AO ATAQUE

Ataque de riso é quase uma doença. É disparado normalmente por coisas muito engraçadas, mas às vezes por coisas quase sem graça. Deve existir uma espécie de ponto G do riso, que deflagra o ataque. Nunca sabemos quando, onde e porque ocorre, mas muitos já passaram e ainda passam por tais eventos.

É um ataque sem defesa. Parece uma possessão. A vítima sofre de sacolejos pelo corpo todo, sente necessidade de bater com as mãos nas pernas ou em qualquer outra coisa e emite gritos altos, guturais, curiosamente iniciados pela letra “a”, seja qual for sua nacionalidade, sexo ou idade.

No auge do fenômeno, o personagem curva-se frequentemente sobre o estômago: se estiver sentado, levanta e se estiver de pé, senta. Normalmente fica com o rosto banhado de abundantes lágrimas, talvez mais do que no caso de choro. É uma cena estranha para um espectador alheio ao motivo do riso.

Durante o ataque nada pode ser feito para socorrer o paciente. Nem cuidados paliativos existem. O protocolo de tratamento, reconhecido universalmente, é esperar e, se possível, até rir junto, porém levemente para não tornar ainda mais agudo o problema.

Com o tempo o ataque vai amainando, os gritos cessando e sendo substituídos por gemidos e gargalhadas menos espalhafatosas. A pessoa então vai voltando ao normal. Aos poucos se sente bem, aliviada, invadida por um incrível bem-estar, que segundo a crença popular, decorre de “desopilar o fígado”, coisa estranha, que ninguém sabe ao certo o que significa… Se rir é o melhor remédio, um ataque de riso é um verdadeiro CTI!

Imagino que existam pessoas tão mal-humoradas que nunca tenham passado por isto. Talvez sejam mais dadas a ataques de raiva.

Certa ocasião, estava na casa de um primo no Espírito Santo, onde por muitos anos passava boa parte das minhas férias na juventude. Nós tínhamos em comum a idade e uma grande amizade.  Nossas saborosas conversas entravam pela noite adentro, muitas vezes terminando apenas ao raiar do dia. Numa dessas noites, altas horas, resolvemos ir para a sala fumar um cigarro para não empestear o quarto. Num outro quarto, cuja porta estava aberta para esta sala, dormia uma tia solteirona. Tudo escuro, ao puxar a fumaça, a brasa dos cigarros iluminava o ambiente. A tia, com sono muito leve, acordou com aquela claridade intermitente e, com a voz revelando um certo temor, perguntou:

– Quem está aí?

Ficamos calados. E puxamos mais fumaça.

– Quem é? – repetiu ela com a voz tremida e o temor muito aumentado.

Pronto. Fomos acometidos de um ataque conjunto, incialmente gargalhando para dentro, mas logo após, explodindo em gestos e sons típicos do fenômeno. A tia ainda contribuía para intensificar a coisa, chamando o nosso nome alternadamente. Isto tornou a situação insuportável: tive que sair correndo do ambiente, indo descarregar o ataque numa área de serviço, onde permaneci por uns 15 minutos até cessar a agonia…

Foi o caos: todo mundo acordou e a tia ficou revoltada. Achou que eram lanternas portadas por ladrões e assustou-se muito.

– Seus palhaços! – exclamou, fazendo disparar um segundo ataque.

– Falta de respeito. – insistiu, fazendo disparar o terceiro.

Esta ocorrência fez instalar-se entre nós dois, algo estranho e inexplicável. Durante aquela temporada, sempre que estávamos juntos, pelos motivos mais banais, às vezes só de olhar um para o outro, ocorria um novo ataque. Isto muitas vezes nos deixava em situação constrangedora. As outras pessoas não compreendiam o que estava ocorrendo e sentiam-se ofendidas, talvez imaginando-se alvo do ridículo. O riso sem razão é sempre mal interpretado.

Com o fim das férias, voltei para o Rio de Janeiro e pensei termos ficado curados da moléstia.

Meses depois, ele veio passar uns dias em nossa casa e tudo transcorreu normalmente. Naquele tempo meu primo vinha namorando firme uma moça, cujos parentes residiam em Ipanema, onde ela costumava passar alguns dias. Assim, uma tarde fomos visitá-la. Ao chegarmos, era um prédio de luxo, de frente para o mar, um apartamento por andar, portaria atapetada e com iluminação indireta. O porteiro nos chamou de “senhores”, ligou para o apartamento e nos autorizaram a subir. Ali, não sei porque, comecei a achar a situação engraçada. Ele também.

Entramos no elevador. Meu primo, ao pressionar o botão do quarto andar, olhou-me e disse já meio sorridente:

– Não vai rir, hein? Pelo amor de Deus!

Foi a senha. O ataque veio com toda a força. Incontrolável. Mal a porta do elevador fechou já éramos sacudidos pelas gargalhadas. Quanto mais esforço fazíamos para contê-las mais forte ficavam. O elevador subia e o ataque se elevava. No segundo andar as lágrimas já corriam. Não ia dar tempo de parar. Quando passou pelo terceiro estávamos curvados e gritando: nem vimos. Só quatro andares. Chegou!

A porta abriu e uma distinta senhora nos esperava. Ao vê-la, o ataque atingiu o ápice. Ela olhou aquela cena lamentável e não soube o que dizer. Apenas desfez o ar de anfitriã e franziu a testa. Meu primo então, num lampejo de lucidez, pressionou o botão do térreo e a porta se fechou deixando, do lado de fora, uma pessoa estarrecida e dentro duas envergonhadas, morrendo de rir. Foi preciso sairmos do elevador, deixarmos a portaria e somente depois de alguns minutos na calçada, o riso cessou. E veio o constrangimento…

A namorada apareceu na janela e meu primo acenou para que viesse até nós. Previ que ali se encerraria um namoro firme. Porém, com o tempo, a ocorrência acabou sendo interpretada com bom humor pela família e ao final também riam da situação. Deu em casamento.

Há pouco tempo voltei a ver este meu primo querido. Depois de longos anos sem nos encontrarmos, soube que estava internado, em estado grave e que chamava pelo meu nome. Larguei tudo e voltei ao Espírito Santo para vê-lo. Alegremente relembramos essa e outras boas passagens de nossa vida de jovens.

Um mês depois disso ele faleceu.

Tive um ataque. De choro.

Antonio Carlos Sarmento

52 comentários em “AO ATAQUE”

  1. Bela homenagem a esse primo, ou aqueles que, conosco, tiveram na vida, motivos os (des)motivos para gargalhar sem saber porque. Mas rir ainda é o melhor remédio.

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  2. Bom dia. Eu amo rir mesmo nas fases mais.Mas estes ataques são incontroláveis. Numa palestra certa vez, sobre um novo produto os personagens da hanna barbera eram os astros. Um dos vendedores apontou para meu supervisor de vendas😂 meu amigo … o cara era igualzinho o Scooby Doo sabe? Aquele cachorro desengonçado? E a foto do Produto com ele próximo ? Pra que pagar roylties ? Bastava o cara colocar a coleira e pular no colo do Salsicha rsrs .

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      1. A mocidade gosta de dar gargalhadas.Infelizmente quando era mocinha era deselegante Até gole não consigo dar gargalhada. Pena quwHistória fantástica.

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  3. Quase tive um ataque de riso igual ao que tinha quando criança e nos piores lugares: na missa, no elevador cheio e o pior de todos , já adulta, reunida com o Ministro dos Transportes, meu chefe e general ( era durante o regime militar) . Não consegui parar. Ele me olhava querendo me matar e eu cada vez rindo mais. Imagina única mulher numa reunião só de homens, a maioria militar. Precisei sair da sala para parar. Foi terrível!!!!

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  4. Ja fui expulso de uma aula na Espanha por conta de um ataque de riso incontrolável com um amigo também. Depois te conto essa resenha. 😂😂😂

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  5. Muito boa mesmo essa crônica. Me fez lembrar de alguns episódios “cômicos” do passado. Acordar em um domingo e iniciá-lo rindo é bom demais.!

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  6. Meu bom amigo, hoje lendo a sua crônica lembrei de momentos semelhantes em ataques de risos que terminaram de forma inusitada, rsrsrsrsrsrs

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  7. Recordação de momentos felizes vividos com alguém por quem se nutre afeto, isso é viver . . .
    Mais uma vez, parabéns . . .

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  8. Como sou acometida por esses ataques, e graças à Deus com certa frequência, sua descrição foi perfeita e o belo texto me fez relembrar de alguns episódios muito divertidos.
    Rir é sempre um ótimo remédio!
    Uma tocante homenagem ao seu primo. Bjs

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  9. Muito boa crônica, ataque de risos é ótimo!
    Detalhes muito bem contatos assim como os sintomas internos e externos que acontecem , realmente o gestual é esse mesmo , riqueza de detalhes .
    Parabéns !
    Ainda bem que você foi visitá-lo e puderam relembrar bons momentos, a vida é feita e deve ser muito bem desgustada para nos divertirmos e nada como coisas simples e fantásticas , como um ataque de risos.

    Me trouxe muito boas lembranças.
    Obrigado por alegrar meu Domingo…

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  10. Eu já tive alguns ataques de riso em situações para lá de reais…a homenagem ao primo me trouxe belas recordações do passado bem divertido. A história é bem real. Bjs

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  11. Querido Antônio Carlos, acho que muitos devem se identificar neste seu conto. Acho que todos nós já tivemos um destes ataques ao longo da vida.
    Parabéns

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  12. Ahh, valeu !!! Me fez lembrar o tempo de escola em que tinha ataques em sala de aula. Imagina isso com freiras bitoladas. O pior era na missa , uma começava e contagiava todo mundo. Ótima crônica! Hoje vc ganhou mais uma fã, sabe quem, né? Bjks

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  13. Que delícia de crônica!!!
    “Mais humor,por favor!!”
    Cau,que maravilha marcar e ser marcado positivamente pela vida

    das pessoas!!!
    Adorei!!!!

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  14. Cacau, essa crônica foi um adorável presente.
    Dessa vez seu texto não me despertou empatia…me deixou totalmente dentro da narrativa. Sou parte dela!
    Esse riso que nao tem motivo é o mais gostoso, o mais intenso.
    Você e Beto eram mestres nisso.
    Eu li ( e ri ) várias vezes.
    Voce conduziu muito bem a alegria e deu um desfecho emocionante.
    Parabéns!!
    Diga uma coisa: você teve outros momentos como esses?
    Eu gostaria muito de ter. Mas, gracas a Deus, ainda tenho bons motivos para sorrir.
    Como ontem lendo sua crônica.

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    1. Querida prima,
      Aguardei com muita expectativa o seu comentário.
      Fico muito feliz que tenha gostado. E lido várias vezes, coisa que também tenho feito, mesmo depois de publicar.
      A lembrança do Beto sempre estará em meu coração, com muito carinho.
      Já tive outros ataques posteriores, mas não com a frequência deste episódio.
      Um beijo

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  15. Que texto!! 👏🏻
    Ri lembrando de muitos ataques (de riso) com sua família… de tantos “iiiiiiiiihihihihiii” de Sonia e Tati juntas. Oh CTI bom!

    Aguardo por isso em Dezembro! Bjs!!

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  16. Difícil foi controlar o sorriso ao ler a crônica. Sorri só de imaginar a situação em todas as vezes que o ataque acontecia. É uma delícia senti-lo, mas já me colocou em situações constrangedoras também.

    Meus pêsames pelo seu primo, que a memória dele seja sempre alegre pra ti.

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  17. Gostei muito! Nada melhor do que iniciar com esta pérola do riso solto! Hoje foi o dia de saborear as últimas crônicas que não pude curtir nos últimos finais de semana. Agora vou continuar a minha curtição dominical 👏📖

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