O IMBECIL

A culpa foi dele. Um belo dia, do nada, avisou à mulher que ia sair de casa e morar num hotel. Precisava de um tempo – só isso! Não tinha muito que explicar. Achou naquela hora que quase 20 anos de casamento admitiriam uma infâmia dessas.

Nem se despediu direito. Depois de dar a notícia, pegou umas mudas de roupa, sapecou numa bolsa de viagem e saiu quase sem se fazer notar, esgueirando-se como um gato preto numa noite sem lua. Pecou no conteúdo e na forma, jogando no lixo sua reputação perante a família.

A mulher desmoronou e chorou dois dias inteiros. Os dois filhos, claro, tomaram o partido da mãe, revoltados com aquela atitude que revelava o desamor do pai pela própria família.

Mas não tardou a arrepender-se. Apenas cinco dias naquela desgraça de hotel, solitário, foi o suficiente para perceber o tamanho da besteira. Cresceu dentro de si um vazio, como um poço de elevador, por onde ele despencava numa queda sem fim. Conheceu em pouco tempo o verdadeiro sabor da infelicidade.

A tristeza era maior que a vergonha: não hesitou. Foi procurá-la, arrependido, com cara de cachorro que mordeu o dono. Reconheceu o erro, pediu perdão, ajoelhou-se… quase chorou.

Mesmo aliviada e disposta a perdoar, ela achou que devia valorizar-se e exigiu:

– Só aceito conversar com a família toda reunida.

Afinal, não era justo ser humilhada em público e receber a retratação em particular. Sentaram-se os quatro à mesa e ele fez um discurso patético, entremeando desculpas esfarrapadas com justificativas sem cabimento. Ao final, percebendo a fraqueza de suas razões, resolveu apelar e terminou dizendo:

– Enfim, peço que aceitem as minhas desculpas e me recebam de volta. Não tenho como explicar. Eu fui um imbecil. – E frisou: – Um imbecil!!

Entreolharam-se e, embora relutantes, aceitaram. Mas daquele momento em diante, aquele adjetivo virou nome próprio. Só se referiam a ele desta forma:

– Mãe, o imbecil já chegou?

– É minha irmã, vamos ter que falar com imbecil.

– Minha mãe foi ao cinema com o imbecil.

– Pede dinheiro para o imbecil.

A mulher no início resistiu, mas logo, uma mistura de ressentimento e desejo de vingança levou-a a aderir entusiasmadamente:

– Vou sair com o imbecil hoje.

– Tenho que perguntar para o imbecil.

Aos poucos, movida por sentimentos pouco nobres, extrapolou para outros membros da família. Já não usava a palavra sogra, regozijando-se em substituir pela “mãe do imbecil” que era quase tão ofensivo como “a imbecil da mãe”. A tia das crianças era a “irmã do imbecil” e assim por diante.

A coisa cresceu tanto entre os três, que ela passou a ter a preocupação de que um dia, num ato falho, ele descobrisse este tratamento “honroso”. Ou horroroso. Mas não conseguia resistir! Cada vez que se referiam a ele daquela forma, um sentimento lá no fundo acalentava a alma. Era como comer um docinho: errado, rápido e delicioso.

E foi assim por mais de um ano.

Até que um dia ele chegou em casa todo estropiado. Mancando, gemendo, a roupa toda suja, descabelado, os cotovelos sangrando e um hematoma enorme na testa. A mulher ficou apavorada com a cena. Correu, chamou os filhos para socorrer e num minuto estavam os três junto a ele, ansiosos por acudir e saber do ocorrido. Era uma questão de humanidade.

– Calma gente, estou bem. Acontece que fui atravessar a rua correndo, tropecei num buraco, saí voando e aterrissei na calçada do outro lado. Quando dei por mim tinha um monte de gente em volta. Chamaram uma ambulância, pois eu não conseguia me mexer. Só aos poucos fui me recuperando, dispensei o atendimento e vim pra casa devagarzinho.

A mulher e os filhos ficaram de fato preocupados com aquele sério acidente.

– Mas e aí? Será que não quebrou nada? Bateu a cabeça? Vai ter que ir ao médico, fazer uns exames.

Aí veio a pérola:

– Não, estou bem. Só não podia ter atravessado fora do sinal. Eu fui um imbecil!

Os três espocaram simultaneamente na maior gargalhada de suas vidas. Por mais de dez minutos contorciam-se feito peixes fisgados. Curvavam-se com as mãos no estômago e soltavam gritos escandalosos, enquanto copiosas lágrimas de riso lavavam seus rostos.

Aparvalhado, o imbecil observava tudo sem compreender nada.

Antonio Carlos Sarmento

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