BEM PASSADO – Parte I

Já foi dito que o Brasil não é um país, são vários. Descobri isto no início da década de 1970, quando ainda cursava Engenharia na PUC do Rio de Janeiro. No segundo ano, fui convidado por um colega para passar o carnaval em Salvador num grupo de quatro estudantes, verdadeiro sonho de consumo de jovens na ocasião. A viagem começava pela fazenda de um parente dele no interior da Bahia durante uns 10 dias e depois o apoteótico carnaval na capital. O que passo a contar refere-se à parte da fazenda. Quanto ao carnaval nada revelarei, para preservar o pouco de reputação que ainda me resta…

Os leitores mais jovens podem achar incrível, mas naquela época não existia computador pessoal, internet ou celulares. Na nossa faculdade, avançada em relação à muitas outras, tínhamos o privilégio de poder usar um computador de grande porte. A gente programava, perfurava cartões numa máquina e entrava na longa fila do processamento. No dia seguinte retornávamos para buscar a listagem em papel com o resultado. Quase sempre errado.

Os cálculos em sala de aula eram feitos com ajuda de uma “régua de cálculo”, objeto engenhoso que permitia operações matemáticas complexas aos que possuíam habilidade e olhos de lince para enxergar os algarismos diminutos e as linhas muito finas. As calculadoras eletrônicas estavam em fase inicial de lançamento e custavam caríssimo. Na minha turma apenas um aluno possuía uma, que deslumbrava a todos. Era o sujeito mais admirado do campus. Sua fama chegava ao cobiçado prédio das Ciências Humanas, sede das mais lindas estudantes da Universidade. Um privilegiado!

Essa era a nossa realidade no Rio de Janeiro daquela segunda metade do século vinte. Apenas para completar o quadro: a televisão em cores era uma grande novidade, lançada com sensacionalismo em 1970, para o povo assistir o Brasil ser tricampeão do mundo de futebol. Um vizinho nosso, bem de vida, comprou uma e generosamente esticou um fio desde sua sala até a praça em frente e ali assistimos todos os jogos. Na final Brasil X Itália, aquele colorido e glorioso 4X1, o bairro todo estava ali!

Mas vamos à viagem. Partimos de carro, sem ar condicionado, claro, de Salvador em direção ao interior. O asfalto liso durou umas duas horas no máximo, pois as estradas já eram ruins naquele tempo. Daí para a frente, por mais umas três horas, encaramos uma estrada de terra tão poeirenta, que os carros tinham que manter uma grande distância entre si, pois uma bruma de pó impedia totalmente a visão. Achei que teríamos que escolher entre o calor dentro do carro, mantendo as janelas fechadas ou o pó, com as janelas abertas. Começamos com as janelas fechadas. Em pouco tempo ficou irrespirável e abrimos as janelas. Em pouco tempo ficou irrespirável e fechamos. Em pouco tempo ficou irrespirável e abrimos. E assim foi…

Toda hora eu tinha vontade de perguntar, como fazem as crianças: tá chegando?

Lá pelas tantas a estrada de terra transformou-se num deserto. Chegamos no sertão! Areia de praia. Branquinha. Logo não víamos mais nenhum carro circulando. Éramos os únicos privilegiados naquele Saara baiano!

O carro rebolava como se antecipasse o carnaval de Salvador. Em muitos locais o nosso motorista saía da “estrada” e circulava nas margens, onde a vegetação rasteira apoiava melhor os pneus. Num determinado momento, chegamos no topo de uma subida e ali paramos: o aclive tinha sido gradativo, mas a descida era bem mais íngreme. A inclinação acentuada havia feito com que a areia escorresse, formando uma enorme piscina fofa no final do declive. Havia sulcos profundos deixados por outros carros, evidenciando que não seria fácil passar por aquele atoleiro seco. O motorista suava, não sei se mais pela tensão ou pelo calor.

– Vamos ter que passar no embalo. – disse ele, sem muita convicção.

A esta altura eu já estava fazendo conta de quantos dias poderíamos sobreviver com o que tínhamos de água e alimentos. E lamentava não ter tido tempo de me despedir da minha mãe. Porque não optei por vir só para os dias de carnaval? Ô arrependimento!

O motorista enxugou o suor com as costas da mão, respirou fundo e acelerou mais fundo ainda. O motor gritava ladeira abaixo e o veículo embalava. E nós naquela montanha russa, mudos, de olhos arregalados e dentes trancados. O carro entrou em alta velocidade no mingau de areia. Rabeava feito uma arraia, ora à esquerda, ora à direita. A areia lixava o fundo do carro e pegajosamente tentava pará-lo de qualquer maneira. Mas a velocidade inicial projetava o veículo, fazendo-o esquiar na superfície. As rodas giravam em vão, levantando um spray de areia. Após longos e tensos segundos, vencemos aquele trecho, saindo meio de lado, mas já sentindo os pneus responderem e retornando o atrito. Já em terra firme, paramos de novo. Desta vez para acalmar. Nossa alegria foi exteriorizada sob a forma de palavrões compostos, muito conhecidos, gritados a plenos pulmões. Eu também desabafei, gritando alguns. Muitos, para falar a verdade. E acrescentei outros já pensando na volta…

Dali até a fazenda foram mais uns 15 minutos de areal. Umas 6 horas de viagem no total. Eu tinha uma camada de pó e areia grudada pelo suor em todo o corpo, como se estivesse à milanesa.

Esgotados, abrimos a porteira e, em pleno século vinte, ingressamos no século dezenove!

(continua)

 

Antonio Carlos Sarmento

27 comentários em “BEM PASSADO – Parte I”

  1. Sarmento, faço minha as palavras do seu amigo: UMA EPOPEIA! DAS BOAS! Mas como dizia o poeta “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena “. E a sua, felizmente, não é. Obrigado por mais essa crônica que alegra meus domingos. De verdade.

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    1. Caro Luigi,
      Agora já fico aguardando seu comentário…
      Eu que agradeço por ser um leitor tão assíduo e sempre comentar.
      Conseguir alegrar o seu domingo já é recompensa suficiente.
      Domingo que vem, a Parte II.
      Grande abraço!

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  2. Ri muito e me identifiquei na hora com os computadores de grande porte, cartões perfurados e a listagem com os resultados só no dia seguinte. E é verdade… quase sempre errado. Hahahahaha. Bons tempos, apesar disso. Ansiosa pela continuação!!!!

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  3. Cada vez mais sou fã de seu estilo:
    _ para caracterizar a época, despertou emoções dos quinze, dezoito anos;
    _ para narrar a viagem, espalhou poeira e sacolejos por todo lado;
    _ para terminar, aguçou a curiosidade:
    qual a impressão do século 19?
    Sempre conheci sua gentileza, sua paciência, seu amor pelas pessoas.
    Mas sua habilidade de partilhar toda a riqueza dessa mente simples e sensível me surpreende e me agrada muito.
    Até domingo!

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    1. Sandra,
      Vai precisar segurar um pouco a curiosidade. No próximo domingo tem a Parte II e, no outro, o desfecho.
      Não é novela, mas ficou um pouco longo e precisei dividir em 3 partes.
      Um grande abraço e grato por comentar!

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  4. A virtude de um bom escritor é passar aos seus leitores o potencial e a dimensão da sua infinita criação literária. Parabéns meu jovem escritor, um fraterno abraço e vou aguardar a conclusão da história. Oslúzio Fonseca

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