O PINO E O CINTO

É difícil encontrar um carioca que não tenha um assalto no currículo. Fique logo claro que me refiro a assalto sofrido e não cometido…

Eu que passei quase a vida toda morando no Rio de Janeiro, tive até direito a repetição. Foram dois casos ocorridos em tempos mais românticos, em que até os assaltos tinham mais glamour e dificilmente viravam tragédias. Talvez seja imprudente tocar neste assunto, pois posso acabar tendo material para uma trilogia. Mas vamos em frente!

Começo a narrativa em certo dia de 1985, quando ao final do trabalho, fui a Copacabana buscar minha mulher, que ali tinha ido para um tratamento estético especializado: mulheres e tratamentos estéticos formam uma dupla inseparável!

Era final da tarde e naquela época do ano, ali pelo mês de maio, a escuridão já tomava parcialmente as ruas. Parei no sinal da Rua Belfort Roxo, esquina com a movimentada e engarrafada Rua Barata Ribeiro, ou seja, local onde o engenheiro que deu nome à primeira, encontra-se com o médico homenageado na segunda. Eu era o primeiro do sinal neste cruzamento de nível superior.

Meu carro era um sonho realizado: tinha conseguido comprar um Chevrolet Monza preto, zero quilômetro, há cerca de um mês. Para mim ele ainda era um recém-nascido, inspirando cuidados e carinhos excessivos. Naquela época, talvez os mais jovens nem acreditem, nossos carros não possuíam ar condicionado e, portanto, eu estava com a enorme janela do carro aberta.

De repente, senti uma pontada no lado esquerdo da nuca e uma voz ordenando:

– Salta e deixa a chave! Não desliga.

Vi pelo espelho retrovisor que era um rapaz de uns 20 anos, magrinho, muito nervoso que repetia seguidamente o comando de saltar do carro. A arma na nuca eu não via, mas sentia. Mais nervoso que ele, disse à minha mulher para sair pelo outro lado, pois estávamos sendo assaltados.

Ato contínuo tentei abrir a porta, mas com o carro ligado, a maçaneta interna ficava neutralizada. Parti para puxar o pino da porta, que ficava numa posição muito inconveniente, um pouco atrás do meu ombro. O nervosismo fazia suar minha mão e com isso deslizava no pino liso e curto, que não saía do lugar. As frustradas tentativas faziam crescer o nervosismo e a impaciência do rapaz que, a esta altura, gritava para que eu saísse do carro e cutucava minha nuca com a arma.

Naquela hora eu só queria afastar-me daquele cano gelado na minha cabeça. Meu plano de fuga foi sair pela porta direita, mas antes achei por bem avisar ao meu algoz. Uma questão de educação:

– Vou sair pelo outro lado.

Considerei a ausência de resposta como consentimento e movimentei-me o mais rápido possível, indo encontrar minha mulher que já estava na calçada, tremulando como uma bandeira ao vento.

Livre da nossa presença no interior do carro, o assaltante trocou a arma de mão e tentou ainda algumas vezes levantar o pino, sem sucesso. De longe, me deu vontade de gritar:

– Viu? Não era má vontade minha!

Desesperado, ele abaixou o rosto e puxou o pino com os dentes, conseguindo finalmente abrir a porta. Entrou, engatou a marcha e, mesmo com o sinal do engenheiro ainda fechado, ingressou na via do médico, cantando os pneus do recém-nascido.

Lá se foi meu bebê. Para sempre. Nunca mais apareceu!

Na delegacia ainda tentei com o policial de plantão:

– Pede a alguém para procurar. Meu carro deve estar por perto, pois está tudo engarrafado.

– Meu amigo, calma. Sabe quantos carros são roubados por aqui todos os dias? Mais de cinquenta…

Fomos para casa, em Botafogo, viver uma noite de insônia e mal estar. Tentei consolar minha mulher, dizendo que pelo menos ela estava com a estética em dia… E que felizmente nada havia acontecido conosco. Pior tinha sido com Tancredo Neves, que se elegeu presidente da República e morreu dias atrás, antes de tomar posse.

Felizmente o seguro estava em dia e recebi a indenização. Para desprestigiar o azar comprei outro carro idêntico, mesmo modelo, mesma cor, na mesma concessionária: sonho é sonho! Só que dali para frente passei a suar em bicas ao volante, pois minha mulher não permitia mais vidro aberto em nenhuma circunstância. O sonho virou sauna!

Este caso foi o segundo. Inverti a ordem, pois o primeiro teve mais aventura. Foi uns dez anos antes, ainda na minha fase de solteiro. Na ocasião eu morava no bairro de Laranjeiras, quase no limite com o Cosme Velho, onde existe o acesso ao Túnel Rebouças. Meu carro na ocasião era um Fusca, também zero quilômetro, branco, presente do meu pai prometido para cada filho que passasse no vestibular. Como pode notar o leitor, é indiscutível o talento dos bandidos para identificar carros novos.

Ainda solteiro, era madrugada de sábado para domingo e eu voltava de uma festa infrutífera, restando-me apenas a companhia de um amigo. Perto de casa, passando pela Igreja de São Judas Tadeu havia uma blitz da polícia. Naquele tempo, lá vão os jovens duvidar novamente, não existia lei seca, apenas verificação de documentos.

Passamos a blitz sem problemas e fui levar o amigo em casa, bem próximo de onde eu morava. Na frente da casa dele, rua de pouco movimento, estacionei e acabamos iniciando uma longa conversa sobre os infortúnios da festa e a presença excessiva de convidados do sexo masculino…

Percebendo que a coisa iria longe, desliguei o carro e desafivelei o cinto que me apertava a cintura, na tentativa inútil de parecer elegante para as meninas. Prosseguíamos naquela conversa aguardando o sono chegar, quando, passados uns 10 minutos, fomos interrompidos de surpresa por dois jovens, um em cada janela, sendo que fui premiado com o que portava um revólver. Muita sorte…

Abrimos as portas para sair do Fusca e naquele momento cometi um erro que poderia ter sido fatal: instintivamente levei as mãos à cintura para afivelar o cinto logo que fiquei de pé. O rapaz que estava armado alarmou-se:

– Está pegando arma aí! – repetia aos gritos para o outro, enquanto balançava freneticamente o revólver apontado para mim.

– Me dá aqui! – respondeu o outro, parecendo mais experiente, correndo para pegar a arma.

Neste clima de faroeste, assumi a posição de “mãos ao alto” e pedi calma, informando que só estava fechando o cinto. Na realidade, com o cinto desafivelado, na posição em que eu estava, as calças estavam caindo. Ao me verem na humilhante situação de mãos para cima e calças para baixo, ambos se acalmaram um pouco, entraram no carro e tomaram o rumo do Túnel, de onde havíamos acabado de chegar.

– A polícia! – gritei para o meu amigo.

Apertei o cinto e disparamos a correr em direção à blitz, na esperança de que eles seriam parados e presos. Era a chance de recuperar o carro!

Agora cairei em completo descrédito com os jovens: naquela época no Rio de Janeiro quase ninguém fazia seguro de automóveis. Era a cultura da época, pois os assaltos não eram frequentes. Ou seja, no meu caso um tremendo prejuízo se o carro fosse mesmo roubado!

Conhecendo meu pai, já me imaginava cinco anos indo de ônibus para a faculdade:

– Minha promessa eu cumpri. Agora o problema é seu. – diria ele.

Estes pensamentos turbinavam a velocidade da corrida. Foram uns 700 metros de subida, em velocidade máxima. Chegamos esbaforidos, quase sem conseguir falar. Os guardas informaram que o carro havia furado a blitz e eles estavam se preparando para sair em perseguição:

– Venham conosco. – propôs um dos guardas.

Adorei o convite… Nada como participar de uma troca de tiros de madrugada! Mas eu não podia perder o carro.

Pulamos no banco de trás da viatura e partimos no encalço dos meliantes. Eu estava catatônico. Minha boca secou e a língua agarrava como se eu tivesse comido uns 10 cajus verdes. Meu coração batucava e a testa porejava. Para completar o quadro, entramos no túnel e o barulho da sirene tornou-se ensurdecedor. A travessia do túnel me pareceu mais longa e reta que a rodovia Belo Horizonte – Brasília!

Na saída do túnel vi dois faróis de um carro parado na contra mão. Estremeci. Quando nos aproximamos constatei que era o meu Fusca. O carro havia capotado e acabou parando no sentido contrário. Ficou com os pneus no chão e as portas abriram, o que permitiu que os larápios rapidamente escapassem. O teto do carro estava mais amarrotado que camisa de linho usada o dia inteiro.

Daí para frente, foi aguardar o reboque e levar o carro para casa. Ficou na garagem uns 20 dias enquanto eu buscava um orçamento que se encaixasse no humor do meu pai. Tarefa difícil e sofisticada, quase um parto de trigêmeos.

O reparo levou uns 30 dias. O resultado final foi bom, mas o Fusca ganhou uma característica inusitada: quando o tempo esfriava ocorriam uns estalos no teto, parecendo corda de violão arrebentando. Inventei que ele ficava resfriado e espirrava um pouco: assim convivemos pacificamente por mais uns dois anos.

Lembro destes episódios, pensando que quase levei um tiro por causa de um pino e outro tiro por causa de um cinto…

De fato, até na hora do azar é preciso ter sorte.

 

Antonio Carlos Sarmento

24 comentários em “O PINO E O CINTO”

  1. Prezado Amigo, muito bom dia . . . Comentar o que? Cada parágrafo mais hilário (hoje) que o anterior, em que pese o desespero pelo qual passastes duas vezes . . . Recomendações à família.

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    1. Gostei.
      Só não entendi a polícia não ter te prendido por atentado ao pudor…
      Ser assaltado no RJ já é tradição mas correr pela rua com as calças na mão é raridade…
      Mesmo sem calça a crônica é muito boa. Parabéns.

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  2. Gostei da crônica, mas o que mais me chamou atenção foi: ‘ os assaltos eram mais românticos” , realmente tudo era muito mais poético.
    Claro, que no momento do ocorrido existiu a normal apreensão, mas até a forma de contar a história tempos depois é mais romântica.
    Os jovens, como você diversas vezes citou, não entenderam isso.
    A poesia acabou !

    Parabéns ! E obrigado por mais um Domingo de lembranças “românticas”do meu Rio de Janeiro, mesmo em situação nada confortável.

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  3. Tenho conversado com amigos cariocas, dado que não moro no Brasil ha alguns anos, como nossa outrora “cidade maravilhosa” tambor de ressonância cultural do Brasil, foi destruida pelos governantes que a maioria dos próprios cariocas, elegeu! Triste sina… Mas é sempre bom lembrar, como em suas crônicas, como ja foi romantica e diferente, nossa cidade. Bom domingo, grande abraço e obrigado mais uma vez.

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    1. Caro Luigi,
      Agora fiquei curioso: está morando aonde?
      De fato, quem acompanhou tudo o que aconteceu no Rio de Janeiro ao longo dos últimos 50 anos, fica triste…
      Muito obrigado mais uma vez por estar sempre lendo e comentando.
      Grande abraço!

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      1. Sarmento, resido ha 3 anos em Miami, EUA. Quando por aqui vier, me avise e marcamos algo pra fazermos. Essa cidade é diferente pra quem aqui vive. Existem excelentes coisas a se conhecer.

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      2. Amigo Luigi,
        Indo por aí terei um grande prazer em convidá-lo para jantarmos juntos e bater um papo.
        No momento estou com viagem agendada para Portugal, pois minha filha, também tendo sangue de imigrante, está se mudando para lá com o marido e meu netinho Guilherme.
        Ficarei no Porto durante uma temporada, mas havendo oportunidade de ir à Miami faço questão de encontrá-lo.
        Desejo que esteja muito feliz por aí!
        Grande abraço!

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    1. Nossa! Sequestro deve ser horrível. Ficamos na esperança de que nosso país evolua nesta área de segurança pública. Existem muitas experiências bem sucedidas no mundo: estive recentemente em Nova York, que era pior do que aqui e hoje é bem tranquilo, após a aplicação de políticas adequadas.
      Abraços

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      1. Eu desejo que o Brasil realmente evolua, nas questões básicas. Estou morando fora a 3 anos e nunca sofri nenhum tipo de violência. Saio na rua à noite, sozinha, com bolsa, celular, andando ou de metrô e nunca aconteceu nada. No Brasil isso seria quase impossível. Mas tenho esperança de dias melhores.

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  4. Incrivel esse cronista : fala em romantismo, glamour, sonho, festa, para relatar assaltos!!!
    E o único trauma que fica é o sonho virar sauna. Sendo um carrão, é fácil suportar.
    Mas não me surpreende- conheço esse olhar aguçado para o lado bom de todas as coisas. E isso nos diverte, nos ensina , alegra nosso domingo e, por certo, transforma, de pouco a pouco, o coração endurecido e carrancudo de um leitor mais impaciente.
    E ” toca a vida”, feliz e esperançoso, meu primo . Afinal , temos muito a sonhar e sonho é sonho!!
    Beijo

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  5. Meu Prezado Amigo, Escritor, Poeta, Intérprete: Antônio Carlos
    Descrição perfeita de assaltos que a vítima teve apenas danos materiais, apesar de muito susto em sequência. A vida foi preservada o que é muito importante para Deus.
    Fraterno abraço meu bom amigo e irmão.
    Oslúzio Félix Fonseca

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  6. Romântico é a vida que nós sobreviventes de assalto vivemos e podemos escrever. Imagino a vida desses assaltantes, sem poesias e sem histórias para escreverem ou você acha que esses indivíduos estão bem de vida hoje tendo praticado o mal no passado?
    Seus acontecidos sempre vão de encontro ao que passei.
    Gostei muito.
    Abraços

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