BEM PASSADO – Parte III

Havíamos chegado numa quarta-feira e no sábado, aproveitando a folga do fim de semana, fomos até uma fazenda próxima, que pertencia a outro “primo”. Logo compreendi que por ali, vizinho era considerado parente.

A fazenda não diferia muito da que estávamos hospedados, porém tinha mais recursos, parecia mais próspera, se é possível falar de prosperidade naquele canto meio perdido do mundo. Logo avistei cavalos e despertou a vontade de montar para um passeio.

Fomos recebidos com muita hospitalidade. Faziam questão de deixar uma boa impressão e então, esmeravam-se em agradar ao máximo as raríssimas visitas que quebravam a quase imutável rotina do campo.

Próximo da casa, vi um lavrador trabalhando a terra com um arado puxado a cavalo. Fui apreciar de perto. Acabei tentando fazer o trabalho, que parecia tão fácil. A impressão era de que o cavalo fazia tudo ou quase tudo, restando ao homem apenas manter a direção e conduzir o animal. Já havia vários sulcos paralelos feitos com perfeição. O lavrador gentilmente me cedeu o lugar e percorri alguns metros com o equipamento. De repente o cavalo parou: deve ter percebido que um incompetente ocupava o arado. Olhei para trás e vi que havia feito um caminho de cobra, todo torto, um desajeitado vaivém. No sulco que fiz acho que não nasceria nem erva daninha. O lavrador, muito educado, em lugar das gargalhadas que provavelmente gostaria de dar, apenas sorria… Encerrei ali a minha breve carreira de trabalhador rural.

A vontade de andar a cavalo não passava. Era ideia fixa. Eu esperava apenas uma oportunidade de testar se a hospitalidade chegaria a tanto. Todos na varanda e nada de surgir um gancho para o assunto. Até que houve uma pausa na conversa e achei que era a oportunidade. Perguntei ao dono da fazenda:

– Aquele cavalo só trabalha no arado?

– Não. Também serve de montaria. Mas os cavalos aqui são meio esquentados.

– Como assim?

– Não gostam muito de ser montados. Fazem de tudo para se livrar do cavaleiro. Passam embaixo de árvores, perto de espinheiros e outras coisas assim, tentando se livrar de quem está montado. Tem que ter muita atenção.

– Sei. Conheço bem o tipo. Já montei cavalos assim. – menti, descaradamente.

– Quer dar um passeio então?

– Opa! Gostaria muito.

Ele então mandou preparar os animais e formamos um tropel de 7 cavalos, sendo 4 montados pelos nativos e três pelos universitários: eu e dois colegas que não ouviram a conversa dos “esquentados”…

Antes de sair fomos orientados por um dos rapazes que iria nos guiar:

– Na ida os cavalos vão tranquilos. Na volta, do lado direito tem um longo trecho com muitos pés de espinho e eles vão tentar se aproximar. Só tem um jeito de evitar: puxando a rédea de um lado só, com a mão esquerda, até ele virar o pescoço para trás. Aí ele não consegue enxergar à frente e para.

Quase que meus dois colegas desistiram.

– Tranquilo. Vamos lá! – disse eu, fingindo coragem.

Partimos um pouco tensos, mas o passeio desenvolveu-se tão bem que, em pouco tempo, já desfrutávamos da aventura sem maiores preocupações. Poucas árvores, muita vegetação rasteira e campos planos formavam um cenário totalmente novo para quem estava acostumado com ruas pavimentadas e cheias de veículos motorizados.

Não havia caminho nem trilha: os animais galopavam em campo aberto, saltando moitas de arbustos e contornando obstáculos e buracos. A interação com o cavalo, a beleza do cenário e a natureza virgem tornavam tudo mágico e encantador. Eu não queria que aquele passeio terminasse…

Num certo momento, os cavalos avistaram um cabrito perdido e envolveram-se em uma perseguição vibrante, só interrompida quando o nosso guia resolveu acalmar os animais e abandonar o pequeno bichinho, que fugia desesperadamente. Afinal, estávamos nos afastando muito e o sol quase a pino indicava que já era tempo de iniciar a viagem de volta. Foi uma experiência marcante.

Na volta, da mesma forma que fazem os pangarés de aluguel, os cavalos disparavam e precisavam ser freados. A ânsia de retornar para casa levava a um galope desvairado, sem muito controle, correndo o risco de um tropeço ou queda.

Mais à frente paramos. O guia avisou:

– Aqui começa o espinheiro. Não deixem o cavalo correr. Puxem o pescoço para esquerda com toda a força, senão ele joga vocês em cima dos espinhos.

Assim fizemos. Foi uma luta. Precisamos parar várias vezes, pois realmente os animais tentavam insistentemente nos lançar contra os espinhos. A perna direita muitas vezes chegou perto, mas a puxada firme da rédea esquerda resolvia bem a situação.

Imaginei que algum cavalo mau caráter houvesse inventado aquilo e, sabe-se lá porque, acabou sendo seguido por todos os demais. Um mau exemplo adotado por unanimidade e que virou a marca daqueles animais. Coisa estranha… Mas que às vezes acontece também com humanos.

No final daquele sábado, já em casa, chegaram uns “primos” animados, um deles trazendo violão. A cantoria foi encantadora. Músicas sertanejas nostálgicas, como Luar do Sertão, Menino da Porteira e o triste Churrasquinho de Mãe, eram dedilhadas com habilidade pelo violeiro e cantadas por todos. Um deleite! A noitada estava tão boa que se estendeu até umas 9 da noite. Fomos dormir felizes com as aventuras e novidades do dia.

De madrugada acordei com batidas na porta de entrada. Agucei o ouvido e aguardei. Novas batidas. Um tempinho depois ouvi vozes e tive certeza de que acontecia algo fora do normal. Após, retornou o silêncio e voltei a dormir, já perfeitamente adaptado à rede e meus amigos morcegos.

Na manhã seguinte minha curiosidade foi saciada. Imaginem que o violeiro, aquela figura simpática e agradável da noite anterior, havia se metido em uma briga de bar. Levou uma surra. Inconformado, foi em casa, pegou uma foice, aguardou o desafeto numa curva do caminho e praticou uma vingança de morte. Fiquei aterrorizado. Convivi horas antes com um assassino!! Ele bateu à porta para arranjar algum dinheiro e ausentar-se por um tempo, até a coisa esfriar… Contaram-me isto tudo com a maior naturalidade. Naquela terra por onde andou Lampião e Maria Bonita, ainda havia resquícios do cangaço.

Os dias restantes voaram e na partida, mesmo indo para o carnaval de Salvador, lamentei deixar os “primos” e a rica experiência de vida daquele admirável mundo velho!

Foi assim que descobri um Brasil.

 

Antonio Carlos Sarmento

22 comentários em “BEM PASSADO – Parte III”

  1. Já sabendo que ficaria ansiosa para saber a continuidade da história, li agora as 3 partes … rsrs. Adorei!
    Tive o privilégio de passar uns dias em uma fazenda neste estilo no Mato Grosso do Sul… terra de minha mãe. É um Brasil bem diferente e que como você muito bem relatou, nos remete a um outro tempo, um pedacinho perdido do século dezenove. Uma maravilha viajar para esse lugar através do seu belo texto! Bjs

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  2. Bela experiência e sua narrativa me levou a “sentir” um pouco um tipo de passeio que nunca me atraiu muito. Tenho o defeito de gostar de “codade grande”. Bom domingo e mais uma vez, obrigado.

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    1. Luigi,
      Eu é que agradeço seu comentário e por estar sempre acompanhando as leituras. Gostar de cidade grande, como você, não é um defeito. Tanto que no mundo inteiro a população urbana é muito maior que a rural. Mas de fato sou encantado com as coisas do interior…
      Um excelente domingo para você e sua família!
      Abraços

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  3. Cau,
    Muito legal sua expressão “não queria que aquele momento acabasse”…..É assim mesmo que a gente tenta eternizar algumas vivências inesquecíveis!!!
    Creio que essa experiência foi daquelas que ficaram para sempre em você!!
    E o Carnaval de Salvador????🤔

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  4. Muito boa esta crônica “Bem Passado”. Retrata bem a vida na fazenda, para quem como nós teve esta oportunidade de vivenciar. Contada nesta riqueza de detalhes ficou mais do que interessante, uma verdadeira aventura. Parabéns amigo!

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  5. Que maravilha! Me fez visitar um passado gostoso quando ia pra fazenda de primos e amigos em Uberaba e Conservatória tambem….. Forte Abraço Toninho!

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  6. Ei Cacau!
    Estou justamente na terra de Lampião lendo sua esperada crônica.
    Sua descriçao do passeio a cavalo com os amigos me lembrou um quadro que tem nao quarto de estudos de Adauto, mostrando a propaganda de um filme antigo chamado “Sete Homens e um Destino”. Deve ter muitas semelhanças …
    Uma dica nordestina para os cavaleiros: para fugir dos espinhos, use calças balofas como as de Lampião. O objetivo era realmente
    esse.
    Dessa vez, confesso uma pitada de frustraçao- pensei que conheceria os brilhos do carnaval de Salvador. Ficou devendo!

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    1. Querida prima Gena,
      Éramos sete mesmo. Vou buscar a imagem do cartaz para observar o que despertou em você a semelhança com a história.
      Muito obrigado pelo seu comentário e curta muito a companhia de seus queridos aí.
      Lamento a sua frustração, mas nada posso fazer quanto à curiosidade em relação ao carnaval de Salvador. Não tenho coragem de descrever… hahahaha
      Beijos

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  7. Meu bom amigo Antonio Carlos.
    Vamos aguardar que nos próximos episódios venham os comentários do seu carnaval em Salvador. Parabéns pela finalização.
    Acredito que nas belezas das praias, o som e a folia dos trios elétricos, as comidas típicas do mercado modelo, bem como, outros ingredientes da cidade turística, para esse jovem escritor não faltará aventuras para nos contar nas próximas histórias.
    Um fraterno abraço e vamos aguardar o próximo.

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