TEATRAL

Li em algum lugar que vocação não é o mesmo que talento. No dicionário têm o mesmo sentido, mas a vocação pode ser entendida como um chamado, uma propensão a algo, uma inclinação, enquanto o talento refere-se mais à verdadeira habilidade, capacidade, o dom para realizar alguma coisa. A diferença é sutil, mas achei que faz sentido.

Eu, por exemplo, se sentisse a vocação para ser dentista alcançaria a fama em pouco tempo, tenho certeza. Seria logo aclamado como a vergonha da odontologia no Brasil. Minha destreza manual faria com que meus pobres pacientes jamais retornassem, inconformados com os desajustes dentários e os inúmeros ferimentos nas gengivas causados pelo resvalar dos instrumentos pontiagudos. Minhas restaurações seriam verdadeiras deformações e o peso de minhas inábeis mãos nos maxilares alheios, faria meu consultório esvaziar para sempre em poucos dias…

Fiquei pensando em quantos casos reais a vocação chamou, mas o talento não compareceu. É triste. E talvez mais comum do que podemos imaginar. Como acho que todos nós, sem nenhuma exceção, temos talentos, muitos acabam perdidos, desperdiçados por uma vocação equivocada. De fato, a realização só vem quando a vocação encontra o talento.

Ao refletir sobre isto, lembrei-me de um episódio antigo, narrado por meu avô. Todo passado bem vivido gera nostalgia e talvez tenha sido assim que me veio à lembrança a história contada por ele, que agora me arrisco a recontar.

Meu avô era um exímio contador de histórias. Convivemos pouco, pois sempre moramos em cidades diferentes. Somente nas férias de final de ano da minha infância, que duravam três meses inteirinhos — falo do século passado, claro — eu tinha a oportunidade de desfrutar da sua presença e ouvi-lo contar casos.

Sua casa na praia tinha uma varanda e ali sentávamos para desfrutar de seus monólogos cômicos. Ele, de pé, encenava, modulava o tom de voz, alternava olhares e expressões, ria de um modo que nos fazia gargalhar e desenvolvia suas intermináveis histórias que nos deliciavam.

Quantas vezes, no ano seguinte, a gente pedia a ele para contar de novo uma história do ano anterior e a reprise era ainda mais engraçada. Dizia Chico Anísio que criar uma piada é muito ingrato se comparado com a música, já que esta pode ser tocada em várias ocasiões para o mesmo público, enquanto uma piada de sucesso, se repetida, está sujeita a receber vaias. Ou seja, segundo ele ninguém ri duas vezes da mesma piada; meu avô desmentia esta ideia.

Vamos à história sem mais delongas.

Heitor achava que sua vocação era o teatro e vivia em busca de oportunidades. Eventualmente era chamado para participar de peças ou filmagens, mas sempre como figurante, às vezes de costas, outras aparecendo ao longe e sempre sem proferir uma mísera palavra. Isto o deixava frustrado e infeliz.

Como poderia demonstrar seu talento sem ter uma fala, sem ser o centro das atenções por pelo menos alguns segundos? Achava-se capaz, melhor do que muitos que atuavam em papéis importantes. Tudo que precisava era ter uma chance.

Com o tempo, Heitor acabou por concentrar suas figurações num determinado teatro. Ali desenvolvia performances espetaculares: ora aparecia numa fila fazendo cara de impaciente, ora limpando uma vidraça com destreza ou fazendo parte de um grupo que gesticulava reclamando de alguma coisa. Passava o tempo e ele permanecia em papéis inexpressivos e mudos.

Porém, a constância do trabalho naquele teatro foi permitindo que se tornasse conhecido e todos sabiam de seu desejo de ter ao menos um momento para mostrar sua capacidade.

Até que um dia, estando em cartaz a encenação de um drama, um ator adoeceu e o diretor, precisando improvisar uma solução, lembrou dele:

— Heitor, vou te dar uma chance. Você vai fazer uma entrada hoje à noite e dizer uma frase. Topa?

— Perfeitamente — assentiu, empolgado.

O diretor explicou-lhe então a cena: o protagonista decepcionado com sua amada, acabava de ler uma carta e, desesperado, a queimava num grande cinzeiro que havia em cima da mesa. Nesta hora, Heitor interpretando o mordomo, entraria casualmente, daria três passos para dentro da sala e, respirando como quem fareja alguma coisa, diria intrigado:

Que cheiro de papel queimado!

Era então o momento do intervalo e a cortina se fechava.

— Só isso. Entendeu Heitor?

— Sim senhor.

— Consegue fazer?

— Claro. Pode deixar. Vou fazer com perfeição.

— Qual é a fala?

Que cheiro de papel queimado!

— Isso mesmo!

Daquele momento até a hora de entrar em cena Heitor repetia sem cessar sua fala. Ia conseguir. Era sua grande chance. O primeiro passo para o estrelato. Bastava farejar, aparentar estranheza e exclamar: Que cheiro de papel queimado!

Repetia a frase sem parar. Não havia como errar. O protagonista queimava a carta e ele falava do cheiro de papel queimado. Óbvio. Em seguida, ouviria os aplausos por trás da cortina, orgulhoso de afinal ter chegado seu momento de glória, o primeiro de muitos. Na próxima temporada poderia ser ele a queimar a carta…

Neste momento em que escrevo, recordo meu avô encenando o papel de Heitor, andando de um lado para o outro, fazendo perguntas a si mesmo, esforçando-se por decorar o minúsculo texto, repetindo incessantemente a frase e já arrancando muitos risos naquela varanda. Ele prolongava esta etapa para nosso deleite. Aliás, era mestre nesta arte de repetir e esticar as passagens, fazendo render o humor e aguçando a nossa curiosidade quanto ao final. Uma pequena história podia render uns 40 minutos e a gente não queria que acabasse. Ali estava um talento oculto, não encontrado pela vocação.

Parece que o vejo neste momento, mais de 50 anos depois, como se fosse hoje. Que coisa impressionante como certas memórias ficam vivas de repente, ressuscitam e são quase reais. Como eu gostaria de dar um abraço naquele homem alto e magro, de camisas claras, sempre cheiroso e risonho…

Perdão leitor, voltemos à história.

À medida que se aproximava o momento, Heitor ia ficando mais nervoso. Dizia a si mesmo: é apenas uma frase, não tem como errar, uma frase só, Heitor. Ele queima a carta e você diz: Que cheiro de papel queimado! Muito tranquilo. Uma única frase, bem pronunciada, com ar suspeitoso. Não há como errar.

Chegado o momento, vestiu a roupa de mordomo, sentindo-se glorioso e posicionou-se na coxia, pronto para entrar.

De onde estava viu, apavorado, o ator principal terminar de ler, pegar o isqueiro e queimar a carta. Seu coração dava saltos. Queria ir ao banheiro… Ouviu então:

— Vai Heitor!

Entrou, deu três passos para dentro da sala, cheirou o ambiente e finalmente proferiu:

— Que cheiro de papel RASGADO!

Caiu o pano.

 

Antonio Carlos Sarmento

27 comentários em “TEATRAL”

  1. Kkkkkkk o mais tristes é que essas coisas acontecem mesmo. Alem daquele figurante que decide extender a frase ou dize-la bem lenta pra demorar mais em cena. Vice deve ter assistido “Um convidado bem trapalhão “ com Peter Sellers, um genio na arre de representar. A cena dele, sendo alvejado e soprando o clarim é hilaria e exprime bem o que é ser figurante. Dei boas risadas e vejo de onde vem seu DNA de cronista. Do seu avô contador de histórias. Bom domingo e que Deus nos abençoe.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Caro Luigi,
      Com certeza assisti “Um Convidado Bem Trapalhão”, mas não tenho uma memória tão boa como você e não me lembro desta cena. Vou tentar assistir.
      Talvez você tenha razão quanto ao DNA e saiba que meu avô também escrevia crônicas num jornal em Vitória no Espírito Santo. Estou tentando resgatar este material, mas durante a pandemia as pesquisas no jornal estão suspensas.
      Grande abraço e uma ótima semana por aí!

      Curtir

      1. Só pra te relembrar, ele é figurante e está havendo uma guerra. Ele tem que tocar um clarim para que as tropas avancem e no momento que ele toca, é mortalmente atingido. Ele cai, mas em 5 segundos toca de novo. Toma outro tiro, mas 5 segundos depois toca de novo, até que o diretor manda cortar a cena porque ele não morria !!! Reveja pois é um filme e uma interpretação incrível dele.

        Curtido por 1 pessoa

  2. Caro Amigo, Muito bom dia, Nada a comentar, as gargalhadas não me deixam escrever nada mais . . . Recomendações à Sônia e demais familiares.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Caro Antonio Carlos:

    Lembrar do passado, ainda mais teatral, nos embebece a alma e estimula a criatividade.

    Como sempre, um excelente artigo provindo da sua fina lavra, que sempre nos encanta.

    Sds. do seu fiel leitor.

    Carlos Vieiras Reis

    Curtido por 1 pessoa

  4. Mais uma crônica que nos aproxima das suas memórias. Hoje de seu avô. Me fez recordar também do meu avô Quimquim, também um exímio contador de histórias. Será que é característica dos avós? Talvez seja, meus netos adoram ouvir as minhas histórias !!! Beijão e saudades.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Querido amigo, bom dia!
    Você e as crônicas sempre maravilhosas.
    Muitos risos!
    Me lembrei de muitas coisas ao longo da minha vida
    Obrigado pelas lembranças e tenha um excelente domingo, junto com a Sônia.
    Abracos

    Curtido por 1 pessoa

  6. 9
    Cacau, gostei muito ! Você mais uma vez mostrandoo seu talento e vocação.
    Acho que deve ser muito comum acontecer, por vezes muitas pessoas não exploram seus talentos e se frustam em estar no local ou tempo errado para usufruir da sua vocação.

    Muito bom !
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  7. Ainda bem que foi “ Que cheiro de papel RASGADO!”
    Podia ser bem pior😂
    Gostei muito da crônica e pena não ter conhecido seu vovô!

    Curtido por 1 pessoa

  8. O Heitor era um verdadeiro “criativo”…e o seu avô, um daqueles queridos familiares que sempre deixam histórias e memórias para a vida. Como essa!
    Por vezes questiono-me…será que nestes tempos tão diferentes da nossa infância e em que a comunicação verbal deixou de ter a força que tinha, ainda iremos deixar histórias e memórias aos nossos netos?
    ??

    Curtido por 1 pessoa

    1. Dulce,
      Seu questionamento me parece muito válido.
      Seu blog já será fonte de memórias para seus netos.
      Mas acho que precisamos mesmo nos esforçar para deixar muitas histórias que possam atravessar as gerações de nossas famílias.
      Grato por seu comentário!
      Desejo uma ótima semana!

      Curtir

  9. Boa Cau!!!
    Vovô era mesmo muito bem humorado, alegre e espirituoso!!
    Que herança e lembrança bem vinda que faz das suas crônicas uma viagem no tempo!!!
    Deu saudade do vovô Clemente Capeletti !!!!

    Curtido por 1 pessoa

  10. Querido amigo. Como eu gosto das suas histórias familiares… Hoje tive o privilégio de saber de seu avô Heitor… Que bom… Gostaria de ser da época dele pois sei que iríamos bater grandes papos. A crônica como sempre quando se começa a ler nada mais pode interromper… Essa foi o caso… O final surpreendente… Parabéns e obrigado.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querido Nei,
      Acho que você e meu avô (que não se chamava Heitor) iriam se divertir muito se pudessem estar juntos.
      Ambos bem humorados e brincalhões. A idade não pode matar a criança que vive em nós, certo?
      Grande abraço e uma ótima semana!
      Beijos na Jaciara!

      Curtir

  11. Interessante o realce dado entre vocação e talento no texto da crônica.
    Muitas vezes vemos um jovem que é uma promessa e quando realmente tem a oportunidade realizada mostra se sem os atributos necessários para realçar seu talento.
    A vocação e talentos juntos mas sem o tempero de outros atributos necessários.
    Fico admirado com a sua vocação tardia para as crônicas, um talento muito bem temperado.
    Parabéns e ótima semana Cacau.

    Curtido por 1 pessoa

  12. Meu primo querido,
    Essa crônica faz pulsar a responsabilidade de deixar memórias edificantes. Obrigada por isso. Seu mérito é grande!
    Podemos oferecer bons e inesquecíveis momentos aos nossos amados para que tenham sua vida temperada com a mesma alegria que você transmitiu nesse texto.
    Interessante é que despertou nossas próprias lembranças, prolongando a sensação agradável das boas recordações.
    E isso trata, cura ( ou quase).
    Já vejo, feliz, como essas memórias são semeadas desde cedo : a ” tia” da igreja estava ensinando aos pequeninos sobre Jesus. E perguntou:
    – quem nos ama muito?
    – quem cuida de nós?
    – quem é nosso amigo?
    E o meu João, nos seus três aninhos, respondeu antes de todos:
    – Vovó!!
    Um afetuoso abraço,

    Curtido por 1 pessoa

    1. Minha prima querida,
      Esta história do João é sensacional. Daria até uma nova crônica…
      Fico contente que a leitura tenha lhe trazido valiosas lembranças. e sensações agradáveis.
      Seus comentários têm sempre um brilho especial.
      Muito obrigado!
      Beijos

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s