SERENIDADE

— Coisa estranha. — comentou meu amigo, amuado.

— O que foi? — perguntei, querendo dar a ele a oportunidade de desabafar.

— Conheci uma menina naquela festa de ontem. Dancei com ela umas três músicas. Tinha um sorriso lindo. Peguei o nome dela e anotei o telefone.

Devo dizer que corriam os anos 1960, época em que eram comuns as festinhas em casa e o telefone era uma peça de luxo, acessível a poucos. Identificador de chamadas e telefone celular eram coisas inimagináveis. Assim, anotar um telefone era literalmente pegar papel e caneta e registrar os algarismos. Mas voltemos à conversa que se desenrolava:

— Ótimo. E o que há de estranho nisso?

— Liguei há pouco para ela e atendeu uma voz masculina, parecendo um senhor, sei lá, talvez o pai. Quando eu disse que queria falar com a Julieta, ele se irritou de uma maneira absurda. Ficou possesso e despejou uma avalanche de palavrões, xingando mais que torcida num jogo de futebol quando marcado um pênalti a favor do time adversário.

— E você?

— Fiquei sem ação. E antes que pudesse falar alguma coisa ele bateu o telefone na minha cara!

Cogitamos inicialmente que, no ambiente de pouca luz, meu amigo houvesse anotado o número errado, talvez trocado algum algarismo. Mas se assim fosse, apenas um telefonema por engano não daria motivo para tanta irritação do outro lado da linha.

— Vamos ligar de novo. Você pode ter discado errado — propus.

— Eu não vou mais ligar — reagiu meu amigo, ainda atordoado com a exasperação do tal sujeito.

— Pode deixar. Eu ligo e peço para chamar ela.

Fomos então até o telefone público mais próximo e fiz a ligação cuidadosamente, para garantir absoluta precisão na discagem.

— A Julieta está, por favor?

A tempestade de palavrões jorrou abundantemente. Tudo proferido num tom de extremo ódio, uma fúria mortal. Se eu tivesse ido aos lugares que ele me enviou, hoje não estaria aqui escrevendo esta crônica…

Curiosamente aquilo me pareceu engraçado. Era tão desproposital que chegava a ser ridículo.

Na idade de 15 ou 16 anos a gente vivia buscando ocasiões para se divertir e ali estava uma oportunidade perfeita. Já convencidos de que o namoro não iria prosperar, ficando reduzido apenas a um breve flerte e umas dancinhas, só nos restava tirar algum proveito da situação.

Até hoje fico intrigado como pode alguém se alterar tanto apenas por se perguntar pela Julieta. Seria ela filha de um pai extremamente ciumento ou com um zelo doentio, que corria para atender todos os telefonemas e imaginava sempre um mal-intencionado do outro lado da linha, pronto a abusar, enganar e maltratar sua menina? Ou seria um louco, que por uma simples ligação equivocada, enchia-se de ódio pelo interlocutor?

Eu não manifestei ao amigo, mas fiquei pensando que, se assim era, por que diabos a Julieta dava o número do telefone à um pobre infeliz? Só se fosse uma sádica!

Enfim, para nós não havia lógica que pudesse explicar tanta irritação e tal enxame de impropérios. O número do telefone da Julieta foi então distribuído com fartura aos amigos e também aos inimigos, pois todos mereciam se divertir.

Daí em diante, sempre que havia um tempo sobrando e uma ficha de telefone público disponível, a Julieta recebia uma chamada. A retribuição era certa e infalível. Cada ligação era acompanhada por um pequeno grupo que dividia a escuta e depois compartilhava os detalhes, provocando muitas gargalhadas.

Claro que, em pouco tempo, o sujeito percebendo a artimanha, já não atendia mais ou deixava o telefone fora do gancho. Aí passaram a ser usadas variações, sofisticando o acesso ao conteúdo explosivo. Ao invés de perguntar logo pela Julieta, o artista ganhava tempo e adiava o momento da apoteose:

— Boa tarde. É do consultório médico?

A resposta era educada, mas seca:

— Não é aqui.

— Mas o número que eu tenho anotado é este.

— Meu amigo, já disse que não é aqui.

O artista era shakespeareano e arrematava:

— Tenho certeza que este número é do consultório do Dr. Romeu. A Julieta está?

Lá vinha a avalanche de insultos, grosserias, palavradas e blasfêmias.

A coisa toda durou uns três ou quatro dias e logo tornou-se inviável, obviamente. Se bem que, de vez em quando, alguém lembrava e ligava para o pobre coitado, mas a repetição é inimiga do divertimento e tudo caiu no esquecimento em pouco tempo.

Esta história me fez lembrar três bons conselhos da sabedoria popular: não prometa quando estiver feliz, não decida quando estiver triste e não responda quando estiver irritado. Como todo bom conselho, fácil de dar e difícil de seguir.

Acho até que o primeiro e o segundo, nos estados de felicidade e de tristeza, são bem razoáveis e podem nos ser úteis. Melhor mesmo prometer e decidir em momentos mais estáveis, sob prevalência do nosso racional, sem muito otimismo nem pessimismo.

Agora, me desculpe o leitor dotado de altas doses de mansidão e brandura, mas ficar calado quando muito irritado, pelo menos para mim, é extremamente difícil. Não vou colocar panos quentes: impossível!

A verdadeira irritação parece que nos leva a um estado de espírito no qual todos os programas racionais da mente são fechados e fica ativo apenas o aplicativo “raiva”, que já veio pré-instalado em nosso software e não pode ser deletado. Eu acho que até monge tibetano tem este programa instalado!

Ele é disparado por um intrigante gatilho que age independente da nossa vontade. Muitas vezes uma coisa tola, um pequeno fato ou uma simples palavra pode desfechar um ataque de raiva desproporcional ou imotivado, mesmo numa pessoa dócil e amável.

Quando a forte irritação nos acomete, as decisões e palavras parecem que estão sendo comandadas por um outro ser dentro de nós, que age e fala sem medir consequências, apenas buscando descarregar aquela emoção insuportável e predominante que substitui todas as outras. O pior é que nos faz mal na hora e ainda deixa sequelas, já que normalmente é sucedido pelo arrependimento, outro sentimento ruim.

Há poucos dias aconteceu isso comigo num episódio de trânsito, ambiente em que o programa “raiva” abre automaticamente e dispara por qualquer coisa. Depois da reação incontrolável, eu mesmo não conseguia entender o porquê daquele impulso de agressividade, intenso e desarrazoado.

Suspeito que em nossos tempos o programa “raiva” esteja abrindo com muito mais frequência, seja pela aceleração da vida, seja pela competitividade, tecnologia ou outros fatores. Como precisamos da serenidade, companheira inseparável da sabedoria e da paz.

Talvez tenha razão o escritor Augusto Cury quando diz:

“As sociedades modernas vivem tempos insanos. A serenidade é um artigo de luxo.”

Antonio Carlos Sarmento

30 comentários em “SERENIDADE”

  1. Meu amigo tenho um sério desvio de comportamento: Sou quase um psicopata no trânsito. Esforço-me seriamente para não se-lo, mas não consigo!!! Me comporto no transito como uma pessoa dotada de todas as intolerâncias possiveis. E, confesso que, isso nso é problema do programa abrir ou fechar. Tem a ver com a tal da idade… boa semana e que Deus nos abençoe.

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    1. Amigo Luigi,
      Acho que somos muitos como você. O trânsito tem a propriedade de trazer irritação com muita facilidade.
      Muito obrigado por dividir conosco suas experiências.
      Desejo uma ótima semana, na paz e serenidade…
      Grande abraço!

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  2. Adorei a história da Julieta, quanta peraltice meu irmão!!Ao mesmo tempo lamentei por ela ter esse pai bravo e eliminadorr de possíveis amores, tomara tenha tido um “Romeu ” que transpôs essa barreira !!
    Quanto à serenidade devemos busca- la incessantemente pois a irritação antes de atingir o outro, faz mal pra nós mesmos….
    Bjokas lusitanas

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    1. Minha irmã,
      Sem dúvida a maior vítima da irritação somos nós mesmos, como você bem lembrou. Por isto, logo em seguida vem o arrependimento.
      Mas claro que o outro também é vítima e a irritação tem grande poder destrutivo nas relações humanas.
      Beijokas lusitanas e uma maravilhosa semana!!!

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  3. Tempos modernos me lembram Charles Chaplin e também o outro, Charles Darwin.
    O primeiro nos dá o tema da música e o segundo Charles, o desenrolar e o ritmo da dança.
    A nossa geração participa de um baile onde as músicas começaram bem lentas e vagarosamente foram animando. Hoje estamos vivendo com a perspectiva do fim da festa onde as músicas mais animadas estão a rolar
    Serenidade e outros acessórios do gênero só existem no jardim, longe da festa e do alcance da música.
    Um ótimo domingo a todos nós.

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  4. Devia ser muito divertida essa turma que você tinha. Qualquer coisa era motivo pra vocês logo pensarem em uma forma de se divertir. Hahahahahaha… que sorte esses encontros!

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    1. Fefe,
      É possível que, a medida que amadurecemos, as oportunidades de nos divertirmos venham sendo gradativamente reduzidas.
      Mas aí não é serenidade e sim seriedade, não acha?
      Beijos e obrigado por comentar.
      PS: Diz pro Tom esperar nossa volta, tá? hahaha

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  5. Prezado Antonio Carlos:
    Nos tempos em que vivemos, de fato, a serenidade e o comedimento se tornaram objetos raros, dando lugar às palavras violentas e a agressividade humana.
    Mas, sem dúvida alguma, precisamos de muito equilíbrio emocional e tolerância para alcançarmos uma vida social mais amena.
    Sds. E parabéns do seu assíduo leitor pelo excelente artigo.
    Carlos Vieira Reis

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  6. Prezado Amigo, Muito bom dia, Nos últimos anos, tenho me empenhado em conquistar a Serenidade, de fato, não é tarefa fácil, mas tenho contado com a ajuda de algo que leio e releio sempre: *”O homem reflexivo rara vez se deixa levar por seus pensamentos, e até nos momentos mais críticos costuma amparar-se na serenidade, para não atuar levado por nenhum impulso, ou seja, sob a sugestão de pensamento algum ao qual não tenha concedido, por íntima relação com ele, sua confiança e seu prévio consentimento em tê-lo como solução”*, esse é o primeiro parágrafo, da página 69, do livro Logosofia, Ciência e Método, da autoria de Carlos Bernardo González Pecotche, obviamente o livro contém inúmeras outras indicações de grande valor. A sua recordação dos três conselhos, também, é bastante oportuna:* “não prometa quando estiver feliz, não decida quando estiver triste e não responda quando estiver irritado”*. Muitíssimo agradecido por mais uma bela crônica que me fez recordar muitas passagens, agradáveis ou não, desta minha vida. Recomendações à Sônia, à Tatiana, ao Jean e ao Gui. PS. Estou anexando a versão digital do livro citado acima.

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    1. Querido amigo JH,
      Seu comentário é rico e cheio de ensinamentos. O livro citado deve ser muito interessante e profundo. Infelizmente aqui pelo site acho que não há como anexar, mas se puder me envie por e-mail, meu caro amigo.
      Muito obrigado!
      Desejo a você e sua amada família uma semana ótima e cheia de paz.
      Grande abraço!

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  7. Me diverti com os telefonemas para a Julieta.
    As pessoas em geral, em todos os níveis da hierarquia imposta pela sociedade, estão precisando muito de serenidade.

    Não se decide de cabeça quente e é o que mais acontece no momento.

    Ótima crônica!

    Grande abraço.

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  8. Muito boa como sempre. Acredito que a idade traga mais serenidade. Já tive pavio muito curto e hoje , em algumas situações, desconfio que nem tenho pavio para ser aceso. Ótima semana e saudades

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    1. Querida amiga Lucia,
      Concordo que a idade traz mais serenidade, mas não consigo enxergar você como pavio curto…
      Me pareceu sempre muito calma e equilibrada.
      Desejo uma semana ótima e cheia de alegrias.
      Beijos e muitas saudades!

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  9. Engraçadíssimo o trote do Dr.Romeu rsrsrs, me fez lembrar os trotes divertidos na época do telefone fixo, que ainda eram novidades.
    Quanto a irritação no trânsito e em outras ocasiões, aprendi que devemos exercitar a paciência, a regra 10/90 … 10% é o acontecimento, 90% é a forma como reagimos ao acontecido, mesmo porque não sabemos o que está acontecendo para que a outra pessoa esteja agindo de uma forma não muito correta, pode ser até um problema familiar ou emocional, o que no mundo atual esses acontecimentos cada c vez, infelizmente, são comuns.
    Mais uma ótima crônica.
    Parabéns!
    Bjs

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    1. Chico,
      Realmente os trotes divertiam muito naquele tempo.
      A regra 10/90 pode ser uma forma de conscientização. Certa vez um louco buzinava atrás de mim e me irritou. Logo a frente, vi o carro dele entrando no acesso de emergência de um hospital. Fiquei envergonhado…
      Obrigado por comentar, meu irmão!

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  10. Serenidade? Como é difícil nos tempos atuais!!! Precisamos de muita sabedoria para construir a paz dentro de nós…bjs primo.

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  11. Meu primo,
    Há uma unanimidade acerca desse tema. Dificil manter a serenidade nos desafios que vêm ao nosso encontro. Posso te dizer que, algumas vezes nessa semana, me lembrei dessa crônica, especialmente.
    Porém, no dia a dia, experimentamos o bálsamo que representa conviver com pessoas serenas : não só acalma seus próprios dias, mas também torna mais suave a luta dos outros.
    E esse dom não é privilegio de poucos. O que falta é olhar , com fé, para Aquele que dormia tranquilamente enquanto a tempestade assolava o barco. E aprender com Ele.
    Penso que conseguimos grandes mudanças se exercitarmos a serenidade. Em nossa vida e na de todos os que conseguimos alcançar.
    Beijos aos queridos em Portugal.
    Bora conferir a mensagem de O Sorriso.

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    1. Querida prima Gena,
      Interessante você ter lembrado da crônica algumas vezes durante a sua semana. E aposto que manteve sua serenidade, pois este é o seu temperamento, sempre calmo e doce.
      Muito obrigado por comentar, minha querida prima. Agora fica na expectativa do comentário de O Sorriso…
      Beijos e uma ótima semana!

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  12. Aquele detalhe do consultório do Dr. Romeu e da Julieta é de mestre.👌👌👌
    Quanto à esses sentimentos de raiva/irritação e ao oposto chamado serenidade…cultivemos todos os dias o segundo e os primeiros tenderão a desaparecer. Serenamente.
    Entretanto, desejo que neste dia do Brasil a serenidade supere as raivas e ódios existentes por aí. O Brasil não merece.

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