FRASE DE EFEITO

Às vezes uma frase ouvida muda uma vida!

É impressionante como uma frase colhida talvez ao acaso, pode representar uma grande influência no nosso comportamento ou na maneira como vemos as coisas.  É possível que muitas pessoas já tenham passado por esta experiência.

Cito um exemplo: ainda na minha juventude, li uma frase de um vendedor de seguros americano que dizia: “Sorte é quando o preparo encontra a oportunidade!” Esta frase me impactou: pensei que seria preciso buscar o preparo, sem o que não poderia aproveitar as oportunidades que a vida viesse a me oferecer. E aí adeus à sorte na vida. Ainda pensei: quanto mais preparada uma pessoa, mais oportunidades poderá aproveitar. Sendo assim, nenhum preparo é excessivo ou inútil.

De uma outra forma, a falta de preparo é um desperdício de oportunidades!

Usei isto ao longo de toda a minha vida e também na educação da minha filha. Que valor esta simples frase teve e ainda tem em minha vida!

Mas vamos ao caso concreto que desejo contar.

Abílio acabara de se aposentar e faria sessenta anos em breve. Vida tranquila, casamento longo e único com Maria Amélia, dois filhos já casados, vivendo a expectativa de qual seria o primeiro a dar-lhe um neto.  Baianos de nascimento, moraram a vida toda em Salvador, onde se passa o episódio.

Com mais tempo livre, Abílio passou a ler muito; livros, revistas e jornais. Passava horas na poltrona, folheando as leituras, absorto. A calma da casa e a ausência de compromissos lhe permitiam desfrutar do prazer de ler.

Certo dia, Abílio leu uma frase sobre a importância da pontualidade. Algo como, “a pontualidade é o caminho para o sucesso”. Aonde e quando viu esta frase, nem ele nem ninguém da família sabe dizer. O fato é que, daí para frente, parece ter havido uma transformação, ou melhor, uma verdadeira metamorfose: Abílio adotou um novo comportamento em relação aos horários. Aquele homem calmo e dócil tornou-se irascível com a impontualidade e, pior, passou a atribuir importância a todos os horários, mesmo os irrelevantes.

Começou assim:

– Maria Amélia, já são 13:00h e o almoço não está na mesa! – disse, já irritado.

– Calma. Estou terminando. – respondeu ela, tolerante.

– Quando? Que horas?

– Daqui a pouco, Abílio.

– Daqui a pouco não é horário. Marca a hora. Vai atrasar quanto? 10 minutos? 20 minutos?

– Ai meu Deus! Que importa isso?

– Importa muito. Pontualidade é respeito com o tempo alheio. Por falar em “importa” nós deveríamos importar a pontualidade europeia, alemã! É por isso que eles são desenvolvidos e nós aqui no eterno subdesenvolvimento. – teorizou Abílio, exaltado.

– Você tem algum compromisso com hora marcada?

– Tenho! O almoço às 13:00h. E está atrasado.

– Depois do almoço, Abílio. Tem hora marcada para alguma coisa?

– Sim. Vou descansar um pouco e às 14:45h volto às leituras. Atrasando o almoço, atrasa tudo!

– Mas que importância tem este horário? Você tem o dia todo para ler.

– Meu tempo é valioso. A impontualidade é a ladra do tempo. – sentenciou.

Maria Amélia perdeu a paciência com aquelas frases feitas:

– Não quer esperar vai comer na rua!

Os episódios deste tipo passaram a ser cotidianos. O casal que sempre viveu bem, passou a ter desentendimentos constantes, pois Abílio exigia absoluta pontualidade para tudo. Parecia o caso em que uma frase que era para ser de efeito virou defeito…

Passou a colocar despertador para acordar todo dia na mesma hora. Maria Amélia tentou dissuadi-lo:

– Para que despertador?

– Tenho compromissos.

– Todos os dias?

– Sim. Todos os dias. Tenho minha agenda de atividades, cada coisa na sua hora, tudo organizado e com tempo determinado.

– Abílio, você está aposentado!

– Eu sei, mas não estou morto. A pontualidade é obrigação dos educados. E caminho para o progresso.

– Ai minha Nossa Senhora. Lá vem você com estas frases… O que anda lendo, hein? Que livro?

– Não é nada de um livro. É um princípio de vida. Eu sei que a pontualidade é virtude de poucos e quero ser um deles.

– Mas você está exagerando, Abílio. Por favor!

– Tenho que dar exemplo. Quando a população for pontual o Brasil muda, evolui.

Os diálogos agora eram todos assim: terminavam sempre num beco sem saída!

Maria Amélia pensou em falar com os filhos, mas achou melhor esperar um pouco, ver se era uma fase passageira. Queria deixar passar o aniversário de Abílio, já bem próximo, para não tirar o brilho daquela comemoração. E também não levar preocupações aos meninos, sempre muito ocupados.

Uma manhã, quando o desgraçado do relógio tocou, Maria Amélia permaneceu na cama, pensativa. A mente repousada e a clareza da manhã lhe sugeriram que seria bom levar Abílio para uma consulta médica. Isso mesmo! Lembrou do Dr. Farias, conhecido e amigo da família. Havia tempo que não retornavam para uma consulta. Quem sabe Abílio estava com algum problema de saúde? Falaria previamente com o médico por telefone, descrevendo a situação e pedindo para observar o comportamento dele, ver se detectava alguma coisa anormal. Quem sabe, encaminhar Abílio à um psicólogo ou até, queira Deus que não, um psiquiatra. A novidade da aposentadoria pode ter provocado efeitos danosos, cogitava.

Animou-se com a ideia!

Após o café da manhã saiu para fazer compras e, da rua, ligou para o Dr. Farias. Combinaram de fazer uma inversão e dizer que a inciativa foi do consultório.

– Abílio, Dr. Farias ligou. Está na hora de fazermos uma consulta. Aliás, passou da hora… – provocou Maria Amélia ao chegar em casa.

– Pode marcar. – respondeu, sem levantar os olhos da leitura.

Maria Amélia animou-se e logo ligou para agendar.

– Amanhã às 15h. – informou à Abílio.

– Ok. – concordou, ainda sem tirar os olhos do livro.

No dia seguinte Maria Amélia acordou com o malfadado despertador. Mas até que foi bom, pois precisava que o almoço fosse servido pontualmente às 13h, o que de fato ocorreu. Abílio comentou:

– Muito bem. Devia ser assim todos os dias.

Maria Amélia fingiu não ouvir.

– Vamos sair de casa às 14h em ponto. – determinou.

Moravam na Pituba e de lá até o Comércio, Abílio calculou uns 30 ou 40 minutos naquele horário. Deixou uns 20 minutos de folga para não se atrasar.

E assim foi. Chegaram ao consultório um pouco antes da hora marcada. Logo ao entrar Abílio percebeu a presença de uma pessoa sentada na sala de espera, o que já o transtornou. Cumprimentaram a secretária: Maria Amélia com um sorriso e Abílio carrancudo.

Logo ao sentar, ele olhou o relógio e definiu:

– Vamos aguardar até 15:10h. Se não entrarmos eu vou embora!

– Calma Abílio. Já estamos aqui. É melhor que a espera acabe num sorriso.

– Não estou achando graça nenhuma para sorrir.

– Tá bom. Mas vamos esperar sem este limite tão curto.

– Limite curto é 1 minuto. Eu dei 10. Meu tempo é valioso e eu não jogo ele no lixo.

–  Não é esta a questão. Para tudo é preciso ter paciência, aguardar um pouco. Se tivermos que vir de novo gastaremos ainda mais tempo. Não seja tão radical.

– Só os radicais mudam o mundo! – sentenciou, encerrando o assunto.

Mais um beco sem saída… Maria Amélia já antecipava o que iria ocorrer e por isso tentava contornar. Mas não teve sucesso. Às 15:10h em ponto, Abílio levantou-se e convocou:

– Vamos embora – disse, encaminhando-se para a porta.

Ela percebeu que não adiantaria argumentar. Avisou à secretária que estavam com pressa e ligaria depois para marcar uma nova data.

Voltaram para casa mudos. Ambos indignados: ele com o atraso, ela com a intolerância dele.

Estava ficando impossível discutir o assunto. Ao velho ditado que propõe que não se discuta futebol, política e religião, Abílio estava acrescentando a pontualidade…

Aproximava-se a esperada data do aniversário. Com muita antecedência haviam reservado uma mesa de 6 lugares num restaurante de Salvador que costumavam frequentar. Havia um bolo encomendado, uma vela dos 60 anos e uma garrafa de champagne, tudo para a hora dos parabéns ao final do almoço.

 Maria Amélia tremia quando pensava que a reserva estava marcada para 13 horas – almoço sempre às 13h… Resolveu telefonar para os filhos pedindo, pelo amor de Deus, para que não se atrasassem. Os meninos estranharam a ênfase. Ela tentou explicar que, nos últimos dias, o pai andava muito exigente com horários e até tinha se retirado de uma consulta marcada por causa de um atraso de apenas dez minutos. Ambos, sem compreender muito bem a força e as consequências daquele comportamento, concordaram em cumprir o horário e alertaram as esposas quanto à intenção de chegar precisamente no horário.

Finalmente veio o grande dia. Maria Amélia acordou com o maldito despertador e logo derreteu-se em abraços e beijos no aniversariante, buscando superar o clima pesado que vinham vivendo nos últimos 15 ou 20 dias, desde a transformação de Abílio no único homem rigorosa e absolutamente pontual de Salvador, da Bahia e do Brasil.

No café da manhã, Abílio agendou:

– Vamos sair ao meio dia para o restaurante.

– Está bem. Estarei pronta.

Maria Amélia ainda voltou a ligar para os filhos. Confirmou tudo e reforçou a importância do horário. Para os filhos, que não viviam o dia a dia daquela situação, ficava difícil assimilar a verdadeira dimensão do problema. Avisaram que iriam juntos, no carro do filho mais velho.

Faltavam ainda uns 15 minutos para as 13h e Abílio e Maria Amélia já estavam à mesa, sentadinhos, só aguardando a tão esperada chegada dos filhos.

Passavam os minutos. Chegando perto das 13h ele foi peremptório:

– Vou aguardar até 13:10h. Depois vou embora!

Maria Amélia, já preparada, comunicou sua decisão:

– Vai sozinho. Eu fico aqui até eles chegarem. São nossos filhos, Abílio. Para que isso?

– Para eles aprenderem. A impontualidade é deselegante. Quem chega atrasado não tem compromisso e desrespeita o tempo alheio. – retrucou com firmeza.

Dito e feito. Deu o horário limite e os meninos não haviam chegado. Abílio levantou, olhou para Maria Amélia e disse simplesmente:

– Tchau. Vou para casa.

Já eram quase 13:30h quando os meninos chegaram. Ao verem a mãe sozinha, imaginaram que Abílio teria ido ao banheiro ou coisa parecida. Quando souberam que ele havia voltado para casa ficaram perplexos. Difícil de entender. No dia do próprio aniversário, 60 anos, todo mundo arrumado, comemoração organizada e ele foi para casa…

Maria Amélia decidiu então que não era hora de detalhar o problema: apenas disse que o pai ficara impaciente com o atraso. Orientou os filhos que seria melhor nem tocar no assunto, fazer de conta que nada aconteceu, pois afinal era um dia de comemoração. Resolveram almoçar ali mesmo, já que estava tudo reservado e após, ir ao encontro de Abílio, levando o bolo e a champagne.

Chegaram à casa. Como Maria Amélia já previa, Abílio estava na poltrona. Os meninos o abordaram com alegria e deram abraços no pai, enquanto a mãe trazia o bolo com a vela acesa: cantaram os parabéns!

Soprada a vela, os dois filhos entregaram-lhe uma caixa de joalheria, presente de ambos. Abílio agradeceu e abriu a caixa cuidadosamente. Parecia ser algo marcante, como merecia um aniversário de 60 anos.

Removido o papel, abriu lentamente a caixa:

– Um relógio! – comemorou.

Maria Amélia desmaiou…

Antonio Carlos Sarmento   

29 comentários em “FRASE DE EFEITO”

  1. Sensacional !!!
    A Jaciara é o próprio Abílio… Kkkk..
    Cacau !!!
    Faz uma crônica sobre a seguinte frase que é muito interessante :
    ” A família é uma grande corte de justiça que funciona de dia e de noite”
    Bjs e parabéns !!!!

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  2. Realmente, uma frase muda a história das pessoas e das nações.
    Conhecemos palavras de famosos que atravessaram o tempo e ainda hoje influenciam jovens e adultos.
    Mas afirmo ,com certeza, que a frase que mais transforma é: “Eu te amo”.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Valeu Chico!
      Muito obrigado pelo comentário.
      Por incrível que pareça esta sacada veio no decurso do texto e não antecipadamente.
      Muito interessante o processo de escrever: nossa mente é de fato uma obra de Deus!
      Abração

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  3. Cacau. Você é novo ícone da literatura atual ! Suas crônicas nos animam, pois além de divertidas fazendo nossas almas se satisfazerem a cada leitura, também nos trazem alguns ensinamentos. Parabéns por esse dom bem aproveitado !
    Bete e Marcos André.

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  4. De onde vem esta vertente literária?
    E também não é muito comum naqueles que dedicaram a vida as ciências exatas.
    Parabéns pelo texto e na inspiração de transformar uma simples frase do cotidiano em texto brilhante.

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    1. Valeu Rômulo!
      Fico contente em ter você como leitor.
      O gosto por escrever me pegou há muito tempo. Agora, com mais disponibilidade, estou curtindo publicar no Blog.
      Sem muita pretensão, mais pelo prazer de screver e interagir com os leitores.
      Se quiser pode repassar: ajuda a divulgar.
      Grande abraço

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  5. Querido amigo, eu já fui um pouco assim, era doente com pontualidade mas melhorei ao longo da vida. Atualmente estou “normal”. Ótima crônica!
    Abraços.

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  6. A pontualidade extrema é uma perda de tempo! Esta é a realidade. Esta crônica demonstra de forma clara e até divertida. Gostei muito amigo! Forte abraço. Rodolpho

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