O RECURSO

Aqui no Brasil, nem toda lei em vigor tem rigor. Algumas, muito compridas, sequer são cumpridas. Nosso país tem sido terreno fértil para o cultivo intensivo de leis e seus “transgênicos”, como decretos, instruções normativas e inúmeras outras disposições. O Estado semeia e colhe fartamente todo dia nestas plantações de normas legais, muito bem irrigadas pela burocracia e adubadas pela ineficácia da máquina pública.

Mas, justiça seja feita, tem também algumas leis exemplares: é o caso da chamada Lei Seca. Desde 2008 é o pavor das noites, das farras e das degustações etílicas. Preocupa os bebedores ditos “sociais” e também os inveterados amigos do copo. Tanto que abstêmio virou sinônimo de motorista nos dicionários das noites de sexta-feira e sábado. Ouvi dizer que até houve casos de reconciliação de casais devido à Lei Seca: um dos cônjuges não bebia, tornando-se a companhia perfeita para os eventos sociais, festas e jantares…

O protagonista de nossa história preocupou-se em cumprir esta lei desde o início. Antunes era disciplinado e não podia nem pensar em perder a carteira de motorista, pois dependia do carro para trabalhar durante a semana e para o lazer aos finais de semana. A multa era o de menos, mas ficar sem dirigir parecia-lhe pior que repetir de ano no tempo do colégio. Assim, sempre programava para não pegar no volante nas ocasiões de consumo de álcool.

Mas a distração é inimiga da disciplina. Logo no primeiro ano de vigência da lei, numa noite de dezembro, próxima do natal, Antunes saiu do trabalho por volta das 19h e foi encontrar Selma, sua esposa. Participavam de um grupo beneficente, organizado para levar refeições à moradores de rua. Uma ação altruísta, envolvente e empolgante para quem, como Antunes, já havia descoberto a alegria de servir ao próximo. E foi no embalo desta alegria que, ao final da reunião, já quase 22:30h, alguém propôs um chopinho rápido antes de irem para casa. Todos toparam. Antunes tranquilo, pois estava com Selma que não bebia, tomou 3 tulipas: geladinhas, uma delícia.

Na hora de ir embora, um susto:

– Ihh. Eu estou de carro e você também! – disse à esposa.

– Ai meu Deus. E agora?

– Vamos fazer o seguinte: meu carro fica aqui, vou com você para casa. Depois voltamos de táxi e fazemos outra viagem. – propôs.

– A essa hora, Antunes? Aqui é perigoso e mais tarde fica ainda pior. Quando voltarmos já não haverá ninguém do nosso grupo…

– De fato. – assentiu, pensativo.

Pelo mesmo motivo, não achou boa ideia deixar o carro ali até a manhã seguinte. Ocorreu-lhe então uma alternativa:

– Vamos um em cada carro, você bem à frente. Se encontrar blitz da Lei Seca, você me avisa pelo celular e eu estaciono onde estiver. Aí você vai até em casa e volta de táxi para me pegar, ok?

– Ok. – concordou Selma, preocupada, mas não vendo outra forma.

E assim fizeram.

Mal percorreram dois quilômetros e Selma liga avisando da blitz: Anselmo estava em cima de um viaduto, sem lugar para estacionar. Dali já via o balão sinalizando a operação Lei Seca. Temia aproximar-se e ser descoberto.

Imediatamente parou o carro na lateral do viaduto, ligou o pisca-alerta e orientou Selma a proceder como combinado, mesmo sem saber se conseguiria permanecer ali.

Aflito com a situação e com o risco de colisão daquela parada em local tão inadequado, resolveu simular um enguiço: manteve o pisca-alerta ligado, colocou o triângulo na traseira e deixou aberta a tampa do porta-malas. Para parecer mais verossímil, abriu a tampa do motor também. Que cena!

Logo se preocupou em atrair a polícia com tantos dispositivos acionados. Fechou a tampa da mala. Mentalmente ensaiava o que dizer caso a polícia surgisse. Precisava de um álibi. Resolveu tirar o cabo de uma das velas e deixá-lo no lugar, mas desencaixado: aquilo provocaria mau funcionamento do motor.

Estava neste vai e vem de conjecturas quando viu um sujeito aproximar-se, a pé. Alarmou-se. Só me faltava ser assaltado, pensou. Era um jovem de uns 25 anos, corpulento, de aparência suspeita, pois usava um casaco de moletom com o capuz enfiado na cabeça. Trajava calça jeans, uma mochila nas costas e tênis.

– Boa noite!

– Boa noite. – respondeu Antunes, temeroso.

– Enguiçou?

– Pois é…

– Ou está fugindo da Lei Seca? – adivinhou o estranho.

– Não. É enguiço mesmo. – mentiu Antunes, de modo nada convincente.

O sujeito sorriu.

– Se precisar eu te atravesso na Lei Seca. Estou indo para o lado de lá, pegar o ônibus.

Antunes vacilou, sem saber o que responder. Ele continuou:

– Meu amigo, eu trabalho aqui perto, num restaurante. E tenho carteira de motorista. Se quiser tudo bem; se não, vou seguir meu caminho.

– Você tem carteira válida? – arriscou Antunes.

– Tenho. Quer ver?

– Quero.

Tinha mesmo.

Antunes resolveu arriscar. Menos por Selma, que já devia estar perto de casa e mais para sair daquele dilema, no viaduto, entre o risco da abordagem da polícia ou uma possível colisão. Recolocou o cabo da vela, retirou o triângulo e sentou-se no banco do passageiro. Seja o que Deus quiser…

O rapaz dirigiu com desenvoltura, como se estivesse acostumado com o carro. No curto trajeto comentou sobre o seu trabalho na cozinha do restaurante e indicou para Antunes ir lá algum dia. Comida boa, assegurou.

Passaram a blitz sem parar e logo chegaram ao ponto de ônibus. Antunes meteu a mão no bolso para gratificar o rapaz por aquele inestimável serviço. Ao notar o movimento ele reagiu:

– Por favor. Assim o senhor me ofende. Não fiz por interesse. Apenas para ajudar. Ali estava perigoso, muito carro passando em velocidade. Aparece lá no restaurante e eu estarei recompensado. Boa noite!

Saltou. Antunes passou para o volante e foi pelo caminho pensativo: quanto engano na regra de que a primeira impressão é a que fica…

Com aquele susto, Antunes tornou-se ainda mais cauteloso e atento. Definitivamente não desejava passar novamente por tais situações.

Passados quase dois anos daquele susto, Antunes foi convidado por uma empresa para um jantar num salão reservado de um restaurante muito chique. Convite raro. Eram apenas umas 40 pessoas num ambiente de muito requinte e decoração luxuosa. Resolveu que iriam no carro dele, recém adquirido: o evento pedia a melhor roupa e o melhor carro.

Chegaram pontualmente. Antunes entregou o carro ao manobrista designado especialmente para os convidados. O evento foi magnífico. De início, todos sentados, um especialista apresentou um champagne francês, de produção limitada e safra especial, indicando que seriam servidas as 8 garrafas obtidas especialmente para aquela noite. Ato contínuo, um chef detalhou o que seria servido para harmonizar com aquela bebida especial. E assim foi pela noite afora. O mesmo ritual para um vinho branco argentino, depois um tinto chileno e ao final, generosas doses de um vinho do porto envelhecido. Todos se deliciaram. Antunes nada recusou e ficou maravilhado com os sabores tão especiais. Selma adorou as comidas e, como sempre, bebeu apenas água mineral.

Terminado o festim, entregaram o cartão ao manobrista e em segundos o carro estava em frente ao restaurante. O rapaz saltou deixando a porta do motorista aberta, acenou com a cabeça para Antunes e apressou-se em abrir a outra porta para Selma. Levado por aquele ritual, sem pensar, ele assumiu o volante e partiram.

Vinham pelo caminho, comentando o primor do evento e as delícias servidas, quando Antunes avistou o balão da lei seca.

– Minha Nossa Senhora! Lei seca. – alertou à Selma.

Neste exato momento passavam por um posto de gasolina, onde uma viatura da polícia, de plantão, observava o trânsito. Antunes não viu outra saída: um pouco adiante parou o carro na faixa da direita, bem junto ao meio fio e saltou rapidamente, fazendo a volta para entrar pela porta do passageiro, enquanto Selma passava para o volante.

Ao chegar do outro lado a porta estava trancada!

– Abre Selma! – gritou batendo no vidro.

Mas ela não conhecia bem os comandos do carro novo. Ligou o limpador de para-brisas. Ai meu Deus! Farol alto. Apertava botões e movia alavancas freneticamente. Desceu o vidro de trás. A cada “abre Selma” ficava mais nervosa… Jato de água no vidro traseiro. Destravou o porta malas!

Anselmo notou a viatura da polícia se aproximando. Puxava a maçaneta sem cessar e sem sucesso. Estava preso do lado de fora!

A viatura já estacionava à frente do seu carro quando a porta abriu e Antunes finalmente pode entrar. Bateu a porta e sentou, ofegante como um cachorro fujão que volta pra casa.

Logo o policial estava na janela de Selma:

– Habilitação e documento do carro.

Selma entregou o documento do carro e abriu a bolsa para pegar a habilitação.

– A sua não. A dele.

– Minha? Ela que está dirigindo…– gaguejou, parecendo menino que não estudou sendo interpelado pela professora.

– A sua. Agora! – respondeu o policial de modo definitivo.

Antunes não tinha alternativa: entregou a carteira. O policial examinou e reteve o documento.

– Estacionem lá na área da operação Lei Seca.

Na ocasião ainda era possível recusar-se a soprar o bafômetro, o que veio a ser coibido na reforma da legislação em 2013. E foi o que Antunes decidiu fazer. Manteriam, até a morte, a versão de que Selma é quem dirigia!

Foram recebidos por uma agente da Lei Seca, que já havia sido alertada pelo policial, quanto ao ocorrido. Com o bafômetro na mão orientou:

– O senhor assopre aqui, por favor.

– Não senhora. Eu não estava dirigindo.

– O policial diz que era o senhor e que trocou com sua esposa a alguns metros daqui. E ele tem fé pública.

– A senhora acha que eu bebi?

– Estou sentindo cheiro de álcool, sim.

– Pois é. Eu bebi, minha mulher não. Ela tem habilitação válida. A senhora acha que eu sou burro? Por que eu iria dirigir? – perguntou a ela.

Era um argumento forte. Ele perguntava isso a si mesmo. Era quase inacreditável que alguém fizesse uma tolice destas…

A agente balançou. Fez o teste em Selma: zero álcool, habilitação em dia. Não sabia o que fazer.

– Mas o policial tem fé pública. – repetiu, para ganhar tempo e pensar.

– Quem tem fé pública nunca se engana? – rebateu Antunes, alcoolizado, mas lúcido.

A agente então resolveu ir até o posto de gasolina, para uma nova conversa com o policial visando certificar-se dos detalhes. Pediu que aguardassem e foi a pé.

Retornou uns 10 minutos depois e foi conclusiva:

– O policial não tem dúvida do que aconteceu. Sua carteira vai ficar retida. O senhor pode pegá-la de volta na sede do Detran daqui a uma semana. Eis a cópia da multa e o canhoto para retirar a carteira. Estão liberados. – disse ela, devolvendo o documento do carro e cópia da multa.

Voltaram pra casa. Antunes inconformado. Por aquela asneira ficaria uma semana sem poder dirigir… Lembrou de um amigo que dizia: todo mundo tem 5 minutos de bobice todo dia. Tudo bem, mas precisava ter sido na hora de dirigir?

Uma semana depois foi ao Detran. Vagueou pelo labirinto de filas e balcões lotados de pessoas irritadas e ansiosas, até que encontrou o local certo, no segundo andar. Subiu, retirou uma senha e sentou no ambiente de espera. Observava as outras pessoas, imaginando o caso de cada um. Independente de quanto ou o que beberam, todos viviam a mesma ressaca…

Foi chamado:

– Vim buscar minha carteira. – disse ele entregando o canhoto.

A atendente deu as costas e debruçou-se sobre um móvel tenebroso, cheio de escaninhos, que abrigava a prova dos excessos cometidos pelos transgressores. Os que molharam a lei seca.

Ela dedilhava nas filas de documentos, indo de um escaninho a outro, como alguém procurando um rei de ouros numa pilha de baralhos misturados. De vez em quando olhava novamente o canhoto, parecendo ter esquecido o que procurava. Cada dedilhada em vão era uma pitada de fermento na ansiedade de Antunes.

Pensou em perguntar à atendente por que não estava em ordem alfabética. Ou pelo número do canhoto. Quanto tempo desperdiçado por aquela arrumação caótica. Só encontrava uma explicação: é para aumentar o castigo da infração!

Até que finalmente seu rei de ouros foi localizado. Recebeu a carteira como um faminto recebe um prato de comida. Alisou-a dos dois lados, carinhosamente e partiu para a saída.

Antes de iniciar a descida da escada, olhou para a esquerda e uma placa chamou sua atenção: “Recursos de Multas da Lei Seca”. Parou. Foi até o balcão verificar:

– O senhor tem que preencher este formulário e dá entrada aqui mesmo.

– Tem que pagar alguma coisa? – indagou Antunes.

– Não. É só protocolar e seu recurso vai ser analisado. Se for aceito a multa é cancelada.

– Me dê um formulário, por favor.

Sentou-se para preencher. Mas o que dizer? Parecia aluno que não estudou, fazendo prova discursiva.

Por fim, inspirou-se e escreveu:

“Na data em questão, eu vinha de carro pela avenida, com a minha mulher ao volante, mas envolvidos em uma discussão de casal. Até que irritado, decidi não continuar a viagem e ficar ali mesmo. Ela parou o carro junto ao meio fio e saltei. Porém, já fora do carro, hesitei. Acabei por entabular um diálogo com ela pela janela do carro. Ao final, cedendo aos seus apelos, resolvi retornar ao veículo. O policial que observava tudo de longe, interpretou equivocadamente a ocorrência. Ora, se somente eu havia bebido, e ela estava totalmente apta a conduzir o veículo, não há lógica na interpretação do policial. Solicito o cancelamento da multa. Desde já agradeço.”

Um mês depois, Antunes retornou ao Detran para saber o resultado. Um enorme carimbo cruzava o formulário: INDEFERIDO.

Pagou a multa.

Nem sempre a criatividade é premiada…

 

Antonio Carlos Sarmento

14 comentários em “O RECURSO”

  1. Excelente cronica e analise. A lei seca deveria incluir tambem o “nariz seco”. Tenho um filho que quase morreu numa batida de carro pois o motorista do outro carro, de 61 anos ha epoca alem de embriagado,,havia cheirado cocaina e tinha varios pacotinhos com a droga no carro. Nada deu problema algum pra ele pois tudo foi “resolvido” na delegacia…

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  2. Muito boa crônica , detalhes interessantes até o desfecho que foi mais que justo.
    Uma oportunidade de parabenizar a ” Lei Seca” que pode , para alguns , parecer muito rígida ou chata , mas sem dúvida, tem trazido benefícios na questão da bebida , em todos os sentidos para todos nós

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  3. Crônica espetacular como sempre. A segunda frase “Algumas, muito compridas, sequer são cumpridas” é, simplesmente, genial . . .
    Parabéns!!!

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  4. Interessante que a preocupação de Antunes se devia ao receio de ser pego numa blitz e não aos riscos de dirigir alcoolizado.
    Foi preciso criar a lei seca para exigir do motorista consciência, empatia e respeito à vida. A lei obrigando homem a ser melhor. Estranho, não é?
    Os policiais cumpriram a sua parte, mas Antunes não foi devidamente punido : pagou por desobedecer ao normativo , mas qual a pena para tantas mentiras e dissimulaçoes?

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    1. Gena,
      Obrigado pelo comentário. Realmente a existência de leis é essencial no processo civilizatório. O homem para viver em sociedade, não pode ser deixado totalmente ao seu livre arbítrio.
      Um beijo, minha leitora assídua!

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  5. Brasileiro gosta de levar vantagem em tudo. Antunes é um típico brasileiro. Muito criativo, mas como você bem escreveu: “A criatividade não ajudou”. A justiça tarda mas não falha. Será?
    Mais uma excelente crônica. Parabéns.

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  6. Mais um texto de pura inspiração e que também nos ajuda a entender os percalços que mesmo os mais cumpridores da lei, tem que passar. Ninguém é perfeito a vida inteira. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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