BOA PRAÇA

Ela estava sentada sozinha naquele banco de praça.

Eu a vi de passagem. Poderia não ter percebido, mas alguma coisa me fez reparar na cena. Devia ter uns 25 anos, estava bem-vestida, com roupas claras e elegantes e os cabelos cuidadosamente penteados e entrelaçados. Em uma das mãos segurava uma bolsa e na outra, o que mais me chamou a atenção, um buquê de flores. Achei inusitado, uma moça sozinha num banco de praça com flores nas mãos.

Seu olhar estava perdido no infinito, como se ausente deste mundo, planando no espaço, acima dos problemas e das amarguras. Lembrei de um pensamento de Clarice Lispector que poderia descrever o estado de espírito daquela moça no momento:

Hoje estou muito delicada, me interessam principalmente flores e passarinhos.

Não sei o nome daquela flor… mas era muito bonita, avermelhada, em forma de tulipas. Seria comum uma moça sentada num banco de praça, mas o buquê nas mãos transformou o cenário e passou a ser especial aos meus olhos.

Não sei o nome daquela flor… mas se eu tivesse talento para isso, pintaria um quadro e daria a ele o singelo nome de “A Moça e a Flor”. Quem visse a obra poderia ficar intrigado, como eu, imaginando o que fazia ela ali. Que beleza quando a arte desperta nossa imaginação.

Não sei o nome daquela flor… mas talvez ela tivesse recebido o buquê e ali permanecido, tonta de amor, embevecida, sem vontade de terminar o que estava vivendo e sem disposição para voltar à vida comum, desejando eternizar o que sentia no coração. Ou, quem sabe, era algo ainda por acontecer, uma expectativa de alguém que estava por chegar, o destinatário do seu amor, que receberia toda aquela beleza. A moça e a flor, ambas delicadas e envoltas em perfume.

Não sei o nome daquela flor… mas que coisa maravilhosa, uma mulher presentear seu amado com flores à vista de todos, em público, gritando o seu amor para o mundo. Sim, o amor verdadeiro não se contém, transborda, precisa explodir. E ali estava a moça, seu olhar e a flor: uma foto da explosão!

Não sei o nome daquela flor… mas acho que a pequena praça nunca esteve tão linda. Eram apenas três bancos num espaço em forma de meia lua, com pouca vegetação, só algumas árvores em volta plantadas sobre um gramado. Era a presença dela e da flor que trouxe a verdadeira beleza, como se fosse um anel de brilhantes colocado numa mão comum.

Não sei o nome daquela flor… mas a imagem da moça com o buquê me persegue, exigindo que eu escreva sobre ela. Merecia uma pintura, mas está acima da minha capacidade, merecia uma poesia, mas não há o dom. Registro em uma simples crônica, mesmo achando pouco para tanta beleza. Se eu pudesse, depois de escrito, passaria para um papel de linho em letra de calígrafo, colocaria num belo envelope e entregaria a ela para que soubesse que me trouxe emoção e bons sentimentos.

Não sei o nome daquela flor… mas com certeza deveria se chamar bem-me-quer. Ou melhor, amor-perfeito.

Não sei o nome daquela flor… mas me fez ver como tinha razão o pensador Confúcio quando afirmou: É preciso comprar arroz e flores. Arroz para viver e flores para ter pelo que viver.

Antonio Carlos Sarmento

24 comentários em “BOA PRAÇA”

  1. Prezado Antonio Carlos:

    Também despertei meus mais puros sentimentos amorosos por aquela moça “sentada sozinha naquele banco”, empunhando flores.

    Bela crônica, como sempre.

    Parabéns, pela sua arte.

    Sds. do amigo,

    Carlos Vieira Reis

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    1. Querido amigo.
      Mais uma vez nós brinda com uma crônica surpreendente. Interessante é que em alguns momentos não sabia você estava se referindo a moça como uma flor ou a flor propriamente dita. De qualquer forma mais uma linda obra e nos fazendo aflorar sentimentos românticos nesse domingo. Você está cada vez melhor. Em síntese está um linda flor … Ui!! Ui!!!….
      Abrs amigo.

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      1. Querido amigo Nei,
        Fazer “aflorar sentimentos românticos” no seu coração neste domingo já é uma grande recompensa para mim.
        Ao ver aquela moça na praça, foi exatamente o que senti e então busquei transmitir e despertar o mesmo sentimento em meus leitores.
        O final do seu comentário, com o “Ui! Ui!!” colocou um sorriso no meu rosto, que volta agora, na hora de responder…
        Grande abraço meu amigo e manda um beijo pra Jaciara!

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    2. Caro Carlos,
      Percebo que a crônica trouxe à tona o romantismo do amigo. Isso é muito bom! Foi exatamente o que senti ao ver aquela moça e também a minha intenção ao escrever.
      Fico contente que o amigo tenha apreciado.
      Um forte abraço e uma semana romântica e amorosa!!!

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    1. Caro amigo Luigi,
      Uma pitada de romantismo, como você bem disse, “adoça” a vida, traz beleza e bons sentimentos.
      Muito obrigado por seu comentário, infalível aos domingos.
      Desejo uma maravilhosa semana a você e todos os seus. Fiquem com Deus!

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  2. Linda imaginação Cau!!
    Vivemos nossa juventude na melhor época, onde o amor era construído com zelo,carinho e romantismo!
    Que os sentimentos nobres sejam soberanos e prevaleçam hoje e sempre!!!
    Valeu!

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    1. Minha irmã,
      A imaginação nos permite viajar. E desde que comecei a escrever tenho feito mais viagens…
      Sempre desejando que, quem me lê, também embarque. Acho que foi o que você fez!
      Beijos e obrigado por comentar.
      Uma maravilhosa semana!

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  3. Prezado Amigo, Muito boa noite, Magnífica, como sempre, a sua crônica de hoje. Parabéns! Recomendações a Sonia e demais familiares, sobretudo, aqueles de além -mar.

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  4. Linda crônica amigo. Fiquei também muito intrigado e esperando um final esclarecedor, nem tanto pela linda 🌷 flor, mas pela moça de cabelos entrelaçados e seu pensamento distante.

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    1. Amigo Rodolpho,
      Percebo que não consegui atender a sua expectativa por um final esclarecedor. Mas é que realmente não houve este final, foi apenas um momento. Fica para a nossa imaginação desenhar o desfecho…
      Obrigado por comentar, meu amigo.
      Desejo uma ótima semana a você, Idalina e toda a sua família.

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  5. Há imagens que nos tocam de uma forma muito especial e que nos levam a divagar e a fazer histórias entre o possivel, o imaginário… e a sensibibilidade que nos anima.
    Excelente crónica, gostei imenso!

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  6. Meu primo,
    Esse texto refrigera nossa mente :
    Não sabemos o nome da flor…mas divagamos com todas as possibilidades que um buquê sugere;
    Não sabemos o nome da flor…mas visualizamos toda a arte, a beleza e o colorido de um quadro de Monet;
    Não sabemos o nome da flor…mas percebemos , com esperança, que ainda existem sonhos;
    Não sabemos o nome da flor…mas admiramos as pessoas que não têm os olhos embaçados diante da beleza da vida, como o querido cronista que compartilha com seus (fiéis) leitores um momento ímpar de romantismo.
    E o domingo fica mais leve…
    Todo o meu carinho para os cariocas da santa terrinha.

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    1. Querida Gena,
      Seu comentário é um poema, sua sensibilidade salta aos olhos e seu texto é de muita riqueza.
      Se pudesse, eu voltava à crônica e incluía Monet, os sonhos, a esperança, as possibilidades…
      Obrigado por esta pérola!
      Beijos pra você, suas amadas filhas e queridíssimos netinhos!

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