SEMELHANÇA

Escrever é enfrentar dilemas. A cada momento, quem escreve se depara com possibilidades de temas, palavras, frases e opções infinitas. É um constante tomar de decisões. E a liberdade de, antes de publicar, poder voltar atrás, apagar, mudar e até jogar tudo fora, colabora para tornar o caminho da escrita uma trilha íngreme e pedregosa, a ser vencida com inspiração e não com preparo físico. Claro que, quando o resultado final se apresenta satisfatório, a recompensa faz tudo valer a pena. Aliás, a expressão valer a pena tem duplo sentido e neste caso ambos são apropriados.

Uma das crônicas que mais gosto, foi escrita pelo genial Fernando Sabino, que vagava sem inspiração pela rua, adiando propositalmente o momento de escrever. Resolve então entrar num botequim para tomar um café, e ali, pela observação do ambiente, produz um texto curto, de uma página e meia, mas para mim uma verdadeira pérola, que muitas vezes releio e torno a desfrutar.

Há tempos uma frase inicial de um famoso livro me persegue, querendo entrar numa crônica. Em busca de inspiração, pensei nela para esta semana. Cheguei a pesquisar traduções e encontrei a que mais me agradou, mas ainda estava claudicante na decisão. Talvez pelo temor de que a trilha fosse íngreme demais e eu acabasse ficando pelo meio do caminho.

Até que, há alguns minutos atrás, lendo um livro recém-adquirido, chego à página 71, na qual o personagem resgata dez de seus livros que estavam num porão. Escolhe o maior deles, instala-se confortavelmente, abre e inicia a leitura. O autor então transcreve a primeira frase do livro: exatamente a que estava em minha mente. Pronto! Na hora ganhei a coragem que precisava!

Então vamos à tal frase: Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Esta é a primeira linha do romance Anna Karenina, do russo Tolstoi. Desde que li esta frase e achei preciosa, fiquei imaginando se valeria também para os indivíduos: todas as pessoas felizes se parecem e as infelizes são infelizes à sua maneira. Ora, se há tantas maneiras de ser infeliz, melhor nem ingressar neste labirinto, mas debruçar-se sobre as felizes.

Então vamos em frente, apenas lembrando casos, sem querer teorizar nem desvendar os mistérios que envolvem a verdadeira felicidade.

Logo me vem à mente uma fase da vida em que eu trabalhava num projeto com um grupo de engenheiros. A empresa colocava à nossa disposição um office boy, chamado Gerson, para ir a bancos, fazer pequenas compras, buscar e levar encomendas e realizar qualquer outra atividade que fosse nos afastar do trabalho, mesmo que por pouco tempo.

Com isto, naqueles tempos pré internet, Gerson estava sempre muito atarefado, indo à rua a todo momento, enfrentando sol e chuva, para dar conta de suas responsabilidades. Claro que o salário dele era o menor do ambiente, com certeza era quem demorava mais no trajeto de casa ao trabalho e certamente, entre todos da sala, o que possuía menos conforto em sua residência.

Mas a lei deste Gerson não era de levar vantagem em tudo e sim de estar sempre feliz, sorrindo para todos. Esbanjava alegria por onde passava. Falava com todo mundo e andava pelos corredores assobiando. O sorriso dele entrava no prédio às 8 da manhã e permanecia intacto até o fim do expediente. Nunca reclamava de nada, mesmo quando por nossa desorganização, tinha que ir novamente a algum local de onde havia acabado de chegar. Parecia dar razão à tese de que a alegria não está nas coisas, mas na própria pessoa.

Outra passagem me ocorre: certa vez, em viagem ao nordeste do Brasil, fomos levados num grupo de turistas para desfrutar de um refrescante banho numa lagoa paradisíaca. Passeio maravilhoso. Chegando lá, após alguns mergulhos e flutuando naquelas águas deliciosas, acabei engrenando uma conversa com um senhor da Suíça, que estava maravilhado com a viagem que fazia pelo Brasil. Lá pelas tantas, perguntei-lhe o que mais estava gostando por aqui e a resposta me surpreendeu:

– O mais impressionante para mim é a alegria dos brasileiros. Na Suíça nós temos quase tudo, mas somos carrancudos, aqui vocês têm pouco, mas são felizes. Parece que nós ficamos focados no pouco que nos falta e não aproveitamos o muito que temos e vocês fazem o contrário: brincam, cantam, dançam e sorriem o tempo todo! Sabem viver!

Para completar, em data mais recente encontrei um amigo que vem passando por dificuldades financeiras. Seu ramo de atividade experimentou um declínio forte e os negócios perderam ritmo, passando até por períodos de completa paralisação. Como desenvolvia seu trabalho na condição de autônomo, ingressou numa fase de receitas muito baixas, com todas as graves consequências para sua vida.

Encontrei-o por acaso, numa esquina e fomos juntos tomar um café. No percurso, um trecho de uns 300 metros, ele parecia conhecer muita gente e foi falando com um e outro. O contato foi tão intenso que mal podíamos conversar, pois havia interrupções o tempo todo.

Logo de início passamos por um guardador de automóveis:

– Fala bonitão! – exclamou para o guardador.

– Opa! Tudo tranquilo?

– Tudo! Manda um beijo para sua irmã e fala para ela me ligar. Estou esperando!

– Vai cansar de esperar. Eu nem tenho irmã. – respondeu o guardador, também em tom de brincadeira.

– Isso mesmo. Esqueci. É a tua prima. A bonitona. Avisa a ela, tá?

O guardador balançou a cabeça com a boca espichada num sorriso e deu um “até logo” abanando a mão.

Mal demos alguns passos e passamos por um ambulante:

– Está vendendo muito hoje, hein? Ficando rico não esquece o teu amigo aqui.

– Ficando rico…

– Pois é. Desde que virou empresário itinerante o dinheiro não para de entrar!

– Empresário itinerante…

– Deposita para mim só o que estiver sobrando, ok?

O sujeito das reticências não se conteve e desarmou-se num sorriso, talvez o único do dia.

Seguimos mais alguns metros, passando por um bar, daqueles de mesinhas na calçada. Numa mesa da beira, um rapaz gritou:

– Ô Comandante!

– Ô Diretor!

– Quer tomar uma?

– Agora não. Nesta hora minha religião não permite.

– Não vem com essa. Você é pagão!

– Tem razão. Já paguei muita coisa pra você!

E caíram na risada.

Assim foi na ida e na volta. Aquele trajeto foi como a vida, onde importa mais o caminho que o destino. Só brincadeiras e sorrisos. Nenhuma amargura pelas dificuldades que estava passando. Fiquei pensando de onde vinha tanto entusiasmo e simpatia. Nada o impedia de interagir com o outro, agradar e fazer rir tantas pessoas. E como gostamos de quem nos faz rir. E como é bom ser gostado.

Só me resta dar razão ao nosso poeta Drummond: o cofre do banco contém apenas dinheiro; frustra-se quem pensar que lá encontrará riqueza.

Quanto aos infelizes eu não sei, mas estou muito desconfiado de que, de fato, todas as pessoas felizes se parecem!

Antonio Carlos Sarmento

31 comentários em “SEMELHANÇA”

  1. Meu Caro Amigo, muito bom dia . . . Mais uma bela crônica, com sempre, aliás. Você está com a razão: “as pessoas felizes se parecem” e sabe por que? Como nos ensina González Pecotche: “A felicidade ou se compartilha ou se perde”. Recomendações à Sonia, a aniversariante de ontem, Tatiana, ao Gui e ao pai do Gui.

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  2. Me veio a mente uma coisa ouvida ontem na missa, onde nos cristãos devemos sempre estar alegres pois o Senhor é alegre, mesmo que não tenhamos nada a comemorar em dias de trevas. Como muitas músicas, poemas e histórias nós dizem sorrir é o melhor remédio.

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  3. Não quero ser repetitivo mas leio mais uma bela crônica escrita por você, Sarmento.
    Lendo-a chego a conclusão de que perdi, quando jovem, muitos momentos de felicidade, por me deixar contaminar por assuntos enfadonhos… Bom domingo e obrigado pela reflexão.

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  4. Nós escolhemos com quem queremos andar.
    Pessoas felizes são gratas e otimistas .
    Pessoas infelizes são ingratas e vivem reclamando.
    Se escutamos o tempo todo lamúrias e reclamações nos contagiamos com isso, e o mesmo acontece quando acontece ao contrário.
    A escolha é nossa !!!
    Muito boa crônica, cada vez melhor.
    Cacau, muito obrigado por cada Domingo me fazer mais agradecido e, portanto, feliz !
    Nota 1.000

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  5. MEU BOM AMIGO E IRMÃO ANTÔNIO CARLOS.
    Quando amamos a vida como presente recebido do nosso maravilhoso Deus, a felicidade, o perdão, o sorriso, a alegria, o agradecimento, são as boas frequências que palpitam e estimulam o coração a buscar superação do fim da existência e caminhar ao encontro da eternidade.
    Veja, Cisto chegou a afirmar: “Quem crer em mim, ainda que morra, viverá”! (João11:25). Concluindo: Se colocarmos o Amor do Cristo como exemplo em nossas atitudes teremos como patrimônio um banco cheio do crédito de boas ações.
    Um fraterno abraço para o meu bom amigo e a todos da família.
    Oslúzio Félix Fonseca

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  6. Pessoas gratas são felizes.
    Pessoas ingratas são infelizes.
    A escolha das companhias são nossas, caso andemos com pessoas que vivem se lamuriando , reclamando do acordar até dormir, o contágio é inevitável.
    Do mesmo modo quando ao contrário, pessoas felizes trazem otimismo e felicidade.
    Não quer dizer que andem sempre sorrindo, mas tem a felicidade em seu coração.
    Cacau, muito obrigado pelas crônicas, cada dia melhores e trazem a alegria do Domingo.

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  7. A felicidade está ligada essencialmente à fé, à certeza de que temos um Pai “que trabalha por aqueles que Nele esperam “, como diz a Sua palavra.
    Enfrentamos as circunstâncias sob o Seu amor .
    Sempre ouvi a expressão ” eu era feliz e nao sabia”. Coitados! Nao percebem nem contam as infinitas bênçãos.
    Eu sou feliz e sei disso. E sou grata.
    Também penso que não devemos nos afastar das pessoas amargas , tristes ou pessimistas. Ja são mais solitárias e talvez possamos contagia- las com nossa esperança.
    Esse querido cronista, zeloso nas suas observações, já nos alertou que , diante de uma situação difícil, cabe a nós a escolha de torná- la um drama ou uma comédia (Pizza de Domingo). Esse é um exercicio de felicidade .
    Beijo Cacau!

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    1. Minha querida prima e aniversariante Gena,
      Seus comentários sempre muito consistentes ilustram o site Crônicas e Agudas.
      E suas referências a crônicas passadas evidenciam que você é leitora atenta e aproveita de fato as reflexões.
      Muito obrigado por sempre ler e comentar!
      Um beijo carinhoso

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  8. A crônica é muito boa mas o que fiquei mais encantado mesmo foi com o seu amigo em dificuldade financeira. Este deve ter encontrado um caminho para solucionar seu problema. Felizes são aqueles que possuem este dom, de olhar a vida com amor e carinho pelos que cruzam o seu caminho e lhe ajudam a viver melhor. Parabéns “again” amigo 👏

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  9. Olá Antonio Carlos!
    Maravilhosa crônica, como sempre!
    As pessoas felizes são de bem com a vida. Tive a sorte de encontrar muita gente assim, graças a Deus.
    Obrigado por mais um texto para as minhas reflexões.
    Um grande abraço.

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  10. Mais um belo presente que nos deixa com seus textos criativos, desde a divagação sobre “valer a pena” que nos deixa diversas interpretações, todas positivas, até a comparação de famílias x pessoas”.
    A vida é realmente um presente para todos.
    Já a felicidade realmente está na simplicidade, no despojamento perante a vida.
    Só temos sorrisos plenos e gargalhadas de pessoas simples, despojadas, com almas puras e que de alguma forma entendem melhor a vida!

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