes, quase sempre, solidários, duradouros e eternos.
    Sds. do seu assíduo e costumeiro leitor.
    Carlos Vieira Reis

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  3. Sarmento Pedro Bloch era um fonoaudiólogo fantastico. Minha madrinha, irmã de minha mãe foi atendente por anos no consultório dele em Copacabana. O conheci e dele ganhei um livro autografado chamado “Criança diz cada uma…” e ali ele desfilava histórias deliciosas e emocionantes como essa que voce contou. Voce me recordou uma fase linda da minha vida, e por isso creio que posso sim chama-lo de Amigo. Bom domingo e Deus o abençoe.

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    1. Minha irmã,
      Sinto que a história te tocou.
      E a leitura vale a pena quando traz emoção, como a revelada no seu amoroso comentário.
      Somos irmãos e AMIGOS desde que nascemos!
      Beijos e uma maravilhosa semana. Com mudanças…

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  4. A palavra amigo acredito que esteja banalizada, tipo meus amigos do trabalho, amigos da pelada, amigos de copo, etc… esses são colegas.
    Mas, AMIGO, para mim, é muito mais e não são muitis, AMIGO é aquele que você tem a intimidade suficiente para poder falar da própria intimidade com a ceteza que estará dentro do cofre, é, que terá a empatia como recíproca, AMIGO sente o mesmo que você , em momentos de dor tem dor e na alegria, AMIGO verdadeiro não te agrada , fala sem cerimônia a verdade que você precisa escutar.
    Isso para mim é AMIGO, aquele que você que “esteja ao seu lado em qualquer caminhada ” ( RC tem razão)
    Você é meu AMIGO .
    Deus te abençoe, Cacau !

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  5. Que admirável generosidade desse Irmão! Amizade verdadeira, pura, eterna e poderosa. Um sentimento bom que torna a vida mais fácil e alegre e o mundo um lugar mais lindo.
    Meu Irmão, como é maravilhoso tê-lo como Amigo!

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  6. Começamos nossa amizade no trabalho , no entanto, ficamos AMIGOS DE VERDADE. Mesmo de longe relembramos nossos almoços depois das reuniões, nos quais, além do vinho saboreávamos ótimas histórias.
    Beijo grande meu amigo de sempre!

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    1. Lucia,
      Felizmente fizemos a transição de colegas para AMIGOS. Daí vem a vontade que não passa de nos encontrarmos e compartilharmos nossas vidas.
      Sai pandemia!
      Receba ainda o meu carinho pela passagem recente da D. Helena.
      Beijos

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  7. Caro Sarmento, daqui da roça vai um boa tarde prá Vc. Lí no seu comentário a frase ” Para ser amigo tem que ter amizade “. Pois bem: …nossa amizade é virtual agora. Vc não sabe que eu o considero meu amigo pelas suas atitudes naquela sexta-feira à tarde final de expediente. Se tornou meu amigo em todas as estâncias da vida. Em momentos de orações universal lembro de Vc. Seguimos lendo, ouvindo pelas músicas, lendo, pensando na palavra Amigo. E tales e tal variantes usando a palavra Amigo. Eu tenho amigos que nunca deixamos de nos falar pela internet, telefone e recados de perguntas ” vc tem visto o Jorge? Tá sumido….o Jorge do metrô “. E a afirmativa sobre ter ou não ter amigos aconteceu no dia da feroz entrevista da privatização do nosso metrô. questionei sobre ter meu nome na ista negra de demissão. Foi quando o argentino olhou para mim e disse: Supervisor, conhecemos Vc pela sua boa ficha funcional. Vc tem amigos? Vc sabe o que eles falam de Vc? Deu um sorriso olhando para mim. Se calou por alguns segundos e vazou da sua boca. Poucos!…Dei stop na mente e considerei como aprendizado. A mesma situação acontece quando na rede social livre. A pessoa tem 500 amigos mas só uns 15% falam constantemente. O restante são amigos ocultos fora dos estudos de linguagem. ” o amigo oculto, zoiudo, manja, só fica espiando “. Um dia uns desses suposto amigo começou a me zoar. Poxa Jota, Vc nem bebe uma cervejinha comigo….teles coisas e tais. respondi: …eu só bebo de segunda-feira até quinta-feira. E êle questionou? poxa… e sexta, sábado e domingo que é bom? Respondi: é que sexta, sábado e domingo…eu vou na casa do senhor. Demorou e quando entendeu ficou P comigo. Conclusão: perdi um amigo. rsrsrsrsrs. Sarmento, considere meu comentário picotado. Eu gosto ssim. Abraços Mano!

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    1. Caro Jorge,
      Obrigado por seu comentário “picotado” (gostei do termo).
      Fiquei curioso da tal sexta-feira à tarde, final de expediente.
      Quando puder me conta esta passagem. Aí da roça é que vem boas histórias!
      Grande abraço!

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  8. Querido amigo Antonio Carlos, gosto de ter muitos amigos e prefiro definir como amigo todos aqueles com quem me preocupo. Se a preocupação é sincera e me faz acreditar que ele também se preocupa comigo, não tenho dúvidas, é meu amigo. Entendo que essa preocupação pode ser maior, ou menor, mas não gosto de classificar o tamanho da amizade. Amigo não precisa estar sempre junto fisicamente, mas a amizade é, principalmente, uma dádiva do espírito. Tenho amigos que vejo pouco, mas que estão comigo desde o primário, no Externato São José. Com muitos, ainda me comunico pelo WhatsApp. Amigo é amigo, não se define!
    Receba um forte e saudoso abraço do amigo Roberto!

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    1. Caro amigo Roberto,
      A ideia da crônica da crônica é exatamente a de refletirmos um pouco sobre a amizade, tema tão importante na nossa vida.
      E as várias opiniões ajudam neste processo de reflexão.
      Fico com a sua frase ” a amizade é principalmente uma dádiva do espírito”.
      Sei do seu coração amoroso que acolhe a tantos como amigos. E me vejo incluído nestes!
      Grande abraço a você, Aidê e toda a sua família!

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  9. Querido primo,
    Repito que você é uma herança preciosa de tios que eu amava.
    Terá sempre meu aplauso nas suas conquistas, minha oração nas suas angústias e minha solidariedade nas suas dores.
    Talvez nunca haja uma grande oportunidade de demonstrar essa amizade, mas, com certeza, você a sentirá em gestos singulares.
    Vou lhe fazer um pedido: seja um pouco exagerado e me inclua na categoria de sua amiga.
    Beijo

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    1. Minha querida prima,
      Não será preciso exagero, pois você já estava na categoria de amiga muito antes de fazer este pedido.
      Agradeço a Deus por desfrutar da sua amizade, tão valiosa para mim.
      Só o seu comentário já faz ter valido a pena escrever a crônica. Muito obrigado!
      Beijos

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