AVISO AOS NAVEGANTES

Completamos este mês o nosso sétimo ano de navegação no site Crônicas e Agudas. Chegamos a este porto que me parecia tão distante quando demos a partida e tenho a certeza de que isto só foi possível porque estivemos juntos todo este tempo.

Os navegantes a que me refiro são aqueles que singram os mares da internet, como vocês, meus queridos leitores. Mares virtuais, tão imensos quantos os reais — por vezes igualmente salgados, por outras até mais poluídos por versões falsas, inverdades e simulações mal-intencionadas. Mas aqui e ali também com praias mansas e de areias claras, aquelas que sempre deveríamos procurar.

Curiosamente, em 2026 alcançamos recordes de visualização, mesmo com apenas uma publicação mensal — números superiores à época em que publicávamos quatro crônicas por mês. Não sei explicar. Talvez seja apenas o tempo fazendo o seu trabalho silencioso.

Posso dizer que não tive nenhuma iniciativa específica neste sentido. Espontaneamente, desde o início do ano, as visualizações em uma semana alcançam o volume de um mês. Um fato novo é que muitos estrangeiros, ou o que é mais provável, brasileiros vivendo em outros países, passaram a navegar conosco.

Por exemplo, há muitos novos leitores dos Estados Unidos, em uma quantidade que nestes primeiros meses do ano, é o triplo do segundo colocado, o Brasil. Nunca imaginei que isto pudesse acontecer.

Logo depois, na terceira posição, pasmem: Hong Kong — a China sempre compete com os americanos, mas não pensei que isto se estenderia até mesmo a leituras de crônicas. Para não cansar meu caro leitor, cito ainda apenas a quarta posição: Singapura.

Já não me surpreendo se daqui a pouco aparecer um leitor no Estreito de Ormuz…

Enfim, chegamos aos 7 anos de publicações e alcançamos a marca cabalística de 222 crônicas, que receberam um total aproximado de 75 mil visualizações, mais de 10 mil por ano.. Neste período também lançamos nosso primeiro livro de crônicas e, além disso, fomos destaque de “criador de conteúdo” no Facebook.

São resultados modestos para a internet, mas animadores para mim. Indicam que esta navegação encontrou correntes favoráveis e que não singramos em vão todos esses anos. É menos um mérito pessoal e mais a confirmação de uma troca generosa entre quem escreve e quem se dispõe a ler.

Pois bem, agora sim, eis o aviso: chegado este momento, resolvi fazer uma pausa.

Calma, meu caro leitor, pausar não é parar. Vou apenas deixar o compromisso de publicação regular das crônicas no último domingo de cada mês, mas o site permanece no ar e o trabalho feito continua à disposição de todos. Sempre que meus sentidos captarem um bom motivo para uma nova crônica, vou publicar, mas com descompromisso de prazos e regularidade.

Penso que saber pausar é tão importante quanto saber começar e este me parece o momento certo de interromper a marcha contínua para, num compasso mais coerente, trilhar caminhos não experimentados até então.

Vou esclarecer melhor os motivos da pausa.

Primeiro, estou concluindo os trabalhos de edição de uma nova coletânea de crônicas e, em breve, aquele que será meu segundo livro estará disponível para vocês.

Sei que o livro impresso toca àqueles que apreciam o papel, gostam do manuseio, do ir e vir pelas páginas, de marcar trechos, reler um volume retirado da estante e até sentir o toque e o cheiro do papel durante a leitura. Assim como acontece com fotos, o impresso proporciona uma experiência diferente do digital, este mais rápido e prático, mas talvez efêmero.

Adianto que este novo livro estará disponível para compra no Brasil e também em Portugal, algo que eu almejava. Afinal, preciso refletir minha dupla nacionalidade também na escrita. Logo que seja oportuno darei notícias a vocês sobre a obra.

O segundo e principal motivo tem origem em uma frase do escritor argentino Julio Cortázar:

No combate entre um texto apaixonante e seu leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute.

Esta frase me conduziu a reflexões. Até aqui, busquei o nocaute dos textos breves — contos e crônicas. Falta-me ainda experimentar esse outro combate, mais longo, em que a vitória se constrói por pontos.

Ruminei esta ideia por meses e no fim decidi enfrentar o desafio de escrever uma história longa, que já começa a tomar forma em minha mente. Sei que escrever um romance exige inspiração e uma capacidade que nem sei se terei, mas certamente precisarei de tempo, foco e esforço. Vou em frente. Às vezes, na busca por realização, é preciso enveredar por um caminho novo e correr o risco de tentar algo que ainda não fizemos.

É exatamente aí que entra a pausa, o novo compasso.

Concluo dizendo que parar de escrever não é para mim uma opção. Descobri que, no meu caso, escrever me transforma como leitor. Sim, passo a ver as obras literárias de modo mais profundo e com uma riqueza que antes me escapava. Com o tempo percebi que além do fato de que ler torna melhor o escrever, a recíproca também é verdadeira. Persisto nas duas atividades enquanto a lucidez me permitir.

A este propósito, em uma caminhada a poucos dias aqui em Portugal, passei por um motor home branco estacionado ao longo da calçada. Na parte traseira, uma bem-humorada frase pintada em letras azuis manuscritas, dizia muito sobre seus proprietários:

Em uma aventura, antes da demência.

Esbocei um sorriso para mim mesmo. Aos 72 anos pensei: se der tempo, chego a concluir um romance…

Meus caros navegantes, não me despeço, já que continuamos juntos. Guardo comigo cada leitura, cada comentário, cada presença, e agradeço profundamente.

Vocês tornam a minha vida mais rica e alegre.

Até breve!

Antonio Carlos Sarmento

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