O ENCONTRO

Mario era dono de um pequeno restaurante no Rio de Janeiro. Entendia mesmo de cozinhar, mas logo descobriu que num restaurante de poucas mesas precisaria também cuidar das finanças, compras, administrar os funcionários e interagir com os clientes. Ao menos tinha feito a opção de localizar-se no centro da cidade, onde acumulava a dupla vantagem de servir apenas almoço e não abrir aos finais de semana. Caso contrário seria inviável tocar o negócio sem ter um sócio, ideia que lhe causava arrepios.

Às quartas-feiras realizava as compras. Era o dia da semana que menos gostava, pois passava horas sentado, telefonando para fornecedores, negociando, agendando entregas e pagamentos. Mas naquela quarta tudo foi diferente. Há mais de um ano comprava toalhas e guardanapos de papel numa empresa de São Paulo, onde obtinha um bom produto, a preços bem razoáveis. Sempre era atendido pela mesma vendedora, mas naquele dia uma nova voz o impressionou desde as primeiras palavras:

– Bom dia. Magda falando. Em que posso ser útil? – disse ela

Ficou meio embaraçado com o som daquela voz.

– Bom dia. Para encomendar toalhas e guardanapos é com você?

– Sim. Hoje é o meu primeiro dia aqui e o senhor é o meu primeiro cliente. Estou à sua disposição. O que deseja?

O que deseja? Ficar ouvindo a sua voz… Estava atordoado como quem emerge de um mergulho profundo.

– É. A encomenda. Toalhas. Guardanapos. De papel. Papel.

– Pois não. O senhor já tem cadastro aqui conosco?

– Cadrasto? Cadastro? Tenho sim. É Mario Cortelli.

– Um minutinho, por gentileza.

Aquele “minutinho” minou o resto de suas forças. Estava anestesiado. O coração disparou para umas 200 batidas por minuto. Ficou com medo da voz não sair quando ela voltasse.

– Achei seu cadastro, Sr. Mario. O que vai querer?

Resolveu ousar:

– Pode me chamar de Mario. Já sou cliente há muito tempo. E você é tão simpática…

– Obrigada, Mario! – respondeu ela entrando no clima.

Devia ter gravado ela falando o nome dele. Um encanto.

Fez a encomenda perturbado, sem saber se estava certo. Antes de desligar ela ainda deu o tiro de misericórdia:

– Tchauzinho!

Ficou petrificado na cadeira. O que foi isso? Quem é ela? O que aconteceu?

Levou uns 15 minutos para voltar ao normal. Parecia ter sido imerso numa piscina de gelo. Nem conseguia se mexer.

Dali em diante a quarta-feira passou a ser o dia mais esperado da semana. Chegou a pensar em fazer encomendas extras, mas não havia dinheiro disponível nem lugar para guardar o material em excesso.

O fato é que a paixão tomou conta de Mario. A cada quarta-feira a coisa crescia. Cada diminutivo dela sacudia o mais profundo da sua alma.

– Tá tudo certinho, Mario?

– Vai chegar rapidinho, Mario!

Até que algumas quartas-feiras depois, decidiu se abrir. Seja o que Deus quiser. Não aguentava mais.

– Magda, você tem sido tão legal comigo. Vou a São Paulo esta semana e gostaria de te conhecer. Você aceitaria jantar comigo no sábado?

Ela foi muito receptiva. Topou na hora, com muito prazer.

Uma excitação juvenil tomou conta de Mario. Não pensava em outra coisa. Os problemas do restaurante se tornaram irrelevantes. Graças a Deus não abria aos finais de semana.

Comprou a passagem de ida para o sábado e volta no Domingo. Ainda pensou:

– Sei lá se volto, mas é bom garantir a passagem.- riu dele mesmo e desta ideia… Era só bom humor e alegria.

E lá se foi Mario para a aventura amorosa de sua vida. Um sábado inesquecível.

Chegou a São Paulo, hospedou-se, tomou um banho demorado, vestiu sua melhor roupa e na sequência tomou outro banho, agora de perfume. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. Estava bem! Seus olhos brilhavam como faróis na escuridão daquela vida sem graça que levara até agora.

Partiu para o restaurante confiante, mas logicamente um pouco nervoso. Afinal não era uma simples conquista, mas uma paixão. Seus ouvidos ansiosos por conhecer ao vivo aquela voz encantadora. Tinha sido conquistado pelo ouvido. Que loucura!

Na porta perguntou se ela já havia chegado. A recepcionista confirmou.

– Chegou sim. Vou levá-lo até a mesa.

– Pode me mostrar qual é?

– Claro. Aquela última mesa junto ao espelho, bem à esquerda.

Pelo espelho viu a figura de Magda e foi tomado de uma profunda decepção. Nunca imaginou que uma paixão pudesse se dissipar instantaneamente.

– Espera aí um pouquinho. – disse à recepcionista.

Sua cabeça girava sem conseguir raciocinar. Que situação… Não desejava sequer encontrar com ela. Pensou primeiro em voltar da porta. Pouparia esforço e constrangimento. Era só arranjar outro fornecedor de descartáveis. É tudo descartável mesmo.

Mas logo concluiu que seria uma atitude covarde e percebeu que teria vergonha de si mesmo, o pior dos sentimentos para um homem honrado.

E agora? Naqueles poucos segundos, pressionado pelo olhar firme da recepcionista que aguardava impaciente, tinha dificuldade de raciocinar. Iria até a mesa, certo. Mas e aí? Porque não pensou nisso antes, com calma? Claro que havia o risco disto acontecer.

Veio então o discurso certo. Apenas 3 frases: cumprimentar, dizer do prazer em conhecê-la e que não poderia faltar e, golpe derradeiro, alegar um mal estar, pedir desculpas e se retirar. Achou que estava adequado. Na última frase iria embora, sem dar-lhe tempo de contestar. É isso!

– Podemos ir. – disse resoluto à recepcionista que o aguardava.

No caminho para a mesa, Magda que ali havia sentado estrategicamente, viu a aproximação de Mario. Bastou um olhar e já sabia o que fazer. Quando Mario chegou, ela levantou-se e com tranquilidade e segurança, disparou:

– Muito prazer Mario! É uma alegria conhecê-lo. Eu não poderia deixar de vir, mas não me sinto bem e não poderei ficar. Me desculpe! – Levantou sem vacilar e partiu para a porta, sem dar-lhe tempo de contestar.

Mario ali permaneceu, perplexo. Sentia vergonha de si mesmo, o pior dos sentimentos para um homem honrado.

Antonio Carlos Sarmento

15 comentários em “O ENCONTRO”

  1. Adorei, a MAGDA sabia que não era atraente, e estava observando o Mário desde sua entrada. Percebeu que ele estava decepcionado, e agiu rapidamente em uma espetacular alto defesa.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Final muito interessante e inesperado mas o que falar? A vida é complicada e cheia dessas situações em que somos levados pela aparência sem dar tempo para nos conhecermos.
    Boa crônica pois nos leva a refletir sobre um momento, um pré julgamento ou conclusõesprecipitadas, ao final das contas o que vale é ou não é o interior?
    Parabéns Sarmento

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    1. Carlos Alceu,
      Obrigado por comentar meu amigo. Sei que está fora do paíos, mas ainda encontrou um tempo para ler e comentar.
      Legal ter achado interessante e inesperado.
      Um garnde abraço e boa semana para vocês!

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  3. Voltando as suas primeiras crônicas.
    Parece que a inspiração é a mesma, algo já maduro e que faltava apenas a oportunidade para se revelar.
    Ahhh, na vida o sonho sempre supera as imperfeições que a realidade nos trás.
    E isso vale para todos nós, independentemente de qualquer outro status possua.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Rômulo,
      Talvez não imagine como fico feliz de que esteja lendo, inclusive as crônicas mais antigas.
      A vontade de escrever já existia e tenho procurado manter um estilo desde o início: histórias leves e curtas para divertir e fazer pensar.
      Quando este objetivo é alcançado num leitor,como parece ser o seu caso, é uma realização para mim.
      Obrigado por seus ricos comentários!
      Um abraço e felicidades.

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